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4 Capítulo 3 - Kaimono & Umi


Notas iniciais
Kaimono significa fazer compras. Umi significa mar.

— Hmm... Acho que preto não é uma boa ideia. Talvez uma das verdes?

Sora tinha uma coleção de calções de banho tamanho G dispostas em ordem à sua frente. Ele encarava a tarefa seriamente, comparando a cor e o corte (embora não soubesse nada sobre isso) e as examinando em contraste com o corpo de Muramasa. Este, por sua vez, tinha a expressão mais desconfortável do mundo, olhando para cada canto da loja menos aquele. Respondia com murmúrios a cada pergunta do diplomata, que ou não notara ou fingia que não estava vendo a vergonha dele, tecendo comentário atrás de comentário sobre como aquela deveria ficar bonita ou aquela outra o destacaria.

Muramasa explicou a Alyshie que não sabia nadar e nem mesmo tinha roupas de banho quando ela sugeriu que o último ‘encontro’ fosse na praia. Saber nadar não era um problema, do alto de seus dois metros e cinco poderia chegar até razoavelmente fundo ainda dando pé, e havia muita coisa a se aproveitar ainda da areia. E ao saber da roupa de banho, a alpinista no mesmo instante mandou mensagem a Sora perguntando a ele se podiam sair para fazer compras juntos. Fazer compras também era uma ‘situação’, e eles poderiam muito bem aproveitar essa chance antes do dia final.

O dia final... Muramasa agora sentia um leve desconforto ao pensar sobre ele, que nada tinha a ver com estar experimentando roupas de banho.

Observar Sora pegar roupa atrás de roupa dos cabides, considerando uma por uma, lhe dava uma sensação de aperto. Pensar na praia e no que viria depois também. Talvez fosse porque sentiria saudade de sair com Sora? Não é como se fossem deixar de ser amigos. Eles ainda se veriam, embora não fosse daquele jeito.

— Ei. Terra para Muramasa. Câmbio. Está me ouvindo?

— Huh..? — O carpinteiro piscou, acordando pro que havia ao seu redor. Sora erguia dois calções, um em cada mão, um camuflado e um cor de tijolo com estampa florida. Também erguia a sobrancelha.

— Eu estava perguntando qual dos dois acha melhor, pra ir experimentar. Você está bem?

— Uhm... Estou. Esse aqui. — ele apanhou o avermelhado que estava mais próximo e se apressou pro provador.

Precisa se acalmar. Estava sendo bobo. Deveria estar aprendendo como agir com Jon, mesmo que cada situação em que se metera até agora estivesse acontecendo tudo ao contrário e ele não tivesse conseguido tomar iniciativa em nenhuma vez. Enfiou uma camiseta branca e chinelos antes de sair do provador, mentalmente se condicionando a agir normalmente.

Sora arregalou os olhos ao vê-lo, abriu um sorriso, ergueu os dois polegares em joinhas e soltou um ‘muito bom!’. Depois de corar, Muramasa comprou o vermelho.

— Ainda faltam algumas horas até o horário que marcamos na praia. Quer tomar um sorvete? Olhar as outras lojas, ver se gosta de alguma coisa. — Sora agia como sempre. Animado, tagarela, preocupado com como ele se sentia. Muramasa não conseguia entender o que é que estava diferente que o deixava assim. Estava distraído demais.

— Ok. — concordou, assentindo com a cabeça ao seguir com ele pro quiosque de sorvete.

Os dois passearam pelo shopping aproveitando o ar condicionado que refrescava aquele fim de semana quente, parando alguns minutos a mais no fliperama onde foram jogar e Muramasa descobriu um inesperado talento em jogos de luta que quase colocaram Sora em depressão depois da nona derrota seguida. Em compensação, nos jogos de tiro, não perdeu nenhuma. Sora também parou pra apanhar um bicho de pelúcia de uma das máquinas com garras, e foi onde Muramasa descobriu que Sora gostava de coisas fofas.

O último lugar onde passaram foi a loja de brinquedos. Era uma cena realmente bizarra dois adolescentes altos e de porte físico decentes, já quase adultos formados, passeando pelas alas dos brinquedos, com Sora comentando animadamente a cada nova ‘descoberta’. Não compraram nada ali, e quando saíram, já estava numa hora boa para seguir para a praia. Sora pediu para ir no banheiro antes e o pediu para esperá-lo ali, e o rapaz obedeceu automaticamente.

Enquanto Sora desaparecia de vista, Muramasa se virou à vitrine da loja de brinquedos, passando os olhos pelas coisas expostas. Em um impulso, entrou e comprou algo antes que Sora voltasse, o guardando na bolsa que levava consigo.

