Daylight
23 Capítulo Vinte e Dois
Notas iniciais
O detetive soube imediatamente que aquele era o local, mesmo estando escuro. A luz vinda do carro era suficiente para iluminar boa parte dos túmulos, além do fato da reação de Isabella ter ajudado. Ele a sentiu congelar e, logo em seguida, fechar os olhos, parecendo ser incapaz de olhar. Ele sabia que ela seria incapaz de sair do carro também. Ele estendeu a mão e pegou a dela, apertando-a gentilmente, enquanto observava o local, memorizando-o, já que ele pretendia voltar ali com uma equipe pela manhã.
Ali, debaixo daquela terra, estava grande parte das respostas que o detetive procurava.
E ele mal esperava para encontrá-las.
–x-
O detetive Cullen não demorou muito para retornar ao local que Isabella havia mostrado. Por ele, as buscas pelos corpos — e havia muitos, ele tinha certeza disso — começariam naquela mesma noite, mas o ruivo sabia que procurar no escuro seria algo inútil. Por isso, no dia seguinte, assim que ele esclareceu tudo com o seu chefe e conseguiu juntar uma equipe, ele partiu para o lugar, se sentindo a cada segundo mais ansioso.
Ele ainda conseguia se lembrar de como Isabella havia tremido, de como ela agiu à medida que eles se aproximavam do local. Para ela ter coragem para fazer aquilo, ainda mais depois de tudo o que contara... Ela queria ajudar, ele sentia isso.
Só que ela também estava assustada.
Ele a entendia melhor agora também.
Exatamente por entendê-la melhor agora e por saber que não deveria ter sido fácil para ela ter feito tudo aquilo — contado toda a verdade para o detetive e levá-lo àquele local poucos dias depois -, eles não permaneceram naquele terreno por muito tempo. Assim que ele teve certeza de que havia memorizado o lugar, ele a levou de volta para casa, usando o mesmo caminho que ela havia usado. Estacionou o carro no mesmo lugar que ele se encontrava quando eles saíram e a ajudou a sair do mesmo. Isabella ainda se encontrava visivelmente abalada, não parecendo notar que o detetive estava ali.
E embora ele estivesse louco para correr para a delegacia e conversar com o chefe, louco para compartilhar as novidades com ele, ele não fez isso. Ele sabia que não podia deixá-la sozinha naquele momento.
Então, mesmo não sendo muito, ele permaneceu na casa dela naquela noite. Foi uma das noites que ele menos dormiu. Parecia que a cada vez que ele fechava os olhos, Isabella acordava, assustada, às vezes gritando, devido a um pesadelo. Quando amanheceu, depois de deitá-la na cama mais uma vez, ele telefonou para Emmett, pedindo que ele ficasse com Isabella enquanto ele ia até a delegacia. Mesmo tendo que ir trabalhar — e começar a desmascarar Royce de uma vez por todas -, Edward sabia que não podia deixá-la sozinha naquele estado.
Ele só saiu da casa da morena após Emmett chegar, fazendo-o prometer que não deixaria Isabella sozinha nem se ela implorasse.
– Ela vai precisar muito de nós nesses dias, Emmett. — O detetive disse, não querendo revelar muito. — Se eu descobrir o que estou achando que vou descobrir... a vida dela vai virar um caos.
Embora confuso, Emmett não questionou o que Edward queria dizer, vendo que o detetive parecia apressado. Novamente, ele prometeu que não sairia da casa de Isabella, e observou o detetive partir, torcendo para que ele tivesse uma pista que levasse à polícia a capturar quem tivesse machucado a sua amiga. Muito tempo havia se passado. Isabella precisava ver o caso ser solucionado e fechado, para que pudesse seguir em frente sem ter medo do passado.
O trabalho no terreno mostrado por Bella não demorou a ser iniciado. Não podendo fazer muito para ajudar, Edward apenas ficou observando, seus olhos várias vezes observando o local com atenção. Royce havia o enganado uma vez e havia lhe dado um tiro quando Edward descobrira a casa onde ele mantinha as garotas que sequestrara. Mas caso ele estivesse por perto observando a polícia fazendo o seu trabalho...
Edward o pegaria. Essa era uma promessa que ele havia feito a si mesmo.
