Daylight

5 Capítulo Quatro


Seus olhos se mantinham fixos no livro à sua frente, tão concentrada quanto estava para concluir a leitura dele antes de ir trabalhar, dentro de algumas horas. Ajeitou-se de forma mais confortável no sofá e puxou a manta para cima, mais de si, e apalpou o travesseiro antes de deitar a cabeça novamente.

Ela estava finalizando o penúltimo capítulo quando o interfone da sua casa soou, fazendo-a parar de mudar a página imediatamente. Ela olhou o relógio e se assustou um pouco quando viu que já se passavam das três da tarde, e se sentou no sofá, estranhando o fato de o interfone estar tocando.

Ela não esperava visitas. E seus pais ou vizinhas quase nunca a chamavam ali. Na verdade, isso era bem raro de acontecer.

Sentindo-se um pouco paranóica, ela não caminhou até a entrada da casa. Ao invés disso, moveu-se o mais silenciosamente que pôde, caminhando pelo longo corredor até chegar a um cômodo ali, que ficava protegido por senha. Ela digitou os 4 números e entrou, seus olhos indo até os monitores que haviam ali.

Ninguém – nem mesmo Emmett – sabia que ela tinha câmeras espalhadas por toda a casa, assim como aquele quarto cheio de monitores, próprio de um banco ou algo assim, e também um quarto de pânico anexado ao seu. Mas Isabella tinha vivido com medo por muito tempo e ela não se sentia mal por fazer o possível para se proteger.

Ela não iria nunca se submeter ao que tinha feito mal a ela no passado.

Nunca.

Um rosnado brotou em seu peito e suas mãos se fecharam em punhos quando ela viu o detetive Cullen tocando o interfone de forma insistente. Ela ficou ali, parada durante alguns minutos, sem saber se deveria atendê-lo ou não, até que viu que ele não iria desistir. Xingando-o mentalmente, saiu da sala e fechou a porta atrás de si, antes de seguir em direção à porta de entrada. Desativou o alarme e abriu a porta, fitando o detetive antes de liberar sua entrada. Ela não queria que ele entrasse em sua casa, mas também não se via o mandando embora no portão.

De alguma forma ela sabia que ele não iria desistir assim tão fácil.

– Detetive Cullen – ela murmurou assim que ele se aproximou dela –, posso saber o que faz aqui?

Edward a observou de cima a baixo, reparando em como ela ficava bonita usando jeans e uma camisa de mangas compridas. Observou suas mãos fechadas em punho e teve ainda mais vontade de sorrir.

– Eu gostaria de trocar outra palavra com a senhorita – ele disse, por fim. – É importante, então lamento se eu estou a perturbando...

Bella sorriu.

– Sinto muito, mas estou indo me arrumar agora para ir trabalhar – ela disse. – Não tenho tempo para conversar sobre algo que já discutimos antes, detetive. Acredito que fui bem clara com o senhor...

Edward segurou uma careta.

– Sim, a senhorita foi, mas... – ele deu de ombros. – Não desisto facilmente. Sei que esconde algo e não estou disposto a ir embora até descobrir tal coisa.

A morena tornou a sorrir, certa de que seria presa por desacato caso dissesse o que realmente queria para o detetive.

– Infelizmente para o senhor estou indo trabalhar – ela respondeu, tentando ser cordial. Por que ele não desistia, como os outros tinham? – Meu plantão começa em uma hora e eu não tenho ideia de quando vou sair do hospital.

Edward tornou a sorrir.

– Conheço seus horários malucos – comentou. – Posso esperá-la se arrumar e depois acompanhá-la até o hospital, senhorita. Tenho certeza de que você tem algumas pausas no hospital também... Podemos conversar sobre o que aconteceu com você há dez anos nessas pausas... O que me diz?

Isabella engoliu em seco.

– Se o senhor quer perder o seu tempo – ela deu de ombros –, eu não posso fazer nada, infelizmente.

