Notas iniciais
Sei que não é o gênero preferido da plataforma, mas sigo aqui! Para quem tem histórias no mesmo estilo, me mandem os nomes. Vamos nos ajudar ;)

O jantar fora descontraído graças às crianças, que intercalaram as colheradas de guisado com perguntas descabidas à visita. Rogurd observava, satisfeito, Meguin acomodada sobre a perna direita de Golder. A cada tentativa dele em levar o talher à boca, a menina lhe apertava o nariz ou puxava seus cabelos.

“Tio Golder, você foi atacado por um monstro?”, indagou Brando, mastigando uma batata.

Golder deu um sorriso sem dentes, servindo uma colher para Meguin. “Um não, vários”, respondeu, e o semblante de Brando se iluminou.

“E o senhor usa aquela faca para matá-los?”

“Concentre-se em comer, garoto”, interrompeu Rogurd. Mesmo que sentisse orgulho da esperteza do filho, precisava manter a postura na frente de Magrit.

“Tudo bem, meu caro. É natural que ele seja curioso nessa idade. Acho que, talvez, seja a hora de Brando saber o que encontrei debaixo de sua cama”, anunciou com ar divertido.

O garoto se sobressaltou da cadeira. “O quê, tio Golder? O que tem debaixo da minha cama?”

Ele forjou uma expressão severa, pouco convincente, já que Meguin lhe apertava as bochechas com suas mãozinhas gorduchas. “Não sei dizer qual é o tipo, ao certo, mas acredito que um galalião fez morada sob seu leito”, o menino franziu a testa e assentiu com a cabeça.

“Sim! Sim! Eu sabia que tinha algo! Mamãe nunca acreditou, mas a Meguin também percebeu! Não foi, Meguin?”, o irmão se voltou para a garotinha.

“Ga-lalala, ga-lalala”, ela balbuciou.

“Provavelmente isso é um sim”, concluiu Golder.

“E agora?Como faço para espantar o galalão?”, continuou Brando, escorrendo as mãos sobre os cabelos pretos.

Golder soltou uma risada tão rouca que parecia tosse. “Não é necessário, Brando. O galalião é uma espécie de criatura mágica. Eles funcionam como um amuleto e trazem boa sorte, apesar de ninguém vê-los. O mal dos humanos é rejeitar aquilo que não conhecem.”

Magrit limpou a garganta e descansou sua colher dentro do prato vazio. “Está tarde, Brando. Termine logo o seu jantar, mamãe ainda tem muito a fazer”, ela fez um gesto para que Golder passasse Meguin para seus braços, e deixou a mesa.

Ao término da refeição, Rogurd levou a caldeira para o quintal à frente da casa. Viu Brando acompanhar os passos de Golder até a varanda, abraçando a perna dele um pouco acima do joelho.

“Acho que estou com medo do galalão”, o menino admitiu. Golder fitou a criança nos olhos, erguendo sua face ao colocar o indicador no queixo esguio.

“Você sentirá medo de muitas coisas ao longo desta vida, jovem Brando. A questão nunca foi sobre deixar de sentir medo, mas sim o que fazer apesar dele.”

“E o que devo fazer?”

“Você precisa descobrir sozinho, mas que fique um segredo entre nós… os gagaliões são ótimos amigos”, ele lhe deu uma piscadela, e o menino retribuiu com um sorriso frouxo.

Magrit chamou seu nome no interior da cabana e o garoto seguiu a voz, saltitante. Rogurd, que agora limpava a caldeira sentado na grama, virou-se para ele.

“Esse tal de galalião é só um conto de Sanorévia, sim?”, questionou, com um toque de receio disfarçado por desdém.

Golder deu de ombros. “Depende. Para quem só acredita com os olhos, até você pode ser uma mentira, não é?”

Rogurd sentiu as bochechas corarem. A presença de Golder lhe provocava um sentimento ambíguo — estava feliz em revê-lo, mas também temeroso. Ninguém em Farlesse sabia sobre seu passado, e ele era a ponte que trazia tudo o que desejava manter em segredo.

“Bobagem, bobagem! É melhor não falar esse tipo de coisa em voz alta. Já bastou aquele sujeito magrelo vir até aqui, segurando uma carta na mão. Em plena luz do dia! Se Magrit não estivesse no celeiro, na certa eu seria desmascarado. Um farlesso nem sabe ler, quem dirá receber uma carta! Inclusive, nela estava escrito que sua chegada seria no vigésimo primeiro dia de verão, e isso foi uma semana atrás. Fiquei todas as manhãs o procurando pelos corredores de Sil, igual um idiota.”

