Daydreaming

12 Lua, conversa, dança, beijo e... Algo mais?


Notas iniciais
Bom, espero que gostem do capítulo. A música é All About Us do He is We e o parque publico citado também existe, fica em Milão.

Passei o dia preocupada, sem conseguir tirar a expressão triste da menina de minha mente. Por mais que eu tentasse me concentrar, acabava me pegando pensando no motivo que a deixara triste, desejando poder tirar qualquer dor que estivesse ferindo a menina.

Geralmente passava boa parte do tempo na livraria lendo, outra parte me perguntando como as pessoas conseguiam passar direto, sem nem olhar para cá, porém hoje, estava com a cabeça completamente voltada para o encontro que teria depois.

Finalmente, depois do que me pareceu séculos, chegou a hora de fechar a loja. Arrumei tudo, desliguei as luzes e fechei a porta, encontrando a menina encostada em um poste. Por causa da baixa iluminação e ao capuz dela, não conseguia ver direito seu rosto, mas algo em sua postura me fez pensar que ela estava tensa.

Corri em sua direção, fazendo com que ela se sobressaltasse.

“Desculpa” Pedi, deixando toda minha preocupação transparecer na voz.

“Eu que estava distraída, não te vi chegar” Ela rapidamente assumiu um sorriso, porém não conseguia esconder a tristeza do olhar. “Para onde a senhorita vai me sequestrar?” Ela perguntou, depois de um longo suspiro.

“Um lugar especial” Disse, indicando o caminho com a cabeça. Ela se abaixou para pegar uma mochila que só agora eu notara. “Não vamos fugir”

Ela olhou para a mochila, sorrindo.

“Bom, ainda não estou cem por cento certa de que você não é uma assassina, resolvi tomar precauções” Ela deu de ombros, assumindo uma expressão indiferente.

Dei um pequeno empurrão no ombro dela.

“Idiota”

Fizemos o resto do caminho em silêncio.

“Olha só, se você queria me levar para um pique nique estrelado no Jardim Público de Indro Montanelli, acho que seria melhor pegar um avião” Ela disse, ofegante, já na metade da subida íngreme. Parei abruptamente, a encarando surpresa. “Que foi? Não é porque não leio, que eu não entenda das coisas”

“Erro meu” Disse sorrindo.

“Sei inclusive que é considerado o primeiro parque público de Milão e que o nome é em homenagem a um jornalista italiano” Ela tinha um certo orgulho na voz, que me fez sorrir.

“Impressionante. Gosta da Itália?”

“O bastante para pesquisar”

A subida cessou. Escutei a menina agradecer baixo. Caminhamos por mais um tempo até escutar o barulho da água. Caminhamos mais um pouco até finalmente chegarmos onde eu queria.

Era um lugar calmo, similar a uma clareira, com alguns dentes de leão e umas flores brancas que eu não sabia identificar quais eram e, um pouco mais abaixo, dando um toque final à paisagem, havia uma cachoeira, com a água cristalina, que tinha um brilho mágico à luz da lua.

“Nossa” Ela disse, olhando ao redor, visivelmente admirada.

“É lindo não é?” Perguntei, me sentando onde a terra começava a descer.

Escutei um clique às minhas costas e me virei, sendo pega de surpresa pelo flash da máquina.

“Sim, é lindo” Ela suspirou, se sentando ao meu lado, a expressão mais relaxada e feliz.

“Então gosta mesmo de fotografia, hm?”

“Sim, eu gosto” Ela pontuou a frase com uma foto da cachoeira.

“Por que você estava triste na biblioteca hoje?”

Ela pareceu ponderar por um tempo, e eu fiquei procurando algum sinal de tristeza em seus olhos ou rosto, mas nada encontrei.

“Meu pai se acidentou gravemente” Toquei-lhe o ombro.

“Eu sinto muito”

“Não nos falamos muito” Ela me olhou, um olhar que eu não conseguia identificar. “Eu e ele” Ela engoliu em seco. “E agora, ele está nessa e eu aqui, torcendo para que ele fique bem dessa vez, porque, caso ele morra, não poderei me despedir”

Eu a abracei, sem saber o que falar. Sentia ela controlar a respiração, talvez para evitar as lágrimas.

“Mas me diga você” Ela disse, se afastando. “O que você queria falar comigo?”

Desviei o olhar, sem saber o que falaria, sentindo o peso do momento cair nos meus ombros. Respirei fundo, fechando os olhos, escutando as palavras de Savannah ecoarem em minha mente. “O não você já tem, vai atrás do seu sim”

“Como foi o encontro com o Allan?”

“Foi legal, mas não terá um segundo”

“Por que não?” Tentei parecer indiferente, sem muito sucesso.

“Porque ele é um bom garoto, mas não é quem eu quero para namorar”

“E por que não?” Sentia um frio no estômago.

“A senhorita é muito curiosa, por que tantas perguntas?”

“Ele me pareceu bem esperançoso quanto a um possível namoro de vocês”

Ela sorriu.

