Notas iniciais
Espero que goste...

Eu estava deitada na cama, já a muito tempo acordada, mas sem vontade e forças para levantar. Decidi permanecer deitada, olhando o pela janela o ambiente cinza e frio que se estendia do outro lado, dando um toque ainda mais melancólico para os meus sentimentos.

Os acontecimentos da noite anterior giravam em minha mente, fazendo meu corpo tremer as vezes. O beijo deles, as palavras despejadas friamente em Allan. Minhas lágrimas rolavam silenciosamente, quase tão fracas e cansadas como eu.

Sentia me mal por, depois de um dia trabalhando com a cabeça nas nuvens, mandar uma mensagem para o senhor Tolkin falando que me sentia muito mal e sem condições de falar. Senti me um pouco melhor quando ele disse que aproveitaria para passar o dia com a neta e a filha na cidade vizinha.

“Troian” Batidas insistente na porta afastaram por um momento meus pensamentos. “Troian minha filha, você vai se atrasar para o colégio”

Pensei em gritar uma resposta, mas acho que minha voz estava muito fraca pra isso. Pensei em ignorar, mas as batidas na porta eram muito insistentes para isso. Com um suspiro profundo e bm revirar mental de olhos, me arrastei até a porta, secando o rosto e controlando a respiração.

“Não estou bem, ficarei em casa hoje”

“Você precisa de algum remédio?”

Pelo tom de voz usado por ela, sabia que ela queria perguntar se meu estado era por causa de Allan, mas eu não estava no clima para conversas.

“Preciso de silêncio”

Voltei a me deitar, de volta às lágrimas e aos pensamentos dolorosos. Eu via meu celular piscar, anunciando mensagens e chamadas, mas não tinha vontade de pega-lo.

Não sei ao certo quando pegara no sono, tampouco lembro-me se tivera sonho ou não, apenas despertei com barulhos na minha janela. Levantei contra vontade, vendo que o tempo não mudara, nem escurecera, era como se tivesse gelado no tempo, impedindo saber se era cedo ou tarde. Ajoelhei-me no sofá e abri a janela, recebendo uma pedrada na testa. Passei a mão pelo lugar e finalmente olhei para o agressor, que sorria timidamente enquanto corria mais pra perto.

“Desculpa” A pessoa berrou. “Posso entrar?”

Sentia-me incapaz de desviar os olhos do rosto pidão e do olhar melancólico da menina. Revirei os olhos, sabendo ser impossível negar algo para ela. Desci as escadas aos tropeços, esquecendo que estava chorando e que, provavelmente, meus olhos estariam vermelhos e inchados.

“Onde é o incêndio, minha filha?”

Passei direto pela minha mãe e alguma amiga sua e abri a porta.

Desde que acordara, tinha em mente passar o dia sozinha, no quarto, sem contato com ninguém, mas, assim que a vira debaixo da janela, tudo o que eu queria era ficar perto dela.

“Oi” Sussurrei

“Você estava chorando?” Ela perguntou, franzindo o cenho.

A puxei pelo braço, fechando a porta e a levando para cima, sabendo que minha mãe olhava torto.

“Pensei que demoraria até eu ter acesso ao seu esconderijo” Ela disse, girando nos calcanhares para olhar todo o cômodo.

“Você apareceu de intrusa, não podia te receber do lado de fora, nem na sala”

Enquanto ela olhava algumas fotos, apressei em esconder o caderno dos sonhos e algumas folhas soltas que tinham.

“Se você atendesse ou respondesse mensagens, eu não estaria aqui” Ela ainda analisava as fotos, como quem analisa obras de arte.

“Eu precisava de um tempo sozinha”

Ela finalmente desviou a atenção das fotos e me olhou, sentando-se na beirada da cama.

“Desculpa se atrapalhei sua privacidade, mas eu estava preocupada”

Puxei a cadeira da escrivaninha e me sentei, encarando a menina.

“Não tem problema” Pisquei pra ela, tentando aliviar sua expressão e a nuvem cinza que pairava em sua cabeça.

