Daydreaming
21 O Fim
Notas iniciais
Eu já tinha saído da casa da menina. Eu parara no último lugar que eu poderia pensar em parar, a igreja. Eu não entrara, mas estava sentada no último degrau que levava à porta. Envolvia as pernas com o braço e me deixava embalar pelas lágrimas.
Por mais que eu tentasse afastar, as imagens e falas da conversa não deixavam minha mente. Era como alguém, desesperado por oxigênio, gastasse em vão toda sua força para nadar contra a maré. Minha mente e corpo clamavam por descanso, pediam desesperadamente que eu deixasse de medir forças contra a água e aceitasse o afogamento.
“Então é verdade” O homem falou tão forte e rispidamente que as palavras preencheram cada canto da casa, ganhando ainda mais força. Vi a menina se encolher perante elas.
“Pai... Como...” A menina tentava formular algo coerente, porém as palavras eram soltas em sua mente.
“Se vistam, então me encontrem na sala” Ele não esperou uma resposta, acho que nem a queria, deu as costas e nos deixou encarando o espaço vazio que outrora ocupava.
Demorou um tempo até que minha coordenação voltasse.
“É melhor irmos logo” Toquei de leve as costas da menina, falando no tom mais delicado que conseguia. Ela demorou um instante antes de finalmente concordar.
Quando chegamos na sala, o pai dela se servia de um copo de uísque, tinha a expressão vaga, como se remoesse algo dentro de si, algo que a muito ele deixara enterrado e não pretendia desenterrar. Assim que tomou conhecimento de nossa presença, ele tratou de esvaziar o copo e a mente, assumindo uma expressão fria e gélida.
“Quando me ligara, não fui capaz de acreditar no que me contaram” Ele começou, com o mesmo tom que usara no banheiro, tornando o ambiente ainda mais frio e pesado. “Pode imaginar o que eu senti quando tive que inventar uma desculpa qualquer para me ausentar do trabalho para vir aqui e falar com a mulher que me ligou que ela só poderia estar equivocada porque eu dei educação pra minha filha?” Conforme o homem falava, seu tom ficava mais forte, fazendo nossos corpos tremerem. “E ai, chego em casa, e descubro que ela estava certa” Ele soltou um pesado suspiro, o desapontamento visível em seu olhar. Olhei para a menina, que lutava para conter as lágrimas. “O ponto é, você está voltando comigo, daqui a três dias, irá estudar em um colégio interno e, durante esses três dias, não a quero com ela”
“E o senhor acha que acatarei isso?” A menina se levantou, munida de uma coragem que eu não poderia imaginar que ela teria. “Desde que me entendo por gente, é a minha tia quem toma conta de mim, ela que fora às reuniões e apresentações de colégio” Ela fitava o homem diretamente nos olhos, a tensão era tanta que, não precisava olhar atentamente, para ver as faíscas que saíam dos olhos dos dois.
Um silêncio pesado se instalou no lugar, os dois seguiam se encarando, sem quebrar o contato visual, quando, sem aviso, o estalo do tapa fora o que quebrara o silêncio. Me levantei prontamente, indo em direção a menina, quando, antes mesmo que eu pudesse alcança-la, o homem me empurrou.
“Vai embora” Disse entredentes, como se controlasse os nervos para não agarrar meu pescoço e só soltar quando eu estivesse sem vida. Permaneci no lugar, olhando dele para a menina.
“Vai, depois nos falamos, prometo” A voz da menina estava embargada, o que fez meu coração se apertar. Queria abraça-la, tirar a menina daquele lugar e nunca mais voltar, porém o que eu podia lhe oferecer no momento era um breve sorriso e um meneio desajeitado.
E agora estava eu, sentada na porta da igreja, remoendo aquela cena não sei por quantas vezes na minha mente, cada vez que se repetia, ela soava pior. Levantei, me conformando de que não conseguiria afastar a lembrança, teria apenas que aprender a lidar com ela.
Caminhei até o bar mais perto. Bebi um pouco, o suficiente para aquietar as lembranças, mas não o bastante para me embebedar. Caminhei pela noite, esbarrando em um ou outro conhecido, que me lançava o costumeiro olhar de incompreensão, que eu sempre ignorava. Deixei meus pés me guiarem, exausta demais para pensar em um rumo certo.
Quando dei por mim, estava parada na porta da Savannah. Bati na porta, mesmo sabendo que ninguém escutaria, conforme o tempo ia passando, as batidas saíam mais fortes, juntamente com as lágrimas. Por fim, quando minhas mãos começaram a doer, parei, encostando a testa na madeira e respirando fundo para me acalmar.
Voltei a caminhar, agora com um destino certo. Quando cruzei a rua, vi que não precisaria bater, a mulher estava sentada à porta, conversando com algumas amigas da igreja.
“Oi, mamãe” Disse, com carregada ironia. “Vim lhe dar o prazer de ver a derrota e tristeza de sua única filha, a qual você arruinou”
“Você está bêbada?” Ela se levantou, vindo em minha direção.
“Não, não estou bêbada embora fosse essa a minha vontade” Não precisava olhar para saber que nosso pequeno espetáculo estava sendo acompanhado atentamente pelas amigas de minha mãe, que se encarregariam de espalhar a notícia no dia seguinte.
“Entra, fica aqui essa noite” Ela fez menção de me tocar, porém desviei.
