Notas iniciais
Fico feliz que novos leitores estejam acompanhando a história. Espero que gostem :D

Mornos filetes gotejaram quando a taça de cristal se partiu na mão cerrada de Selena. Ela observou os cacos do vidro esverdeado escorregarem até a mesa, misturando o vinho ao sangue no seu prato de jantar. Do outro lado, um homem jovial e de olhar astucioso assistia a cena, deixando escapar uma baforada de seu charuto. A tez exibia o bronzeado característico dos habitantes das regiões centrais, e tinha uma franja de cabelos escuros que lhe caía sobre a têmpora esquerda.

“Selena, o que está havendo?”, ele questionou, enquanto sua convidada parecia perder o fôlego em aparentes contrações. “Golder está com problemas?”, continuou, levantando-se para buscar um lenço.

“Espero que sim”, ela esbravejou, apertando a face contra a mesa de carvalho, à medida que a dor lhe dilacerava o abdômen. Ele apanhou sua mão sanguinolenta, e em gestos delicados, passou o lenço sobre o corte. “Golder me prometeu que não criaria grandes Impressões. Por sorte, não estou correndo perigo agora”, esclareceu, ao recobrar um pouco da respiração.

“Bem, não ainda”, ele corrigiu, seco. “Buscarei outra taça.”

Afastou-se em direção a uma opulenta cristaleira na lateral do salão. Uma capa feita com pele de raposa guarnecia suas costas, e os sapatos de couro polido reluziam a cada movimento das pernas. “Diga-me então, Marquesa de Dun Vau”, enunciou com desdém, “o que fazem os guerreiros depois de encontrarem a espada de Ellesmine?”

Selena empoleirou-se na cadeira de espaldar alto, recolhendo os longos cabelos castanhos para trás. “Demos início à busca pelos futuros herdeiros da Alma Suprema. Golder e Padinem rumaram Oeste Adentro, e Zaita está retornando das Agulhas Índigas.”

Ele hesitou antes de pegar a garrafa de vinho, como se estivesse ligando os pontos em sua mente. “Destinos tão formidáveis, e você foi a única imprudente a vir para Centraal! Quando recebi sua mensagem, desconfiei de que se tratava de uma armadilha dos espiões de Vyrydyen. Se não fosse pela palavra Spe’hopian ao final da carta, certamente você daria de cara naquela porta”, ele disse, enchendo uma taça até o gargalo. “Eu sei que você é portadora da Alma Suprema, e tem uma lança pomposa que cospe fogo e afins, mas lhe ocorreu em algum momento os perigos que correra? Eu não faço ideia de como atravessou a fronteira com tantas tropas cercando Dun Vau.”

Selena esticou o rasgo que se abrira na saia de seu vestido, consequência de uma luta na travessia. “De todos os disfarces que usei durante esses duzentos e trinta e um anos, ser a Marquesa de Dun Vau foi, sem dúvida, o pior deles. Eu não fiquei isolada em uma confortável casa de campo, Freimilor — eu conheci esses perigos direto na pele”, Selena arguiu, atingindo-o com seus olhos ferinos.

“Em minha defesa, fiquei recluso por sua culpa”, ele devolveu, trazendo duas taças cheias de volta à mesa. “Você não faz ideia de como o Assalto me custou caro. Perdi muitos homens e em menos de uma semana, meu som estava nas bocas de todos os espiões de Centraal. ‘Freimilor está financiando os rebeldes’, cheguei a ouvir no banquete de Arastúrvia. Então precisei recolher tudo deste castelo”, ele ergueu os braços para as paredes nuas do salão, onde antigamente se exibiam extravagantes tapeçarias, “e quando digo tudo, foi tudo mesmo — meus pertences, meus homens e gados, a mulher e as meninas, que já me deixaram ciente de como detestam a vida fora da cidade”, ele alisou o cavanhaque bem desenhado, apanhando uma taça transbordante. “Precisei me afastar desse ninho de cobras que essa capital se tornou. A partir do momento em que Centraal começou a atacar as Egras, até os ratos dos becos se tornaram rebeldes ou espiões.”

