Daydreaming

15 Pequena tempestade.


Notas iniciais
Primeiro, desculpe a demora. Segundo, alguém (que eu não sei se ainda acompanha essa história) me peguntou no ask se sou fã de Paramore, respondi por lá, mas respondi com muito atraso por motivos de lerdeza alta, então respondo por aqui também, sim, sou parawhore. Terceiro, espero que estejam gostando da fic e que gostem desse cap. P.S.: Ele está sem revisão, acabei de escrevê-lo, iria revisá-lo e postar mais tarde, porém não sei se terei como entrar, então achei melhor postar agora. Boa leitura.

Sentei, tentando desacelerar o coração e parar de tremer, porém, por mais que eu tentasse, a situação parecia piorar. Minha mãe mantinha o gélido olhar fixos ao meu enquanto caminhava lentamente para o sofá. Ela sentou-se, ainda com os olhos fixos ao meu, travando uma guerra, onde a única barreira era a mesa de centro que nos separava. Tive a vontade de desviar o olhar, sentindo o frio crescer dentro de mim, mas me mantive firme, orgulhosa o suficiente para não demonstrar o que sentia. Depois de um longo tempo, minha mãe engoliu em seco, fechou os olhos e quando os abriu, vi uma sombra de desgosto nele. Soltei o ar pesadamente, já sabendo o que viria.

“Onde você estava?” O tom de voz dela era falsamente calmo.

No meu desespero, aquelas palavras pairaram no ar. Embora fraca, senti o chão tremer, fazendo meu corpo tremer logo depois. Mordi meu lábio inferior, prendendo as lágrimas que me inflamavam a garganta.

“Na floresta” Consegui responder, deixando as lágrimas mais escondidas do que imaginei que conseguiria.

Depois de outro longo, frio e pesado silêncio, e depois de ter engolido em seco e aberto a boca uma quantidade significativa de vezes sem nada falar, minha mão falou, com um certo tremor que ela nem lutou em manter distante.

“Com quem?”

Respirei fundo algumas vezes, tentando acalmar meu coração e me perguntando se ela sabia, e como ela sabia, da resposta. Ponderei por um tempo, queria falar que estava com Allan, ele já me encobrira muitas vezes, mas achei melhor não envolve-lo devido ao nosso atual estado.

“Uma amiga” Respondi vagamente “Eu sei que foi imprudência minha, mas nunca imaginaria que cairia um temporal. Na floresta já não tem sinal normalmente, imagina com a chuva que caiu” Sorri desconfortável, vendo a expressão dela ainda dura, a sombra do desapontamento ainda em seus olhos. “Não vai se repetir” Fiz menção de levantar.

“SENTA QUE EU NÃO ACABEI” Ela berrou. Sentei prontamente, os olhos arregalados e o ar preso. Ela pegou um objeto e o tacou, me atingindo com uma violência desnecessária na barriga.

Peguei o objeto com certa dificuldade, me espantando ao notar o quanto tremia. Desbloqueei a tela e logo apareceu uma foto. Fui passando calmamente, vendo as fotos, sentindo meu coração acelerar e o ar ficar rarefeito. Ao fim, devolvi o aparelho para a mesa, colocando a cabeça entre as mãos.

Eu sabia que esse dia chegaria. O armara muitas vezes em minha mente, de maneiras diferentes, por motivos diferentes. Ao entrar pela porta hoje, travar a batalha de olhares com minha mãe, ver o desapontamento em seu olhar, eu sabia, por mais que eu tentasse sufocar e me convencer do contrário, o rumo que aquela conversa tomaria. Mas nada disse me preparou para esse momento.

“Quem te enviou essas fotos?” Foi tudo o que consegui falar. Não sabia se suportaria, até mesmo se queria, saber a resposta, mas foi o que saiu.

“Quem enviou não te interessa” Ela disse secamente, sua voz fraca como a de alguém que fora a pouco gravemente ferido. “Quero saber o que significam”

Não prestei atenção ao que ela falara, estava mais preocupada em quem havia lhe passado as fotos. Até que, depois de um tempo, eu pensei que achara a resposta. Assim que a encontrei, desejei nem tê-la procurado, pois ela me atingiu o coração como uma flecha venenosa. Flecha essa que eu mesma preparara. Engoli em seco, sentindo as lágrimas arderem garganta e olhos. Olhei para a minha mãe q continuava furiosa.

“Foi o Allan, não foi?” As palavras arranharam ainda mais minha garganta, saindo pesadas e dolorosas, como um fantasma preto que te assombra para o resto da vida. Tinha medo de ouvir a confirmação e a flecha se firmar ainda mais em meu peito, mas, o silêncio afirmativo que minha mãe deu, foi pior do que qualquer resposta verbal que eu poderia ganhar.

“O que significa isso, Troain?”

Fechei os olhos, sentindo o veneno da flecha se misturar ao sangue e se espalhar pelo meu corpo. A olhei de volta, sabia que tinha algo diferente no olhar, algo rude, mas não pude, também não queria, evitar.