Cerca de duas horas haviam se passado desde que tudo começara eles escutaram "encontramos um corpo" pela primeira vez naquele dia. O detetive correu até o local, encontrando um esqueleto pequeno ali. Ele não entendia absolutamente nada de decomposição de corpos e nem de anatomia, mas ele sabia que aquele corpo não podia pertencer a uma pessoa adulta.
E o perito confirmou isso para ele algum tempo depois, quando mais três corpos já haviam sido descobertos.
– Com base no estado dos ossos e tudo o que eu observei — o perito começou, parado em frente a uma mesa, onde o esqueleto havia sido colocado -, eu diria que esse esqueleto pertenceu a uma garota de quinze anos, no máximo. E deve ter sido enterrado há pouco mais de doze anos.
Doze anos, o detetive pensou. Essa era uma das vítimas de Royce. Ele não conhecia Isabella nessa época.
Dos outros três corpos encontrados, dois deles pertenciam a uma mulher e um a um homem, todos com idades adultas — embora as idades fossem diferentes. No final daquele dia, sete corpos haviam sido encontrados, o que decepcionou o detetive um pouco.
Sinceramente, ele esperava que fossem encontrar mais.
Muitas garotas tinham sido dadas como desaparecidas há muitos anos e muitas delas não haviam sido encontradas. O detetive esperava que fossem encontrá-las ali, caso fossem vítimas de Royce.
Mas não encontraram.
Quando escureceu, as buscas foram dadas como encerradas. Grande parte do terreno tinha sido investigada e o chefe do detetive não esperava que eles fossem encontrar algum outro corpo. Apenas para que não restassem dúvidas, porém, uma equipe voltaria e investigaria no dia seguinte.
Confuso por não ter encontrado mais corpos, o ruivo partiu para a delegacia, sabendo que era tarde demais para ir à casa de Isabella. Ele havia ligado para Emmett, no entanto, apenas para verificar como ela estava — e se algo havia acontecido no decorrer do dia. E a resposta do advogado não tranquilizara o detetive, como ele esperava que fosse acontecer.
– Ela passou o dia no quarto… — Emmett havia dito, praticamente sussurrando; Isabella deveria estar por perto. — Quase não dormiu… O telefone não podia tocar que ela agia como se algo ruim tivesse acontecido ou fosse acontecer… E ela não parou de olhar pelas janelas, também. Quase como se estivesse esperando que alguém surgisse… Sinceramente, Edward, eu nunca a vi assim…
O detetive soltou um suspiro frustrado e apoiou a cabeça nas mãos, largando a caneta que segurava. Quando ele ouvira Emmett dizer aquelas palavras, ele quis imediatamente ir até à casa de Isabella, mas se conteve.
Ela estava dormindo e ele tinha trabalho a fazer.
Entretanto, mesmo já sendo mais tarde, ele não conseguia se concentrar no trabalho. Toda vez que ele tentava focar sua atenção nos relatórios que estava lendo, ele se lembrava de tudo o que Isabella havia feito nos últimos dias e não conseguia deixar de pensar em como aquilo tudo deveria estar a afetando.
Ele não entendia porque se sentia dessa maneira, tão protetor com ela. Não entendia essa necessidade de mantê-la a salvo acima de tudo. Porque sim, inicialmente ele queria a ajuda dela apenas para colocar na prisão o homem que fizera mal a Rosalie, mas agora…
Edward sabia que ele já não pensava só nisso. E ele nem mesmo tentava negar que a sua motivação era outra, muita embora ele não soubesse dizer o verdadeiro motivo de estar dando tudo de si naquele caso.
Sabendo que ele não conseguia mais trabalhar naquele dia, o ruivo pegou o seu casaco e saiu da delegacia, acenando para alguns colegas de trabalho enquanto se dirigia para a saída. O dia seguinte seria o seu dia de folga, então tecnicamente ele não precisava vir até à delegacia, mas ele sabia que não conseguiria ficar longe das investigações e acabaria passando por lá.
Ao invés de se dirigir para a casa, Edward foi até a casa dos pais. Ele sempre compartilhava algumas coisas da investigação com Carlisle, mais para ouvir seus conselhos do que qualquer outra coisa. O detetive sabia que não deveria estar fazendo aquilo, mas ele gostava de conversar com o pai.
E ele sabia que Carlisle gostava de saber o que estava acontecendo.