Dali, os dois seguiram para a praia. Muramasa não sabia com quem Sora tinha marcado ali, já que Hikaru e Honda cada qual viajou pra um lugar com a família nas férias de verão, e ele só dissera que eram colegas de sua sala. Os dois se trocaram e procuraram pelo ponto de encontro.

A pessoa a quem Sora acenou era um garoto quase tão pequeno quanto Alyshie, que usava um calção preto e uma boina cobrindo os olhos. Estava sentado na areia debaixo de um enorme guarda-sol com os tornozelos cruzados e voltou o olhar a Sora com uma cara nada feliz.

— Precisava ser uma praia, Falastrão?

— Precisava! Já que eu vinha pra cá e pareceu um desperdício não arrastar vocês também. Alô, Mitsuha!

A pessoa ao lado do garoto de boina Muramasa conhecia. Mesmo na praia, aquela pessoa usava um roupão de tecido leve que cobria tanto os braços quanto as pernas, e sorriu de olhos fechados ao se virar ao diplomata, debaixo de não só o guarda-sol gigante, como também do próprio para-sol, os joelhos dobrados de maneira tradicional. Muramasa estudava com Mitsuha agora pelo terceiro ano e não fazia a mínima ideia se era um garoto ou uma garota, ou os dois, ou talvez nenhum.

— ...Alô. — Muramasa acenou aos dois de forma constrangida. Não era muito próximo dele. Dela. Disso? Ele não gostava de coisas que o deixavam confuso.

— E quem é esse? — o garoto ergueu a boina com uma das mãos pra apontar a Muramasa com um aceno de queixo.

— Não seja rude, Mitsuru. — Mitsuha chamou a atenção gentilmente. O garoto resmungou mas não acrescentou nada.

— Ah! Ele? — Sora também olhou Muramasa.

O carpinteiro sabia o que viria agora. Qualquer coisa sobre não ser ninguém importante, ou ser um conhecido, qualquer coisa que, de forma sutil ou não, negasse que o garoto era um amigo. E, de verdade, não estava chateado com isso. Sabia que poupava problemas não sendo ninguém, e isso o deixava até feliz. Ficava feliz de não ter de ser um incômodo para as pessoas que gostava. Então, se Sora...

— Esse é o Muramasa. Estamos num encontro agora.

Muramasa imediatamente engasgou. Mitsuha, de forma preocupada e gentil, lhe estendeu uma de suas estranhamente muitas garrafas de água da bolsa. Ele aceitou agradecido e se livrou de morrer engasgado por surpresa e vergonha.

— Oh. — Mitsuru, o garoto da boina, não pareceu muito interessado. — Você traz seus negócios para seus encontros? Isso explica ainda estar solteiro.

— Na verdade foi uma desculpa pra arrastar vocês pra praia, aproveitando o lugar. Afinal isso não deve demorar muito. Nada da smurf ainda? — Depois de checar se Muramasa estava seguro com o olhar, Sora olhou ao redor da praia procurando mais alguém. O carpinteiro se perguntou quantos smurfs existiam.

— Vou mais uma vez fingir que não ouvi o apelido. — Muramasa se virou em um susto com a voz. Havia mais alguém se aproximando dos quatro. Uma garota de cabelos esverdeados, também quase tão pequena quanto Alyshie e usando um maiô monocromático, que estava sendo seguida de perto por um rapaz mais velho de calção azul, usando algo que parecia uma coleira com um guizo ao pescoço, as mãos desleixadamente postas junto à nuca enquanto andava. Sora acenou a ela sorrindo. — Boa tarde, Sora, Mitsuru, Mitsuha. Boa tarde, Muramasa.

— ??? Desculpe, eu não sei... — Muramasa começou sem graça, uma vez que não se lembrava da garota, mas ela ergueu a mão o interrompendo séria.

— Sou Karen Acceuli, a Detetive de nível super-colegial. Eu teria de conhecer ao menos meus colegas de escola. — sem perder a seriedade, ela se virou aos demais. — Este é Seth Drakos. Era dele que eu falava na última reunião. Ele fala muito pouco japonês, então usem inglês com ele.

— Kalispéra! Boa tarde, nyan~ — o garoto de cabelos castanhos atrás dela acenou animadamente, sorrindo o mesmo tanto que Karen não o fazia.

— Eu pretendo ir com ele para a Grécia na semana que vem, então precisamos arranjar tudo para o mais breve possível.

