Golder permaneceu inquieto pelo resto do dia. Magrit o observou caminhando em círculos — ia da horta para o estábulo e do estábulo para o celeiro, com as crianças brincando no seu encalço. Até que ele se ofereceu para recolher as ovelhas, perdendo-se na padraria até o sol baixar no firmamento. Assim que as primeiras estrelas luziram no crepúsculo, resolveu sentar-se no banco de madeira abrigado na varanda, acompanhado de uma solitária lamparina. A noite já havia encorpado quando a silhueta de Rogurd emergiu na escuridão, avançando pela trilha em marcha lenta. Ele aferrolhou os portões e se deparou com Golder, que mastigava seu maço de raízes secas, totalmente imerso em pensamentos.

“Como foi a obra?”, ele indagou. Rogurd acomodou-se no espaço livre ao seu lado, estalando as juntas até relaxar o corpo.

“O barco não apareceu, nem consigo imaginar o motivo”, riu-se, pesaroso. “E sua reunião com Dugtar?”

“Não houve”, respondeu Golder, secamente. “Ele estava nos preparando uma emboscada.”

Rogurd ergueu as sobrancelhas, com a indignação nascendo por baixo das rugas cansadas. “Uma emboscada? Do tipo que nos sequestraria?”

“Não exatamente. Ele pretendia nos encurralar e persuadir até a exaustão. Só nos deixaríamos ir embora quando concordássemos, ao menos em parte, com suas intenções”, prosseguiu, recostando-se na parede fria de pedra. “Seus movimentos mentais eram nítidos, e os dois homens que nos seguiam se comunicavam, através de sinais, com os outros que estavam nas torres de observação. Quando você partiu, Dugtar ganhou ainda mais confiança, e foi razoavelmente fácil fazer a leitura de seus éteres.”

“Cobra peçonhenta, sabia que não nos deixaria entrar daquela forma sem custar caro”, inflamou-se Rogurd, apoiando os cotovelos sobre os joelhos. “Mas o que você conseguiu enxergar além?”

Golder mordeu o lábio superior, cruzando a perna comprida sobre a outra. “A emboscada não foi, de longe, a pior coisa que pressenti nas minas”, ele sondou se havia alguém por perto, e então continuou em tom mais grave. “Sinto lhe dizer, mas você estava certo. Das minas pulsam um grande concentrado de energia estranha. E não, isto não se deve aos Archete — essa energia emanava de cada um que estava na clareira.”

Rogurd estudou o que ouvira. Os grilos cantavam, ostensivos, e uma horda de vagalumes piscava sobre o gramado. “Então você acha que eles estão contaminados pela ganância dos Archete?”

“Diria que, a princípio, eles podem ter sido influenciados pelos irmãos. Mas agora os mineradores estão ali por outro motivo, imersos em seus próprios planos, não apenas trabalhando para Dugtar.”

“Entendi”, murmurou Rogurd, reflexivo. “Mas e então, há algum sinal da Praga?”, perguntou, como se temesse a resposta.

Golder abaixou o queixo, e uma mecha loira caiu sobre seu rosto. Ele temia a reação do amigo, então escolheu bem suas palavras. “Da Praga em si, ainda não. Mas minhas leituras estão bem limitadas, e seria necessário uma Impressão completa para chegar a um veredito.”

“Que Sil nos proteja”, Rogurd esfregou as mãos suadas sobre as calças. “Se todos estão mergulhados nessa energia ruim, acredito que não temos muito tempo.”

“Todos não — um se salva”, enfatizou Golder, impelido por um súbito entusiasmo.

“Um só? E o que isso nos adianta?”, desdenhou. “Até consigo imaginar quem seja — o menino da mãe doente. Coitado, estava tão aterrorizado que nem devia ser capaz de sentir outra coisa.”

“O menino da mãe doente? Ah sim, está se referindo a Evan”, Golder colocou a mão sobre a testa, repreendendo-se por ainda não ter separado as folhas que prometera. “Não é ele de quem falo, e sim de outro rapaz, que vi saindo da fenda segurando uma pedra”, descreveu Golder, suas pupilas faiscando de ânimo. “Os mineradores o exortavam e clamavam um som — Acaladã. Sabe o que significa?”

Rogurd coçou o queixo. “Acaladã. Não me é estranho, mas também não me remete a algo. Parece um som bem antigo, talvez ancestral. Se um homem vivido como você não o reconhece, quem dirá a mim.”

“Antes do meu ciclo, dizia-se que as regiões setentrionais possuíam dialetos próprios, até serem colonizadas pelo povo do Leste. Mas estamos falando de séculos atrás, e não vejo como uma palavra sobreviveria tanto tempo, sem escrita.”

“Concordo. Acho que só perguntando a eles, não é mesmo? Mas depois de hoje, seria uma afronta pisar naquelas minas de novo.”

“Mas eu preciso”, asseverou Golder. “Retornarei às minas e falarei com Dugtar.”

Rogurd pulou de seu lugar, consternado. “O pó das minas afetou seu juízo? Seria como correr em direção ao mau presságio. Sou um homem bravo, mas não me garanto em resgatá-lo com sucesso”, retrucou, com urgência.

“Agradeço sua preocupação — e também o resgate mal-sucedido”, Golder se levantou do banco, sorrindo. “Contudo, meu objetivo lá se encontra, e não há mais nada a fazer em Farlesse com o pouco tempo que me resta.”

“Então quer dizer”, Rogurd hesitou, suas palavras pairando no ar fresco, “que esse rapaz é o seu rapaz?”

“Estimo que sim, e há tempos que não me sinto tão motivado quanto agora. Os ventos de Eucadus para cá me trouxeram, e meus passos foram guiados a todo instante. Sim, agora vejo”, disse Golder, contemplando o cabedal de estrelas acima deles.

Rogurd espiou para dentro do vão da porta, e viu a esposa desviando o olhar que lançava sobre eles. “E agora vejo também que Magrit está nos espreitando”, murmurou.

“Ela tem boas razões para isso. Aconselho que volte a atenção à sua família agora, tenho alguns assuntos ainda a resolver.”

“O que pode ser resolvido nesta escuridão, Golder? É momento de aquecer a barriga e descansar os pés. De resto, o amanhã cuida.”

“Para alguém de dias contados, o amanhã se resume ao próximo instante. Não se preocupe, não irei me afastar muito, mas tampouco aguarde por mim.”

Golder apanhou a capa que havia separado ao lado da soleira, e deixou a varanda furtivamente. Ao atravessar os portões de ferro, ofereceu um sorriso compassivo para Rogurd, que se detinha na entrada da casa. Logo a noite o encobriu, e seus passos em direção às minas de Dugtar se mantiveram ocultos no breu crescente.

Que Selena o perdoasse, mas havia chegado a hora de saber onde estava pisando.


Notas finais
Espero que estejam gostando. Sua opinião é muito importante: adoraria saber o que estão achando da trama e do ritmo. Até :)