Selena abaixou a cabeça, resoluta. Ela notou um broche dourado que ajustava a capa de raposa, tão pequeno que passaria despercebido aos olhos desatentos. O adorno tinha cravado em sua superfície o desenho de um sol com doze pontas, representado pela união de dois hexágonos de arestas curvas. “O que significa esse símbolo?”

“É uma marca de compromissos perpétuos”, Freimilor resmungou, amargo. “Resgatei de um dos registros feitos pela Ordem de Nhanduri, antes dos Livros Primordiais serem criados.”

“Não me lembro de tê-lo visto em meu Livro. Como você ainda tem acesso a esses registros?”

“Os servos da Ordem guardam todos os compilados que originaram os Livros, passando de geração a geração, e os meus estão escondidos nas fundações deste castelo”, ele sorveu o conteúdo da taça, deleitando-se ao passar a língua nos lábios. “Esta é uma das minhas melhores safras, sem dúvida.”

“Deve ser. O vinho é excelente, uma pena que não disponho de tempo para apreciá-lo. Eu preciso chegar até Vyrydyen antes da coroação acontecer. E então, o que você planejou para mim?”, Selena impôs, tão direta e afiada quanto a lança que descansava no arnês em seu ombro.

Freimilor enterrou a bochecha em uma das mãos, erguendo as sobrancelhas que abrigavam seu olhar provocante. “Sei que você chegou aqui esperando um passeio pelos Estados do Estreito”, ele arfou, cansado, “mas o que tenho a oferecer está longe de ser uma viagem pelos campos verdes — eu não faço milagres, entende? Você me envia uma carta pedindo que eu a encontre no meu castelo em Centraal no próximo dia, o que já é uma loucura. E ainda quer que eu a leve para Vyrydyen, em sigilo, atravessando uma guerra que consome o único caminho de terra existente.” Os castiçais de prata tremeluziram sobre a mesa. “Mas, assim como cheguei até aqui, também trouxe uma solução — ou não seria digno de carregar a reputação de meu som. Mas prometo que você não irá gostar”, ele finalizou, inclinando-se para trás e dando um bom trago no seu charuto.

Ela se manteve inerte. “Tenho um objetivo a cumprir, e o farei a qualquer custo — mesmo que já tenha pago o bastante para chegar até aqui. Diga logo quais são seus planos.”

Freimilor abriu um sorriso de ponta a ponta, segurando o espesso charuto entre os dentes. “Sabe, eu sempre fui um grande admirador da sua obstinação. Sorte a nossa que guerreiros não se casam — senão você já teria aniquilado meia dúzia de maridos. Mas vamos ao que importa”, ele se levantou outra vez, iniciando uma caminhada em volta da mesa que denunciava sua inquietude. “O jeito mais fácil e rápido de se chegar a Vyrydyen seria, inegavelmente, uma travessia de barco pelo Golfo do Calibre. Mas a essa altura, os informantes de Centraal já descobriram que a Marquesa de Dun Vau se ausentou de sua marca, e os portos devem estar lotados de espiões. Como disse antes, tomar a estrada está fora de questão; Centraal não economiza esforços para dominar a Egra Sul”, Freimilor estalava os dedos conforme o raciocínio progredia, e seus passos firmes ecoavam pelo salão vazio. “Então, ao invés de você entrar pelas portas dos fundos, mais acabada que uma pomba abatida na praça do mercado”, ele finalmente parou e virou-se para ela, que o acompanhava com seu olhar cortante. “Você vai entrar pelos magníficos portões dourados do palácio de Vyrydyen, com direito a cornetas e toda a pompa de uma nobre da Casa Norte,” disse por fim, ajoelhando-se diante dela.

“Você só precisa fazer uma coisa”, acrescentou, apanhando a mão ferida de Selena e entrelaçando os dedos com os seus, ornados por anéis de rubi. “Bancar a donzela em apuros, e cair nas graças de Guinche Machae.”

Selena afastou sua mão num gesto abrupto, cada ruga de sua face exprimia desgosto. “Prefiro entrar na guerra invés de agradar aquele golpista”, ela retorquiu, pressionando a borda da mesa.

