Daydreaming

10 Um pequeno empurrão.


Notas iniciais
Espero que gostem!!!

Na certa minha expressão me entregava. Fora pega completamente desprevenida, impossibilitando qualquer chances que eu tinha de disfarçar. Tentava encontrar palavras, mas meu corpo parecia petrificado, incapaz de fazer qualquer mínimo movimento.

“Por que a surpresa?” Meu pai disse, gentilmente, sorrindo nervoso, me fazendo lembrar que, aquela situação, era tão incomoda para ele, como para mim. “Eu sou seu pai, você é minha princesinha, eu te vi crescer” O sorriso dele aumentava, os olhos, ao mesmo tempo que brilhavam, se enchiam de lágrimas, fazendo sua voz embargar.

Eu permanecia presa na prisão que meu corpo se transformara, incapaz de me movimentar para tocar o rosto de meu pai e lhe dar um abraço apertado. Sentia meus olhos arderem, mas as lágrimas não escorriam pelo meu rosto. Eu estava completamente sem ação, em um estado que eu não conseguia definir, perante ao meu pai de um jeito que eu nunca o vira ficar antes.

“Eu estava ao seu lado em todos os momentos, te levei aos jogos que você queria, te ensinei a jogar bola, jogávamos vídeo-game” Ele não mais segurou suas lágrimas, e, ao vê-las escorrendo pelo rosto do meu pai, senti as únicas partes minha ainda não congeladas se manifestarem. Meu coração se apertou e minha mente gritava desesperadamente para eu o abraçar, mas meu corpo permanecia imóvel, sem nem as lágrimas escorrendo. “E eu me arrependo por não estar ao seu lado da primeira vez que você entrou por aquela porta, chorando com o primeiro coração partido, contando uma história que eu sabia ser mentira” Ele mordeu o lábio inferior, respirando fundo algumas vezes. “Eu sabia que suas lágrimas eram por alguma menina, sabia que você não falava a verdade, mas eu fui covarde a ponto de me omitir e aceitar a mentira, para não ter que escutar a verdade, e eu me arrependo por isso não repetirei o erro uma segunda vez”

Passamos um longo tempo em silêncio. Meu pai então tocou minhas mãos, as deixando quentes, destacadas do resto do corpo, que permanecia um caixão gelado. Ele empurrou o banco e se ajoelhou na minha frente.

“Me perdoa por ter sido tão egoísta da primeira vez, por não ter ficado ao seu lado da maneira certa, se um dia te fiz pensar que te amaria menos ou se tinha vergonha de ti. Eu quero ser o pai que você merece, quero estar do seu lado da maneira certa, confia em mim, não vou te julgar nem recriminar por nada, eu só quero te apoiar do jeito que você merece”

Eu só conseguia olha-lo, parece que aquelas palavras colocaram outro muro em minha prisão, tornando ainda mais difícil qualquer movimento, deixando outro silêncio se instalar entre nós. Por fim, talvez por perceber meu estado, meu pai me puxou para um abraço. Senti as lágrimas dele molharem meu ombro e pescoço e sua voz embargada sussurrar em meu ouvido que me amava e sentia muito orgulho de mim.

Foi nesse momento que, como em uma queda, voltei a mim. Senti o sague voltar a correr pelo corpo. Joguei os braços em volta dele, o apertando contra mim. Senti as lágrimas finalmente escorrerem, violentas, como se não aguentassem mais a prisão que estavam.

“Eu também te amo” Sussurrei para ele, escondendo meu rosto contra o seu pescoço.

Demorou um tempo até nos acalmarmos. Estávamos agora na pequena casa dele. Ele fazendo um chocolate quente e eu sentada no sofá, olhando qualquer coisa na televisão.

A casa continuava a mesma desde sempre. A pintura das paredes gritavam, pedindo por um retoque, o que dava um certo ar de abandono. Um sofá de três lugares, já sofrido por causa do tempo, uma pequena mesinha de centro, onde estavam espalhadas miniaturas de carros e revistas, a pequena televisão que tinha um chiado incomodo, mas que ele se recusava a trocar, e fotografias nossa, de todos os jeitos possíveis, em todas as idades. Segurei uma sorrindo para ela.

