Daylight

15 Capítulo Quatorze


Notas iniciais
Oi, moças. Demorei, eu sei, mas... algo me diz que vocês vão gostar deste capítulo! Muitas revelações haha Leiam a N/A, ok?

Durante toda a festa, ela não conseguiu parar de pensar no detetive Cullen — por mais que tentasse. Mesmo quando estava sendo apresentada a um amigo do pai e tentava começar uma conversa com alguém, ela se pegava olhando o salão, à procura do detetive.

Às vezes, ela o achava sozinho, parecendo perdido em seus próprios pensamentos. Outras, ele ou estava conversando com alguém…

Ou estava olhando para ela.

Em algum momento da noite, Edward praticamente se isolou, seus olhos nunca deixando Isabella. Ela o sentia a olhando mesmo quando tentava muito conversar com alguém, ou quando circulava pelo salão.

E então, algum tempo depois, quando ela olhou para cima, ele tinha desaparecido.

Seus olhos percorreram o salão, esperando encontrá-lo perto dos pais ou da irmã, mas não havia sinal do detetive. Ela pensou que talvez ele tivesse ido ao banheiro ou algo assim, mas quando ele não voltou a aparecer, ela sabia que ele tinha ido embora.

– Bella?

A morena piscou e balançou a cabeça algumas vezes, voltando a sua atenção para Emmett, que quase nunca havia deixado o seu lado durante toda a noite. Ele não a fitava, porém. Seus olhos estavam do outro lado do salão, e quando Isabella seguiu seu olhar, ela encontrou Rosalie conversando com a mãe dela.

– Você a conhece? — ele indagou.

Isabella encolheu os ombros.

– Eu fui apresentada a ela mais cedo — respondeu. — E… bem, eu já…

– Sim, eu sei — ele a cortou, sem esperar que terminasse de falar. — Ela sofreu uma tentativa de sequestro. Eu vi as reportagens… Eles falaram do detetive Cullen, na época, mas… eu meio que não prestei muita atenção nessa parte.

Isabella sorriu um pouco ao olhar o amigo.

– Por que você não vai falar um pouco com ela? — perguntou.

Emmett a olhou durante algum tempo, balançando a cabeça de forma negativa.

– Não, é melhor não — murmurou. — Acho que vai ser estranho eu chegar lá e me apresentar… Ela nunca me viu na vida.

Isabella revirou os olhos, ainda sorrindo, mas não disse nada. Por mais que quisesse, ela sabia que não tinha coragem o suficiente para interromper a conversa dos Cullen e apresentar o amigo. Ela não os conhecia o suficiente, afinal.

E, também, embora ela não quisesse admitir que havia pensado nisso, Edward não estava por perto.

Pela primeira vez desde que seu pai havia começado a ajudar a promover esses encontros, Isabella não deu nenhuma desculpa para ir embora. Ela ficou ali um tempo razoável, sabendo que ela era a principal causa deles ocorrerem, em primeiro lugar. Seus pais pareciam surpresos toda vez que ela aparecia ao lado deles e conversava um pouco, o que a fez sorrir.

Pela primeira vez, ela não estava muito incomodada em ficar ali.

Era por uma boa causa, afinal.

Porém, quando o sono começou a tomar conta de si e aquele barulho tornou-se demais, ela se despediu dos pais e de algumas pessoas, alegando a verdade desta vez: ela estava cansada.

Seguiu para a sua casa, desejando um banho quente e cama. Viu-se ansiosa para a segunda chegar logo e ela poder voltar a trabalhar, porque, sinceramente, por mais que fosse bom ficar de folga algumas vezes, ela amava o seu trabalho.

Então, depois de tomar seu banho e deitar, ela pegou-se pensando no detetive Cullen. Por que ele havia ido embora mais cedo, sem que ela percebesse?

Ela balançou a cabeça, tentando afastar tais pensamentos, não aguentando mais pensar nele todos os dias. Fechou os olhos e se aconchegou na cama, um bocejo escapando dos seus lábios.

Ela estava, definitivamente, ansiosa para que a segunda chegasse e ela tivesse que voltar ao trabalho. Manter-se ocupada a impediria de ter tais pensamentos, afinal.

Ou ajudaria, pelo menos.

Sorrindo um pouco, a morena suspirou pesadamente, antes de deixar que o sono tomasse conta de si.

