Dark Love
4 You think you're ugly? Please, you're goddamn hot!
Notas iniciais
URSS, Leningrado, 6 de maio de 1946
A noite caiu e Isabella encarou o céu estrelado de Leningrado novamente.
Seus cabelos cheiravam morangos pelo banho recém tomado, e suas roupas tinham um cheiro adorável de lavanda. Ela saiu da janela e encarou o relógio em sua mesinha, este que marca 20h e 27 min. Hora do banho do senhor Cullen, ela pensou — animada demais — corando em seguida.
Isabella não podia negar, sua curiosidade era gigantesca. Ela queria muito ver Edward por completo, olhar seu rosto sob a luz do sol, tocar seus cabelos, falar com ele calmamente. Na verdade ela estava ansiosa para ver a tatuagem que Roza falara. Até onde ela sabia, ele tinha um dragão em toda extensão de suas largas costas, cobrindo todas suas cicatrizes do campo de concentração. Ela tremeu com o pensamento, graças a Deus a guerra havia terminado.
Isabella arrumou os cabelos em um rabo de cavalo alto e desceu até a lavanderia, pegando uma toalha limpa e uma esponja de banho. Ela subiu as escadas e estranhou ao ver Ivanov parado na porta do Sr. Cullen. Ivanov a encarou e lançou-lhe um sorriso amarelo. Ela se aproximou dele.
– Algum problema, Ivanov? – Ela perguntou pensativa. O homem engoliu em seco e a encarou.
– O Sr. Cullen precisa de ajuda, então me chamou, senhorita. – Ele disse docemente.
– De ajuda? Eu sou a enfermeira dele, estou aqui para ajudá-lo. – Ela disse um pouco alterada. Edward achava que ela não é capaz de ajudá-lo? E o que seria tão difícil para ele precisar de Ivanov?
– Me desculpe, eu não queria passar por cima de você. – Ele disse encabulado. – Mas o senhor Cullen me chamou pois quer que eu o ajude no banho. – Ele disse envergonhado. Isabella bufou.
– Qual é o problema comigo? Roza o ajudou por muito tempo, achei que ele já estava acostumado á ter uma mulher o vendo pelado. – Isabella revirou os olhos, mas que birrento esse homem! Cheio de frescuras, argh! Ivanov riu da expressão de Isabella, sorrindo para ela em seguida.
– Acho que ele esta envergonhado, Isabella. Você é uma moça nova e Edward tem vergonha de seu corpo, você sabe... – Isabella o interrompeu.
– Eu sei, pelos ferimentos da guerra, ok. Mas ele pensa o que? Que eu sou uma tarada? Por Deus é a minha profissão! – Ela se exaltou e Ivanov segurou o riso. – Pode deixar Ivanov, eu darei banho no senhor Cullen. Se ele esta agindo como uma criança será tratado como uma. E fique tranqüilo, eu me entendo com ele, você não vai se prejudicar. – Ela disse determinada.
‘Eu irei mostrar ao Sr. Arrogante Criança Cullen quem é a enfermeira nessa casa.’ – Isabella pensou.
Ivanov sorriu satisfeito pela mulher determinada á sua frente e desceu as escadas. Isabella deu dois toques na porta e ouviu um grito de lá de dentro.
– Mezhdu! – Edward gritou ‘entre’ em russo de dentro do quarto, e Isabella entrou. Logo que ela fechou a porta procurou Edward pelo quarto. Ela seguiu a claridade e encontrou a porta do banheiro aberta, com um Edward pelado dentro da mesma, de costas para ela. Todo seu discurso de 'você deve me respeitar como a maldita enfermeira que sou' fugiu de sua mente, e ela teve que se segurar para não babar no exato momento. O russo de dois metros de altura estava parado na porta do banheiro, de costas para ela, completamente nu.
'Santa mãe' — Ela pensou.
Seu cabelo cor de cobre estava bagunçado, e um cordão marrom caia em seu pescoço, uma espécie de colar. Seus ombros largos e musculosos cobriam toda a porta, com certeza ele malha – ela pensou. Em suas definidas – e maravilhosas – costas, uma tatuagem enorme de um dragão chinês ia de seu trapézio até o começo de sua redonda e linda bunda. Suas coxas grossas e musculosas são maiores que os braços de Isabella juntos. Suas pernas tem muitas cicatrizes, o que não tirava a beleza delas, pelo contrário, as deixava mais sexy. Isabella abaixou mais os olhos e viu o calcanhar machucado de Edward, o que o deixava meio manco. Ela segurou a toalha branca contra o peito e se aproximou da porta, ficando á dois passos de distância dele.
– Obrigado por vir, Ivanov. Preciso de ajuda para entrar na banheira, meu calcanhar dói. Eu já até coloquei a cadeira dentro do box, não queria lhe incomodar. – Ele disse. Sua voz grossa preenchendo os ouvidos de Isabella e a fazendo tremer por completo. Ela estava hipnotizada por aquela tatuagem, tão linda! Ela se aproximou dele e sem pensar muito, passou seu dedo indicador por um dos contornos do dragão, bem em cima de uma das cicatrizes que Edward tentava esconder.