Freimilor se ergueu, resignado com a resposta da guerreira. Ele estava acostumado a lidar com seu temperamento inflexível, e por isso sempre guardava o melhor argumento para o final. “A princesa Akalina”, iniciou, em tom ponderado, “ela é a sua escolhida, não é?”, prosseguiu, mais grave, como se sua sombra crescesse por trás dela.

Selena não respondeu, e Freimilor ganhou confiança para continuar. “Como você pretende levar a princesa até o lado Oeste do Rio Bravo, com a devida benção de Guinche Machae?”, ele se aproximou pelas suas costas, até que a boca ficasse a um palmo do seu ouvido. “Ou essa sua linda e feroz cabeça pensa em simplesmente sequestrar a filha dele?”, sussurrou, o som de sua voz era sibilante e provocador. “Ah, Marquesa de Dun Vau, acho que você já possui inimigos o suficiente para ter o Exército Real no seu encalço.”

Selena agarrou a capa de Freimilor, sem ao menos olhar para trás. Em um movimento enérgico, lançou-o por cima da mesa, derrubando a louça de jantar que se espatifou em ecos vítreos pelo salão. Com o corpo enrolado na toalha de mesa purpúrea, ele começou a rir até o rosto enrubescer.

“Esplêndida”, disse, como se elogiasse um espetáculo. Sentou-se sobre a superfície do móvel, removendo os fragmentos de comida que ficaram sobre as roupas.

“Você pode ser o mais influente negociante de Centraal, além de ter olhos e ouvidos por todos os Estados do Leste”, ela redarguiu, projetando a mão sobre o fogo dos castiçais derrubados que avançavam sobre a toalha. “Mas não se esqueça de quem serve a quem”, seus dedos se fecharam, e o fogo ganhou um brilho intenso antes de se autoconsumir e desaparecer.

Admirado, Freimilor a contemplou. Desde a primeira vez que ele vira Selena nos templos de Sanorévia, ainda garoto, soubera que jamais conheceria outra mulher tão deslumbrante. A sua face era ampla, emoldurada pelos compridos cabelos ondulados e divididos ao meio. Os olhos tinham a cor de duas avelãs ao sol, sempre ardentes. Mas apesar de sua aparência lhe render contemplações, era a sua trágica sina que tanto o fascinava — Freimilor tinha quase certeza de que Selena era capaz de devastar qualquer exército, mas o propósito de seu dever a obrigava a contê-lo.

“Peço desculpas pelo meu descuido”, ele disse, por fim.

“Vamos retornar ao que interessa”, Selena definiu, cruzando as pernas. “Seguindo a sua estratégia, como faço para entrar pelos portões da frente?”

“Durante a viagem até aqui, pensei em muitas alternativas, mas apenas uma pode resolver o seu problema, e o meu também”, disse Freimilor, apoiando-se nos cotovelos, optando por permanecer onde estava. Selena contraiu as sobrancelhas, suspeitosa. “Eu não pretendo me esconder para sempre. Preciso permanecer em Centraal e manter o meu domínio sobre as guildas", ele retrucou. “Até porque não existe mais ponto de retorno — o plano já está em andamento. Um de meus informantes acabou de reportar sua posição aos rebeldes, e eles estão vindo para cá”, Freimilor vasculhou o bolso de sua calça, sacando um pergaminho que continha um selo vermelho. Estendeu-o sobre a mesa, e um mapa do Leste se revelou. “O que eles mais temem é que Orobone tome o Porto de Dun Vau”, disse, apontando para os Estados que se avizinhavam no mapa. “Se isso acontecer, todas as frotas que saírem de Centraal serão interceptadas — e conforme descobrimos, os rebeldes estão utilizando as rotas do Golfo para conseguir armas da Casa Norte. A Marquesa de Dun Vau é uma moeda de troca perfeita: é tudo o que eles precisam para garantir um acordo de neutralidade — Centraal permanece imune, e Orobone domina o território.”

“Não compreendo como isso pode resolver os nossos problemas.”