Ela lhe deu as costas e entrou na casa, e ele a seguiu. A morena fechou a porta e a trancou, ativando o alarme mais por hábito do que qualquer outra coisa. Edward observou seus movimentos com atenção, e depois que ela entrou, andou pela sala e sumiu por um corredor – e ele pode escutar o barulho dela fechando a porta com força –, ele começou a analisar a casa da morena. Era simples demais, mas muito bonita.

Ele olhou o sistema de alarme, olhou as poucas fotografias que ela tinha na sala – quase raras e escondidas, como se não quisesse que alguém as visse –, o livro jogado na mesinha de centro. Era uma casa sem um toque pessoal, sem quase nada que indicasse que alguém tinha vivido ali.

Se ela falasse, ele pensou, se ela falasse o que esse cara fez com ela...

Porque, obviamente, ele tinha feito algo. Algo que a mudara, algo que matara a feliz e inocente Isabella Swan.

E ele queria prender aquele cara. Queria tirar a chance dele fazer mais alguma coisa com outra mulher, alguém como Isabella ou Rose, ou todas as outras garotinhas que tinham sofrido em suas mãos.

Mas para isso, ele precisava da ajuda dela.

E não tinha ideia do que fazer para fazê-la falar.

Ele caminhou até a janela e ficou observando a rua por ela, até ouvir os passos de Isabella. Virou-se, então, e a observou colocar um casaco e começar a colocar algumas coisas dentro da bolsa.

– Belo sistema de segurança você tem aqui, senhorita Swan – murmurou, chamando a atenção dela. – Grades na janela, sistema de alarme... Não me surpreenderia de encontrar câmeras espalhadas por aqui...

Ela estreitou os olhos.

– Estou indo trabalhar agora – ela disse, apenas, não fazendo nenhum comentário sobre o que ele falara. – Por que não fala rapidamente o que quer? Eu estou indo no meu carro para o hospital, portanto não vejo como podemos nos falar durante o caminho...

Edward sorriu.

– Ah, não se preocupe, doutora – ele disse. – Eu vou segui-la até lá.

Suspirando pesadamente, Isabella puxou as chaves de casa do bolso do casaco e seguiu até a porta de entrada. Após desativar o alarme e abrir a porta, ela o ativou novamente, trancou a casa atrás de si e se dirigiu até o seu carro. Ela entrou e jogou a bolsa no banco carona com um pouco mais de força que o normal, antes de colocar a chave na ignição.

Mas o carro não quis ligar.

Isabella tentou uma, duas e três vezes, e nada. Ela já estava prestes a desistir e chamar um táxi, quando escutou a voz do detetive Cullen.

Ela já tinha até se esquecido que ele estava lá.

– Algum problema, Isabella? – Edward indagou, sem deixar de sorrir. – Pelo visto, você terá de aceitar minha carona até o hospital... Ou será que nós dois devemos ir de táxi?

Respirando fundo – e implorando mentalmente para que o detetive desistisse logo, Isabella saiu de seu carro e caminhou em direção a ele, sem, em nenhum momento, fitá-lo nos olhos.

Ela abriu o portão e esperou que ele saísse antes de travá-lo e segui-lo em direção a seu carro. Tudo o que ela queria era que ele a deixasse em paz, que a deixasse continuar sua vida, sem ter que ficar relembrando o passado. Segurou uma pequena careta quando ele abriu a porta para ela e apenas entrou, desejando que ele chegasse logo ao hospital.

Se dependesse dela, nunca mais veria o detetive novamente.

Ele enfim entrou do lado do motorista e fechou a porta atrás de si. Bella percebeu que ele demorou mais do que devia para colocar o cinto, para ligar o carro... Ela olhou para ele, erguendo a sobrancelha, tentando entender por que demorava tanto, e o detetive a encarava com olhos curiosos, um pequeno sorriso no rosto.

