Notas iniciais
Hey, último capítulo. Estou desde cedo reescrevendo ele e não chegava a um satisfatório, notei então que poderia passar anos escrevendo, mas nunca chegaria a um capítulo que me fizesse ficar de todo satisfeita, então, o que mais chegou a isso, foi esse. Estou cansada e tenho curso de teatro amanhã, por isso vai sem revisão por enquanto, porém, assim que eu tiver um tempo, irei revisa-lo e qualquer coisa repostar. Espero que gostem.

Sabe quando se sonha que está caindo em um buraco negro, e então, não mais que de repente você acorda com o surto da queda? Foi essa a sensação que tive. Meus olhos não abriram, porém, como era de se imaginar em uma situação dessas. Não fiz força para abri-los, permaneci com eles fechados, na esperança de lembrar algo.

Lembrei de estar dirigindo, já sentindo o corpo mole e a mente inconsciente. A sensação de impacto deve ter sido o carro batendo, penso inicialmente. Mas estou deitada, não muito confortável, porém no que me parece ser uma cama. Talvez meu corpo tenha registrado o baque da batida tardiamente.

Forcei os olhos, na esperança de saber onde estava. Minha visão estava turva, como se eu tivesse submersa em algum lugar onde a água não era cristalina. Quando tentei virar o rosto para tentar distinguir algumas formas, percebi o quão grave o acidente deveria ter sido. Minha cabeça pesava e apenas pensar no movimento doía.

Voltei a fechar os olhos, respirando com certa dificuldade. Respirei fundo com certa dificuldade e senti meu corpo reclamar. Escutei um barulho, mas não me atrevi a fazer qualquer movimento, nem abrir os olhos.

“Sarah?” Questionei, um sussurro fraco e baixo, tão baixo que, não fosse pelo incomodo da boca ressecada, eu poderia achar que fora apenas minha imaginação.

“Não, não sou a Dr Sarah, sou eu, Sophia” A voz era brincalhona. Mãos quentes envolveram a minha. “Está em mais um de seus devaneios, né?” Assumira um tom de piedade. “Eu queria saber se essa Sarah com quem você tanto sonha é parecida com a Dr”

Minha cabeça dava voltas. Do que essa mulher estava falando? Doutora? Sarah estava no ensino médio, assim como eu. Senti meu estômago revirar. Com um movimento rápido para o lado, o que futuramente me traria inúmeras dores eu sabia, tratei de deixar no chão o que quer que seja que estivera revirando meu estômago.

“Nossa, você realmente acordou” A voz soou brincalhona outra vez.

“Minha boca e minha garganta estão ressecadas, preciso de água” Minha voz saiu seca, porém com mais vida.

Permaneci com os olhos fechados, minha cabeça ainda girando, como se eu estivesse em um furioso furacão. Senti algo gelado em minha mão, um copo. Levei o à boca e antes que minha acompanhante pudesse terminar a frase de “não beba rápido”, eu já pedia por mais.

“Não posso te dar mais água” Ela pegou o copo da minha mão, murmurando algo que eu entendi como ‘não sei se eu poderia te dar esse’.

“Se você não é a Sarah, quem é você?”

Ela soltou um suspiro, como se tivesse muito chateada.

“Acho isso um absurdo” A voz se movia no ar, como se sua dona andasse pelo cômodo enquanto falava. “Da Sarah você lembra e de mim não? Tudo bem que ela tem ficado até mais tarde lhe contando histórias, mas quando ela teve que se ausentar eu lhe contei histórias também e nem reconhecida sou”

“Como assim me contando histórias? Onde eu estou?”

“Então acordou nossa margarida” Era uma voz diferente que falava. Uma voz doce e gentil, levemente rouca, que fez meu coração acelerar instantaneamente.

“Quando eu cheguei ela estava sussurrando seu nome, depois vomitou e agora está ai, sendo ingrata” Revirei os olhos mentalmente, sentindo que ia explodir em impaciência.

“Você gosta do meu nome, hm” Ela estava tão perto que eu podia sentir seu hálito e sua respiração em minha bochecha. “Como está se sentindo?” Ela perguntou, mais distante dessa vez, mas tocando meu braço. Senti a pele do local esquentar e formigar ao toque.

Meu coração disparou, assim como um “bip”. Demorei até notar que o “bip” era do aparelho que media minha frequência cardíaca. Senti meu rosto corar e forcei para controlar os batimentos.

“Estou... Confusa” Foi como eu consegui descrever o meu estado.

“É normal” Ela tirou a mão do meu braço e eu evitei um suspiro de protesto. “Consegue abrir os olhos?”

Abri os olhos aos poucos, talvez para tentar acostumá-los e ver mais que meros vultos indefinidos, porém não adiantara.