No outro dia, ela levantou mais cedo do que o de costume, despertando de um pesadelo. Mais um dos seus pesadelos. Querendo esquecê-lo, ela procurou se ocupar naquela manhã. Sentou-se à mesa e focou seus olhos em um livro, mas por mais que tentasse ler, ela não conseguia se concentrar.

E, antes que percebesse, ela estava se lembrando do passado.

Ela engoliu em seco e se encolheu contra a cama, assim que ouviu o barulho dos passos dele na escada, sabendo que ele viria falar com ela. Fazia dois dias que ele tinha sumido da casa, e Isabella tinha aproveitado para ver se conseguia abrir a porta do porão.

Mas ela, obviamente, não tinha obtido sucesso.

Ela se encolheu contra a parede, uma reação quase automática, quando ouviu o barulho de chave abrindo o cadeado. Procurou conter-se, no entanto, lembrando-se do seu plano de conquistar a confiança dele.

Ela sabia que seria mais difícil de conseguir isso se ela se mostrasse o tempo todo com medo.

– Oh, vejo que está acordada. — Ele abriu um sorriso. — Como estamos hoje, Isabella? Podemos conversar?

Embora relutante, ela assentiu, querendo se mostrar confiante, como se ela não se sentisse afetada pela presença dele. Ele pareceu não perceber o estado dela — e se percebeu procurou não demonstrar -, caminhando até o canto do quarto e pegando uma cadeira. Ela o observou arrastá-la para perto do colchão onde dormia e se sentar ali, cruzando as pernas, o sorriso nunca deixando o seu rosto.

– Hoje é o dia de você aprender uma nova lição. — Ele não conseguia esconder o orgulho em sua voz. — Devo dizer que estou bastante impressionado com você, Isabella. Você não tentou fugir, você tem escutado as minhas lições… e embora eu saiba que você cometeu alguns erros aqui e ali, você tem aprendido bem.

Ela assentiu, sem saber o que dizer, a repulsa crescendo nela. Ela sabia que, caso conseguisse sair dela, se sentiria culpada por fazer tudo o que ele mandava e agir daquela maneira. Mas lutar não tinha dado certo para as outras garotas, certo? Ela não queria acabar morta também.

Ela queria, mais do que qualquer coisa naquele momento, ir embora. Só queria voltar para casa, para os seus pais. E esperava que, um dia, eles pudessem perdoá-la por ela estar agindo desta maneira.

– Então, vou começar a contar um pouco sobre mim — ele abriu um sorriso. — Tinha pensado em lhe dizer meu nome, mas acho que vou deixar isso para outro dia, quando eu tiver mais confiança em você e quando eu souber, definitivamente, que você não irá fugir, tudo bem?

Novamente, ela assentiu, sem saber se devia dizer alguma coisa. E, caso tivesse, sem saber o que dizer.

– Eu fui criado em uma cidade pequena, sabia, Isabella? – Ele começou, seus olhos não nela mais. Ele parecia completamente perdido em pensamentos. — A minha mãe e o meu pai trabalhavam em uma fazenda, e eram cheios de filhos. Eu era o terceiro entre cinco… Eles não tinham muito tempo para me dar atenção. Ao invés disso, eu sempre estava ajudando… Escovando cavalos, limpando estábulos…

“Um dia, uma mulher surgiu na fazenda… Bem bonita e elegante, devo dizer. Ela tinha os olhos azuis mais profundos e lindos que eu tinha visto na vida, e eu, em meus recentes quinze anos, admito que tive uma pequena queda por ela no começo…”

Ele parou por um momento, parecendo se lembrar do dia. Ele não sorria, porém, embora aquela parecesse uma memória feliz para ele. Ao invés disso, seu rosto estava sério, e quando Bella olhou para as mãos dele, elas estavam fechadas em punho no seu colo.

– Eu era apenas o filho dos empregados — continuou. — Mas um dia ela perguntou a minha idade e quando descobriu que eu tinha completado quinze anos recentemente, ela pareceu muito interessada… Confesso que fiquei feliz por ela estar prestando mais atenção em mim do que em meus irmãos. Era a primeira vez que isso acontecia, afinal.

“Com o passar do tempo, ela foi se aproximando mais… Meus pais gostavam dela, achavam que ela era muito simpática. E quando ela disse que eu tinha potencial para crescer muito na vida, eles deixaram que ela me trouxesse para capital para estudar.”