“Infelizmente encontrei alguns percalços que atrasaram meu caminho”, Golder massageou o cenho como se as memórias lhe doesse a cabeça.

“Puxa, é mesmo? Obrigado por avisar, feioso”, disse com escárnio, esfregando o fundo da panela com força. “Então, o que veio fazer aqui? A carta não dizia muito.”

“Não pude entrar em detalhes, há espiões espalhados por todos os cantos. Estou aqui por um motivo muito simples”, Golder respirou fundo, sentando nos degraus que guardavam a varanda. “Estou procurando alguém para me substituir.”

Ele congelou as mãos ensaboadas. Encarou o amigo por baixo do manto da noite, e por longos instantes, ouviu-se apenas o canto dos grilos. “Isso é possível?”

“É sim”, Golder devolveu, monocórdio. “Outros vieram antes de mim e, pelo visto, não serei o último”, ele puxou um bolso de couro cozido da calça, tirando um maço de raízes tão roxas quanto o céu. Colocou o talo entre os dentes, lançando um olhar vazio sobre o pasto negro.

Rogurd se sentia traído, de alguma forma. Quem mais poderia ser o guerreiro das Almas Supremas? Mesmo que para ele fosse apenas um amontoado de palavras bonitas, sabia que ninguém poderia servir à função como Golder. “E por que agora? Justamente no meio de uma guerra?”

“Justamente porque estamos no meio de uma guerra”, Golder contradisse, amargo. “Eu e os outros deveríamos ter partido muito antes. Precisamos transferir as Almas para novos herdeiros há, pelo menos, meio século… quanto mais o tempo passa, mais a humanidade se perde”, a voz se agravou, como quem pedia desculpas. “Mas sem a espada de Ellesmine, a transferência não era possível.”

“Então a espada foi encontrada?”, não conseguiu evitar o espanto na entonação.

“Sim. Faz pouco mais de uma estação. Uma jovem moribunda, entre a vida e a morte, foi vista arrastando a espada nas últimas dunas de Dracabuska”, ele meneou a cabeça, sem perceber. “Uma espada que procuramos por anos, surgindo dessa forma, sem mais nem menos…”

“Quem é a garota? Talvez ela seja, quem sabe, uma parente distante da própria Ellesmine”, palpitou, agora sentando-se ao seu lado.

“Duvido”, Golder retrucou. “Ela perdeu a família para a Praga, e depois foi raptada pelos piratas do deserto. Sofreu um bocado nas mãos deles. Pelo que entendi, ela conseguiu fugir no meio de um ataque. De acordo com o que disse, a espada estava no cofre do capitão, e a pegara para se proteger.”

Um fio de assombro nasceu em seu peito, enroscando-o até a garganta. Horas antes, a sua única preocupação era manter a aldeia protegida das chuvas; agora, o mundo inteiro parecia dobrar sobre si. Por um breve segundo, olhou para Golder e quis enxotá-lo. Imaginou o chutando de volta para a floresta, ele e tudo o que o pudesse ligar de volta a quem era antes. Envergonhado, afastou o pensamento com um esfregão na testa.

“Obrigado pelas fofocas, mas você ainda não respondeu a minha pergunta. O que você faz aqui…”

Suas palavras foram interrompidas pelo bramido de Golder. Ele se encolheu em um gesto abrupto, tombando para o seu lado, e outro grunhido de dor escapou dentre os dentes.

“Pelas botas de Sil, o que está acontecendo?”, sentiu o corpo travar, até finalmente erguer-se num salto.

Não é nada demais”, Golder grasnou, toda a face era um nó. “Isso é… Selena…”, de repente ele soltou outro arquejo de dor que ecoou pelo pasto, jogando a cabeça para trás e deixando as veias saltadas do pescoço à mostra.

“Isso é lá nome de doença? Diga logo o que lhe aflige, galopo igual um raio para a curandeira!”, exasperou Rogurd, removendo seu manto corta-vento e o colocando sob a cabeça de Golder.