“É um jogo muito mais simples do que parece, basta que cada um interprete bem a sua parte”, a inquietação ressurgiu no semblante de Freimilor, sinal de que ele próprio duvidava de suas palavras. “Você não foi tão cuidadosa na sua vinda para Centraal — mais cedo recebi a informação de que um olheiro lhe reconheceu a galope, durante sua passagem por Bruein. Os rebeldes devem estar confiantes de que a informação procede — provavelmente não estão vindo em grande número, mas trazem seus mais bravos. Minha ponte principal está levantada, e vieram comigo alguns homens: eles estão espalhados pelas torres de vigia. No entanto, a entrada do meu escoadouro está aberta— torço para que eles entrem por lá. Quando iniciarem o assalto, você faz a sua mágica acontecer: cerque-os com chamas. Tochas serão acesas no andar superior, e tudo o que você precisa fazer é controlar a extensão do fogo, parecendo acidental. Em seguida, meus homens fecham o cerco, prendem os rebeldes, os entregamos à Guarda Real e finalmente me desvinculo deles. Quanto a você, uma nova posição de destaque lhe será dada — a de uma senhorita que sofre perseguição, e sob o pretexto de asilo político, será levada ao lugar mais seguro de Mul Wargengata: Vyrydyen.”

Selena tamborilou os dedos sobre os braços da cadeira, sentindo um forte cheiro de gordura impregnando o ar. O plano de Freimilor o servia como uma luva, porém muitos ajustes ainda seriam necessários para atender às suas demandas. Ela fitou para além dos coloridos vitrais do salão, onde a lua exibia seu quarto crescente atrás das cortinas. A coroação de Akalina seria no completar de duas luas cheias, e cada avanço sobre a face oculta esmagava o seu tempo.

“Aceito sob uma condição — não haverá mortes esta noite. Mantenha seus homens a uma distância segura, e todos os rebeldes, sem exceção, serão entregues à Guarda Real.”

“Excelente, sua condição é uma ordem!”, Freimilor exaltou, saltando da mesa. “Agora só precisamos aguardar a chegada deles. Isso pode custar a noite inteira, mas se concretizará antes do sol nascer”, ele afirmou, estufando o peito. Um de seus subordinados emergiu do vão das escadas, ao fundo do aposento. Ele adentrou ao salão com andar urgente, segurando um tubo de marfim lacrado com cera.

“Aqui está o relatório que o senhor pediu”, disse, entregando o tubo ao mestre, com parcimônia.

Freimilor o apanhou, analisando seu brasão de albatroz gravado no lacre. “Está tudo pronto no andar de cima?”

“Sim, senhor. A trilha já está embebida com óleo, e as doze tochas estão sendo acesas. Um dos nossos manterá vigia na torre sudoeste e aguardará o sinal.”

“Perfeito. Lembre-se, absolutamente tudo será dado ao meu comando. Está dispensado por agora”, Freimilor determinou, e o servo se retirou com uma mesura.

Ele puxou novamente uma cadeira, desviando-se dos cacos de louça, e deixou seu corpo cair sobre ela. “Aqui contém todas as informações que interceptamos nas últimas semanas”, levou o tubo para o centro da mesa, entregando-lhe. “Se cair em mãos erradas”, ele começou, lançando um olhar firme para Selena sob a luz dos archotes, “este pergaminho destruirá toda a frágil teia que sustenta a política do Leste.” Ele fez uma longa pausa, atormentado por uma faísca de curiosidade. “Você disse que Golder e Padinem estavam rumando Oeste adentro. Creio que Padinem tenha partido para Minevata, como é tradição de sua linhagem. Mas qual seria o destino de Golder? Todos da linhagem do Fogo Ascendente pertenceram à Casa Norte, ornados com agapynkes.”

“Golder julga que o Planalto apodreceu por dentro, e confesso que não posso discordar”, ela arfou, cansada. “Seu destino é Farlesse, a aldeia que até a própria Praga parece ter esquecido. Em sua última visita, contou-me que é um lugar ainda isolado, e que os homens de Farlesse conservam uma inocência que não se vê em nenhum outro canto do continente.”

Freimilor coçou o queixo, irrequieto. “Golder soube das últimas notícias de Farlesse, antes de partir?”

“Você é a nossa principal fonte, e até onde me recordo, nenhum relatório sequer mencionou Farlesse em suas linhas.”