Ele riu e balançou a cabeça, antes de voltar seus olhos para Isabella.

– Ela nunca me colocou em nenhuma escola — murmurou. — Ao invés disso, eu fui obrigado a vê-la usar diversos tipos de peruca, tentando se disfarçar, eu descobri mais tarde, para pegar outras crianças e fazer conosco o que hoje estou ensinando a você.

Isabella arregalou os olhos e engoliu em seco, sem acreditar no que estava ouvindo.

– Eu a odiei durante muito tempo, querida Isabella — ele riu. — Mas hoje eu a entendo. E eu espero que, com o passar do tempo, você me entenda também.

Assim que ele terminou de falar, ele se colocou de pé, deixando a cadeira ali. Ele sorriu para ela mais uma vez e saiu do quarto, trancando a porta atrás de si, sem dizer mais nada.

O barulho da campainha tocando tirou-a de seus devaneios, fazendo-a suspirar. Ela se colocou de pé e apertou o roupão contra o seu corpo, antes de ir olhar quem estava chamando. Um pequeno sorriso nasceu em seu rosto quando ela viu o detetive Cullen ali, o pesadelo e a lembrança esquecidos — assim como o fato de que ela estava usando apenas um roupão por cima do seu pijama.

Ela abriu a portão para ele rapidamente, e eles trocaram algumas palavras.

Dentro de casa, de repente ciente de como estava vestida, ela pediu licença para se trocar. Não querendo deixar o detetive esperando por muito tempo, Isabella rapidamente tirou o seu roupão e colocou algumas roupas, sentindo-se ansiosa, embora ela não soubesse o porquê. Depois de pronta, respirou fundo e fechou os olhos por um momento, querendo se acalmar. Só então, ela se dirigiu para a sala.

E o que ela viu fez com que ela perdesse o fôlego.

O detetive Cullen estava olhando as suas fotos. Fotos que ela tinha pensado que tinha escondido muito bem. Ela ficou parada ali por um momento, vendo-o olhar cada uma delas. Ela sentiu a vergonha tomar conta de si não muito bem.

Ele estava vendo as marcas. Ele estava vendo o que ele havia feito a ela durante o tempo que tinha ficado desaparecida. Edward sempre estivera certo de que Bella tinha sido, sim, sequestrada, por mais que a morena tivesse negado isso por anos. Mas agora… agora ele tinha provas que não eram suas palavras.

As fotos diziam tudo.

– Edward… — ela sussurrou, sem pensar direito no que estava fazendo.

Na verdade, Isabella estava com medo de ele levantar os olhos e ela ver o que sempre via quando as outras pessoas descobriam quem ela era. Ela não queria ver pena, não queria vê-lo tentar consolá-la.

Não. Ela definitivamente não queria aquele tipo de sentimento vindo dele.

Mas quando ele enfim levantou o rosto, o que ela leu em seus olhos, pegou-a completamente de surpresa.

Seus olhos verdes estavam fixados nela e não havia nem um pouco de pena ali. Ao invés dela, havia raiva, ódio… Não pena, não dó.

Ele estava furioso.

– Precisamos conversar, Isabella — ele rosnou. — Agora.

Ela ofegou e se abraçou, desviando os olhos imediatamente dos dele, sem saber o que dizer. A morena havia, durante esse tempo que eles se conheciam, dado algumas pistas — mesmo que tivessem sido poucas -, conversado com o detetive sobre coisas que ela nunca tinha falado com ninguém. Entretanto, ele nunca tinha sido tão direto, ele nunca tinha falado desse jeito com ela.

E, daquela vez, ela sabia, de alguma forma, que não conseguiria fugir. Ele a pressionaria, ela sabia.

Ele iria querer saber o que aquelas fotos significavam.

Ele descobriria que ele estava ameaçando-a. Ele ligaria os pontos, saberia que era por isso que ela nunca mais tinha dito nada, que ela estava fugindo.

E Bella não tinha a mínima ideia do que iria fazer ou dizer.

Ela abriu e fechou a boca diversas vezes, mas nada saía; ela não conseguia pensar em uma desculpa.

– Por favor, Isabella — ele disse, algum tempo depois, quando viu que ela não diria nada. — Por favor, não conte uma mentira para mim. Por favor…

Ela engoliu em seco e cruzou os braços contra o peito, desviando os olhos dele. Ela abriu a boca novamente, sabendo que deveria dizer algo, mas antes que chegasse a falar uma palavra, o seu celular tocou, fazendo-a suspirar de alívio.

