Darkness
3 Susan, a Depressiva
Por mais sorrisos que eu pudesse produzir, efeito algum causava neles. Eu sabia bem quem era aquela mulher, Dra. Besley; Eu não era louca como eles pensavam, a tortura que eu passava era apenas fictícia, mesmo que as dores parecessem bem reais. Queria mesmo vomitar, dizer-lhes a verdade, mandá-los embora, porque eu não ia superar a perda de Adam, ele era meu filho, e eu o amava profundamente para me esquecer de seu último sorriso.
- É verdade, como dizem: Se você ama algo, deixe-o ir.
- E se ele realmente lhe pertencer, irá voltar. – Disse Liz, minha irmã.
- Mas Adam jamais irá voltar. – Retruquei minha irmã ao meu lado. O que maldição ela fazia aqui? Logo para fofocar para os parentes meus problemas, porque eu não precisava da ajuda deles. Hipócritas, falsos. Permiti que meus pés esbarrassem nas garrafas de vidro sobre a mesa de centro da sala de estar, quebrando-os com o impacto no chão. “Ops”, eu queria dizer com sarcasmo.
- Pra que se maltratar se sabes tão claramente o destino de seu filho?
Talvez fosse impressão minha, mas a mão de Nahara, que segurava a minha, estremecera enquanto os dizeres da moça nos alcançavam.
Eu suspirei. Meus olhos saíram das mãos de Nahara, e se encontraram com os olhos de Peter – pai de Adam -, depois em Evem – irmão de Adam -, e se demoraram um pouco mais em minha irmã, enfim voltei-me para a psicóloga Besley.
- Jamais soube o destino de Adam. Mas estou bem. – Era mentira, eu cuspia as palavras que chegava a doer minha garganta – Seja onde for, deve ser melhor do que aqui.
Abaixei a cabeça. Sempre esperei que a morte fosse mais receptiva. Que quando alguém se fosse, ela permitisse uma mensagem. Mensagem esta que seria segredo entre o remetente e destinatário. Porém eu nunca mais vira o rosto rígido de meu filho. Os cabelos lisos tão perfeitamente bagunçados, ou o sorriso irônico que tanto transmitia. Adam não dera notícias. Possivelmente a morte fosse realmente o fim, e ele jamais pudesse progredir.
Não reconhecera o fim que tivera a conversa, minhas lágrimas deduraram meu íntimo. E Besley fez o que necessário.
Não sabia de onde vinha tantas mãos e de onde haviam vindo homens bem armados.
- Esperem!
- A soltem! – Nahara puxou minha mão uma última vez.
Besley sorriu quando os guardas me guiavam para fora de minha própria casa. Eu não era louca, não tomara remédios para dormir, talvez alguns de madrugadas, outros três de tarde, e um a noite, e qual o problema se eu bebesse vodca com o remédio? Ajudava, acalmava.
Minhas unhas romperam a pele dos seguranças, e corri às pressas para o quarto. As lágrimas haviam crescido. Eram enormes e constantes, diferentes das anteriores.
- Por que estão fazendo isso comigo? – Me encolhi sentada à porta do quarto.
- Querida... – Peter tentou me convencer a sair.
Como se fosse abruptamente acordada, puxada para a realidade, voltei-me para o armário, retirei o máximo de roupas que podia. Como eles podiam fazer aquilo comigo? Internar-me por chorar, por sofrer, por não superar?
Meus olhos foram levados de encontro a uma figura avermelhada ao chão do armário. Um cartão. Uma carta. O fator curioso era seu endereço “Quando estiver pronta para uma despedida”. Talvez não fosse a intenção de Adam que eu lesse isto naquele momento, mas ignorar as últimas palavras de meu filho era crueldade demais, era difícil demais.
Jamais descreveria com exatidão o que senti ao ler tudo que aquelas letras garranchadas permitiam. Talvez nunca soubesse dizer com a mesma emoção tudo o que meu filho queria de mim naquela carta. Eu chorei. Pelo Adam, sim. Mas por uma última vez. Talvez chegasse a hora... De nossa despedida após tanto tempo.
-
Foi complicado explicar a todos meus motivos para permanecer onde estava depois de recusar ajuda psiquiátrica, desta vez calmamente. Segurei cautelosamente a mão de Peter.
- Preciso lhe mostrar uma coisa. – Sorri, calmamente. Ele encantou-se, como se me olhasse pela primeira vez, e sua paixão por mim renascesse mais calorosa do que a ressurreição de uma fênix.
As lojas de centro não estavam exatamente abertas. O crepúsculo anunciara que a noite estaria por vir, e as ameaças noturnas. Alcancei uma das últimas lojas abertas, e cacei por um enorme cesto, seguido por incenso natural.
Estranhado, porém feliz com minha mudança, Peter alcançou também uma floricultura, e cuidou para que as melhores flores fossem dadas a mim naquela mesma hora, e foram. E num último beijo antes de me despedir de meu filho, ficamos até o anoitecer.
A lua estava enorme quando os portões do cemitério foram abertos para nós naquela mesma noite. Não fora difícil achar a lápide de meu filho, quantas as vezes que eu a visitara naqueles últimos dias.
- Mas o quê...?
- Não se preocupe. Esta noite, tudo se acaba.
Como num pedestal, depositei sobre a lápide uma pequena pedra, que serviu de apoio a foto que Adam separara no cartão – nossa, em férias – o incenso fora fácil acender, embora difícil tenha sido depositar as flores perfeitas sobre suas cinzas. Era uma excelente despedida. Mesmo que minha infelicidade não tivesse fim, e o Adam continuasse morto, todo o dia sorriria por ele, e me alegraria, pois ele gostava de me ver sorrir.
Imaginando as perguntas de Peter, tirei do bolso um pequeno papel, a carta de Adam, para que ele lesse.
- E então?
Acho que eu jamais descreveria minha conversa imaginária com Adam outra vez. Aquela carta fora a melhor de nossas conversas, talvez a que mais fizera crescer afeição, também a mais triste, de despedida. Peter entendeu isso ao encerrar sua leitura. Estendi meu braço até a cintura de meu marido e o abracei, e ele fez isso sobre meus ombros. Eu sorri, mesmo com uma lágrima a penetrar meus lábios quando proferi na noite fria:
- Adeus, meu filho. Adam.
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