Notas iniciais
Obrigada por chegar até aqui! Esta nota é para quem não é acostumado a um ritmo literário denso: aqui se escreve fundo, sem superficialidade. Seria um enorme prazer ter você nessa jornada. Tenha uma boa imersão!


Magrit ameaçou derrubar a porta do quarto das crianças pelo menos três vezes. Ela não achava razoável que Golder pudesse estar dormindo por tanto tempo. Seu marido tentou acalmá-la, dizendo que um homem grande exigia descansos ainda maiores. Os filhos, Brando e Meguin, amaram a ideia — dormir no chão da sala era uma aventura e tanto. Mas ela não tinha a paciência de Rogurd e nem suportava a bagunça que só crescia na sala. Ao cair do quinto dia, quando o lúgubre do anoitecer tomou a cor das janelas estreitas, a camponesa decidiu que o descanso do hóspede merecia um fim.

Munida de um machado velho, marchou para a porta ornada por estrelinhas de tecido, respirando fundo antes de batê-la. Toc, toc, toc!, nenhuma resposta veio do quarto. As crianças correram para trás de sua saia, com os olhos a brilharem de expectativa.

TOC, TOC, TOC!, dessa vez as batidas estavam mais para murros, ardendo os nós de seus dedos. Novamente, nenhum retorno. Forçou a maçaneta. Trancada. Magrit coçou as pálpebras, temendo que o pior estaria por vir.

“Que pelo menos você esteja vestido”, sibilou, erguendo o machado para a lateral do corpo, ganhando impulso para desferir o primeiro golpe. Em um movimento parabólico, o aço mordeu o centro da porta, e as crianças soltaram guinchos de exclamação. Magrit desenterrou o machado com um bramido e, aproveitando-se do calor no sangue, planejou o segundo golpe.

“Magrit! O que diabos está fazendo?”, escutou a voz rouca de Rogurd atrás de si.

“O que você já deveria ter feito”, ela ofegou, e o machado foi arremessado num estalo seco. A lâmina alcançou maior profundidade sobre a rachadura existente, e foi necessário apoiar o pé sobre a porta para removê-lo.

“Ele está bem, Magrit, acredite em…”, antes que Rogurd pudesse terminar, ela já preparava o terceiro ato.

Magrit sentiu o peso do cabo áspero à medida que o novo golpe era desenhado. Para a sua surpresa, o vão da porta se abriu num rangido sôfrego. Seu coração congelou quando uma silhueta robusta, alta o suficiente para bater a testa na soleira, surgiu do breu que impregnava o quarto.

Tentou desviar o curso do machado, mas sua cabeça pesada já vencia a força das mãos. No momento, não entendera muito bem o que aconteceu — viu a sombra de Golder inclinar para trás, e de repente, seus braços ficaram leves. O machado estava solto no ar, e antes que pudesse esboçar qualquer reação, a ferramenta pousara gentilmente sobre o ombro de Golder.

Após a adrenalina chover no sangue, sentiu todo o corpo adormecer de alívio. O hóspede continuava intacto, a princípio. Um rasgo em diagonal havia aberto sua bela camisa de linho, mas ele não mostrava qualquer traço de aflição no rosto.

“Desculpe-me, Magrit, não era minha intenção preocupá-la. Às vezes, acabo por dormir um pouco além depois de uma viagem extensa.”

Ela mordeu o lábio. Pensou se não agira de forma precipitada. Então se lembrou de como Golder havia sido encontrado na entrada da propriedade — o flanco direito gravemente ferido, quase desmaiado sobre uma poça do próprio sangue.

“Eu tentei avisá-la”, arquejou Rogurd, aproximando-se com a face tão pálida quanto a cera das velas. “Mas há duas coisas impossíveis de evitar: a morte e a teimosia de uma mulher farlessa.”

“Como está o ferimento?”, ela cortou, desviando o assunto. Amava o marido tanto quanto detestava ser chamada de cabeça dura.

Golder levantou a borda da camisa, exibindo parte do abdômen tomado de hematomas roxos e verdes. As crianças saíram detrás dela, fascinadas pela feiura da lesão.

“Dói, tio Golder?”, perguntou Brando, o mais velho, erguendo a curiosa mão para tocá-lo.

