Darkness
20 Wasted.
– Tem comida aqui? – Pergunto, com a barriga roncando de fome.
– Aqui é o inferno, você quer o que? Cabeças fritas ou ossos assados? – Responde Eryck, ironicamente. Estamos em uma espécie de caverna abandona que ele achou enquanto vagávamos pela mata estreita, procurando algum sinal de Joh ou de Castian, como não os achamos decidimos entrar e investigar o lugar. Agora, isso é como nossa Batcaverna. O lugar era feito de mármore escuro nas paredes, no piso e no teto. Quatro tochas ficavam cravadas nas laterais das paredes, dando uma boa iluminada. Tinha algumas espadas jogadas no chão, espalhadas pelo local, uma cama na parte direita e um baú que ficava de frente a porta, que também era de mármore escuro. O lugar é relativamente pequeno, dando em média dois cômodos de uma casa normal. Me apoio na parede, ao lado de Eryck. As tochas faziam luzes dançarem no rosto de Eryck, deixando ele com uma cara sombria. – O que faremos agora? – Murmuro para ele. Ele se vira pra mim, como se eu tivesse feito a pergunta mais idiota do mundo. – O que você acha? – Eu não acho uma resposta, então ele continua. – Vamos sair daqui. Você é meio anjo e meio demônio, e eu sou um vampiro. Você poderia usar seus poderes de luz ou de trevas, enquanto eu tenho meus sentidos e minha ótima visão para acharmos um caminho de volta. – Mas eu não tenho a mínima ideia de como usar meus poderes... – Então trate de descobrir. – Ele pega uma lâmina pequena do chão e fica brincando com ela nos dedos. – E logo. Me viro e pego uma espada média, toda feita de ferro e quebrada em certos pontos. Eu fico lixando-a no chão, ouvindo o barulho emitido pelo metal. A porta estremece e eu me levanto, Eryck está do lado da porta, com a lâmina na mão, esperando que a porta seja aberta... Mas nada acontece. Eu vou até a porta e a abro. Joh logo me abraça e eu cambaleio para trás, quase caindo. Castian entra e fecha a porta atrás de si, olhando fixamente para Eryck. – Oi. – Disse. – Oi. – Eryck responde. Os dois continuam se encarando por um tempo, até que Joh me larga e pula em cima de Eryck, para um abraço. Os dois caem no chão, rindo baixo, e eu até os acompanho, mas Castian continua frio e sem emitir nenhum som. – Alice não vai gostar nem um pouco disso. – Murmuro. – Quanto menos ela souber, melhor. – Responde Eryck, rindo um pouco. – Hilário. – Zomba Castian. – O que aconteceu? – Pergunto a ele, que me encara como se eu fosse uma aberração. – Você pulou e não nos esperou. Tem ideia do quanto que sofremos pra chegar até aqui? – Castian me olhava com muita raiva, quase como ódio. – Quase morremos duas vezes por demônios e seus truques, Smolder. – Eu tinha que salva-lo, Castian. Eu tinha que vir fazer isso... – Poderíamos ter vindo juntos! – Se viéssemos juntos, provavelmente não o encontraríamos com tanta rapidez como agora. – Ou talvez sim, qual é? Somos dois anjos e meio, poderíamos tê-lo encontrado mais rápido do que você sozinho. – Parem com isso! – Grita Eryck. – Tem como vocês esquecerem isso? Castian, você quase foi morto, mais ainda está aqui, certo? Relaxa, vivemos ameaças de morte todos os dias. Castian abriu a boca para falar algo, mas o som de batidas chamou sua atenção e ele se calou. Ele foi até a porta e com um gesto de mãos no ar, ela se abriu, revelando dois meninos do lado de fora. Um é moreno, com cabelos grisalhos e com uma espada branca na mão. O outro, é branco, um pouco gordinho e com uma espada negra em sua mão. Tony e Wren. – Quem são? – Pergunta Castian, virando-se para Eryck, que perde a cor do rosto. – Como vocês chegaram aqui? – Pergunto, entrando na frente de Castian e olhando os rostos dos dois meninos na escuridão. – Morremos. – Disse Tony, antipático. – Como? – Pergunta Eryck, com a voz fraca. – Uns homens com asas queriam informações de você, o mandamos ir à merda e aqui estamos. – Responde Wren, com um pouco de amargura na voz. – Onde conseguiram as espadas? – Pegamos de uns homens, antes de eles nos jogarem de um penhasco. – Então agora vocês são humanos? – Sim, 100% vulneráveis. – Perdão... – Começo a dizer, mas eles fazem um gesto pra eu me calar. – Na boa, a última coisa que eu quero agora é que você venha com essa de 'me desculpe’ ou ‘perdão’. Vamos sair logo daqui e matar uns demônios, pode ser? – Ele sorri, e eu retribuo. Olho para trás; Eryck assente com a cabeça, deixando um sorriso a mostra, Joh sorri e deixa exibir todos os dentes, e Castian, está se contendo pra não sorrir. Viro-me de volta pra Tony, que estende a mão para mim, aperto-a com força. – Vamos logo, quanto mais tempo demorarmos aqui, mais o mundo é destruído. ... Nos equipamos com as espadas e lâminas que temos dentro da caverna, e partimos rumo a algum sinal de saída, ou de algum demônio para informações, mas não achamos nada. Eryck e Castian explicam a Tony e Wren toda essa história de anjos e demônios, enquanto Joh observa Tony, com certa admiração e mais alguma coisa, que eu não pude distinguir.