Ele estacionou em frente à casa dos pais e andou até a porta da frente, tocando o interfone. Não demorou muito para que a porta fosse aberta e sua mãe aparecesse, um sorriso nascendo no rosto dela quando viu quem estava ali.
– Querido! — ela o abraçou. — Vamos, entre! Você não vem aqui já há algum tempo…
Edward sorriu enquanto escutava Esme falar as mesmas coisas de sempre, antes de empurrá-lo para a cozinha e obrigá-lo a comer algo — porque, de acordo com ela, ele estava muito magro. Eles conversaram durante um tempo, sem falar em nada sério demais, antes de Esme, ainda sorrindo, mencionar a melhora de Rosalie.
Edward não pôde deixar de sorrir novamente ao escutar a mãe dizer aquilo.
– E onde ela está, falando nisso? — indagou. — E o meu pai?
– Rose foi passar uma noite na casa de uma amiga — Esme comentou. — E o seu pai estava trabalhando, mas já saiu do hospital… Ele deve estar em casa a qualquer momento.
Depois de ter comido e de ter limpado a pequena bagunça que Esme havia feito, Edward comentou com a mãe que esperaria o pai no escritório, já que precisava conversar com ele. Acostumada com as conversas entre pai e filho, ela não perguntou, apenas sorriu e disse que mandaria Carlisle até lá quando ele chegasse.
Depositando um beijo no topo da cabeça da mãe, ele se dirigiu até o escritório, então, ansioso para compartilhar as últimas novidades com o pai.
Ele levantou a tela do notebook e abriu o Google, pensando em pesquisar sobre a família de Royce — embora não tivesse ideia do que pesquisar. Pelo o que Isabella havia dito, a família dele toda estava morta. Se eles trabalhavam em uma fazenda…
Devia haver alguma coisa sobre essa família em algum lugar.
Ele não teve muita chance de pesquisar, no entanto. Mal havia digitado as palavras no Google e aberto algumas notícias de jornais — nenhuma sendo aquela que ele procurava — e a porta do escritório foi aberta, revelando Carlisle.
Eles se cumprimentaram rapidamente, antes de se sentarem. Conversaram durante alguns minutos — o pai falando um pouco sobre o trabalho no hospital, Edward comentando a sua rotina -, mas a conversa não durou muito. Logo, o detetive estava falando um pouco sobre as últimas descobertas para o pai — o tanto que ele podia, pelo menos.
Como sempre, foi bom poder conversar com Carlisle. Embora tenham passado por um momento difícil na adolescência do detetive — mais precisamente quando ele descobrira que Esme não era sua mãe biológica, como sempre havia pensado que era -, desde que tudo no exército havia acontecido, Edward e Carlisle haviam se aproximado de uma forma que o detetive nunca julgara que seria possível. Ele sabia que podia confiar no pai.
Depois de cerca de uma hora, eles finalmente acabaram de conversar. Edward abriu a boca e a fechou diversas vezes, querendo contar ao pai sobre Isabella e como ela havia reagido quando o levara até o local onde os corpos haviam sido enterrados. Mas ele não conseguiu.
E ele não conseguiu entender o porquê.
Depois dos dois se juntarem a Esme mais uma vez e o detetive passar um tempo com os pais, ele se despediu, sabendo que era tarde e que precisava ir para casa. Ele sabia que teria longos dias dali para frente — e ele não queria nem pensar em como seria a vida de Isabella quando Royce descobrisse que sabiam sobre os corpos da família dele.
– Eu volto em breve, mãe. — Ele abraçou a mãe uma última vez, antes de partir para o pai. — E eu te ligo se algo acontecer, ok?
Ele se virou, então, puxando a chave do carro do bolso. Esme se afastou da porta, comentando com Carlisle que queria fazer umas últimas coisas antes de ir dormir, mas o médico não a escutou muito bem. Ele permaneceu parado na porta durante um tempo, um suspiro escapando de sua boca.
Ele tinha certeza de que o filho ainda não havia percebido nada, mas Carlisle havia notado a forma que Edward agia quando falava de Isabella. Ele torceu para que Isabella se sentisse da mesma maneira e que nada desse errado.
Ele não suportaria ver seu filho sofrer outra vez.
_
O dia foi… difícil.
Isabella acordou cedo — se é que ela realmente havia dormido naquela noite -, mas não quis sair da cama. Ela estava cansada e sabia que caso tentasse conseguiria dormir mais… Só que ela não queria nem mesmo tentar fechar os olhos.
