Darkness

4 Brian, o Culpado


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- Vamos, Adam. Segure minha mão. Venha. – Eu sorri do modo como ele me olhara, como sorrira. Doce garoto. – Venha...

Ele estendeu sua visão para o concreto, para a multidão e para as câmeras. A empresa cobriria o garoto que sobreviveu, o garoto que fui capaz de salvar. Porém o sorriso se esvaiu, e ele caiu. Eu ainda estendia minha mão, na esperança de tocá-lo novamente, enquanto ele fazia o mesmo. Mas já era tarde quando seu corpo encontrou o solo, e suas dores escaparam de si.

- Brian! Brian! Não fique assim... Acorde. Está tudo bem. Você está bem.

Eu ouvia me chamarem. Então, eu acordei.

- Ligaram hoje cedo da delegacia. Você não me contou que não iria trabalhar hoje. – Vendo meu silêncio, ela apenas prosseguiu — Bem... acho que você tem algo a me contar.

Minha esposa saiu da cozinha com uma xícara com um líquido escuro e quente, imaginei que fosse café quando virei.

- Não. Não tenho. – O jornal ainda noticiava o caso de Adam, aquele que não pude salvar. Eu olhei para o meu colo, desamparado.

- É ele, não é? Adam Goshawk. O garoto lhe causou isso. Vamos, não se preocupe, não é culpa sua, ele... somente... decidiu isso.

Eu somente queria esperar que aquilo fosse verdade, mas somente eu sabia que não era.

Como consolo, e ela sabia como me consolar, Meredith entrelaçou seus dedos nos meus, e os levou a sua cintura, mais exatamente na região do ventre, próximo de onde devia estar o útero, onde devia estar nosso filho.

- Veja. – Ela soltou ar pelas narinas, rindo. – Ele está chutando.

Sorri fraco, mas desmanchei qualquer alegria, pois sorrira da mesma forma para Adam pouco antes dele cair daquele prédio.

- Preciso ir. – Fugi. Como sempre fiz em minha vida, eu fugi. Atravessei a porta da sala indo para a garagem descoberta, entrei no carro e saí, porque eu nunca soube como encarar a vida de um modo diferente.

Logo quando anoiteceu, guardei meus pertences no escritório principal, e voltei para casa. Eu poderia sorrir, me orgulhar e dizer a Meredith que muitas vidas hoje haviam sido poupadas porque eu as salvei de bandidos, mas não era verdade, pois eu somente sentia culpa. Muita culpa pelo que acontecera há alguns dias com o garoto Adam. Porque afinal era realmente minha culpa, e ele não teria caído daquele prédio se não fosse minha baixa auto-estima.

Fui recebido por beijos e abraços quando atravessei o arco de madeira em direção a sala de estar. Alguns poucos amigos se reuniam ali, junto a Meredith.

Eu não pude deixar de notar os quão todos pareciam apressados em dar os últimos ajustes em seus trajes pretos, também não pude deixar de reparar em como eu parecia rude ali parado na soleira, mal sabendo como reagir a essa organização surpresa. Como fuga desta bagunça, fui guiado até meu quarto pela minha esposa – ouvindo um pouco de sua dor pelas contrações gestacionais.

- O que... O que está acontecendo lá? – Guardei minha arma debaixo de minhas meias na gaveta, reparando no belo terno separado para mim sobre a cama.

- Susan ligou. Ela te chamou para... – Ela me poupou das palavras, embora eu quisesse completar com “o enterro” – Será esta noite.

Eu não poderia estar mais aterrorizado com a idéia de encarar a mãe daquele que supostamente eu matei.

Adivinhando o que eu pensava, Dith se aproximou, tocando meus ombros e me beijando delicadamente.

- Está tudo bem. – Ela segurou meu rosto com ambas as mãos. – Tudo acabará bem... esta noite.

Ela sorriu.

Sufoquei um soluço, algumas lágrimas penosas escaparam enquanto eu observava o rosto sem foco de Susan Goshawk ao lado da lápide lisa e suja de seu filho. Torci para que ela entendesse que eu jamais quis a morte de um garoto. Mas causara aquilo, agora só precisava me redimir. Retirar a culpa que constantemente me consumia.

- Oh, boa noite, Brian.

As poucas lágrimas que restavam em seu rosto foram apagadas com as costas de sua mão – embora tivesse um maço de lenços entre os dedos, exatamente para limpar suas lágrimas.

- Boa noite. Eu... gostaria de dar meus pêsames, mas nem mesmo mil pêsames diminuiriam a dor que eu mesmo sinto.

- Ele era um ótimo garoto. Louco. Mas ótimo.

Como Susan poderia sorrir tanto?

- O que foi? – Ela me puxou de meus devaneios.

- É que, embora esteja triste, ainda parece... alegre ao mesmo tempo.

- Não seja besta! – Ela me bateu nos ombros. – Essa foi uma semana realmente ruim, mas se eu posso dizer que aprendi algo sobre a vida, ou a morte, é que não há uma despedida, ainda assim, sempre haverá um fim, pode ser o meu amanhã, ou de outro daqui a pouco, ainda temos que entender o que significa superar. Mas, mais terrível ainda, é aquele que vive demonstrando luto, melhor dizendo, aquele não vive após uma perda.

Tudo o que ela dizia, embora reconfortante, apenas piorara meu humor. Se isto se encaixasse a ela, possivelmente a perda de Adam fora superada, mas o que eu contaria a ela, apenas a jogaria novamente a um poço.

Tentei parecer calmo, enquanto começava a narrar.

- Você diz como se Adam não quisesse se matar. – A impedi de me interromper. – E ele não queria.

Eu a vi segurar um soluço, possivelmente um choro, embora eu nem tivesse dito nada. Ainda.

- Adam... Era incrível. Ele conseguia provar intensamente como era viver, e era a última pessoa que eu imaginaria que faria isso. Você poderia julgar sua camisa preta do Misfits, dizer que o os gritos de cada rock era apenas parte de uma mente que não valia a pena mudar. Você podia dizer que Adam não prestava, e suas notas escolares eram piores que seu gosto musical, que era um garoto perturbado, que preferia horas em cemitérios a um dia corriqueiro. Mas seria mentira, seria tudo uma mentira dizer isto. Porque Adam Goshawk era antes que nós, são. Ele amava estar vivo. Ele ouvia aquelas músicas porque inspiravam a inteligência, criatividade e emoção. O preto das suas roupas não era o preto de sua alma, pois ela não era suja. Ele tinha as melhores notas, e jamais seria um garoto perturbado. Ele tinha problemas, e eles só aumentaram ao cair daquele prédio. Adam não era cego, pois no seu último segundo ele entendeu que pular seria besteira. Ele desistiu da morte, e estaria vivo se eu o tivesse segurado.

Abaixei meus olhos, e toquei o braço de Susan, os braços da minha mãe.

- Eu deixei meu irmão cair. E ele caiu por mim. Porque eu não agüentava meus problemas e tudo o que eu queria era coragem pra correr o risco que ele correu. Eu me sentei ao lado dele e tentei salva-lo, mas eu era o suicida. Ele estava ali por mim, e não eu por ele. Ele se suicidou, porque eu iria me suicidar.