Eu e ele, nos abraçando e sorrindo, de frente para o estágio de futebol. Fora a primeira vez que ele me levara. Eu tinha cinco anos e ficara maravilhada com a grandiosidade do evento e sabia que aquele dia ficaria em minha mente até meu último minuto.

“Aqui senhorita” Ele disse, me estendendo a caneca que, de tão quente, ainda saia a fumaça.

“Obrigada” Coloquei a fotografia de volta a mesa que estava, pegando a caneca e tomando um gole.

Entre um gole e outro, eu lhe contei toda a história, evitando olhar em sua direção, com medo de uma reação negativa que me fizesse parar. Ao final da história, meu chocolate também tinha acabado, fazendo com que eu finalmente o olhasse. Ao contrário do que eu pensava, ele tinha um olhar de compreensão.

“Você entregou a menina que você ama para o seu melhor amigo?”

Dei de ombros, suspirando.

“E o senhor queria que eu fizesse o que?” Minha voz era um sussurro fraco e demonstrava minha total desesperança. “Eles se beijaram e eu não sei o que ela sente e tenho medo de perde-la caso eu fale o que eu sinta”

Ele segurou minhas mãos novamente, olhando para mim com uma compreensão que eu nunca imaginara ver.

“Eu fiz isso uma vez” Algo em minha expressão o fez rir, talvez ela demonstrava o susto que tomara. “Não desse jeito, mas” Ele fez uma pausa. “Eu já abri mão de uma menina que eu amava, a entreguei assim, de bandeja para um amigo” Ele prendeu uma mexa do meu cabelo atrás da orelha. “Eu não me arrependo, pois eu tive você”

“O senhor ainda a ama” Não era uma pergunta, estava visível nos olhos dele.

“Não só a amo, como sonho em um dia reencontra-la, nem que seja para um abraço”

“E o senhor irá”

Ele meneou a cabeça, sorrindo mais fraco dessa vez.

“É nesse ponto que quero chegar” Ele me olhou com mais severidade. “Eu tentei seguir a minha vida com a sua mãe, mas só me feri ainda mais e a feri também, você foi a única coisa boa que fizemos” Ele fez uma pequena pausa. “O que estou falando é, não dá pra seguir sua vida, com a sombra de um amor, não se você não lutou por ele” Ele sorriu, mas seu olhar era distante, como se ele estivesse voltado no tempo e encarava o rosto amada. “Se você sabe que entregou seu amor sem lutar, então você nunca o deixará por completo e sua vida irá se resumir em ‘e se eu tivesse tentando?’ ”

“Acha que devo falar com ela?”

“Acho”

“Mas e se ela me virar as costas e nunca mais olhar na minha cara?”

“Então ela sairá perdendo” Ele me envolveu em um meio abraço. “E, caso você tenha o coração partido outra vez, então eu estarei aqui para conforta-lo, mas você nunca saberá se não tentar”

“Obrigada”

Me aconcheguei ainda mais no colo dele, fechando os olhos. Me sentia mais leve, um pouco mais confiante.

Senti mãos gentis afagarem meus cabelos, enquanto escutava a voz de meu pai me chamar ao longe. Senti meu corpo voltar ao normal.

“Acorda ou vai se atrasar para o colégio”

Levantei de um pulo, olhando assustada em volta.

“Ai caramba”

“Calma, eu falei com sua mãe, você pegou no sono no meu colo e eu não tive coragem de te acordar, estou indo trabalhar, levante ou vai se atrasar”

Ele me deu um beijo de leve na testa e saiu.

Não demorei muito e já estava na rua, rumo ao único lugar que meu coração me pedia para ir. Sabia que se não fosse, não iria conseguir me concentrar em mais nada.

“A que devo a honra?” A senhora me disse sorridente.

“Eu tive uma conversa com meu pai”

Ela me deu passagem.

“Quer café?”

“Não, obrigada, já tomei”

Lhe contei toda a conversa, com um sorriso bobo no rosto que eu sabia que me acompanharia o resto do dia.

“E o que você fará?” Ela perguntou docemente.

“Contar tudo o que sinto” Disse, mas não me sentia tão confiante quanto pensara.

“Tem certeza?”

Meneei a cabeça, confessando o medo que sentia.

“Mas, como a senhora já disse, o não eu já tenho, to indo atrás do meu sim”

Notas finais
E então, alguma sugestão? Merece comentários? Até a próxima. Xx