Os pesadelos eram horríveis.
Ela ainda conseguia se lembrar de como havia sido quando Royce lhe contara dos pais, quase como se tivesse acontecido ontem. Ela se lembrava das lágrimas que caíam do seu rosto enquanto ela cavava o túmulo da mãe dele. Ela ainda conseguia sentir o cheiro de terra e se lembrava da sensação delas em suas mãos — e em como ela se lavara repetidas vezes naquele dia, na vã esperança de conseguir se sentir mais limpa.
Ela tentou não deixar que essas lembranças invadissem sua mente, mas era impossível contê-las. A cada vez que ela fechava os olhos e deixava o sono tomar conta de si…
Era automático.
E ela não conseguia fazer nada para impedir isso.
Esfregando as mãos no rosto, a morena suspirou. Estava exausta e daria tudo para conseguir dormir, nem que fosse por algumas horas. Isso não seria possível, porém. Ela sabia que Emmett estava ali a pedido de Edward e sabia que seu amigo estava preocupado com ela, mas não conseguiu dar muita atenção a ele também.
Ela escutou o telefone tocar e deu um pulo, saindo do quarto às pressas. Ela não sabia o que esperar quando o telefone tocava… E se fosse ele, a ameaçando? Ou pior… e se fosse alguém dizendo que algo havia acontecido com seus pais ou Edward?
Ela não saberia lidar com mais essa culpa.
Era demais para uma pessoa só.
– Era engano, Bella. — A voz de Emmett tirou-a de seus devaneios. — Por que você não se senta um pouco aqui na sala? Eu posso fazer algo para você comer se quiser…
Isabella balançou a cabeça rapidamente e murmurou uma desculpa qualquer, antes de voltar para o quarto. Ela desejou que o dia passasse rápido, desejou que o detetive fosse logo até a casa dela.
Isabella sempre se sentia mais segura quando ele estava por perto.
Tentando se distrair, ela tomou um banho longo, já à noite, mas isso só serviu para deixá-la mais exausta ainda. Ela se deitou um pouco, não aguentando mais ficar andando de um lado para o outro no quarto.
E logo estava dormindo…
As lágrimas escorriam pelos olhos da morena e as suas mãos tremiam, mas Royce não parecia se importar com nada disso. Ele continuava ao lado dela, observando-a realizar o trabalho, a arma na mão.
Isabella ponderou parar e implorar para que ele não a fizesse fazer aquilo, mas ela não conseguia. Ela já havia tentado algumas vezes, desde que percebera o que ele a obrigaria a fazer, mas ele foi insistente, dizendo que ela se acostumaria com o tempo, que ele também havia chorado na sua primeira vez.
– Você chegou mais longe do que qualquer uma, Isabella. — Ele havia dito, segurando o queixo dela firmemente entre as suas mãos. — Não me desaponte agora.
Ele havia a acordado cedo naquele dia. Acostumada com isso, Isabella agora conseguia esconder o medo que sentia cada vez que ele se aproximava. Afinal, fazia pouco mais de dez meses que a morena estava ali — algo que ela sabia graças ao calendário que ficava na cozinha dele — e seu plano continuava a todo o vapor. Ela conseguira coletar muitas informações nesses meses que ficara ali e sabia que só precisava da oportunidade perfeita para colocar seu plano em ação.
Ela só não podia deixar completar 12 meses ali. Porque agora, ela sabia o que aconteceria no seu aniversário de 16 anos.
Royce a havia feito tomar um banho e vestir uma roupa velha, o que ela estranhou, mas não fez nenhum comentário. Ela havia cometido alguns erros nesses meses, menos do que as outras garotas — pelo o que ele comentara -, mas foram mais do que suficientes. Suas costas agora guardavam as marcas de cada um daqueles castigos.
E ela não queria ter que passar por mais nenhum.
Ele prendeu as mãos dela e a arrastou para o carro, algemando-a à porta. Royce já confiara muitas coisas a ela, mas pelo visto, ainda não confiava o suficiente para deixá-la sem as algemas.
Nenhum deles disse nada enquanto ele dirigia. Eles já haviam saído algumas vezes, mas nunca de carro. Contente por pelo menos ele não ter a vendado, Isabella observou bem o local. E se eles fossem até a cidade? Ela finalmente saberia o caminho que teria que fazer quando fugisse?
