De Almas e Chamas
4 Para as montanhas
Notas iniciais
O dia seguinte amanheceu nebuloso, porém não menos abafado. Antes que os galos cantassem, eles já haviam deixado a propriedade.
O caminho era longo e irregular. As montanhas de Milgata eram escarpadas e alvas como sal, manchadas de musgos em tons de verde profundo. Ao longe, o rio Veine nascia de uma fenda rochosa esculpida dentre as montanhas, contornando o sopé da cadeia em sedosas curvas.
Zimbra, a égua de Magrit, agitava sua crista negra enquanto galopava na estrada arenosa. Rogurd tomou a ponte que cortava o rio Veine, com seus arcos de pedra recheados por silvas e heras, enquanto a água verde passava devagar embaixo.
Após a travessia, seguiram em direção ao baixo Veine. Uma sebe alta e espessa escondia a base de Milgata, conduzindo a trilha salpicada de calcários. Mais uma milha a galope, e Golder notou uma discreta clareira visível por uma fissura na sebe.
“É o endereço de uma curandeira muito antiga, chamada Ambrosa Lubil. Ela se mantém afastada da aldeia porque não suporta a gente”, Rogurd deu de ombros, “eu mesmo só a vi uma vez bem de longinha. Algo me diz que ela veio para cá fugindo de alguma coisa, assim como eu.”
Golder espreitou o olhar para dentro da fissura, vendo apenas uma cabana caindo aos pedaços. Outra vez, sentiu-se agradecido por Magrit — não ficaria nada contente sob os cuidados daquela mulher.
Eles seguiram por uma estrada íngreme no flanco da encosta. Rogurd puxou as rédeas de Zimbra que suavemente parou de trotar. “Esse aqui”, ele indicou o caminho espinhoso que reluzia as cascas de calcário, “é o único acesso às minas. A essa altura do sol todos os trabalhadores já atravessaram, e ficaremos camuflados pela bruma.”
Os dois entraram na sebe e encontraram um freixo de tronco robusto, onde puderam amarrar Zimbra e a carroça. Rogurd saiu na frente, fazendo com que Golder precisasse conter suas passadas para não atropelar o amigo. À medida que deixavam o rio Veine para trás, um desfiladeiro de muitos picos e fendas cobertos de verde musguento começou a desabrochar à esquerda deles.
Eles se mantiveram próximos da parede áspera da encosta enquanto subiam, evitando olhar para o imenso vazio que os espiava a três passos dali. O ar foi se tornando mais gélido, e quando alcançaram o lado da encosta que dava para o sul, os vapores da neblina começaram a descer sobre a dupla.
“Estamos chegando, Golder. Um dia muito ruim para tomar a trilha, mas se permanecermos grudados na encosta estaremos seguros, acho”, disse Rogurd, enquanto a bruma caía sobre o desfiladeiro como porções gigantes de algodão.
Os dois colaram suas costas na face rochosa da montanha, e passaram a andar lado a lado. A curva que levava à face ocidental estava se completando, e o murmúrio afiado das picaretas alcançou seus ouvidos por baixo da espessa névoa.
"Haverá movimento de muita gente, então é melhor eu ir sozinho enquanto você se esconde. Quando for seguro, eu cantarei um assobio e a gente prossegue para o mirante que tem mais acima. Não demorará muito para a neblina precipitar e de lá teremos uma ótima visão”, explicou Rogurd.
“Vamos, empurrem! Mais rápido!”, ordenou uma voz agora clara, como se estivesse a dez passos de distância. De repente, eles ouviram um “PRUUM!” e um estrondo pesado de pedras rolando fez o chão estremecer. “Continuem! Continuem!”
“Fique aqui”, ordenou Rogurd com um sinal de mão, e então seguiu em frente onde foi engolido pela névoa. Golder agachou-se e tentou se orientar através dos sons — batidas repetitivas e metálicas repercutiam por todo o terreno, e o barulho de pás lançando terra esfarelada se mantinha constante ao fundo. Tentar uma Impressão naquele momento seria de grande valia, porém ele não tinha ideia dos perigos que Selena poderia estar enfrentando naquele momento. Antes de iniciar sua viagem à Farlesse, os dois estabeleceram um acordo — Selena teria total precedência sobre a força, visto que seu destino prometia muito mais perigos no seu encalço.
Uma gota seguida de muitas outras começaram a cair sobre ele, espaçadas e frias, e uma garoa com cheiro acre de ferrugem lhe subiu pelas narinas. Em breve os vapores estariam condensados. Em meio às marteladas, choques de metais e ordens impacientes, uma deslocada sequência de silvos curtos cadenciados muito semelhante ao canto de um pintassilgo ressoou na atmosfera enevoada. Golder esboçou um sorriso e recordou da habilidade inata de Rogurd em imitar as mais diversas espécies de pássaros.
Ainda curvado, deslocou-se ligeiramente para dentro da bruma, tomando a direita conforme a origem do assobio. Uma alta baforada encheu seu ouvido esquerdo, e ele rapidamente se lançou para baixo, esticando seu passo à frente o máximo que pôde.
“Desse jeito não haverá almoço hoje! ANDEM, SEUS PALERMAS!”, gritou alguém a menos de um metro da sua distância. As botinas do desconhecido pisotearam as poças que se formavam com a garoa.
Golder prosseguiu com a guarda alta, quando desta vez três silvos agudos parecidos com de um tordo irromperam na sua posição de nove horas. Não pensou duas vezes e esticou o braço para puxar o corta-vento de Rogurd, que desajeitadamente bateu as costas na parede irregular da encosta.