“Você consegue me ver?” Meneei a cabeça em negativa, muito frustrada para falar algo. “Então segura o coração que eu terei que te tocar para pingar um colírio, ok?” A voz dela mostrava que ela segurava a risada, o que me fez corar ainda mais.

Ela tocou meu rosto de leve, pingando então o colírio em meus olhos. Pisquei algumas vezes até que, aos poucos, os vultos foram ganhando formas definidas, cores e traços, até se tornarem o que realmente são.

Uma mulher, absurdamente jovem para ser médica, me encarava sorrindo. Um sorriso mais desconcertante que sua voz. Seus cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo alto, deixando seu rosto jovial ainda mais amostra, brilhando como se soubesse a beleza e o poder que tinha. Olhei para o crachá no jaleco, tão branco quanto a pele da menina. Dr. S. Williams. Finalmente olhei para os seus olhos, sabendo que seria neles que me perderia. Por trás das lentes de um óculos, o tipo de óculos que uma nerd como eu usaria, um par de olhos cinzas brilhava para mim. Era tão diferente da Sarah que eu me lembrava, porém tão parecida ao mesmo tempo.

“Me enxerga agora?” O sorriso permanecia lá, mesmo quando ela falava.

“Perfeitamente” Meu sussurro era abobado, como se eu estivesse hipnotizada. Como se não, eu estava hipnotizada, pelos olhos azuis.

“Acho que te devemos algumas explicações antes de mais nada, né?” Ela puxou uma cadeira, se sentando ao meu lado.

Ela começou a contar a história, sem tirar o doce sorriso do rosto. Eu sofrera um acidente de carro. Eu estava retornando à minha cidade natal depois de descobrir que minha mãe se fora. Eu não falava com ela a um longo tempo, foi o que contara meu pai e ela me repassava agora. Conforme ela ia me falando, eu sentia minha garganta se fechar e alguns fragmentos voltarem a minha memória. Lagrimas começaram a se formar e a escorrer pelo meu rosto.

“A quanto tempo estou aqui?” Consegui perguntar, depois de Sarah ter terminado sua narrativa.

“Pouco mais de um mês” Desviei o olhar da menina, não por não querer que ela me visse chorando, mas por ter vergonha da culpa que eu sabia carregar no olhar. “Você não tem culpa” A voz era ainda mais gentil do que de costume, sua mão tocou a minha. “Eu não sei se você estava escutando, espero que sim, mas eu passei por uma situação parecida” Voltei a encarar a menina.

“Sua mãe também morreu sem falar com você, com você sentindo raiva dela, magoada com ela?”

“Minha mãe está viva” Ela parou, me encarando. Talvez debatendo se deveria ou não continuar. “Seu pai me contou o motivo da briga entre vocês e bom” Ela parou mais uma vez, talvez para analisar minha reação ao saber que meu pai contara algo que eu provavelmente queria manter em segredo. “Não falo com meus pais pelo mesmo motivo” Ela soltou uma risada fraca.

“É melhor ir falar com eles antes que um morra e os papéis troquem aqui” Ela arqueou uma sobrancelha.

“Deus me livre. Eu iria querer um médico de verdade tomando conta de mim, não de uma jornalista” Franzi a testa, deixando clara minha confusão.

“Jornalista?”

“Você não lembra nem que é formada. Definitivamente não iria querer que minha vida dependesse de seus cuidados” Um pigarro nos fez notar a presença de outra pessoa na sala.

Era uma mulher. Ruiva, com sardas. O cabelo liso preso em um rabo de cavalo desajeitado. Estatura mediana, tinha um uniforme azul desbotado e o rosto cansado.

“Desculpe, Soph, não sabia que estava aqui ainda” A médica confessou sem graça. “Bom, por mais que eu adore passar um tempo com você, principalmente agora que está acordada, tenho outros pacientes” Ela se levantou, deu uma piscada. “Mais tarde eu volto” E saiu. A segui com o olhar.

“Ela hipnotiza mesmo” Voltei a olhar pra Soph. Ela sorria como quem quer pedir algo.

“O que foi?”

Ela se sentou na cadeira, me olhando com um olhar cúmplice.

“Enquanto você estava aqui, um rapaz veio te trazer esse livro” Olhei para o local que ela indicou com a cabeça. Querido John repousava na mesinha ao lado, soltei um sorriso. Savannah. “Queria saber se é seu irmão, se tem namorada, se eu faria o tipo dele”

“Qual o estado da Sarah?” Ela sorriu, selando nossa cumplicidade.