Só que ela estava enganada.
Ela percebera assim que eles chegaram ao local.
– O-o quê?– A morena soltou, antes que conseguisse se conter.
Mas Royce apenas sorriu e balançou a cabeça, antes de tirá-la do carro e praticamente arrastá-la até onde havia um buraco e um saco. Um saco que guardava um corpo, Isabella tinha certeza.
– Não preciso dizer para não tentar nada estúpido, não é?– ele indagou, enquanto retirava a algema dela. Ele estendeu uma pá e entregou para ela. Então, retirou uma arma de dentro do casaco, o que fez com que o coração de Isabella acelerasse ainda mais. — Agora, termine de cavar.
Isabella negou diversas vezes, até mesmo em pegar a pá. Ela não conseguia deixar de olhar para o saco, ainda fechado, ao lado do túmulo que Royce começara a cavar.
Foi difícil convencê-la. Ela sabia que receberia um castigo quando eles voltassem para a casa, mas não conseguia se importar. Foi só quando Royce colocou a arma na cabeça dela e disse que atiraria, naquele momento, se ela não começasse a cavar que Isabella obedeceu, muito embora mal pudesse ver alguma coisa devido às lágrimas que deixavam a sua visão embaçada.
Ela cavou por horas, sem pausa nenhuma. Seus braços doíam e em algum momento do dia as suas lágrimas haviam secado. Parecia que nunca iria acabar.
Até que Royce mandou que ela parasse.
– Acho que já está bom… — ele disse. — Agora, venha, vou te ajudar a subir.
Ela pensou que ele a levaria até o carro, pensou que iria enterrar o corpo sozinho, mas ele abriu o saco com ela ali e ela simplesmente não conseguiu conter o grito de horror.
– Não precisa se assustar — ele disse. — Ela está morta… não pode fazer nada com você.
– Por favor, eu não… — começou, soluçando. — E-eu não posso… não…
– Você sabe quem é essa, Isabella?– ele a cortou. — Lembra-se da história que te contei há algum tempo? Sobre como meus pais não ligavam para mim, como eu sempre me sentia de fora… Pois então, eu resolvi que merecia uma vingança…
Ele parou por um momento, depois de retirar o saco por completo e observou a mulher, seu rosto uma máscara de frieza; ele não parecia nem um pouco arrependido.
– Há exatos seis corpos enterrados aqui — ele disse. — Meus quatro irmãos estão lado a lado. Eu fiz questão de que meus pais assistissem a morte de cada um deles, fiz questão de deixá-los sofrer. Meu pai está logo ali…
Ela soltou outro soluço, sem conseguir acreditar que ele tinha feito aquilo. Ele havia matado a família?
– E também tem a primeira garota que sequestrei… — ele disse. — Tudo deu errado, é claro, senão ela não estaria morta, mas… bem, como primeira, ela merecia um lugar especial.
Ele tornou a fazer uma pausa, apenas para fitá-la. Largou o saco no chão e segurou a arma com mais firmeza na mão.
– Agora, querida Isabella… — ele sorriu; seu sorriso era perverso e seus olhos brilhavam de uma forma que assustou a morena totalmente. — Você vai me ajudar a enterrar o corpo…
Soltando um grito abafado, a morena deu um pulo na cama, sentindo seu coração martelando em seu peito. Ela respirou fundo algumas vezes e escondeu o rosto nas mãos. Tinha acabado… tinha passado tanto tempo… Por que ela ainda tinha que ter esses pesadelos? Ela não precisava de lembrete. Ela ainda se lembrava perfeitamente do que havia acontecido naquela época.
Ainda se lembrava de ter colocado o corpo da mãe dele no túmulo recém cavado. Lembrava de tê-lo ajudado a jogar terra por cima do corpo e de ter marcado o túmulo.
E se lembrava do castigo que recebera naquele dia — o que significava mais cicatrizes — e como ela havia decidido que iria fugir na primeira oportunidade. Ela simplesmente não conseguia aguentar mais.
A morena fitou o relógio e suspirou pesadamente. Eram apenas sete da manhã. Pelo menos ela havia conseguido dormir por mais de quatro horas daquela vez. Sabendo que tentar dormir mais um pouco seria algo inútil, mesmo que ainda se sentisse um pouco cansada, Isabella levantou e tomou outro banho.