“Acho que ele falou pra te atingir”

“Pode ser”

Passamos um bom tempo em silêncio, ambas olhando para frente, talvez procurando palavras no ar. Senti ela chegar mais perto depois de um tempo, fazendo todo meu corpo gelar, apenas onde a pele de nossos braços se tocavam que queimava. Ela tirou uma mexa do meu cabelo que caia no meu rosto, a prendendo atrás da orelha, então sorriu docemente e se virou, tirando uma foto nossa.

“Quantas pessoas você já trouxe aqui?”

“Contando com você?” Fiz um ar de pensativa. “Só uma”

“Então sou a primeira?” Fiz que sim com a cabeça e ela colocou as mãos no peito. “Quanta honra”

Ficamos em silêncio por mais um tempo, até que, tomada de uma onda de coragem que eu não sei de onde veio, me levantei, estendendo a mão para ela.

“Vamos sair um pouco da beirada”

“Medo de descer rolando?”

“Não, mas não dá para fazer o que eu quero em uma descida”

Caminhamos até o pé de uma árvore, colocamos a mochila dela apoiada e eu coloquei uma música no meu celular, que deixei apoiado na bolsa.

“All about us” Ela sussurrou.

“Dança comigo?” Eu perguntei, estendendo a minha mão, que ela prontamente aceitou.

Esqueci a música que tocava no segundo seguinte que ela grudou seu corpo ao meu e dançava em um ritmo totalmente aleatório. Eu estava a ponto de perder a sanidade com a proximidade de nossos corpos e seu cheiro preenchendo cada pedaço do meu corpo, quando uma chuva pesada começou a cair. Nos afastamos um pouco, olhando para cima.

“Nossa” Disse, rindo e revirando os olhos.

“Qual o problema?” Ela perguntou.

“Isso é tão clichê de filme”

“Minhas partes preferidas” Ela disse, se aproximando.

“Então me deixa fazer o meu clichê preferido”

Não falei nada, apenas a virei e nos sentamos. Deitei a cabeça dela no meu colo, ela sorria para mim, de olhos fechados. Acariciei o rosto dele, já completamente molhado pela chuva. E então, uni nossos lábios, de forma calma e delicada, porém que mostrava tudo o que eu sentia. Apesar do vento fraco e frio que vinha junto com a chuva, eu sentia meu corpo todo quente, como se um campo elétrico o protegesse. Um trovão fez com que nos separássemos com o susto.

“Homem-Aranha” Ela disse, se levantando ficando de frente para mim. “Esse é o seu clichê?”

“Foram os únicos três filmes que vi verdadeiramente até o final”

Ficamos um tempo nos encarando, até que ela se abraçou.

“Chuva, vento fraco e gelado. Não seria melhor buscar refúgio nas árvores?”

“Tenho uma ideia melhor” Disse, nos levantando.

Pegamos a mochila e eu nos guiei por entre as árvores, até que finalmente chegamos ao nosso destino.

“Uma casa abandonada no meio da floresta?”

“Tem uma ideia melhor?” Perguntei.

“Voltar pra casa” A olhei com uma sobrancelha arqueada.

“Com esse temporal?”

“Tudo bem”

Entramos na casa. E eu acendi a luz da sala, mostrando um cômodo que, exceto por um colchão, algumas roupas de cama e uma pequena televisão, estava vazia.

“Você já esteve aqui antes?”

“Claro, as brigas com minha mãe são constantes, tinha que ter algum esconderijo”

“Arrumou só esse cômodo?”

“Sim, era tudo o que eu precisava, mas se você quiser, podemos terminar os outros juntas”

“Estamos encharcadas e sem banheiro?”

“Temos uma cama e cobertor” Disse, já tirando a roupa molhada. “Tiramos a roupa molhada e ficamos com o que estamos usando por baixo dela” A menina permaneceu imóvel. “Você não vai à praia?” Ela confirmou com a cabeça. “Então, é igual biquíni” Ela pareceu ponderar, mas por fim tirou a roupa.

Ficamos sentadas no colchão em silêncio por um tempo, eu evitando olhar a menina.

“Qual é a da televisão sem antena?”

“É pro vídeo game”

Mais um tempo em silêncio.

“Posso desligar a luz pra tentar dormir?” Confirmei com a cabeça.

Ela desligou a luz e eu senti ela se deitar. Depois de um tempo, me deitei ao seu lado, o mais afastada que o colchão permitia, me concentrando no barulho da chuva para esquecer a imagem da menina de lingerie da minha cabeça.

Senti a respiração quente dela na minha nuca, seguido de um leve beijo. Senti meu corpo estremecer e se arrepiar. Me virei, segurando o rosto da menina, enquanto unia nossos lábios, descendo minha mão pelo corpo dela, sabendo que seria uma longa noite.

Notas finais
E então, merece comentários? Qualquer dúvida, xingamentos e/ou sugestões, tem o twitter @Brellisario e o ask, ask.fm/Crisgron. Beijos, até a próxima. Xx