– Algum problema com o seu carro também, detetive? – ela indagou.

Edward sorriu.

Ele sabia que ela tinha notado que ele estava demorando, mas não podia evitar. Precisava pensar em algo que o ajudaria a se aproximar mais de Isabella, mas nada vinha à cabeça. Demorar, então, pareceu ser uma boa solução.

– Não, não há nada de errado com o meu carro – comentou.

Ainda sorrindo, ele enfim colocou o carro em movimento, saindo da vaga em frente à casa de Isabella.

– Então, Isabella... Por que você não me conta como foi sua adolescência enquanto a levo até o hospital? – ele perguntou.

E Bella suspirou.

Edward viu quando ela fechou as mãos em punho. Ela olhava para o outro lado, o que o impedia de olhar o seu rosto.

– Foi normal – ela deu de ombros. – Eu não entendo por que você me persegue. Eu já lhe disse que nada aconteceu há dez anos, detetive. Por que acha que eu mudaria minha fala de um dia para o outro?

Ele travou o maxilar e apertou o volante com força, sabendo que ela estava certa. Ele não a faria contar o que acontecera no período mais traumatizante de sua vida de uma hora para outra. Mas ele não tinha outras opções… o que mais poderia fazer?

– Só estou tentando entendê-la, Isabella – ele murmurou. – Qualquer pessoa em sua situação iria querer o cara preso...

Isabella suspirou, mas não respondeu. Ela soltou um suspiro de alívio logo em seguida, porém, assim que viu o hospital entrar em seu campo de visão.

– Obrigada pela carona – ela murmurou, já retirando o cinto, sem virar seu rosto para o detetive. – E me deixe em paz, por favor. Como eu disse anteriormente, nada aconteceu há dez anos, portanto, não temos nada para conversar.

Edward abriu a boca para retrucar, mas Isabella saiu do carro antes que ele pudesse dizer algo. Suspirando pesadamente, e se sentindo cada vez mais frustrado por não estar conseguindo chegar a lugar algum, bateu a cabeça no volante.

Ele não queria desistir. Ele não iria.

Mas como ele poderia fazer Isabella falar?

Ele pressionou a testa com um pouco mais de força no volante, forçando-se a pensar. Focou-se em Rose, no olhar dela quando ele a tinha visto no hospital e agora, ainda se recusando a sair de casa, e por fim balançou a cabeça.

Não importava quanto tempo demoraria, ele não iria desistir.

_

Bella terminou de assinar a pilha de prontuários diante de si e os entregou à enfermeira, sorrindo gentilmente para ela. Bocejou de leve, e olhou rapidamente para o relógio; mais duas horas e ela poderia descansar um pouco. Olhou a emergência, calma demais para o seu gosto, e decidiu ir buscar um pouco de café.

Ela sabia que era viciada nele, mas… um pouco a ajudaria a ficar acordada por mais tempo, então… por que não tomar?

Avisando à interna que estava com ela naquele dia, ela começou a caminhar em direção à porta de saída da emergência. Entretanto, antes mesmo que pudesse chegar até ela, ouviu um enfermeiro a chamando.

– Doutora Swan!

Ela parou de andar imediatamente e olhou para trás, vendo o enfermeiro correr até a ela. Sorriu gentilmente, enfiando as mãos no bolso do jaleco, e esperou que ele começasse a falar.

– Há algum problema, Chad? – indagou.

– Uma garota chegou agora – ele respondeu. – Está um pouco ferida e os paramédicos acham que ela foi abusada, mas… ela não quer deixar ninguém se aproximar...

Isabella fechou as mãos em punhos e suspirou pesadamente, mas assentiu, sabendo que era o seu trabalho. Ela o amava, mas realmente detestava aquela parte.

– Eu vou tentar falar com ela – disse. – Em qual maca ela está?