Ele afirmou com a cabeça, reconhecendo o próprio erro através de um sorriso acusador. “É verdade. Quando ouvi esses rumores, não lhes dei a devida importância. Muitos conflitos começaram a eclodir após o decreto de Guinche Machae, e concentrei minha atenção neles. Afinal, jamais imaginei que Farlesse pudesse servir a qualquer propósito, depois de séculos em isolamento profundo. Mas o que escutei, há muito tempo, é que dois irmãos — cujos sons me escapam — estavam fechando um acordo com Orobone. Diziam que eram donos de minas subterrâneas em Farlesse, riquíssimas em carvão e ferro. Ainda assim, deve haver algo mais tácito nesse tratado inocente. Pouco depois desses boatos, os homens de Orobone já marchavam para o campo de batalha com aquelas armaduras impenetráveis.”

“Seja o que for, Golder já deve suspeitar de alguma coisa. Isso explicaria a Impressão que ele fez mais cedo”, Selena especulou. A sua relação com Golder nunca fora marcada por afeto, mas havia algo em Golder que ela reconhecia com respeito — a capacidade de honrar sua palavra.

Os dois ficaram em silêncio, e apenas se ouvia o silvo dos ventos atravessando as frestas dos vitrais, fazendo com que as compridas cortinas esvoaçassem. Selena pressentiu o fogo crescendo no andar superior.

“Eu sentirei muito a sua falta”, Freimilor declarou, debilitado.

Selena abaixou o olhar, deixando um suspiro ruidoso sair pelas narinas. “Não gostaria de levar esta conversa para um tom emotivo, ainda mais às vésperas de um sequestro.”

“Eu sei, eu sei”, ele murmurou, arrependendo-se por não ter se contido. “É muito difícil para os que ficam. Você fez parte da minha vida desde cedo, e não sei como será não tê-la mais por aqui”, ele deixou um riso frouxo escapar. “Ainda se lembra de quando nós íamos juntos até o território Giamate? Eu mal tinha pelos no rosto. Você me deixava correr pelas trilhas de Sanorévia, e quando algum ser se incomodava com a minha presença, você falava em língua antiga, tão mansamente… e todas as criaturas pareciam se curvar diante a sua graça.”

Nas paredes de pedra, os archotes escorregaram em labaredas trêmulas. As flamas logo se amainaram em véus melancólicos, à medida que Selena mergulhava no torpor das lembranças. Seu olhar se perdeu no brilho da aurora de Sanorévia, nos cantos dos seres alados, e no sorriso de seus pupilos ao lhes lambuzar as bochechas com tinta de sementes. O cansaço dos séculos lhe sufocava o peito: cada vida ceifada por sua lança apenas tornava mais urgente o desejo de que tudo chegasse ao fim.

“Você era um bom parceiro — insubmisso, mas de coração puro,” sua voz saiu tão branda que quase se confundiu com o vento lá fora. “Agora sua alma vive cercada por regras e se esqueceu de ouvir a voz que o guiava.”

Freimilor ajeitou-se no assento, ressentido. “Diga-me então: se não fosse pela minha posição social, como poderíamos avançar para Vyrydyen? Não viverei por mais duzentos anos, Selena. Vocês, guerreiros, tiveram séculos para polir suas estratégias. Em apenas trinta anos, eu os posicionei no Leste como ninguém conseguiu em eras”, suas veias das têmporas saltaram.

Selena não respondeu de imediato. Por um momento, reconheceu no semblante dele o mesmo homem indomável que outrora desafiava seus conselhos. Talvez devesse conceder mais um voto de razão à Golder — ele alertara que Freimilor não agia por honra à Ordem de Nhanduri, mas pelo medo de que a Praga o consumisse. “Acho que você realmente superou todos nós.”

Outro longo período de silêncio se sucedeu. Freimilor dispensou a mesa, e se dispôs a caminhar em círculos pelo salão vazio. Seus pensamentos gritavam tão alto entre as orelhas que a guerreira poderia escutá-los. A noite avançava pelos vidros amarelos e azuis, e a lua já atingia seu ápice no meridiano. Ela aprendera a passar muito tempo em introspecção durante seu cárcere nas Ilhas Intermédias. O vazio de palavras e ações não lhe incomodava mais, e podia permanecer ali, imóvel, o quanto fosse preciso.

No entanto, um estalo seco, solitário e contido, ressoou acima de sua cabeça.


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