“Você que as tirou?” Ela fez sinal com a cabeça em direção as fotos.

“Não, foi uma amiga minha”

“São ótimas fotos”

“Então a senhorita entende de fotografia?”

Ela deu de ombros, como se não fosse algo importante.

“Você estava chorando porque me viu beijando o menino ontem, né?”

“Direta você, hein” Disse, sentindo meu coração vacilar por um momento.

Ela me encarava ansiosa, como se sua vida dependesse da resposta, e eu a encarava de volta, tentando não me iludir com o sentimento que o olhar da menina passava.

“Sim, eu estava chorando por isso”

Tentei, antes de responder, procurar alguma desculpa, mas optei por ser sincera.

“Eu juro que não sabia de seus sentimentos, se soubesse, eu teria evitado o beijo” Ela dizia, os olhos se enchendo de lágrimas a cada palavra. “Eu não vou aceitar o encontro que ele propôs, mas, por favor, fala que ainda quer ser a minha amiga”

Senti meu coração se apertar ao escutar que ele a tinha chamado pra sair. O primeiro pensamento que tive foi que ele não é idiota, na certa percebera meus sentimentos pela garota, e estava apenas me fazendo ciúmes. Mas fechei os olhos e balancei a cabeça, dizendo a mim mesma que era tolice pensar assim, que ele era meu amigo e não faria isso.

“Você gosta dele?” Perguntei, sem coragem de olha-la.

“Eu não sei” Ela admitiu em um suspiro.

A olhei por fim, sorrindo calmamente.

“Então aceite a proposta” Eu segurei sua mão, tentando demonstrar que estava tudo bem. “Deixa rolar”

Ela me olhava confusa, como se isso fosse a última coisa que esperava ouvir.

“Mas eu pensei que...”

“Olha, eu fiquei de visitar meu pai agora” Disse, me levantando e fazendo a outra menina levantar. “Podemos continuar a conversa amanhã”

Descemos a escada em silêncio.

“Até amanhã” Ela sussurrou quando a levei até a porta.

“Até” Devolvi.

Por um momento achei que ela ia, mas, minuto depois, ela me envolvera em um abraço.

“Sua mãe não gosta muito de mim e eu não acreditei na desculpa de seu pai espero que um dia você confirme minha suspeita” Ela sussurrou em um só fôlego em meu ouvido, deixando um beijo em minha bochecha e saindo antes que eu pudesse responder.

Sorri abobadamente, sem me importar com o olhar interrogatório de minha mãe e subi.

Troquei de roupa e sai pelos fundos, pegando a bicicleta e saindo sem rumo, apenas pensando nas palavras da menina, pensando se significariam algo e se eu poderia criar alguma esperança com relação a tudo isso.

Terminei o passeio na oficina de meu pai, que me recebeu com o melhor sorriso que eu podia esperar e o abraço mais apertado que eu já recebera.

“Eu tenho que acabar este, será que você pode esperar um pouco?”

Confirmei com a cabeça e sentei me no banquinho de sempre, olhando ele mexer no carro. Fechei os olhos e encostei a cabeça na parede, minha mente vagando por vielas e castelos, florestas, praias, tudo com um certo toque de antiguidade. Ela enfim parou em uma cena que me parecia tão real que eu podia sentir o cheiro do café forte.

“Acorde filha” A voz grossa, mas gentil de meu pai me chamou. Ele sorria e estendia uma caneca com café. Sorri para ele, aceitando e tomando um gole.

“Perfeito, como sempre”

Ele puxou outro banco, se sentando de frente para mim. Suas mãos repousando no joelho e seus olhos me analisando, como se ele ponderasse de que maneira começar a conversa.

“Qual o nome dela?”

O olhei assustada.

“Do que o senhor está falando?” Tentei parecer tranquila, mas minha voz soou tremula.

“Qual o nome da menina que te deixou assim?”

Senti meu coração disparar, ao mesmo tempo que o sangue gelou. Como ele sabia?

Notas finais
Comentários?