O enfermeiro apontou para uma cama cercada por cortinas e Isabella seguiu até lá, sem dar sinal para sua interna nem nada do tipo. A garota deveria estar apavorada – ela conhecia a sensação melhor do que ninguém – e não precisava de várias pessoas lhe perguntando se estava tudo bem e olhando suas feridas.

Uma policial estava do lado de fora da cortina, os braços cruzados sobre o peito. Isabella imediatamente segurou uma careta quando a viu, imediatamente se lembrando do detetive Cullen, mas logo afastou tal pensamento; a policial não tinha culpa se seu colega de profissão não a deixava em paz.

– Boa noite – a policial disse quando ela se aproximou. – A senhora vai ser responsável por examinar a garota?

Isabella estendeu a mão e a cumprimentou, já assentindo.

– Boa sorte, então – ela continuou, sem dar chance à Bella de dizer algo. – Ela não fala… nada. E não deixa que ninguém chegue com o kit de estupro perto dela, então...

Encolhendo os ombros, Isabella apenas assentiu e agradeceu, antes de abrir um pouco a cortina e entrar, puxando-a novamente atrás de si.

Ela sentiu seu coração apertar no peito quando viu a garota encolhida contra a cama, lágrimas escorrendo por seu rosto. Observou as feridas do seu braço, as unhas lascadas... E engoliu em seco quando olhou o seu rosto uma segunda vez.

A garota não deveria ter mais do que treze anos.

Um lençol estava enrolado até a sua cintura, de maneira firme, e ela se balançava na cama, sussurrando palavras – tão baixo que Bella não conseguiu escutar.

Ela se aproximou devagar e pegou o prontuário aos pés da cama, seus olhos lendo todas as informações – muito poucas, só os ferimentos superficiais – que os paramédicos tinham conseguido extrair. Olhou para o topo do prontuário, então, e leu o nome dela. Depois, voltou sua atenção para a menina na cama, pensando em como poderia se aproximar dela.

– Boa noite – ela enfim murmurou. – Josie, certo? Eu sou a doutora Swan...

Ela se surpreendeu com o pulo que a garota deu na cama, fechando os olhos com força, se encolhendo na cama ainda mais. Ficou parada durante alguns segundos, sem saber o que fazer.

E, por mais que tivesse tentado evitar, ela não conseguiu impedir que as lembranças do dia que fora achada, andando no meio da rua, invadissem a sua mente.


Seus pés descalços correram o máximo que podia, enquanto sentia o coração bater a toda velocidade contra o seu peito. Seu queixo tremia, suas mãos também, e tudo o que ela conseguia pensar era que precisava chegar logo à rua, precisava fugir dali, precisava ficar o mais longe possível.

Precisava estar em segurança novamente, muito embora ela não estivesse certa de que conseguiria se sentir assim novamente.

Sentiu o frio atingir suas pernas e braços nus assim que parou de correr um pouco, seus olhos castanhos observando ao redor. Ela tinha corrido muito, sabia disso, mas ainda parecia estar no meio do nada...

E não tinha ideia de como iria sair dali.

Ouviu passos, não muito longe dali, e isso foi tudo o que precisava para começar a correr novamente. Estava cansada, com fome e sede, e assustada, mas ela não poderia voltar àquele lugar. Ela demorara muito tempo – embora não soubesse exatamente quanto, já que perdera a noção do mesmo – para conseguir fugir.

Correu por horas, parando algumas vezes apenas para descansar um pouco. Tropeçou algumas vezes, caiu outras, mas finalmente – depois do que pareceram ser vidas – ela de repente se viu no meio de uma rua, um pouco vazia demais para o seu gosto. Parou ali mesmo, sem se importar com carros nem nada do tipo, e respirou fundo, sem saber o que fazer agora.

E ela nem precisou pensar muito.

– Ei… você está bem?

Com o coração na mão, Isabella se virou, dando de cara com um casal de namorados, ambos de mãos dadas. Eles a olhavam com os olhos um pouco arregalados, e quando a viram olhando para eles, pareceram ficar ainda mais surpresos.

