Daydreaming
11 Marcando uma conversa.
Notas iniciais
Dei um abraço apertado e demorado em Savannah, tentando descarregar todos os meus medos e pegar um pouco da confiança que ela tentava me passar. Depois desse longo abraço, sai um pouco mais confiante, embora borboletas descontroladas se debatiam na minha barriga.
Eu pensava em várias cenas, várias maneiras de falar o que sentia, todas elas me soando absurdas e eu sempre acabava sendo chutada, o que não ajudava em nada a me manter calma ou me acalmar ainda mais. Decidi então, que resolveria na hora, confiaria que as palavras certas me apareceriam.
Depois de passar em casa rapidamente para pegar meu material, eu já estava no colégio, dois tempos atrasada e um cabelo que deveria estar parecido com o da Medusa, já que recebia mais olhares do que nos outros dias.
O sinal tocou e eu me levantei, sentindo o frio no estômago voltar com uma intensidade assustadora.
Bati em algumas pessoas no caminho até o jardim, escutando alguns xingamentos e levando alguns empurrões, mas sem me preocupar o suficiente para sussurrar desculpas. Cheguei ao jardim, olhando cada canto que pude, mas sem achar quem eu procurava. Resolvi me sentar à sombra de uma das árvores. Estava prestes a abrir um livro e forçar minha mente a se concentrar em outra coisa, quando os vi.
Eles conversavam animados, sorrindo um para o outro. Senti lágrimas queimarem meus olhos, porém sorri para a cena, vendo a felicidade que ambos pareciam sentir. De certa forma, ver o sorriso no rosto dele, assim como no dela, me deixou feliz também. Eles se despediram com um beijo de cada lado no rosto e ela se virou, indo em direção à biblioteca do colégio. Ele esperou que ela virasse e começou a andar em minha direção, um sorriso sombrio no rosto que me fez arrepiar. Ele se ajoelhou a poucos centímetros, deixando o olhar e o sorriso parecendo ainda mais assustadores.
“Se eu não posso ter a garota que eu amo, não me parece justo você ter quem ama” Ele piscou e se levantou.
“Como é?” Eu me levantei, o segurando pelo braço e o virando.
“É isso que você escutou”
“Você está saindo com ela para me atingir?” Ele não respondeu nada, apenas manteve o olhar frio no meu. “Você não é o Allan que sempre foi meu amigo. Quem é você?”
“Continuo sendo o mesmo de sempre” Sua voz era áspera, e combinava com o olhar frio que ele tinha.
“Não, o meu Allan era gentil e bondoso”
Ele sorriu com desdém, se aproximando mais de mim.
“Isso porque o ‘seu Allan”” Ele fez aspas com os dedos. “Tinha um coração” Ele puxou o braço, saindo e dando por encerrada a conversa.
Fiquei parada alguns minutos, digerindo toda a informação que Allan jogara. Eu sabia que fora eu que o deixara daquele jeito, e eu não podia mudar isso, não podia devolver seu coração, mas não podia deixar com que ele ferisse outro, ainda mais o de quem eu amava.
A biblioteca estava cheia, como sempre acontecia em época de prova, mas não demorei em achar quem eu queria. No canto mais afastado da grande biblioteca, a menina tinha o cabelo preso em um coque, a cabeça recostada na parede, mexendo em alguma coisa. Me aproximei de leve, evitando fazer barulho.
Fiquei um tempo olhando por cima do ombro da menina, fotografia das mais diversas passavam na tela do tablete. Algumas dela com os pais, eram as fotos que ela mais demorava. Sorri para essas fotos, imaginado as recordações que elas traziam para a menina. Até que passou por uma que eu não pude evitar me manifestar.
“Sou doida pra conhecer esse lugar”
Ela deu um pulo na cadeira, me olhando assustada.
“Você parece que me fica me evitando e agora tenta me matar do coração?”
“Desculpa”
Nosso diálogo sussurrado me trazia ótimos devaneios. Em um deles, acho que por eu ter visto a entrada na foto, eu esquecia que estávamos na grande, porém simplória, biblioteca do colégio e estávamos na New York Public Library, cercadas por grandes personagens que sussurravam em nossos ouvidos como fantasmas.
“Quanto tempo ficou espionando?”
“Tempo bastante” Ela desligou o aparelho, e baixou um pouco a luz da luminária, deixando nosso lugar com uma luz fraca, quase nula. “Você que tirou as fotos?” Ela meneou a cabeça, confirmando. “Uau, você é ótima” Mesmo na luz fraca, notei que ela corou. “Não sabia que gostava de fotografia”
“Tem muitas coisas que você não sabe sobre mim”
Uma sombra de tristeza passou em seu olhar, assim como transpareceu em sua voz, porém, como ela se apressou em disfarçar, preferi deixar o assunto morrer, como se não fora nunca tocado.
“Então quer dizer que seu sonho é ir na New York Public Library?” Ela perguntou, depois de um longo silêncio.
“Sim”
“Por que será que não estou surpresa?” Ela deu um leve tapa em minha perna, já com seu ar brincalhão e divertido de volta.
“Talvez eu seja previsível”
“Talvez” Ela sussurrou, pensativa.
“Você já esteve lá?”
“Sem querer ser grossa, mas como acha que tirei a foto?”
“Tem razão, como é?”
“Eu não entrei”
“Por que será que não estou surpresa?” Retruquei, recebendo um leve tapa no braço.
“Mas me diga, o que você realmente quer falar comigo?” A olhei assustada e ela apenas deu de ombros. “Previsível, lembra?”
“Olha, tem como avisar pra sua tia que você chegará um pouco tarde em casa? Quero mesmo falar algo com você, mas tem que ser depois que eu sair do trabalho.”
Ela me olhou por um tempo, talvez tentando descobrir do que se tratava.
“Tudo bem” Ela voltou a recostar na parede, o olhar vazio e distante.
“Tem certeza que está tudo bem com você” Perguntei, me aproximando e afagando seus cabelos.
Ela se virou e me abraçou, deixando as lágrimas saírem enquanto me abraçava forte.
“Conversamos tudo direitinho quando mais tarde” Ela disse, depois de um tempo um pouco mais calma.
“Até mais tarde então” Dei um beijo em sua bochecha, saindo.
Tinha uma sensação ruim em meu peito, uma sensação que nunca antes tive, e senti um nó apertar minha garganta.
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