Daydreaming

16 Uma música para melhorar tudo.


O caminho até a pequena casa abandonada foi mais longo e íngreme do que de costume. Passei direto pela cachoeira, local onde eu sempre paro quando lá vou, preferindo seguir direto pela trilha. Os pensamentos, que geralmente não me deixam, atacando me sempre em longa escala em tão pouco espaço de tempo, se sessaram dessa vez, como se sentissem a minha necessidade de ficar sozinha, retirando-se como se tivessem em luto pelo meu estado. Ou apenas não suportavam o fogo que consumia minha mente, a fazendo latejar e queimar intensamente.

E foi nesse estado, completamente oca e desgastada, envolta em um luto que eu jamais imaginara poder sentir, que cheguei a porta da casa. Tendo a lua e o barulho do vento como companheiros durante todo o caminho. Antes de abrir a porta, olhei para a lua. Cheia e esplêndida, amarelada, tão próxima que, talvez, se eu estendesse a mão, pudesse toca-la. Ela estava lá, com seu ar misterioso e sombrio de sempre, parecia sussurrar para mim, me mandando ter forças. Dei um fraco sorriso e entrei.

Tateei às cegas até meus pés chutarem o velho colchão. Deixei meu corpo mergulhar nele e, assim que estava completamente deitada, os pensamentos se desprenderam de sua jaula e encheram minha mente com as imagens da última vez que estivera deitada ali. Comparar a sensação de agora, com a daquele dia foi inevitável, assim como as lágrimas.

Não lembro quando fora vencida pelas lágrimas, mas agora anklebiters me despertava lentamente. Tateei até encontrar o celular, abrindo os olhos lentamente, sentindo a irritação da luz. Quando eles se adaptaram, revelaram o nome no visor. Sarah. Uma foto de nós duas sorrindo acompanhava. Ponderei por um momento, mas acabei deixando o telefone de lado.

Depois de um tempo, levantei. O sol brilhava, dando a falsa sensação de calor, quando na verdade era o frio que reinava. Fiz a decida tal qual a subida, sem nenhum pensamento me espreitando à mente, porém, dessa vez, parei na cachoeira. Mesmo com o frio, livrei-me das roupas e pulei, sentindo meu corpo adormecer com o contato da água fria.

Não demorei e já estava de volta a cidade. Fui até a livraria, expliquei o básico, mas disse que não estava com uma boa cabeça para o trabalho. Não sei se por causa de minha aparência, mas ganhei a permissão de ficar em casa. Meu olhar era distante, vazio, assim como eu me sentia.

Eu estava parada na porta do meu pai, tentando encontrar a coragem necessária para bater à porta. Quando finalmente o fiz, levou um tempo até que uma mulher, cabelos desgrenhados e vestindo apenas uma camisa de meu pai, abrisse a porta. Ficamos um tempo nos encarando, visivelmente desconfortáveis.

“Quem era?” Meu pai disse, aparecendo completamente nu em meu campo de visão. “Ai meu Deus” ele se cobriu com uma almofada enquanto eu desviava o olhar, sentindo me corar. “Eu não sabia...” Ele gaguejava.

“Erro meu” Disse, ainda olhando para o lado, levantando as mãos.

“Só um minuto”

“Entra” A mulher disse por fim, me dando um espaço. Ficamos mais um tempo em um silêncio desconfortável. “Eu vou...” Ela indicou o corpo. Meneei com a cabeça, sem saber o que falar.

Sentei no sofá, remexendo nos dedos, até que eles apareceram. Ela me deu um abraço breve e saiu tão breve quanto, dando um apressado selinho em meu pai.

“Uou” Disse, fazendo meu pai corar.

“Eu posso explicar” Ele gesticulava nervosamente, a voz tremula.

“Não tem o que explicar pai” Eu corri até ele e o abracei. “O senhor finalmente encontrou a felicidade e eu estou muito feliz por isso” Ele devolveu o abraço.

“Mas me diga” Ele nos separou. “O que houve?”

Sentei no sofá e lhe contei toda a história. Incluindo a parte de Allan. Ele me deixou falar tudo, sem fazer nenhum comentário. Vez ou outra o via tentando manter o auto controle, mas, em sua maioria, a raiva ficava visivelmente estampada em seu rosto.

“Vem” Ele se levantou quando eu acabei, me puxando pelo braço. “Vamos pegar suas coisas”

A casa da minha mãe era perto, porém fomos de carro, o que, caso nos fosse permitido pega-las, nos ajudaria a transportar minhas coisas. Meu pai bateu a porta do carro com violência, assim como socava a porta da frente. Eu fiquei a uns cinco passos atrás dele, preparada para correr assim que a porta se abrisse.

“Onde é o incêndio?” Minha mãe disse ao abrir a porta. Meu pai a empurrou pro lado, liberando a passagem.

“Vá pegar suas coisas” Ele disse, ainda com os olhos em minha mãe.

“Ela não entra mais nessa casa” As palavras dela me fizeram parar na porta.

“ENTRA E VAI PEGAR AS SUAS COISAS AGORA” Meu pai berrou dessa vez, fazendo minha mãe se encolher um pouco.

Passei o mais rápido que pude, só respirando quando fechei a porta de meu antigo quarto atrás de mim.