– Oh! – a menina disse. – Você é a garota que o FBI procurou por um tempo...

– Sim! – o garoto assentiu, e puxou o celular do bolso. – Vou ligar para a polícia. Amy, por que você não a leva para dentro da sua casa? Eu não acho que seja uma boa ideia ficarmos aqui...

A loura assentiu e começou a se aproximar de Isabella, mas a morena soltou um grito fraco, dando um pulo para trás. Ela arregalou os olhos e olhou para a garota à sua frente com medo.

E se eles fossem cúmplices dele? E se a levassem de volta?

– Shhh... – a loura murmurou, não se assustando com a reação de Isabella. – Está tudo bem, eu não vou te machucar...

Mas Isabella não permitiu que ninguém a tocasse, até a chegada dos policias, e mesmo assim, ela não se aproximou muito deles, permitindo apenas que a envolvessem em um cobertor e a colocassem dentro de uma viatura.

Enquanto eles dirigiam em direção ao hospital – como a policial gentil que a colocara ali dissera que fariam – ela olhou pela janela, sem conseguir acreditar que estava mesmo ali.

E ali, onde já deveria se sentir segura, imaginando que nunca ninguém faria mal a ela novamente, ela procurou por tal sensação.

Mas não a encontrou.


Isabella piscou e balançou a cabeça com força, voltando à realidade. Encarou a menina ainda encolhida contra a cama, lembrando-se de si própria, e suspirou.

– Ei, Josie... – Ela tornou a murmurar, largando o prontuário no mesmo lugar de antes e puxando a cadeira para perto da cama, de modo que ficasse próxima à cabeça da garota. – Eu não vou encostar em você, ok? Só se você permitir... Agora, por que você não mostra esses lindos olhos para mim?

A menina ficou parada durante alguns segundos, mas enfim se mexeu, tirando as mãos do rosto e fitando a médica parada à sua frente.

– Não vai t-tocar? – ela indagou.

Bella sorriu.

– Só se você deixar – ela disse. – Prometo.

Josie assentiu, sorrindo um pouco.

– Por que você não me conta onde estão seus pais? – ela indagou. – Que tal se nós os chamarmos? Vai se sentir melhor com eles por perto?

Ela pareceu pensar por uns minutos, mas por fim assentiu.

Pelas próximas quase três horas, Bella ficou por conta daquela paciente em especial. Demorou mais do que ela esperava, mas finalmente Josie tinha deixado alguém examiná-la e concordou em falar com os policiais.

Quando Bella saiu de lá, ela estava mais do que exausta e seguiu direto para a sala de descanso. Retirou seus tênis e se jogou na cama, mas não conseguiu dormir. Sua cabeça estava cheia de pensamentos.

Ela fugindo, ela não deixando que ninguém – inclusive seus pais – a tocassem por horas e horas, ela não saindo de casa, ela se recusando a conversar com seus amigos...

E no detetive Cullen.

Ela tinha pensando que àquela altura ele já teria desistido, como todos os outros policias que tinham falado com ela ao longo dos anos. Mas não. Edward Cullen continuava sendo persistente e a presença dele estava trazendo lembranças que Bella não queria reviver. Tinha sido muito difícil mantê-las afastadas – e elas sempre acabavam voltando em pesadelos – e ela não queria ter de passar por todo aquele processo novamente.

Ela já tinha dito não, ela já tinha dito que não tinha nada para falar para ele… e mesmo assim ele não tinha desistido.

E ela não tinha ideia do que faria se ele continuasse indo atrás dela.

Suspirando pesadamente, a morena se virou na cama e fechou os olhos, buscando esvaziar a mente e relaxar. Ela sabia que outro sonho provavelmente tomaria conta dela e ela logo acordaria, mas precisava descansar um pouco... Ainda tinha horas de plantão pela frente e não podia ficar sem dormir nada até lá...