“O que acha que significam? Significam o que você está vendo” Eu cuspi as palavras, mais grossa e seca do que eu queria.

Vi que ela contornava a mesa de centro, parando a poucos passos de mim. Nossa batalha pelo olhar voltara, dessa vez sem nenhuma barreira nos separando. Ela era apenas um pouco mais baixa que eu. Estávamos nos encarando, mas no minuto seguinte, senti meu rosto tombar pro lado, minha bochecha arder. Automaticamente levei minhas mãos ao lugar machucado. A olhei com incredulidade, tentando, em vão, achar algum vestígio de arrependimento.

“Ainda acha que pode me responder?”

“E por que não poderia?” Respondi, o deboche presente no meu rosto e na minha voz.

“Te darei duas opções” Ela disse, ignorando o resto e colocando dois dedos no meu rosto. “A primeira, ou você fica aqui, passa a frequentar a igreja comigo e aceita sair com Allan; Ou você fica com essa sua vida de pecado, mas longe daqui”

Soltei uma gargalhada irônica, esperando mais um tapa, que por sorte não veio.

“Ir para a igreja e aceitar sair com Allan?” Soltei mais uma gargalhada “A senhora acha que o que eu tenho se cura com a presença de Deus e ficar me agarrando com alguém que tudo o que eu sinto agora é nojo?”

“Isso é com certeza falta de Deus”

Sorri ainda mais ironicamente.

“Você está se escutando?” Mordi o lábio, respirando fundo. “Eu não acredito em Deus. Eu não consigo acreditar que alguém pode ter feito a mim e a você” Meu coração batia mais forte a cada palavra dita, fazendo minha respiração ficar cada vez mais pesada. “Não acredito que ele cria pessoas iguais a mim e pessoas iguais a você” Meneei a cabeça, assumindo uma expressão de nojo. “Pessoas que só querem amar e pessoas que as recriminam por isso”

“E quem foi que disse que Deus te criou?”

A cada palavra dela, a flecha ia mais e mais fundo no meu coração.

“Sabe o que eu acho? Acho que, se realmente existe um Deus e ele é amor, como vocês falam, Ele estaria mais preocupado em se desapontar com assassinos, ladrões, estupradores, pedófilos e gente como você, que vive pregando a Sua palavra, mas que pratica o oposto. Não estaria desapontado com pessoas que amam verdadeiramente” Falei pausadamente, com uma tranquilidade que eu não sei de onde veio. Tentei sair da frente dela, disposta a subir para pegar minhas coisas, mas ela barrou o caminho.

“Se você escolheu sair dessa casa, então saia sem nada” A olhei por mais algum tempo.

“Um dia, eu sei que irá se arrepender, mas eu não sei se esquecerei disso” Virei as costas, andando a passos firmes e de cabeça erguida para fora, mas, ao pôr o pé pra fora e fechar a porta atrás de mim, senti as barreiras cederem à pressão da água.

Encostei contra a porta, sentindo minhas pernas falharem e eu ir caindo até encontrar o chão. Abracei minhas pernas, tentando afastar o frio que estava sentindo, e deixei as lágrimas saírem.

Não sei ao certo quanto tempo chorara, ou quanto tempo ali ficara. Quando o frio começou a aumentar, decidi que deveria ir para o único lugar que podia chamar de lar. Caminhei devagar, chutando algumas pedras no caminho, sem pressa e sem vontade de chegar ao meu destino. Quando eu virara a esquina, de modo que dava para ver a pequena entrada para a casa de meu pai, o vi com a tia de Sarah, ambos sorridentes, ao beijo. Senti meu coração se encher de alegria e um sorriso brotar em meu lábio. Resolvi que não deveria atrapalha-los, então voltei a caminhada.

Estava decidida em passar a noite na floresta, ajudaria a pensar e a acalmar o coração. Quando cheguei na entrada, mudei de ideia subitamente, sentindo a necessidade de fazer algo antes de voltar à cabana. Fui correndo dessa vez, chegando ao meu destino em pouco tempo. Bati a porta e não demorou para me atenderem, agradeci por ser quem eu queria.

A pessoa sorria triunfante, talvez por ver minha expressão de derrota. Ver essa expressão fez meu sangue ferver mais do que já havia, minha mão formigava, ansiando por aquilo. Respirei fundo e coloquei toda a força que eu tinha no braço e então, a descontei no rosto dele, sentindo o formigamento melhorar.

“Você se arrependerá desse tapa, te farei sentir uma dor muito maior da que estou sentindo” Ele disse, me olhando como um maníaco.

“Você não sairá vitorioso dessa, Allan” Devolvi, sentindo raiva de mim por um dia ter tido pena de magoa-lo e por ter me sentindo ainda pior ao fazê-lo. “Eu não deixarei”

Não esperei por uma resposta, voltei ao meu caminho, sentindo um pouco de alivio e as lágrimas voltarem.

Notas finais
Sugestões, xingamentos e derivados tem o twitter: @Brellisario, o ask: ask.fm/Crisgron e os comentários. Beijos, espero que tenham gostado, até a próxima.