– Só… um minuto — ela murmurou, antes de correr para o seu quarto.

Mas não levaria só um minuto.

Era uma ligação do hospital, querendo saber se ela podia cobrir um colega que havia ligado alegando que estava se sentindo mal. Geralmente, Isabella não ligava de trocar plantões com os colegas de trabalho, mas, naquele dia, ela se sentiu ainda mais agradecida.

Porque lhe daria tempo para pensar em algo para dizer para o detetive Cullen, embora ela tivesse certeza que ele não esqueceria.

E ela podia apostar que ele estaria esperando por ela quando ela voltasse do trabalho.

– Eu, hm, tenho que ir. — Ela voltou à sala, ainda sem olhá-lo nos olhos. — Preciso ir ao hospital…

Ela sentiu os olhos de Edward nela, mas ela não o fitou, esperando, seu corpo todo tenso, que ele dissesse alguma coisa.

– Você sabe quando estará de volta? — ele indagou, de repente, pegando-a de surpresa.

– Ahn? Ah, provavelmente à noite — respondeu. — Eu não sei…

Ele assentiu.

– Nesse caso, se não se importar, vou esperar por você aqui — ele disse. — Na verdade, Isabella, eu gostaria muito de acompanhá-la até o hospital, porque eu não quero correr o risco de você ser ameaçada novamente e começar a se esconder de todos.

Ela engoliu em seco, sabendo que tinha de dizer algo, mas não encontrando a sua voz. Ao invés disso, a morena somente assentiu, antes de correr para o quarto para se arrumar.

Quinze minutos depois, já pronta, ela deixou que o detetive a guiasse até o carro e a levasse até o hospital.

– Ligue-me quando o seu turno estiver terminando, ok? — ele indagou. E antes que ela pudesse dizer algo, ele acrescentou: — Eu vou estar por perto.

Por mais que Isabella amasse o trabalho, ele não a ajudou a se distrair naquele dia. Ela estava totalmente envolvida com os pacientes quando falava com eles e os examinava, mas assim que ficava sozinha…

Ela não podia deixar de pensar no detetive. E no que ele tinha descoberto naquele dia. E no que aconteceria à noite.

Ela não sabia o que falar. Ela não podia admitir nada…

Ela não podia colocá-lo em risco…

Fiel a sua promessa, ela ligou para ele quase na hora de ir embora, faltando apenas 15 minutos. Porém, quando ela saiu do hospital, ele já estava ali, dentro do carro, esperando por ela. Exatamente como ele tinha dito que faria.

Eles seguiram para a casa da morena em um silêncio tenso. Isabella quis quebrá-lo diversas vezes, mas ela só não sabia, ainda, o que dizer. Ela não queria admitir que apanhava. Não queria admitir que recebia castigos quando não cumpria o que era estipulado.

Mas também não queria decepcioná-lo. O que era estranho. Ela nunca tinha se sentido dessa maneira antes.

Ela perguntou se ele queria alguma coisa quando eles chegaram, mas ele, educadamente, recusou. Ela comeu algum sanduíche, então, sem paciência para preparar algo. Bella não gostava muito de cozinhar.

Depois de tomar um banho rápido e vestir-se com o jeans e a camiseta que usava mais cedo, antes de ser chamada para o trabalho, ela dirigiu-se para sala, encontrando o detetive com as fotos nas mãos, os olhos nela.

– Podemos conversar agora? — ele indagou.

Engolindo em seco, ela apenas assentiu, antes de seguir para o sofá e se sentar. Ela esperou algum tempo, mas logo ele estava se sentando na mesinha à sua frente, fitando-a com atenção. Ela quis desviar os olhos, mas não conseguiu.

– Ele… ele está te ameçando, Isabella? — ele indagou. — Ele apareceu aqui?

Ela quis mentir, ela quis dizer a ele que não, que aquelas fotos eram uma brincadeira. Mas ela se lembrou do pedido dele de mais cedo, de não mentir para ele, e ela não conseguiu.

– Sim — murmurou. — Eu estava indo trabalhar e… ele estava ali fora. Ele não disse quase nada, só que sabia onde eu morava… E alguns dias atrás, ele mandou as fotos. Para eu me lembrar de que ele está sempre me observando, imagino.