Ela ligou para os pais assim que saiu, querendo apenas saber se estava tudo bem. Foi um alívio ouvir a voz da mãe. Royce ainda não descobrira que Bella o dedurava. Ela havia feito de tudo para parecer que havia sido uma denúncia anônima, mas sabia, no fundo, que mais cedo ou mais tarde ele desconfiaria dela.
Ela só esperava que aquilo não fosse custar a sua família.
Depois de ter passado uns minutos conversando com seu pai e sua mãe, a morena preparou o café da manhã. Emmett estava adormecido no sofá, o que a fez sorrir um pouco. Era bom saber que ela tinha pessoas que se importavam com ela.
Ela só esperava que nada mudasse quando descobrissem o que ela havia feito.
Foi difícil agir como se nada no dia anterior tivesse acontecido quando Emmett acordou. Isabella viu o olhar preocupado do amigo, quase como se estivesse esperando que ela começasse a agir da mesma maneira do dia anterior, mas ela conseguiu, de alguma forma. Mal sabia Emmett que por dentro ela continuava a mesma bagunça.
Ela sabia esconder como se sentia muito bem, afinal.
– O detetive Cullen ligou… — Emmett informou, quando ambos terminaram de tomar café da manhã. Isabella imediatamente parou de lavar a louça e se virou para Emmett. — Ele deve chegar a qualquer momento.
Ela engoliu em seco e assentiu, antes de voltar a sua atenção para a louça. Ela havia contado tanta coisa para o detetive, confiado tanto nele… Só que depois de sua reação há dois dias, quando lhe mostrara os corpos… Isabella não sabia como agir perto dele.
Emmett ficou com ela o máximo que pôde, mas ela sabia que ele já havia perdido um dia no trabalho por causa dela, então assegurou que ela ficaria bem e que ele poderia ir para o trabalho.
– Tem certeza? — ele indagou. — Eu posso esperar Edward chegar…
Bella forçou um sorriso para fora do rosto e assentiu.
– Tenho sim — respondeu. — Obrigada por tudo, Emmett. E desculpe-me, por ontem. Eu só…
Ele encolheu os ombros e sorriu para ela.
– Está tudo bem, Bella — respondeu. — Não se preocupe.
Mas não estava tudo bem.
O pânico começou a tomar conta dela assim que Emmett saiu e ela viu que estava sozinha dentro de casa. Ela trancou tudo, conferindo as portas mais de duas vezes, assim como o alarme. Mesmo assim, mesmo sabendo que ela saberia se ele tentasse entrar ali, ela não conseguiu se acalmar. Quando andar de um lado para o outro e olhar pela janela não adiantou, ela foi até o quarto onde as câmeras de segurança ficava, mas nem mesmo isso a acalmou.
Então, ela pegou a arma que ficava escondida no seu quarto.
Era irracional, Isabella sabia disso, mas não conseguia se conter. Ela havia escondido aquele segredo durante tantos anos… O que as pessoas pensariam quando descobrissem?
E o pior, o que ele faria se descobrisse que ela havia contado tudo?
Perdida em seus medos, Isabella demorou um pouco para escutar o interfone tocar. Com o coração martelando em seu peito, ela correu para ver quem era… e um suspiro de alívio escapou de seus lábios quando ela viu que era o detetive Cullen.
Sem perceber que ainda estava com a sua arma na mão, a morena correu para abrir o portão para ele. Ela não percebeu o olhar chocado que ele dera quando ela o puxou para dentro, trancando tudo em seguida, antes de voltar para dentro de casa.
– Isabellla… — ele a chamou, observando-a trancar a porta de casa e ativar o alarme. — Está tudo bem?
Ela assentiu.
– E-eu só… — engoliu em seco. — Eu só estou me prevenindo, ok? Quando ele descobrir que fui eu que contei tudo…
Edward a observou durante um tempo, antes de suspirar e assentir. Ele sabia que ela estava com medo, sabia que ela tinha dado um grande passo, mas, ainda assim, não podia deixar de se sentir culpado por estar fazendo com que ela passasse por aquilo…
O olhar no rosto dela…
Deus, era demais para ele.