Ela sentiu o sono começar a tomar conta de si, mas antes que pudesse, de fato, adormecer, escutou seu pager tocando. Resmungando, ela imediatamente o pegou e deu um pulo na cama, calçando os tênis de qualquer jeito e já começando a correr em direção à emergência.

Pelo visto, seria uma longa noite...

Descansar teria de ficar para depois.

Correu até a maca sendo trazida por paramédicos e seu coração disparou quando viu o conhecido menininho deitado ali. Ela viu seus pais correndo atrás da maca, ambos parecendo desesperados, e ela correu o mais rápido que pôde, já começando a examinar a criança, ao mesmo tempo em que buscava entender com os pais o que tinha acontecido.

– E-ele estava bem ontem! – A mãe disse, agarrada ao marido. – E então, ele começou a piorar e...

Bella ignorou a mãe por um momento, enquanto ordenava exames a serem feitos. Malcon fora um dos seus primeiros pacientes, que ela começara a atender ainda quando era apenas uma interna, e ela tinha se apegado a ele, de certa forma. Ele tinha câncer em estágio terminal, mas muito embora não fosse possível fazer isso para sempre, eles estavam conseguindo dar um pouco mais de tempo do que tinha sido previsto a ele.

Pelo resto da noite, ela se viu correndo de um lado para o outro, fazendo o possível para salvá-lo. Uma cirurgia de emergência foi necessária e ela ficou horas no centro cirúrgico, tentando salvar a vida daquela criança. Por algum tempo, ela realmente tinha pensado que tinha conseguido, quando se viu se jogando na cama algum tempo depois. As próximas vinte e quatro horas seriam cruciais para a vida de Malcon, então talvez fosse bom descansar um pouco antes de voltar para perto dele.

Ela tinha dormido por cerca de uma hora quando a chamaram, dizendo que ele tinha piorado novamente. Ela tornou a levá-lo para o centro cirúrgico, mas desta vez ela não saiu de lá se sentindo um pouco animada.

Ela não tinha conseguido salvá-lo novamente.

Sentindo um enorme peso nas costas e mais cansada do que nunca, ela se arrastou até a sala de espera, para contar aos pais do menino que ele não tinha sobrevivido. Sentiu seu coração apertar ao ver a mãe chorar, abraçada ao marido, e não precisou nem mesmo dizer uma palavra quando eles a viram.

Somente se abraçaram e tornaram a chorar novamente.

– Eu sinto muito – ela murmurou. – Eu fiz de tudo o que pude, mas… não consegui salvá-lo.

A sra. Marrey ignorou Isabella e continuou a chorar abraçada ao marido. Ela ainda ficou ali parada durante algum tempo, mas logo suspirou e se afastou, sabendo que não havia mais nada do que ela pudesse fazer.

Ela pegou suas coisas e começou a guardar tudo. Seu plantão já havia acabado e ela não tinha dormido quase nada. Estaria de volta na manhã seguinte e tudo o que queria era passar as próximas horas jogada na cama, sem ter que se preocupar com nada.

Ela sabia que não conseguiria dormir direito.

Ela tinha perdido um de seus primeiros pacientes. Talvez… se ela tivesse agido mais cedo, se não tivesse esperado tanto pela cirurgia, ela poderia ter dado mais um tempo para ele, para os pais... Ele estava tão bem quando fora liberado há alguns dias e tinha ido para casa feliz... Os pais sabiam que o momento de ele partir estava chegando e Malcon não queria passar seus últimos dias em um hospital, mas mesmo assim... Talvez se ela não tivesse permitido tal coisa, ela teria percebido isso antes...

Suspirando pesadamente, ela se arrastou para fora do hospital, só então se lembrando que seu carro dera defeito e que ela teria de pegar um táxi para voltar para casa. Arrastou-se para fora do hospital, seus olhos muito cansados à procura de um carro, até que achou um bem conhecido parado próximo dali.