Edward pareceu surpreso por ela ter dito, tão facilmente, tais coisas, mas assentiu, sem dizer nada por algum tempo.

– E ele… te batia? — ele indagou. — Aquelas marcas… eu…

A morena olhou para as mãos durante um momento, um sorriso triste em seu rosto. Ela ainda tinha cicatrizes em suas costas dos castigos que levava. Uma lembrança constante da presença dele em sua vida.

– Quando eu não o obedecia, ele costumava me castigar — ela disse, enfim, seus olhos ainda em suas mãos. Naquele momento, ela não tinha coragem para olhá-lo nos olhos. — Às vezes, ele me deixava sem comer por horas, quase um dia todo… Outras, dependendo do humor dele, ele… ele…

– Shhh… — Ele a cortou, segurando a sua mão. — Você não precisa dizer nada, ok? Só respire. Não precisa me contar o que aconteceu.

Ela assentiu.

– Por que você não o denuncia, Isabella? — ele indagou. — Por quê? Nós podemos prendê-lo, com certeza condená-lo à morte…

Ela imediatamente negou, levantando a cabeça para olhá-lo.

– Porque eu não quero afirmar para todos o que aconteceu comigo — ela sussurrou. — Eles podem ter dúvidas, mas ninguém tem certeza, ninguém sabe o que aconteceu, o que passei… Eu só confio em você, detetive… Por favor, não me faça falar para ninguém…

Novamente, ele a interrompeu, segurando o rosto dela entre as suas mãos.

– Shhhhh, por favor, relaxe, ok? — indagou. — Pronto. Isso. Respira.

Ela fez exatamente como ele pediu, sem saber porquê confiava nele tanto assim.

– Vamos por partes, então, ok? — ele indagou. Ela assentiu lentamente, fitando-o com atenção, sentindo seu coração bater a cada momento mais rápido e forte contra o seu peito. — Pode me contar como você fugiu? Pode fazer isso por mim?

Ela parou para pensar durante algum tempo, antes de, lentamente, assentir. Ele soltou o seu rosto então, mas continuou inclinado, nunca desviando os olhos dele dos dela.

– Eu formei um plano em minha mente depois de algum tempo lá — ela começou, sabendo que estava prestes a admitir algo que ela se envergonhava, e muito, para o detetive. — Eu iria conquistar a confiança dele, antes de tentar fugir. Eu não queria acabar como as outras garotas, afinal.

“Com o passar do tempo, eu comecei a aprender a controlar o medo que eu sentia quando ele estava por perto ou, ao menos, escondê-lo melhor. Ele passou a ter mais confiança em mim e começou a me deixar ir para a casa, mostrando onde seria o meu lar permanente quando eu completasse dezesseis anos…”

– Você não ficava na… casa? — Edward indagou, interrompendo-a, sem conseguir acreditar que ela estava contando tudo a ele.

Ele sabia que não podia tornar aquela conversa oficial, não sem a permissão dela e sem ela assinar um documento, provando que ela tinha dito tudo aquilo, mas talvez o ajudasse a chegar até o homem da van de alguma forma.

Ele estava contando com isso, pelo menos.

– Não — ela respondeu. — Ele me mantinha em uma espécie de porão… A porta era de ferro e trancada a cadeado… Não havia como escapar.

Ele assentiu.

Vendo que ele não tinha nenhuma pergunta por agora, a morena esperou por um momento, antes de continuar.

– Quando ele me levava para os passeios na casa, eu comecei a prestar atenção em cada detalhe — disse. — Sem, é claro, deixar que ele se desse conta disso. Eu reparei que havia uma porta dos fundos, mas que ela sempre estava cheia de correntes e cadeados, então não era uma opção. Eu gastaria muito tempo abrindo todos eles e tempo era algo que eu não podia perder…

“Eu sabia que tinha ainda muito o que fazer para ganhar a confiança dele, mas eu fui conquistando-a com o passar do tempo. Ele me fazia olhar as fotos das outras vítimas, a ver os álbuns dele… E ele me contava como ele tinha as matado, como tinha sido… Foi quando eu percebi que ele não estava me dando lições para servi-lo futuramente, para ser inteiramente dele, como ele tinha dito uma vez…”

Ela parou por um momento como se estivesse recuperando o fôlego, antes de olhar para o detetive Cullen e sorrir tristemente para ele.