Não suportando mais ver aquela dor e medo em seus olhos, ele andou até a ela e colocou as mãos em seus ombros. Ele abaixou um pouco a cabeça, forçando-a a olhar em seus olhos, e deu-lhe um sorriso, querendo que ela se acalmasse.
– Eventualmente, os jornais vão acabar publicando a notícia de que achamos o local onde ele enterrou alguns corpos, não vou mentir para você — ele disse. — Mas, Isabella, não mencionaremos o seu nome, eu te prometo isso. Ninguém naquela delegacia, além de mim, sabe que foi você que nos deu essa informação…
Isabella sentiu os olhos encherem de lágrimas e os fechou por um momento. Ela estava cansada de agir daquela maneira perto do detetive, sempre como uma garota frágil que chorava por tudo. Mas infelizmente não havia nada que ela podia fazer quanto a isso.
– Eu sei disso — ela murmurou. — E eu agradeço, mas ele vai saber, eventualmente. Talvez ele perceba imediatamente, afinal… e se ele não tiver contado isso para mais ninguém?
O detetive engoliu em seco.
– Nós vamos protegê-la, Isabella — ele murmurou. — Ele não vai fazer mal nenhum a você dessa vez.
Ela soltou uma risada amarga.
– Ele pode machucar pessoas com quem eu me importo — ela sussurrou, seus olhos ainda fechados. Ela os abriu, porém, antes de continuar a falar. Parecia importante dizer as próximas palavras fitando-o nos olhos, mesmo ela não entendendo o motivo. — Ele pode machucar os meus pais, Emmett…
Ela engoliu em seco.
– Ele pode te machucar, detetive. — Sua voz não passou de um sussurro. — E vai ser a minha culpa.
Edward não soube o que dizer, então. Ele engoliu em seco, sentindo seu coração martelar. Deus, por que ele se sentia assim, tão diferente, quando ele estava perto dela?
– Nada vai acontecer — ele tentou falar. — Nós vamos ficar bem, Isabella. Tenho duas viaturas que vigiam seus pais todos os dias… Tenho uma parada agora mesmo na porta da sua casa…
Ela se afastou um pouco, fazendo com que as mãos do detetive saíssem de seus ombros. Ela não conseguia pensar direito quando sentia o toque dele. Ela sentia tantas coisa quando ele estava perto dele, coisas que não sabia explicar e, sinceramente, aquilo a assustava.
– Ele sempre consegue o que quer — tornou a sussurrar. — Eu só espero estar preparada para quando ele vir.
Edward tentou, mais algumas vezes, dizer que tudo ficaria bem e que nada de ruim aconteceria a ela, mas Isabella não parecia muito certa disso. Ela se sentia segura, sim, quando o detetive estava por perto, mas sabia que ele não ficaria 24 horas por dia com ela. Ele tinha seu trabalho, outras coisas para fazer.
Assim como Isabella tinha as coisas dela.
Embora inacabado, o assunto logo morreu. Isabella logo se sentou no sofá, repousando a sua arma na mesa de centro. Ela sentiu o detetive sentando-se ao seu lado, mas não o fitou.
– Então… — ele começou. — Eu entendo se você não quiser falar sobre isso, ainda mais sendo tão recente, mas… nós fizemos as buscas ontem e…
Ela engoliu em seco e assentiu, para mostrar que estava escutando, mas não disse nada.
– Foram sete corpos… — ele continuou, vendo-a se retrair um pouco. — Eu imagino que seis deles sejam da família dele, mas…
Ela sabia o que ele queria perguntar.
– Tiffany Britton — ela o cortou. — A primeira vítima dele. Ele disse que… que, como foi a primeira, merecia um lugar especial…
O detetive assentiu.
– E… alguma vez, ele mencionou o nome dos pais? Dos irmãos? Ou o lugar que havia nascido.
Isabella assentiu. Ele havia mencionado o lugar onde havia nascido. Não o sobrenome nem nada disso, mas ela sabia que ele vinha de uma cidadezinha que ficava há algumas horas dali.
O detetive tentou não se animar muito, mas ele sabia que aquilo o ajudaria mais do que tudo. Se era uma cidade pequena e toda a família sumiu de uma vez… bem, deveria haver alguma coisa no jornal local, certo?
Eles não tiveram muita chance de conversar sobre isso, porém. Isabella recebeu uma ligação naquele momento: precisavam dela no hospital.