Quando terminaram, Tony e Wren trocaram um olhar e olharam para frente, um pouco assustados. Já era de se esperar. Se eu estivesse na pele deles agora, estaria surtando, mas eles optarão por ficarem calados. – Tony, – Disse, quebrando o silêncio. – o que estava acontecendo lá em cima, antes de vocês...? – Nós estávamos nos abrigando em uma casa no campo. Tínhamos lutado muito ultimamente, procurando por você e Eryck. Por mais que estivéssemos cansados, Alice e Lua forçavam a barra, pra continuar procurando e tal... – Ele se interrompeu, e logo se calou de vez. – Estávamos te procurando, quando o cara alado apareceu e a merda começou. – Terminou Wren, suspirando. – Vocês não tentaram, sei lá, lutar? – Pergunta Joh. – O cara tinha asas! Asas! Quando se vê uma pessoa assim, não sai lutando com ela. – Bem... Se você tivesse passado pelo o que passamos, quando se ver uma pessoa com asas, sai matando... – Murmurou Castian. – Mas nem todos. Tem alguns que são bons. – Quais? – Perguntou Wren. – Alguns... – Respondeu Castian, fungando. Wren abriu a boca, mas logo a fechou em seguida. Ele caiu de joelhos, cuspindo sangue pela boca e tossindo muito. Viro-me para ajudá-lo, quando percebo que todos estão fazendo a mesma coisa. Eu estou em pé, no meio de um circulo de pessoas cuspindo sangue e ajoelhadas, como se estivessem morrendo...Aqui é o Inferno, claro que elas estão morrendo.Dou um passo pra frente da pessoa mais próxima de mim, Castian, e coloco a mão em seu ombro, mas ele se desfaz em fumaça negra, junto com os outros. O lugar começa a fica escuro e gelado, como se eu estivesse preso dentro de um freezer gigante. A fumaça começa a me puxar para trás, e eu não tendo força o suficiente para fazê-la parar, desisto e deixo ela me puxar. A fumaça para de me puxar e começar a diminuir, revelando Castian um pouco a minha frente, com as suas asas cortadas e jogadas do seu lado, ensopadas de sangue. Ele me olhava, com sangue escorrendo pela boca, pelo nariz e pelas suas costas. Seu manto fora arrancado de si, revelando um peito todo cortado e marcado por cicatrizes negras, que percorriam boa parte da sua costela, indo até as suas costas. Sua calça jeans estava toda rasgada, com sangue pingando dela em diversos pontos, deixando seu pé exposto totalmente vermelho. A minha esquerda, Joyce surge misteriosamente, com uma faca na mão e chorando ajoelhada. Ela olhava fixamente para mim, como Castian faz, e logo levanta a lâmina, transferindo um golpe no seu estômago. Ela deixa o sangue escorrer da sua barriga até os pés, depois larga a lâmina, mas continua ajoelhada, me encarando. Eryck aparece um pouco atrás de mim, com Alice na sua frente. Ela está com seus cabelos ruivos cobrindo boa parte do rosto, deixando apenas aparecer sua boca, seu nariz e seus olhos. Seus olhos estão em um tom de marrom escuro com vermelho, veias cobriam a volta de seus olhos e desciam até perto da sua boca, que estava com as presas para fora, pronta para uma refeição. Ela joga Eryck no chão e morde seu pescoço. Ele grita de dor, mas não faz muito para impedi-la de beber o seu sangue, a deixando sugar tudo, até que larga de seu pescoço e lambe os lábios, satisfeita. Mesmo caído e morto, seus olhos ficam fixos em mim, assim como os de Alice, que se vira e me encara diretamente. E por fim, do meu lado direito, Wren e Tony aparecem. Os dois estão sérios, olhando fixamente um para o outro, mas seus olhos não estão ali. Apenas uma camada preta cobre tudo o lugar onde deveria ser suas pupilas. Eles seguram com força as lâminas idênticas que tem em mãos. Uma lâmina branca e vermelha, repleta por desenhos antigos. Eles seguram a sua lâmina e cravam um no coração do outro. O sangue começa a molhar a camisa deles, chegando aos joelhos e por fim, formando uma poça de sangue. As suas pupilas voltam, e eles olham um para o outro, tristes. Uma lágrima corre pelos seus olhos e os dois se viram para mim, com os olhos molhados e tristes. Eu fico encarando a todos, com certa confusão. Eles todos se mataram, mas por quê? Eu caio de joelhos e abaixo a cabeça, me negando a olhar para a cara de algum deles. O que seria tudo isso? – Isso é o futuro, garoto. – Uma voz familiar soou alta e clara do meu lado e eu me viro, para ver o dono da voz. Meu corpo se imobiliza de imediato. Nocturne está a minha frente, com o rosto vermelho e sorrindo para mim. Ao seu lado, uma mulher está segurando seu braço com força, levando-o para trás e para frente. Ela sorri para mim e me manda uma piscadela. Minha mãe. – O futuro? – Pergunto, quase sem falas. Eu os olho atentamente, procurando o motivo da felicidade, mas não acho. Invés disso, minha mãe deixa seu rosto sorridente sumir, que logo é substituído por uma cara de tristeza e preocupação. Nocturne também fecha a cara. Franzindo a testa, ele me encara com piedade. – Sim. Esse é o futuro de seus amigos. É assim que todos eles vão terminar: Mortos.
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