– Ele queria que eu fosse igual a ele um dia — ela sussurrou. — Ele queria que eu soubesse como eu me sentiria quando eu matasse alguém, como seria tirar a vida de alguém…

– Foi por isso que você se tornou médica. — O detetive interrompeu-a pela segunda vez naquela noite. — Você não suportava a ideia de tirar a vida de alguém…

Ela encolheu os ombros.

– Viver com essa ideia não era fácil para mim, nunca foi — comentou. — Eu sabia que tinha que tentar fazer algo para ajudar as pessoas… É difícil perder um paciente, o que acontece muito, infelizmente, no hospital, mas eventualmente eu sei que fiz tudo o que podia…

Ele assentiu.

– Então, o que mais você pode me contar sobre a sua fuga? — ele indagou, tentando retornar ao assunto.

Havia tantas outras coisas que ele gostaria de saber, mas não queria forçá-la muito naquele dia. Ele sabia que havia um longo caminho a percorrer, mas, aos poucos, talvez ele conseguisse ouvir toda a história dela.

– Ele me obrigava a cozinhar — ela continuou. — Queria que eu aprendesse as receitas favoritas dele… Ele me fazia fazer as suas bebidas favoritas também… me obrigava a prová-las… Um dia, no dia que eu fugi, depois de ter aprendido toda a rotina dele, e quando eu sabia que ele confiava em mim, pelo menos um pouco, eu adulterei a bebida dele um pouco… Coloquei mais álcool do que o necessário.

“Eu já estava ali há meses… ele já confiava em mim o suficiente para não me fazer provar as bebidas mais… E quando ele estava bêbado e dormindo, eu peguei as chaves, abri a porta da frente e corri.”

O detetive Cullen assentiu, espantado com a inteligência dela. Não era qualquer garota, em sua situação, que seria capaz de fazer o que ela tinha feito. Ainda mais sabendo que a sua vida corria risco. Ainda mais depois de passar por tudo o que ela passou e de ela ter esperado tanto tempo. Ter paciência para esperar tanto tempo tinha impressionado Edward.

E muito.

– Eu não sei como fui parar na rua que me encontraram — ela murmurou, tirando-o de seus devaneios. — Mas eu sei que corri durante um tempo…

Ele assentiu. Abriu a boca para fazer algumas perguntas, mas parou assim que notou quão pálida ela estava. Ele resolveu não perguntar mais nada, então, naquele dia.

Isabella tinha feito muito. Muito mais do que ele esperava. O mínimo que ele podia fazer, agora, era deixar que ela descansasse um pouco.

– Certo, Isabella, eu vou deixá-la descansar agora e…

Ela levantou-se imediatamente, seus olhos de repente muito arregalados. Ela segurou o braço do detetive Cullen, pegando-o de surpresa, impedindo que ele se movesse.

– E-eu sei que é demais, mas… — ela engoliu em seco. — Eu não sei se ele está aí fora. Eu não sei quando e se ele ainda me vigia… Será que você pode só… só ficar aqui hoje? Eu tenho um quarto de visitas e…

Nunca tendo a visto desta maneira antes — e querendo, mesmo não admitindo para si mesmo, que ela se acalmasse -, Edward apenas assentiu, sem discutir mais nada. Isabella respirou fundo algumas vezes e fechou os olhos, antes de guiá-lo até o quarto.

– Eu tenho algumas camisas do meu pai aqui — ela sussurrou, sem olhá-lo nos olhos. — Há algum tempo ele e minha mãe ficaram comigo alguns dias, quando a casa deles estava sendo pintada… Se você não se importar de usar…

Ele balançou a cabeça de forma negativa. Isabella lhe deu uma toalha, caso ele quisesse tomar banho, e disse que ele podia ficar à vontade na cozinha, caso sentisse fome, além de dizer que havia uma escova de dentes reserva no banheiro.

– Obrigado — ele murmurou. — Por tudo.

Ela assentiu mais uma vez, antes de sair do quarto e fechar a porta atrás de si. O detetive suspirou pesadamente, antes de se dirigir para o banheiro para um banho longo, ele esperava.

Depois do banho e ter colocado uma das roupas de Charlie Swan, ele se deitou na cama, um suspiro escapando de seus lábios. Ele tinha descoberto tanto naqueles últimos dois dias. Coisas que ele nunca tinha imaginado. Coisas que ele não esperava.