Daquele ponto em diante, a maior parte da conversa se passou em inglês (com muitos ‘nyah’), então Muramasa assumiu seu posto natural de ignorado, com seu talento não-oficial de se misturar à paisagem. Exceto que Sora não deixou, outra vez. Ele o puxou pela mão, segurando-a durante a conversa, e pontuava vez ou outra a conversa com sussurros para só ele ouvir de coisas como ‘olha como Mitsuru e Mitsuha parecem um casal bonitinho’ ou ‘eu queria saber falar grego’ ou ‘será que se eu fizer cócegas na smurf ela perde a cara séria?’. Eram coisas bobas e sem muito significado, mas eram mais do que o suficiente para que o carpinteiro se sentisse incluso. Ele apertou de leve a mão que segurava, esperando até que a conversa passasse. Por fim, Sora exclamou em japonês.

— Bom! Isso deve resolver tudo. Agora vamos nos divertir. Estão alugados por hoje.

Todos os presentes exceto o grego relutavam com tudo o que envolvia diversão, aparentemente. Mas de alguma forma, Sora sempre parecia convencê-los no fim.

Os seis jogaram vôlei (em que o time de Seth, Karen e Mitsuru os destruiu completamente; Seth e Mitsuru por alguma razão tinham mira excelente), construíram coisas de areia (e dessa vez Mitsuha e Muramasa, os artistas, dominaram), e quando por fim seguiram para o mar, Mitsuru e Mitsuha ficaram para trás. Ambos alegavam não se dar bem com água (Mitsuha nem roupa de banho estava usando).

Seth logo pareceu impressionado com o que parecia ser o tom de pele bronzeado que Karen já começava a mostrar, e os dois engataram em uma conversa em inglês enquanto nadavam, deixando Sora e Muramasa para trás. O carpinteiro não passara do ponto onde a água batia em seu peito, e Sora não deu sinal de que se afastaria daquele limite também.

— Você pode ir com eles, se quiser. — ele murmurou baixo, já quase perdendo os outros dois de vista.

— Nah, eles vão passar muito tempo juntos em breve, vão precisar se conhecer melhor. Além do mais, prefiro ficar por aqui com você. Posso te ensinar a nadar!

— Eu n... Eu sou meio grande. Como faria isso..?

— É bem fácil. Primeiro você precisa aprender a boiar. Você precisa esperar uma onda, e então vir mais pro fund.....Aaaai! — o diplomata parou a explicação pela metade, começando a pular na água. As mãos submersas agarravam o próprio pé.

— Que? O que houve?

— Eu acho que pisei num ouriço-do-mar...

— Ah!!

O garoto arregalou os olhos, e antes que se desse conta ou que o outro pudesse protestar, o pegou no colo, carregando-o de volta pra orla. Sentou-o em uma das cadeiras-de-sol e se abaixou para olhar seu pé. Havia um arranhão com alguns espinhos ali.

— Você pisou mesmo. — ele constatou o óbvio, se levantando — Eu volto num segundo.

— Muramasa, não precisa... — Sora tentou começar, mas o carpinteiro já tinha saído correndo, levantando areia pelo caminho.

Quando voltou, ele trazia consigo sua bolsa. Era uma bolsa estilo carteiro realmente grande com a qual o garoto era frequentemente visto. Quando a abriu e começou a revirar, Sora percebeu o porquê: era a bolsa de trabalho dele. Dentro havia uma infinidade de ferramentas para esculpir e talhar a madeira. Pelo visto, ele não era o único a levar trabalho para um encontro.

— Aqui. Eu uso pra tirar farpas. — o carpinteiro explicou, mostrando uma fina pinça.

Baixando o corpo, e com uma delicadeza surpreendente para mãos tão grandes, ele começou a trabalhar nos espinhos. Sora notou que aparecia uma linha de concentração na testa de Muramasa enquanto ele trabalhava. Não falou nada para não atrapalhá-lo, ficando parado por todo o processo. Por fim, o outro revirou a bolsa outra vez e tirou um band-aid dela, o colando com cuidado por cima do corte.

— Isso deve dar por hora, mas... Se doer muito, eu tenho um comprimido. E Mitsuha tem... Muita água. — completou sem graça, desviando o olhar.

Sora deu um sorriso terno ao notar a preocupação do moreno, e então estendeu a mão, acariciando seus cabelos em um cafuné que pareceu natural naquele momento. Muramasa corou, mas não se afastou de forma alguma, permanecendo abaixado ali.

— Obrigado. Está bem melhor agora. Mesmo assim, acho que é melhor ficar longe da água por enquanto, não é?

— É-é. O dia tá quase acabando, também.

— Espero que Karen e Seth voltem logo. Mitsuru tem fogos. — ele comentou, soltando o carpinteiro que por fim se ergueu.

— Fogos..? De artifício?