“Delicado como uma donzela desde sempre, não é feioso?”, Rogurd resmungou baixinho, ajeitando o manto sobre os ombros.
“E você achando que estamos em um aviário… tordos não habitam este continente, sabia?”, retorquiu Golder em um murmúrio zangado, retomando o caminho.
“Claro, temos os mais nobres especialistas em aves por toda essa região, mas que coisa!”
“Xiiu, só siga para o mirante!”
Com um pouco mais de caminhada, eles alcançaram um desvio que se abriu no flanco direito do entorno. Os dois passaram por baixo do cavalete de madeira que impedia a passagem, e subiram rapidamente uma ladeira que já estava parcialmente nítida com a dissipação da neblina. O caminho revelou outro aclive que se encerrava em uma escadaria de madeira disposta em três espirais, cada qual dando acesso a uma plataforma do mirante. Rogurd galgou os degraus rangentes de dois em dois, enquanto Golder sofria para acompanhá-lo. Ao chegarem na última plataforma, eles se encolheram atrás do balaústre feito com colunas de cedro.
“Vamos aguardar mais um pouquinho”, falou Rogurd, ainda ofegante. Suas roupas estavam empapadas e a ponta do nariz tinha se transformado numa bola vermelha devido ao frio.
“Você parece ter um bom conhecimento dessa área. Costuma visitar as minas?”, Golder perguntou.
“Na verdade, eu vinha muito aqui antes dos irmãos Archete se instalarem. Falando nisso,” Rogurd deixou escapar um riso maroto, “foi neste mirante que tomei a mão de Magrit. Sinto falta desse lugar como era antes e nunca mais ousei pisar aqui, ainda mais agora que sou um inimigo declarado deles.”
Aos poucos, a vista foi clareando e a massa cinzenta deu lugar a um céu lavado e opaco. A clareira se abriu abaixo, era um enorme círculo de lama branca encardida, onde vários homens surgiram em fileiras com seus carrinhos de ferro abarrotados de terra. Eles saíam de uma fenda escura na base da montanha oposta ao mirante.
“Ali está a entrada da caverna”, Rogurd indicou a fenda. A face da montanha era uma parede reta e escavada com manchas esbranquiçadas de calcário, cujo cume verde se estendia muito acima de onde eles estavam. A base era completamente acidentada por ângulos vivos, e a fenda parecia a abertura de um formigueiro.
“O que é aquilo?”, Golder questionou, apontando para além da clareira. À leste do mirante, um gigantesco vale despido se estendia até desaparecer na linha azulada do horizonte. Pequenos morros se elevavam e mergulhavam um após o outro. Sobre eles, centenas de tendas baixas se alinhavam em filas que lembravam intermináveis varais de roupas monocromáticas. Caminhos barrentos e esburacados de terra calcária cortavam o terreno entre as tendas; e pequenas fogueiras apagadas guardavam caldeiras como se aguardassem o preparo de uma refeição sem sabor.
“Pelos cabelos, barbas e pentelhos de Sil”, exclamou Rogurd, boquiaberto ao olhar para onde o dedo de Golder indicava. “O que está acontecendo aqui?”
“Ao que me parece, não se trata de um acampamento para tropas ou companhias. Acho que há muito mais gente trabalhando para os Archete do que imaginávamos”, especulou Golder, não encontrando sinais de cavalaria ou estandartes.
“Mas é um acampamento para mil homens! Farlesse inteira mal chega a metade disso!”
“Fale mais baixo”, repreendeu Golder, fazendo um sinal com a mão de que estava ouvindo algo lá fora. “Tem alguém subindo as escadas.”
“Hein? Não há para onde fugirmos”, Rogurd exasperou, esquadrinhando a plataforma de madeira.
“Não precisamos fugir, eu cuido disso”, afirmou Golder, com a voz tranquila que sempre tirava o amigo do sério.
“Você nem sabe quem está subindo, podem estar armados! Você vai cuidar como? Vai sair furando todo mundo, feioso?!”
“Quem disse que eu não sei? Acalme-se,” prosseguiu Golder, impassível. Ele se levantou e vestiu o casaco de couro, alisando-o. Deu alguns passos em direção à entrada da plataforma e cruzou os braços por trás das costas, como se aguardasse ser descoberto.
“O que você está fazendo? Você sabe quem está vindo?”, Rogurd vociferou baixinho, escondendo-se atrás da parede que era Golder.
“Não fique atrás de mim. Finja que está esperando por eles.”
“Você está louco! Se os Archete descobrirem que estou aqui…”
“E eles vão. Não lhe resta muita opção, Rogurd,” ele continuou, mantendo sua serenidade intacta. Rogurd soltou uma baforada, vencido, e estufou o peito ao fincar os pés ao lado direito de Golder.
Os passos se tornaram audíveis, acompanhados pelo ranger das madeiras que estalavam a cada degrau superado. O coração de Rogurd palpitava tão alto que chegou a acreditar que ele o entregaria antes mesmo de ser visto.
Do vão de entrada da plataforma, primeiramente surgiu a ponta amassada de uma boina, da qual uma exuberante pena vermelha esvoaçava com a brisa pegajosa. Passo a passo, a figura do estranho foi se erguendo, e seus olhos esquálidos imediatamente encontraram os olhos impávidos de Golder, que não mostraram nenhum sinal de surpresa.
“Vejam só, a quem devo essa ilustre visita?”
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