E ele ainda não conseguia acreditar que Isabella tinha passado por tudo isso e tinha conseguido seguir em frente.

Ele nunca conseguiria.

Na verdade, ele tinha passado por um amor perdido, algo que não chegava nem perto do caso dela, e ele ainda não havia superado…

Como ela conseguia? Acordar todos os dias e seguir com a vida, tendo vivido coisas que nenhuma garota de quinze anos deveria viver?

Edward ficou perdido em seus pensamentos, sem conseguir dormir durante horas, organizando seus pensamentos. Ele se aconchegou na cama, algum tempo depois, porque sabia que tinha que acordar cedo, tentando dormir. Antes, porém, que ele fechasse os olhos, ele escutou um grito vindo do quarto de Isabella.

Com o coração batendo forte contra o peito, ele se levantou em um pulo, pegando a arma escondida em sua jaqueta, e andou até o quarto, tomando cuidado para não fazer barulho. Entretanto, assim que abriu a porta do quarto da morena e a viu se debatendo, ele soube que ela estava tendo um pesadelo.

Reviver o que ela tinha revivido naquele dia não devia ter feito bem a ela.

Colocando a arma no criado mudo, ele seguiu até a cama dela e se sentou.

– Isabella? — ele chamou. — Isabella? Acorde… É só um sonho…

Ela se sentou na cama de repente, seus olhos arregalados de medo, sua respiração ofegante. Ela se atirou nos braços do detetive, seu corpo tremendo violentamente.

– Shhh, foi só um sonho… — ele murmurou, acariciando as costas dela. Ele se sentia… incrivelmente bem ali. — Está tudo bem… Shh…

Ela foi se acalmando aos poucos, os tremores e soluços diminuindo com o tempo. Por fim, se afastou do detetive, os olhos ainda arregalados de medo.

– Volte a dormir, ok? — ele murmurou gentilmente. — Está tudo bem… Foi só um sonho…

Ele se conteve quando pensou em perguntar sobre o sonho, não querendo perturbá-la ainda mais. Esperou que ela se deitasse, ainda sem dizer nada, e ficou ali até que viu que ela estava começando a pegar no sono novamente.

Ele começou a se levantar da cama quando viu que ela tinha se acalmado, mas ela segurou o braço dele. Quando ele olhou para ela, seus olhos ainda estavam fechados.

– Fique… — ela sussurrou, tão baixo que ele se perguntou se não tinha imaginado.

Não querendo deixá-la nervosa, ele se moveu para o outro lado da cama e se deitou, por cima das cobertas, seus olhos nunca deixando Bella. Aos poucos, o sono começou a tomar conta dele, assim como dela, e não demorou muito para que ambos estivessem dormindo.

Era a primeira vez que eles dormiam na mesma cama. E também foi a primeira noite que nenhum dos dois teve nenhum pesadelo.

Notas finais
N/A: Eu sei que vocês gostaram desse final, ok? haha. Desde que comecei a planejar a fanfic estava com este capítulo em mente, foi muito bom finalmente poder escrevê-lo! Espero que vocês tenham gostado da leitura tanto quanto eu gostei de escrever (; A beta fazendo pedidos para os dois acordarem de conchinha haha. O que vocês acham? Também querem isso? Não vou prometer não demorar nem nada, porque, como já disse, os capítulos da Daylight requerem mais tempo e cuidado para escrever. São muitos detalhes, e tenho que lidar com a personalidade da Bella e do Edward, sem deixar que os dois se percam e tudo o mais. Aos poucos, como eu já disse, eu vou soltando mais coisas sobre eles. No próximo capítulo, vai ter mais do passado do Edward (;. Então, uma última coisa. A Waiting For You foi concluída e eu postei uma no lugar dela! O nome é Unwritten (http://fanfiction.com.br/historia/437164/Unwritten/) e eu gostaria que vocês dessem uma passadinha lá, que tal? O primeiro capítulo será postado hoje à noite ou amanhã! Enfim, por hoje é só. Obrigada pela paciência de vocês e novamente: espero que tenham gostado! xx N/B: Agora ela não tem mais escapatória, vai ter que se abrir. Não vejo a hora dos dois descobrirem como fazem bem um para o outro. Quem quer que eles acordem de conchinha, toca aqui o/. Bjs, Lu.