“Sossega”, ela o reprimiu, afastando-lhe a mão com um leve tapa. Inclinou-se para avaliar a ferida mais de perto. “Parece que o corte já se fechou”, disse, atônita. Dias atrás, havia ali uma perfuração profunda na carne, da qual jorrava veios de sangue quente. Embora herdasse o vasto conhecimento de curas da mãe, sabia que nenhuma erva era capaz de fechar um corte daqueles em menos de uma semana.

“Sorte a minha em ter alguém como você”, Golder falou, analisando a casca que unia as bordas secas do corte. “Em outra ocasião, provavelmente estaria morto.”

“Um homem forte desses? Jamais”, desmentiu Rogurd, dando-lhe palmadas no braço torneado. “Que tal um jantar revigorante? O velho Barvosilas nos trouxe uma peça de boi enquanto estava apagado. Vou acender a fogueira!”

O fogo tremeluzia as brasas de cobre que tingiam a apertada sala da cabana. Sentia-se o aroma do guisado que borbulhava na caldeira brigando contra o cheiro pungente das ataduras de Magrit. Enquanto posicionava os pedaços de pano uns sobre os outros, Golder se mantinha apoiado sobre um amontoado de palha.

“Não queria dar trabalho”, ele murmurou com a face voltada para baixo.

“Você sabe que lhe devo muito mais que alguns curativos”, ela falou em tom amável. Percebeu que ele pousou os olhos castanhos sobre a pequena Meguin.

Sem querer, as recordações lhe vieram como imagens vívidas. Estava nas últimas semanas de gravidez quando conhecera Golder, em sua primeira visita à Farlesse. Segundo a parteira, o nascimento de Meguin seria tão rápido quanto o de Brando, graças aos quadris largos que tinha. No entanto, o trabalho de parto iniciou muito antes do esperado. A velha matrona berrava em seu ouvido para buscar forças onde não mais havia, e então, tudo ficara muito escuro. “A criança não vai sobreviver… e ela também não”, escutara a velha dizer. Lembrou-se de como aquelas palavras erupcionaram a raiva dentro de si — se a morte queria a ela e seu bebê, precisaria se esforçar para isso. As contrações prematuras haviam iniciado pela manhã, e ela resistira teimosamente até o fim do dia. Quando as estrelas despontaram no firmamento, já não era mais capaz de discernir qualquer realidade. A única coisa que recordava era o toque firme da mão de Golder sobre a sua. Sabia que era a dele pois a mão de Rogurd era áspera demais, curta demais. E de repente, viera a onda que a estremeceu por inteiro — um choque de vigor correndo pelas veias feito um rio gelado e veloz. Assim, renascera; e ao ouvir o choro de Meguin, renascera de novo.

“Parece que você tem o dom de se esquivar da morte”, o comentário fez Golder soltar uma risada rouca. “Pergunto que animal seria capaz de atacá-lo tão perto da aldeia. Quero dizer, se foi um animal de quatro ou duas patas”, ela lançou, soando despretensiosa enquanto massageava o unguento.

“Fui surpreendido por uma manada de porcos-do-mato. Eu estava no corredor principal da floresta quando me arrastaram, por sorte me agarrei num galho esmorecido. Muito depois notei que as cabeçadas empurraram o punhal contra mim”, contou, mostrando a empunhadura suja de sangue seco na bainha do cinto.

Magrit aquiesceu ao ronronar baixinho. Golder não mudara nada nos últimos quatro anos — continuava a ouvir mais do que falava, e entregava menos do que sabia. “E o que trouxe você de volta para o Oeste? Pensei que nunca mais o veria.”

Ele passou a língua nos lábios descascados. “Recebi uma nova ordem da Divisão de Suprimentos. Fui enviado para selar acordo com novos fornecedores de grãos; o Leste sofre com a escassez da guerra.”

Ela ronronou outra vez. “Acredito que esteja aliviado por ser o Elo de Suprimentos nestes tempos difíceis. Aqui, o seu pior inimigo serão os porcos.”

O breve riso saiu fanho pelas narinas dele. Magrit finalizou o curativo e dispôs os utensílios na caixa de madeira. Assistiu Golder desamassar as vestes, colocando-se de pé sobre as palhas. Era um dos homens mais altos que já vira, e a tez preservada era um vislumbre da sua vida distante do campo. Ser um Elo da Divisão de Suprimentos não parecia um cargo tão nobre quanto os de príncipes e reis, mas ela sentia que Golder não era alguém comum. Fosse quem fosse, era melhor que não descobrisse — ai dela se os deuses soubessem que acolhera um bruxo dentro de casa.