“Não, Rogurd… quem dera fosse… ou ela se curaria — ou me levaria embora”, ele tossiu descompassado, finalmente relaxando um pouco. O farlesso apanhou o cantil do bolsão amarrado na cintura e o ajudou a beber um gole d’água. “Você deve tê-la visto em Sanorévia, ao menos uma vez.”

Sanorévia. Sons antigos lhe davam náuseas.

“Vou fingir que me lembro”, falou, reticente. “Ela também é guerreira? Não é possível que seja, atacando você desse jeito”, especulou, guiando Golder para se sentar com segurança.

“Sim, Selena também é guerreira. Como posso dizer? Nós somos como os lados opostos de uma moeda... quando ela precisa reunir forças, eu me enfraqueço.”

“E o mesmo vale para ela, hein?”

Golder virou o cantil na boca, e após meneou com a cabeça. “Não exatamente. A minha força também é danosa, mas nada comparável com o que ela pode fazer a mim. Não à toa adormeci por dias seguidos.”

“Certo. Então é um acordo onde você se ferra. Ela também está atrás de alguém?”

“Está sim, mas Selena tomou uma direção totalmente contrária à de Farlesse. Provavelmente já deve estar cruzando a fronteira de Dun Vau”, Golder afastou os cabelos dourados que lhe caíam na testa, e uma inquietação perpassou seus olhos. “Preciso iniciar minha busca o quanto antes, não posso me alongar muito aqui.”

“Basta me dizer quem está procurando e irei ajudá-lo. Já tem uma pessoa em mente?”

Golder soltou um arquejo pesaroso. “Não.”

Rogurd semicerrou os olhos, projetando um leve bico com a boca enquanto pensava. “Pensei que soubesse. Então por que veio a Farlesse? Existem vários Estados ao leste do rio Bravo cheios de povo valente.”

Golder riu, e o cheiro das raízes refrescou o ar. “Centraal está empesteada. O sul virou um núcleo de formação para o Exército Real, e o litoral está em guerra”, por um instante se deteve em remover um fiapo de linha que escapava da calça. “E eu preciso de alguém que, sobretudo, seja o mais puro possível. Por isso retornei. Depois de visitar as cidades mais abastadas e os povos mais esquecidos, descobri em Farlesse um ponto imaculado contra a Praga… porém não estou mais tão seguro quanto a isso.”

“Como assim?”, Rogurd prendeu a respiração. A Praga. Outro som que lhe dava arrepios.

“Pressinto algumas movimentações estranhas. Na minha primeira vinda, percebi que as Montanhas guardavam segredos que protegiam a sua aldeia. Mas, ao que me parece, esses segredos foram violados.”

Rogurd se sobressaltou com um estremecimento. Olhou para o oeste, onde a noite era mais densa. Ali, escondidas nas sombras, erguiam-se as Montanhas de Milgata. Golder não precisava explicar muito; ele bem conhecia o mal que nascia naquela direção.

“Golder, você precisa visitar as minas dos irmãos Archete. Pelo que acabou de me dizer, temo que esses segredos estejam vazando por lá.”

O amigo ponderou em silêncio. “Não sei se é uma boa ideia. Desconfio que alguém já possa saber que não há organização alguma cuidando dos assuntos do Oeste. Preciso preservar meu disfarce.”

“Você precisa ir lá, Golder. Se realmente há algo de errado nas Montanhas, não me resta dúvida de que tem o dedo dos Archete nisso. Além do mais, as minas serão um bom começo para o que procura”, Rogurd se pôs de pé com os joelhos estalando. “Grande parte dos homens da aldeia trabalham para Dugtar…”

“Homens corrompidos que não me servem”, interrompeu Golder, encarando-o severamente.

“A maioria ainda não está”, alisou a barba que batia no peito, lamentoso. “Muitos escolheram trabalhar nas minas dos Archete após os desastres. Um pouco depois de você nos deixar, sofremos com chuvas torrenciais. O Rio Veine transbordou duas vezes, destruindo metade de nossas casas e matando nossa gente”, ele sentiu a garganta se fechar à medida que falava. “Graças aos deuses, não fomos atingidos. Muitos ficaram sem moradia, sem gado ou parentes. Foram obrigados a recomeçar. E claro que os Archete, covardes como sempre, enxergaram uma grande oportunidade nisso.”

Golder estudou suas palavras, esfregando o talo entre os dentes. “Tudo bem. Vamos apenas sondar o terreno, sem chamar atenção.”