Minha vontade era de falar poucas e boas para ela, porém um nó se formou em minha garganta, a queimando intensamente e as palavras se perderam na minha mente, trazendo de volta toda a tempestade de lágrimas.
“Por que você fez isso?” Consegui dizer com certa dificuldade. “Você não tinha esse direito” Vi os olhos dela fraquejarem, a dúvida se instalar em seu rosto. “Sua filha, a felicidade dela, deveria ser mais importante que a opinião dos outros” Ela respirou fundo, eu sabia que para segurar as lágrimas.
“Entra, toma um banho, amanhã conversamos” Sua voz era controlada, mas trêmula.
Analisei minha situação. Meu pai, provavelmente, estaria ocupado, eu não estava em condições de ir pra casa da floresta, então minha única saída era aceitar a oferta da minha mãe.
Passei direto e subi, sabendo que os olhares famintos estavam me seguindo de perto. Parei na porta do meu antigo quarto, sentindo um certo conforto e uma falsa calmaria repousarem em mim. Abri a porta, mas não me permiti acender a luz, não queria reviver as memórias que aquele quarto trazia, não queria me permitir sentir falta dele. Caminhei no escuro, me jogando na cama e rapidamente pegando no sono.
Naquela noite eu sonhara estar em Paris, andando por vielas, encontrando meu tão querido O Morro dos Ventos Uivantes em sua capa original, depois eu estava em um café, tomando um cappuccino enquanto me deliciava com o aroma que envolvia o ar. Foi ai que ela chegou, dando-me um lírio, um convite ao desafio que era lhe amar. Desafio que aceitei de pronto, pois não precisava pensar, apenas sentir. Foi quando o celular me trouxe de volta à realidade.
Já tomei minha decisão. –S.
Demorei um tempo para entender do que se tratava. Olhei para o relógio. 4:57. Antes que eu pudesse encontrar uma resposta, a tela apita com outra mensagem.
Encontre amanhã. Mesmo horário. Mesmo local. –S.
Não precisaria de uma resposta afinal. Ela já anunciara que queria me ver. Criei esperanças de que poderia ser algo bom. Eu tinha pouco mais de duas horas até o encontro. Sabia que não conseguiria voltar a dormir. Fui até a mesinha que eu costumava guardar o livro dos sonhos, apenas para encontrá-la vazia. Por fim decidi sair, se fosse para esperar, que eu a esperasse lá.
As horas demoraram a passar depois que cheguei na cachoeira. Estava quase pegando no sono quando senti a menina se sentar ao meu lado. Voltei a sentar, a olhando enquanto ela fitava a água, a expressão em uma perfeita máscara fria, escondendo o que ela sentia. Involuntariamente meu corpo gelou, se preparando para o pior.
“Ele te bateu?” Decidi quebrar o gelo. Ela apenas meneou com a cabeça, sem nem me olhar. “Já passamos por tantas coisas nesse pouco tempo, podemos passar por isso, nós temos a sua tia, ela...”
“Eu vou com ele” Ela me interrompeu, a voz tão neutra e inexpressiva quanto sua face.
“Você não pode” Ela finalmente me olhou, me fazendo desejar que ela nunca tivesse feito.
Os olhos cinzas, cheios de vida, que me encaravam brilhantes e felizes não importasse o momento, estavam mortos, era como se tivessem retirado a alma da menina e, naquele momento, a minha também se fora.
“Vamos partir daqui a cinco minutos” Ela confessou, brilhantemente mantendo as emoções controladas. “Ele me deu esse tempo para me despedir da minha tia, mas eu o usei com você, não faça com que eu me arrependa”
“Se arrepender?” Disse com incredulidade. “Você vai virar as costas e ir embora sem nem lutar e espera que eu fique aqui acenando e lhe dê um beijo na bochecha de despedida?”
“Adeus” Ela se limitou a dizer, virando as costas e partindo em disparada.
Meu estupor era tanto que eu não conseguia me mover, fiquei um bom tempo parada olhando para o lugar pelo qual a garota desaparecera.
Não sei como consegui voltar, ainda não voltara totalmente, minha mente vagava perdida em algum lugar, como se algo estivesse me puxando, como se me chamassem. Quanto mais eu tentava retomar o controle, mais eu me afastava de mim.
Pensei que isso acontecia a medida que a garota se afastava de mim. Fui até o carro do meu pai, sabia que o encontraria aberto, fiz a ligação direta e parti para encontrar a menina.
Não sabia a que velocidade estava, tampouco me importava com isso, queria apenas segura-la em meus braços para nunca mais soltar.
A medida que eu dirigia, nossos momentos passavam como flashs em minha mente. Allan aparecia em alguns, na maior parte. Conforme as cenas passavam, Sarah perdia a cor, como se tivesse desbotando e virando fumaça, enquanto Allan ficava cada vez mais vivo. Temi estar perdendo ela de vez, sentindo minha mente perder cada vez mais o domínio do meu corpo. Por fim, sentia que restava um simples e frágil fio me segurando ao meu corpo, e então, o sorriso de Sarah, junto com seus apaixonantes e perturbadores olhos cinzas, apareceu pela última vez em minha mente.
Foi quando eu soltei o fio e meus olhos se fecharam, me fazendo mergulhar em um enorme, fundo, gélido e eterno buraco negro.
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