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A semana que se seguiu foram apenas observações de meu estado. Sarah quase não tinha tempo para parar e conversar, tinha dias que nem aparecia. Sophia, ao contrário, passava a maior parte do tempo que podia comigo. Uma recheando a outra do que sabia de seus interesses amorosos.

Eu não lembrava muito do Allan, não do verdadeiro Allan pelo menos, então não fui de grande ajuda. Ela, por outro lado, me contou bastante coisas sobre Sarah. Acabei descobrindo que eram primas, Sarah sempre fora reprimida pela família, fizera medicina para agradar os pais também médicos, mas seu sonho era ser diretora. Não me atrevi em contar meu sonho enquanto estivera inconsciente, mas muito do que Soph me contava sobre Sarah, estava nele. Talvez meu inconsciente escutava as histórias que ela me contara.

Era meu último dia no hospital. Um daqueles que Sarah não aparecera. Fiquei enrolando em me arrumar, com a esperança de que ela chegasse de última hora, me beijasse fervorosamente e. Sacudi minha cabeça para afastar o pensamento.

“Vamos?” Sophia chamava pela milésima vez. Sorri sem graça e confirmei com a cabeça, pegando minha mochila, que meu pai fora levar no segundo dia que eu acordara, e sai.

Meu pai, uma mulher de meia idade com porte de bailarina e Allan esperavam alinhados na recepção. Corri de encontro ao meu pai, o envolvendo em um abraço de urso. Falei com a mulher, que me fora apresentada como Anne, nova esposa de meu pai. Quando chegou a vez de Allan, limitei a estender a mão, não sabia como reagir à ele. Ele sorriu docemente, tocando de leve minha mão com um breve meneio de cabeça.

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Eu olhava pra cachoeira, sabendo que o lugar era tão importante que até quando eu estava inconsciente ele estava presente.

“Lembra quando matávamos aula para vir aqui?” A voz de Allan narrou o que se passava pela minha cabeça naquele momento. Suspirei, fechando os olhos e deixando um sorriso iluminar meu rosto.

“Lembro muito bem”

Um silêncio caiu, mas não um silêncio pesado. Acho que nada naquele lugar era pesado. Pelo contrário.

“Eu sinto muito” Não precisava olhar para saber que ele mordia os lábios, coisa que sempre fazia quando tinha dificuldade em escolher as palavras. “Por tudo. Digo, eu poderia ter evitado da sua mãe descobrir, vocês não teriam brigado e você não precisaria sair. Eu deveria ter sido mais cauteloso com a Hannah” Toquei de leve seu braço, finalmente o olhando.

“Uma hora ou outra, ela iria saber” Ele suspirou aliviado e sorriu em agradecimento. “Mas como você sabia se eu não te contei?” Ele deu de ombros, assumindo uma postura presunçosa.

“Fomos criados juntos e eu não sou nenhum idiota. Por sorte percebi antes de me apaixonar por você” Rimos os dois, como a muito não fazíamos.

“E você ainda está com a Hannah?”

“Não, ela descobriu que é lésbica. Acho que é um carma meu” Arqueei as sobrancelhas, realmente espantada com a maior patricinha da cidade se descobrindo. “Brincadeira, ela me trocou pelo bombado da faculdade” Revirei os olhos, dando um tapa no menino.

“O que acha de enfermeiras?”

“Se forem ruivas e com sardas, eu acho extremamente sexy”

“Parece que é seu dia de sorte” Ele fez um barulho esquisito, acho que tentando imitar as máquinas de jogos e sorriu, o sorriso moleque que eu tanto senti falta no tempo que estive fora.

“Mas e você, o que faz aqui vendo a vida passar?” Ele disse, depois de outro silêncio longo. Dei de ombros, suspirando.

“Eu não sei o que fazer” Mordi o lábio inferior para segurar as lágrimas. “Não lembro de quase nada, não sei se um dia me lembrarei, não sei o que eu faço na minha outra cidade”

“Então recomece. Não procura o lugar que você parou, não se você tem a incerteza de encontra-lo. Crie um novo lugar, crie uma nova você. Talvez seja disso que você esteja precisando, Deus talvez queira te falar algo”

“Não acredito em Deus, você sabe”

“O fato é, aquela médica não saia de perto de você, contando histórias da vida dela dia e noite, sempre que podia, é claro que ela sente algo por você”

“Como você sabe que ela fazia isso?”

“Eu ia te visitar e ela estava no meio de um monólogo, não podia interromper”

“E ficava escutando atrás da porta?”