Aparentemente, o detetive Cullen não desistiria.

_

Edward permaneceu parado em frente a um hospital durante um tempo, mas logo foi embora para o seu apartamento. Descansou um pouco, dormiu, mas, como sempre acontecia, acordou cedo demais. E agora, ele estava novamente parado em frente ao hospital, sabendo que Isabella deveria sair a qualquer momento, de acordo com os horários que Ben tinha lhe arrumado. Ele sabia que ela estava sem carro, sabia que ela sairia exausta do hospital e aproveitaria tal coisa para tentar se aproximar um pouco mais. Provavelmente ele não conseguiria nada, mas… bem, ele iria tentar.

E logo ela apareceu, parecendo… diferente.

Ele já a tinha visto sair do hospital uma vez, depois de um plantão, e tinha visto como ela ficara cansada. Entretanto, havia algo de diferente naquele dia. Ele não sabia dizer exatamente o quê, mas aparentemente Isabella tinha tido uma noite difícil.

Um bom momento para se aproximar dela, talvez?

Ele saiu do carro e se aproximou da morena, sorrindo um pouco.

– Isabella – ele murmurou. – Eu me lembrei que você estava sem carro… quer uma carona para casa?

Ele ficou um pouco surpresa quando ela não retrucou nem discutiu, apenas seguiu para o carro dele e entrou, apoiando sua cabeça no encosto do banco. Ele entrou logo após ela e a observou durante alguns minutos, antes de ligar o carro.

– Noite difícil? – ele indagou.

Ele não esperou que ela respondesse e continuou a dirigir, olhando o tempo todo para frente.

– É – murmurou, virando a cabeça e olhando pela janela. – Pode se dizer que sim.

Ele aproveitou um sinal fechado e a olhou, surpreso por ela ter dito alguma coisa.

– Bom, pelo menos você tem algumas horas de descanso agora...

Ela suspirou.

– Detetive – murmurou –, por que insiste tanto em me perguntar do passado, por que não me deixa em paz? Não tenho nada para lhe dizer, não aconteceu nada há dez anos! Por que não esquece isso?

Edward apertou o volante com um pouco mais de força do que deveria.

– Eu sei que algo aconteceu, Isabella – ele murmurou. – E não vou desistir enquanto não conseguir o que eu quero.

Ela engoliu em seco e balançou a cabeça. Soltou o cinto de segurança quando ele estacionou em frente à casa dela e o olhou brevemente, antes de abrir a porta do carro.

– Espero que esteja preparado para se decepcionar.

A morena saiu do carro e disparou para dentro de casa, antes que ele tivesse a chance de processar o que ela tinha dito. Ficou parado ali durante alguns minutos, se sentindo um pouco animado por ela estar se mostrando mais… vulnerável. Depois, pegou seu celular e mandou uma mensagem a Ben, pedindo que ele investigasse o que tinha acontecido no hospital naquele dia.

O que quer que tivesse acontecido ali, tinha deixado Isabella um pouco diferente, de um jeito que poderia ajudá-lo a se aproximar dela, mesmo que tenha dito que nada tinha acontecido novamente. E ele usaria isso para chegar até a ela.

Ele faria qualquer coisa para conseguir aquilo que queria.

Notas finais
N/A: O capítulo tinha sido postado ontem, mas o Nyah estava com um problema chatinho e eu o deletei. Estou repostando e tudo o mais (;
Deixem reviews, ok? Vou tentar voltar mais depressa dessa vez!
xx
PS: Feliz dia das mães! ♥
N/B: Perder um paciente é sempre difícil, quando se cria um vínculo com ele; é pior ainda. Se deparar com algo do seu passado e do qual você vem fugindo e negando, também é de quebrar qualquer pessoa. Isabella está em um momento grande de fragilidade. Vai que é tua Cullen. Comentem nenas. Lu.