— É. Alguma coisa fez ele pensar que trazer fogos seria uma boa ideia. Ele é um armeiro, tem acesso a pólvora e essas coisas, não foi muito difícil arrumar.

— Ele vai soltar aqui?

— Quando já estiver escuro.

Sora não pareceu que se ergueria daquela cadeira por hora, então Muramasa se sentou na areia ao lado dele, abraçando os joelhos. Os dois pararam de falar para assistir o sol desaparecer atrás da linha do oceano. Não importava quantas vezes ele assistisse ao pôr-do-sol, Muramasa sempre perdia o fôlego quando prestava atenção. Nem sequer notou que Sora estava olhando era para ele de canto de olho.

Quando as estrelas despontaram e a praia gradualmente foi esvaziando, Mitsuha foi quem começou a montar os fogos enquanto os outros cinco se espalhavam pela areia se pondo em posição para assistir. Assim que os estouros começaram, Muramasa estava arrebatado. Mesmo fora de sua área, um Ultimate realmente não brincava em serviço. Eram fogos dignos de profissionais, e havia o suficiente ali pra quase meia hora.

— Então... Última dia, hein, grandão? — Sora comentou, o tom de voz leve, passando o braço por trás da própria cabeça. Muramasa despertou do transe dos fogos pra virar o rosto ao diplomata, o ar subitamente mais pra baixo embora não quisesse demonstrar.

— É o que parece.

— Se sente preparado?

— Uhh... Nós... Vimos um monte de situações. — Ele respondeu de forma vaga. Por mais que isso fosse verdade, Muramasa agira de forma passiva em quase todas elas, e ele sabia que queriam que ele tomasse a iniciativa sobre Jon.

— Não fica nervoso. Você é... Olha, acho difícil o Jon não gostar de você. Ele teria de ser cego pra isso. Ele era mudo, não cego.

— Acha mesmo?

— Acho. Você é uma pessoa incrível. Vocês vão se dar bem, confia em mim. — Muramasa olhou o sorriso do diplomata por um segundo, antes de erguer o corpo, procurando por sua bolsa. — O que houve?

— Quero que fique com isso. Eu... Vi você olhar, na loja de brinquedos. É... É-é um presente. — murmurou, empurrando vermelho um chaveiro em formato de castor na mão dele. Sora ergueu o pingente pelo aro para observá-lo, sorrindo abertamente.

— Isso é tão bonitinho! Eu preciso te dar algo também — ele decidiu de repente, esticando a mão para cima e puxando a própria mochila. Tirou dela a pelúcia de gato que pescara da máquina de garras e a estendeu empolgado. — Eu peguei isso por mérito próprio. É um bom presente. Ou... Uh, eu nem perguntei se você gosta dessas coisas — ele soou receoso de repente. Muramasa estendeu a mão para pegar a pelúcia, baixando os olhos a ela. Por fim, ele criou coragem de fazer a pergunta que lhe incomodara o dia inteiro.

— É ótimo. Sora, nós vamos... Vamos continuar nos vendo, não vamos?

— Claro que vamos. — o diplomata respondeu tranquilamente, voltando a assistir os fogos de artifício que se dispersavam. Muramasa não notou o sorriso em seu rosto vacilar um segundo.

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— Aah! É aquela coisa fofinha que ele pôs no celular dele??

Alyshie agora estava sentada na cabeça da estátua do homem com a espada perto da entrada da escola, balançando os pezinhos à frente de seu rosto de pedra. Muramasa assentiu com a cabeça e a alpinista deu um sorriso enorme antes de morder um bolinho.

— Você está formado. Eu poderia te mostrar várias outras coisas, mas você se virou muito bem com tudo o que arrumamos. Acho que está tudo pronto, e ainda é verão.

— Então, agora..?

— Hm! Agora você convida o Jon para um encontro!

Notas finais
Aqui vieram outros dois shipps pedidos pelo Gabriel: Mitsuru x Mitsuha e Karen x Seth. SIM EU SEI ELES ESTÃO OOC. EU TO COM SONO. Para compensar, fiquem com um Muramasa de calção: https://i.pinimg.com/736x/9a/80/92/9a80923f3aee60c0bfaf150129ad685d--at-the-beach-a-girl.jpg P.S.: Meu headcannon sobre essa treta do Seth estar aí é que Karen está negociando com ele pra que ele colabore na captura de um outro assassino de aluguel. Mitsuha e Sora estão dando a ele documentos falsos e meios de transitar entre países já que ele tá meio que preso no Japão por causa da BG dele. O ship que o Gabriel pediu começaria depois disso, na Grécia. E vai ficar no headcannon para sempre~~ P.S.2: Tem um easter egg secreto nesse capítulo!