Ronald’s PoV:

Não acredito nisso! Não mesmo! Não, não, não! Isso não vai dar certo! – Pensava. Estava furioso com isso. Por que comigo? Justo ela, a mais estranha da turma. Tudo bem que ela me passou cola nos exames escritos, mas não justificava que tínhamos que ficar juntos no teste final! Queria sair correndo. Vão me encarnar pelo resto da vida. Minha reputação seria manchada. Eu frequento festas, bailes, além de ser social com todos. Emily nem sequer olhava pros outros.

Respirei fundo, tentando manter a racionalidade. Estou sendo egoísta demais, preciso olhar o lado bom dessa dupla. Ela era inteligente e boa com a death scythe. Então eu poderia terminar esse teste sem fazer muito esforço. Conheço Emily há muito tempo. Sempre muito esperta. Falava pouco. Fui seu único amigo na primeira fase do treinamento, porém na segunda comecei a me desvincular, fazendo vários amigos e frequentando várias festas. Consequentemente, minhas notas caíram e minha reputação subiu. Com ela foi ao contrário. Após me afastar, boatos surgiram sobre ela, o principal deles era que a garota não era um shinigami. E esse tipo de comentário é escutado desde o inicio do ano passado até hoje. Então mesmo que se ela quisesse, não conseguiria socializar com alguém. Somos completamente diferentes. Não sei muito sobre ela. Só a vi sorrir uma única vez... Foram os melhores três segundos da minha vida.

Hoje ela estava aqui, ao meu lado, em cima de um telhado qualquer, procurando nossa “vítima”. Patrick Ryan P. James. Morava num subúrbio nos extremos da Inglaterra. Um homem um pouco acima do peso, cabelos castanhos encaracolados e um bigode engraçado. Nosso dever era analisar esse homem e definir seu destino. Isso não seria necessário, sua vida é medíocre. Não tinha o porquê dele ser benéfico para a história. Quero fazer isso o mais rápido possível, para evitar uma atmosfera estranha com Emily.

— Certo! – exclamei. Peguei o carimbo e ia marcar a missão como completa, todavia fui interrompido – Vamos terminar isso lo...

Emily arrancou aquela ficha da minha mão antes que eu pudesse reagir. Leu calmamente o que tinha escrito no papel e suspirou. Ela ia falar. Prestei bastante atenção, pois era um momento raro.

— Vamos analisar antes – ela disse. Decepcionei-me. Sua voz era extremamente normal e não havia mudado nada.

— Esse homem é um inútil. Como ele pode mudar a terra? – Argumentei, tirando o caderno de suas mãos.

— Esse teste final é único. Não estou afim de voltar a segunda fase por um descuido seu – Sua resposta foi tão seca que mal pude debater. Sua voz não havia mudado, mas seu comportamento sim.

Seu olhar também havia mudado, estava mais... fria. Vulgo inalcançável. Meu plano falhou, pois a atmosfera se tornou desconfortável. Como vou coletar um registro em dupla se a minha parceira sequer olha pra mim? Seria complicado. Não a culpo. Afinal, eu a abandonei. Sem me avisar, ela pulou até o chão. Dando ideia que suas ações seriam diretas, a única coisa que eu poderia fazer era acompanhar, quieto. Ela iria liderar aquele teste.

Existem muitas coisas sobre Emily que eu gostaria de saber. Por exemplo, o porquê dela não usar óculos ou como ela consegue todas as notas A sem enxergar? Todavia eu sei que nunca ouviria as respostas. Ela é mais fechada que um túmulo. Só soube seu nome depois de bisbilhotar os arquivos do RH. Meu medo era dela se encrencar. Pois óculos fazem parte do uniforme, assim como a death scythe. Os shinigamis que os dispensam, são chamados de desertores. Posso não ter prestado muita atenção nas aulas teóricas, mas sempre me lembro das regras.

— Emily – Chamei. Ela andava na minha frente, como se nem me conhecesse. Parou, virou-se, olhou nos meus olhos e eu hesitei. Mal conseguia formar palavras perto dela – Que... Que horas é a morte?

— Dia 19 de Março. Às 13h00min.

— E temos que analisar até esse dia?

— Você não prestou atenção nas aulas? – Ela franziu o cenho. Estava inconformada – Podemos apresentar um resultado antes disso, mas de qualquer jeito, os registros devem ser coletados nesse dia. Entendeu?

— Sim.

Ela voltou a andar na minha frente. Sem entender muito. Eu a segui. Já tínhamos passado da casa de Patrick a uns cinco quarteirões. Para onde ela estava me levando? Andávamos no meio dos humanos. Nós, quase deuses, no meio dessas criaturas imundas e traiçoeiras. Dei passos mais largos até ela, que tinha um olhar fixo no horizonte. Acabei não me segurando e perguntei:

— Aonde estamos indo?

Como de costume não obtive resposta. Ela apenas continuou andando. Virou repentinamente para a esquerda. Abrindo a porta de uma das casas. Observei onde estávamos. Prédios marrons e medianos (Aproximadamente três andares cada). Não era um lugar de luxo, mas era um pouco mais agradável do que o bairro de Patrick. Virei o corpo para onde Emily entrou. Um tanto assustador. Teias de aranha, caixões apoiados nas paredes, lápides e estacas de madeiras (Que alguns usam para enterros). Ergui a cabeça e uma grande placa anunciava o local. O que diabos ela veio fazer numa funerária? Sinceramente, suas atitudes já estavam se tornando irritantes. Não fui convidado para entrar, mas fiz por uma força maior. Girei a maçaneta e empurrei a porta, que rangeu, estragando a minha entrada silenciosa.

Notas finais
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