“É o que qualquer pessoa normal faria” Ele tinha a expressão de paisagem que sempre fazia quando sabia estar confessando algo errado, mas não queria dar o braço a torcer e culpava a sociedade. “O fato é, você ficava sussurrando o nome dela, então também sente algo. Só quero entender porque está aqui e não lá, atrás dela”

“Tem uma coisa que eu preciso fazer antes” Eu me levantei, me apoiando no ombro do menino que permaneceu sentado. Lhe dei um breve beijo na bochecha. “Me deseje sorte”

“Quebre a perna”

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Não pretendia me demorar ali, mas estava a meia hora parada, encarando a pedra com o nome de minha mãe. Eu lembrava exatamente as palavras que eu falara para Savannah em meu sonho, mas não pareciam se encaixar com esse momento. Respirei fundo e abri a boca inúmeras vezes, mas nada saía. Era como se as palavras se agarrassem a mim com medo de sair.

“Eu não sei o que te falar” Comecei, sentindo nada além de um vazio dolorido. “Eu sonhei várias e várias noites com o dia que você me ligaria, me pedindo desculpas pelas coisas que me falou, mas esse dia nunca chegou” Esperei pelas lágrimas, mas elas não apareceram. “Eu sei que eu poderia ter engolido o orgulho, ter te procurado, mas pra falar o que? Desculpa? Mas pelo que exatamente eu deveria me desculpar se não cometi crime algum?” Naquele momento percebi, com certa dor, que não era capaz de perdoar minha mãe por tudo o que ela me falara. “Não vou dizer que nunca irei te perdoar, mas suas palavras ainda me afetam, eu vivi metade de uma vida para te agradar, depois de tudo ainda me pego fazendo coisas para te agradar, talvez no dia que eu parar com isso e viver pra mim, para me agradar, eu consiga te perdoar, mas, por enquanto, a ferida ainda está aberta” Me agachei, tocando na lápide como se tocasse seu rosto. “Ainda assim, eu te amo”

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Estava sentada na livraria da cidade. Não era tão vazia e modéstia como a do meu sonho, mas sempre fora lá que eu queria trabalhar. Sonho não realizado infelizmente.

Eu batucava a caneta na mesa a uns bons vinte minutos. A mente vagava por vários lugares, porém não se achava em um bom o bastante para se pôr no papel. Olhei mais uma vez para o livro que eu comprara. Por uma feliz coincidência, eu o tinha encontrado facilmente. Sorri pensando nas palavras de Allan.

Querida Sarah,

Matutei durante horas a melhor forma de começar essa carta sem ter nenhuma resposta que eu julgasse plausível, porém possuo pouco tempo e preciso escreve-la logo ou temo nunca mais fazê-lo.

Lhe confesso que ainda não sei o que dizer, por esse motivo a carta será breve e pobre, prometo que no futuro lhe escreverei cartas decentes, dignas de sua leitura, porém, por agora, peço apenas que se permita ler esse livro e que ele lhe dê o empurrão que precisas para se tornar a diretora que tanto quer.

Não vi a necessidade do nome inteiro. Coloquei meu número com um P.S. ao fim e fechei a carta, colocando dentro do envelope cinza.

Sai apressada da livraria, correndo contra o relógio para encontrar com Sophia na porta do hospital. Já de longe a vi aflita na porta, assim que me viu tocou o pulso, mostrando que o tempo estava acabando. Corri ainda mais, ignorando a dor em meus pulmões.

Soph nem me dirigiu a palavra, me guiou apressada pelos corredores, desviando de um ou outro paciente. Eu tropecei em uma maca, o que me fez mancar durante parte do caminho e Soph murmurar reclamações.

Finalmente chegamos à sala de Sarah. Queria parar para analisar cada detalhe, mas Soph fez o favor de estragar o momento.

“Tenho certeza que ainda hoje você terá a oportunidade de decorar cada canto dessa sala, mas você precisa se apressar agora” Meneei a cabeça.

Coloquei o livro o mais cuidadosamente possível na mesa, passando a mão pelo título. O Clube do Filme. E então, coloquei a carta por cima.

Sai da sala e, pela primeira vez depois de muito tempo, eu me peguei rezando. Rezando para que eu tivesse a oportunidade de contar a Sarah que esse livro significava mais do que parecia. Rezando para que ao menos ela me ligasse agradecendo. Mas principalmente, rezando para que o ponto final do bilhete não fosse o ponto final da história, e que um dia, estaríamos em um cafezinho parisiense, com a brisa soprando fraca e enchendo o ambiente com a mistura mágica e revigorante de café, flores e livros, ela me dando um lírio e eu, com um sorriso demonstrando o quão feliz eu estava, aceitaria de pronto o desafio.

Notas finais
Ainda terá um epílogo, não se desesperem. Deixarei as despedidas para o epílogo. Espero que tenham gostado. Beijos. Qualquer coisa, twitter @goldagron e ask Crisgron. Até o epílogo.