Olhei ao redor, memorizando cada pedacinho do quarto. Suspirei resignada e peguei duas malas de viagem e uma mochila no armário. Arrumei tudo, sentindo um certo vazio por todos os objetos que fizeram parte de minha vida, se comportarem em duas malas de viagem, uma mochila e uma caixa. Joguei as bolsas pela janela, para não ter que ficar descendo e subindo. Peguei a caixa e me preparei para sair, porém, ao abrir a porta, murmúrios furiosos se fizeram escutar. Permaneci em meu lugar, tentando decifrar o que diziam, evitando até mesmo respirar.

“Você está conivente com isso, então?”

“Ela é minha filha, e eu me orgulho dela”

“Orgulho? Disso?” Uma risada baixa escapou. “Sabia que você era baixo, mas nem tanto”

“Se você não consegue amá-la pelo que ela é, então você nunca a amou de verdade, nunca foi a mãe dela”

“Não venha me falar o quanto eu amo ou deixo de amar minha filha, porque eu a amo, não amo o monstro que ela se tornou”

“Ela é a mesma garota desde sempre, mas sabe o porquê você a acha um monstro? Porque você nunca amou. Olha em volta, quem está com você? Ninguém. E agora você quer afastar a sua filha também. As únicas pessoas que te aturam são as carolas da igreja, mas só o fazem porque você banca aquele lugar”

“A culpa disso tudo é sua. Você nunca me amou de verdade, por isso me deu um fruto podre”

Escutei um barulho de um tapa e fechei a porta. Não queria mais escutar aquilo. Deixei a caixa na cama e fui até a janela. Eu conseguiria pular. Sentei na perada, mas algo me impediu. Olhei para o chão, depois para a caixa. Voltei a pega-la e abri a porta, a fechando com uma força desnecessária. Passei direto por eles, coloquei as coisas no carro e me sentei, olhar fixo em frente.

“Você escutou, não foi?” Meu pai me perguntou, depois de um tempo em silêncio ao meu lado. Não respondi e ele ligou o motor, dando partida. Quando encostamos o carro, Sarah e sua tia estavam sentadas na calçada. Meu pai saiu e foi correndo abraçar a mulher, eu permaneci no carro por um tempo, até que Sarah abriu a porta.

“Escuta aqui” Ela disse, me fazendo olha-la. “Acha que não atender ao telefone irá me deixar menos preocupada? Você não tem noção o inferno que foi minha manhã com seu sumiço”

“Me desculpe”

“Temos até o horário da janta para você me contar o que houve” Ela me estendeu a mão e eu sai do carro.

“Eu não sei se quero...” Comecei a falar, mas ela me silenciou com um beijo.

“Sou sua namorada, estou com você em todos os momentos” Sorri, a puxando para um abraço forte, sentindo minha própria força se restaurar. “Vem, tenho uma surpresa pra você”

Estávamos em seu quarto, deitadas um de frente para a outra, eu acabara de lhe contar tudo, inclusive o que escutara quando fui pegar minhas coisas. Ela acariciava meu rosto, secando algumas lágrimas rebeldes que me escapavam. Peguei uma foto que guardara no bolso da calça. Eu sorria, ainda criança. Meu olhos fechados por causa do sol, meus cabelos brilhavam dourados e minha mãe me abraçava, beijando me a bochecha.

“Yet their lives passed in gloomy woe / And hopeless come its dark decline / And I lament because I know / That cold departure pictures mine” Sussurrei, a voz embargada pelas lágrimas. Dei outra boa olhada na foto, por fim a partindo ao meio.

“O que você disse?”

“Só algo que minha escritora favorita uma vez escreveu” A olhei, suspirando. Amacei a parte que ficara o rosto de minha mãe e dei a outra parte à menina.

“Isso não é culpa sua, você não pode achar que é, não pode desistir de si mesma”

“Eu não vejo uma saída” Confessei, desviando o olhar. Ela se levantou, me puxando junto.

Nos levou até o piano e começou a dedilhar algo.

“Só escuta”

E então começou a tocar. Seus dedos se movimentavam com perfeição e suavidade, sua voz se juntava às notas como se fossem feitas uma para a outra. E eu flutuava na melodia, perdida na letra. Sentindo cada palavra sendo tatuada em meu coração. Até que a música parou. Permaneci mais um tempo de olhos fechados, até que os abri, a menina me olhava com expectativa.

“Serei considerada ET se eu falar que, embora tenha amado a música, não a conheço?”

Ela sorriu, me fazendo sorrir também.

“Innocence. Avril Lavigne”

A fiz levantar do banco, toquei delicadamente seu rosto, acariciando sua nuca. Beijei-lhe docemente, sentindo suas mãos em minha cintura.

“Você tem razão. Lutei muito e abri mão de muito mais para ser quem sou e me mostrar assim. Não voltarei a estaca zero”

“Assim que se fala” Ela disse, me puxando para a cama. “Temos um compromisso no jantar, mas acho que dá pra aproveitar um pouco. O que acha?” Ela disse, tirando sua blusa e sorrindo maliciosa.

“Acho que você poderia cancelar o compromisso”

Tirei minha blusa e me juntei à ela, sentindo todos os eventos anteriores se tornarem apenas uma sombra do passado.