Darkness
2 Nahara, a Prostituta
Branca. Fumaça. Olhos. Azuis. Ou eram verdes? Eu perdera meu tempo com minha face a fitar o céu sem observar quem me tocava naquele beco fechado. Seriam dois pares de mãos em mim, ou a droga multiplicara meus sentidos?
Enlouqueci. Entorpeci. Relaxei. Acabara. Eles se sustentaram com o pouco que pude fazer. Chorei. Mas não por me achar insuficiente para mais uma rodada com eles. Chorei pela minha causa nas ruas. Pela minha insuficiência na vida. Chorei por Adam. Beijei o céu. Beijei o cigarro. Era o que me sobrara.
Puta? Não, eu não era.
A neblina espessa não me permitiu ver que nem ao menos cobrara pela noite. Noite? Já era tarde. Não, era noite. Nem sabia que horas eram, até a sirene policial tocar, e minha mãe me chamar.
Chorei novamente. Chorava todas as noites. Perdi Adam, mas lutei para tê-lo de volta. Fracassei. Desisti.
Eu não tentaria satisfazer novos clientes novamente... Até a próxima noite.
“Acorde, já!”
Minhas duas mães me chamaram. Digo, uma. A outra era ilusória, inventada pela bebida, pela droga e pelo cigarro. Eu tossi. Droga de cigarro. Eu percebi o que o cigarro fizera com a minha saúde, e acredite, agradecia por isto. Logo então estaria com Adam. Morta.
Corri para a escola. Não para a aula, como bem esperavam. Para o banheiro, como eu bem merecia. Cortei-me. Torturei. Machuquei-me. Por quê? Porque gosto. Porque eu sentia. Era pior do que perder Adam. Ajudava a esquecer. Era um consolo. Sim, eu precisava dele. Adam. Precisava de suas noites. Adam. De seus dias. De sua voz. Dele. Oh Adam. Eu o amava. Ele era meu. Tudo era perfeito. Mas eu o perdi, para o inferno, para a morte, porque ele quis. Eu também queria.
Soquei um espelho. Para vê-lo, contemplá-lo. Soquei outro. O vidro se abriu entre meus dedos. Doeu? Muito. Eu gostei? Podia fazer de novo. Eu vi Adam, mas ele se dissipou. Eu precisava vê-lo. Soquei outro. Adorava. E outro. Acabaram os espelhos, apenas os cacos me serviam. Eu me furei. Cortei-me de novo. Sangrei. Tinha desistido ontem, mas retomei pela manhã. Tentaria mais noites pelo Adam. Sorri. Débil. Tonta. Burra. O vidro roçou minha pele. Perfurou. Uma veia. Duas. Eu caí. Mas sorrindo.
Duas noites depois acordei. As lágrimas grossas de minha mãe – a mulher indecisa que me vigiava e tentava me entender – acordara de meu pesadelo: Eu me cortava em sonhos. Matava-me. Não que a cena no banheiro não fosse real. Pelo contrário, era real demais. Culpada? Não me sentia, estive a um passo de ver meu amado, mas o perdi para um hospital. Eu estava bem... Mas ainda sem Adam.
- Pra quê? Por quê? Eu te amo. Não é suficiente? – Ela sussurrou debruçada. Minha mãe não tinha mais autoridade, mas me fazia sentir culpa por instantes. Virei-me.
- Me tiraram o que amava. Não me importo se o resto do mundo também perder mais alguém.
- Adam nunca quis que você se sacrificasse por ele. Ele a amava viva, bem e sem se importar quantos tragos usaria por dia. Quantas pedras consumiria. Quantos sorrisos maliciosos iria aceitar. Você não merece o que este mundo lhe oferece. Fique comigo, e tudo ficará bem.
Ela sorriu. Eu retribuí.
Então talvez eu devesse desistir. Eu não merecia o que tinham para mim. Eu merecia mais.
Eu sorri ao compreender o que Adam, enfim, queria de mim.
-
Andei alguns passos até que minha mochila em minha cama parasse em minhas mãos. Delicadamente. Sorridente. Tristemente. Dolorosamente, retirei um dos bilhetes vermelhos e clichês que meu namorado fizera. Este, porém, era diferente. Era melhor. O cartão, avermelhado, endereçava-se estranhamente para: “Quando duvidar de mim”. Esta seria primeira vez que abriria aquele cartão, então sorri.
Deixei que as lágrimas escapassem quando nossa foto, de dois dias antes de sua morte, caísse sobre o chão. Minha e de Adam. “Sim, eu pulei, por mais que doesse. Porque chorar já não fazia mais sentido. Sim, perder você foi a coisa mais difícil que tive de fazer. Talvez eu desista de pular e estas palavras tornem-se confusas. Somente saiba que é incondicional. Eu a amaria até o último segundo de minha vida, talvez até depois. Sobre qualquer hipótese: sou seu.”
Talvez eu não possa dizer que tudo melhorara deste ponto da história. Era cada vez mais confuso dizer o que eu sentia. Talvez, pelos outros, eu quisesse me prender ao Adam, deixar-me levar pelo sofrimento e ir com ele, mas aos poucos, estava me desapegando a sensação de morte, como se eu não fosse encontrá-lo desta maneira, como se minha vida agora dependesse para meu encontro com ele. Talvez eu devesse mesmo desistir. Desistir das drogas, das bebidas e dos cigarros. Das noites com estranhos e das noites em claro. Eu já não me importava se falassem mal por eu esquecer a morte de Adam. Porque não era assim. Eu me importava o suficiente para muitas vezes me culpar. Mas desta vez, eu faria da minha maneira, porque somente eu sabia o quão grande era a falta dele em mim, mas continuava feliz, porque ele continuava meu. Era o que eu queria saber. Ele era meu, continua a ser.
Sobre qualquer hipótese.
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