– Eu te mando uma mensagem com uma irformação — ela disse, colocando-se de pé. — Eu só… só preciso ir trabalhar, ok?
Ela sabia que estava enrolando, mas estava com medo de revelar demais e Royce fazer uma coisa. Por isso, antes que o detetive dissesse mais alguma coisa, ela foi até o seu quarto e rapidamente guardou a sua arma. Trocou-se, então, e pegou sua maleta com suas coisas, antes de sair de casa.
– Eu vou segui-la até o hospital. — O detetive informou. — E Isabella? Por favor, não deixe de me mandar essa mensagem. Eu sei que é muito, mas… vai realmente nos ajudar a identificar os corpos.
Ela assentiu e sorriu para ele, antes de entrar no carro. Sabia que não conseguiria enrolar muito, mas faria o que pudesse.
Trabalhou o máximo que pôde naquele dia, mesmo sendo o seu dia de folga. Quando ela saiu do hospital já era noite, passava das dez da noite. Ela tornou a ligar para os pais, já dentro do carro, e prometeu que passaria lá assim que pudesse. Depois ela dirigiu até a sua casa, torcendo para que o carro que estivesse guardando a sua casa ainda estivesse ali.
Ela conferiu todas as trancas e alarmes assim que se trancou em casa, exatamente como tinha feito mais cedo. Verificou as câmaras, vendo a filmagem do dia, apenas para ver se algo estranho tinha acontecido. Depois, cansada depois para preparar algo para comer, Isabella simplesmente trocou de roupa e deitou.
E não demorou muito para que adormecesse.
_
Os dias se passaram lentamente. A médica passou mais tempo no hospital do que em casa. Edward estava sempre ligando para ela, mantendo-a a par das investições. Para a surpresa dele, ele não ficou lembrando-a que ela tinha uma informação para compartilhar. E ela também não fez questão de lembrá-lo.
Um dos corpos já havia sido identificado como sendo da primeira vítima de Royce, exatamente como Isabella havia dito. Infelizmente, a notícia logo chegou aos jornais, não só sobre essa garota, mas também dos outros corpos encontrados.
Isabella sabia que Royce logo descobriria que era ela quem havia vazado aquela informação. Principalmente se ele não tivesse a compartilhado com mais ninguém. A maneira que ela havia agido, usando outro carro, saindo a noite, tinha lhe comprado um tempo. Mas quanto?
Com medo de que algo acontecesse aos pais, passou a ir mais à casa deles, mas tudo parecia estar indo bem por lá, o que a deixava um pouco mais tranquila.
Mas tudo mudou em um dia que ela saiu do hospital à noite.
Como sempre fazia quando chegava em casa, ela verificou todas as portas e janelas, ativou o alarme e preparou-se para dormir. O detetive viria até a casa dele no dia seguinte e ela sabia que ele iria tentar mais alguma informação com ela.
Cansada, ela bocejou e esfregou as mãos no rosto, antes de fazer a última tarefa da noite. Caminhou até o quarto do fundo do corredor e a abriu, apenas para verificar as câmeras. Ela colocou a filmagem do dia e se sentou, puxando a caneca com chá que ela havia preparado.
No começo, tudo estava tranquilo. E então ela começou a notar movimento estranhos ao redor da casa. A pessoa estava vestida com um casaco cinza que tinha capuz, o que a impediu de ver o rosto. Ele apareceu algumas vezes e depois sumiu e não pareceu fazer nada demais — apenas observou a casa. Mas isso foi o suficiente para deixar Isabella inquieta e ansiosa.
Quando terminou, ela ficou observando as câmeras durante alguns minutos, dessa vez com a filmagem sendo em tempo real. Estava prestes a ir deitar, torcendo para que tudo não tivesse passado de uma coincidência e essa pessoa apenas tivesse achado a sua casa bonita ou algo assim, quando viu novamente a pessoa parar diante da sua casa.
Dessa vez, porém, ela fez algo completamente diferente. Parou diante da câmera frontal, parecendo saber o tempo todo que ela estava ali — muito embora Isabella tivesse certeza de que ela tivesse ficado bem escondida — e ergueu o capuz um pouco; não o suficiente para revelar o seu rosto, mas o suficiente para que Isabella visse o sorriso da pessoa.
E para que ela tivesse certeza de quem era.
Aparentemente, o tempo de Isabella havia acabado.
Ele estava ali.
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