Ele se arrepiou completamente com seu toque, segurando-se para não gritar. O delicioso cheiro de morangos e roupa limpa atravessou as narinas de Edward, o fazendo fechar os olhos. Á essa altura ele já estava ciente que é Isabella que está atrás dele, não Ivanov. Seu peito subiu e desceu e ele começou a respirar com dificuldade. Nenhuma mulher o tocou com tanto carinho desde que Tanya morrera.
Isabella continuou a passar seus dedos pelo contorno da tatuagem, completamente absorta á tudo. O desenho perfeito, os traços grossos e simétricos, a cor das flores, completamente lindo.
– É linda. Quem á fez? – Ela perguntou baixinho, com medo de que se aumentasse a voz, aquele momento sumisse e caísse por entre seus dedos. Edward respirou fundo e olhou para a parede á sua frente, esta que não tinha mais o espelho antigo. Ele não conseguia olhar para si mesmo.
– Minha irmã. – Ele respondeu no mesmo tom, sua voz trêmula. Os dedos frios de Isabella ainda passeavam por suas costas, o fazendo tremer em cada lugar que suas delicadas mãos passavam.
– Perfeita. O que significa? – Isabella seguiu no mesmo tom de voz. Ela queria tanto olhá-lo de frente, ver seu rosto sob a luz clara do banheiro, olhá-lo de verdade. Mas ela já estava surpresa demais por ele não mandá-la embora, e ainda mais por deixá-la tocá-lo assim, sem protestos.
Edward respirou fundo novamente e fechou os olhos, apenas se limitando á apreciar o toque aveludado e delicado de Isabella.
– Os dragões antigamente eram classificados como a besta-fera das trevas na Europa. – Edward riu irônico. Ele se sentia uma fera das trevas, afinal. – Mas precisamente, significa o poder e a força, o equilíbrio na vida, liberdade, a coragem. – Ele sorriu sem humor. – E todas essas coisas eu venho tentando resgatar para mim mesmo, a tatuagem só esta ai para me lembrar que eu não sou nada do que ela representa. – Ele disse num sussurro. A dor em seu peito o esmagando e o fazendo querer gritar. Os olhos de Isabella se encheram de lágrimas, mas dessa vez foi por compaixão. Ela gostaria tanto de acabar com o sofrimento que ele guardava, o tornando tranquilo e sereno novamente. Ele respirou fundo, mas algumas lágrimas ainda caíram pelo seu rosto. Isabella o segurou pelos ombros, dando um aperto encorajador nos mesmos.
– Eu tenho certeza que você é forte e corajoso. Esta tatuagem representa tudo o que você é, Edward. – Foi a primeira vez que ela o chamou de Edward, o que não passou despercebido para ambos. Mas em um momento tão íntimo como aquele, como usar formalidades? – Não se menospreze á tal ponto. – Ela disse confiante. Isabella sabe que ele é capaz de se reerguer, ela confia nele, tem esperanças. Edward pegou uma das luvas pretas em cima da pia e colocou em uma de suas mãos, estas repletas de cicatrizes, e então a colocou sobre a mão dela, que ainda estava em seu ombro, um claro sinal de ‘obrigada pelas palavras’, mas ele não disse nada á respeito.
– Pode me ajudar á entrar no box, por favor? – Ele pediu um pouco envergonhado por precisar dela para isso. Seu calcanhar doía tanto e como a banheira era alta, ele tinha medo de batê-lo em algum lugar ou até mesmo cair.
– Claro Sr. Cullen. – Ela disse docemente. Edward se virou em direção á banheira e afastou a cortina, nunca olhando para onde Isabella estava, tampouco virando seu corpo. Ela ter visto suas costas já era bastante humilhação. Ela colocou a toalha e a esponja em cima do vaso sanitário e se virou para ele novamente, dando de cara com suas costas.
Edward apoiou um dos braços na parede de azulejos fria e Isabella o segurou firmemente em seu quadril e ele tremeu com seu toque firme. Com sua mão livre, segurou em um cabo de ferro que sustentava a cortina do box e puxou o próprio peso, na mesma hora que Isabella forçou seus quadris para cima. Ele pegou o impulso e colocou sua perna boa para dentro da banheira, seu calcanhar machucado ficando para trás. Então, Isabella soltou seus quadris e segurou sua perna ruim tão delicadamente como alguém segura um pássaro. Ela o ajudou a colocar o pé para dentro sem que seu calcanhar sofresse algum impacto no caminho. Ele tomou cuidado para seu pé não tocar o fundo da banheira, se sustentando com seu pé bom. Ela ficou ali parada, se perguntando se ele precisaria de mais alguma coisa. Isabella encarava suas costas que estavam contraídas, assim como sua bela bunda.
'Santos exercícios que ele faz!' — ela pensou, corando em seguida e balançando a cabeça negativamente.
– Eu assumo daqui, senhorita. – Ele disse um tanto quanto rude, mas na verdade só estava encabulado e com raiva de si mesmo por ser um inválido. Isabella suspirou.
– Tem certeza que não precisa de ajuda? Como vai sair daí depois? – Ela levantou uma das sobrancelhas, encarando suas costas largas. Ele se xingou mentalmente por não ter pensado no ‘depois’ e bufou pra si mesmo. Como ela o ajudaria sem ver seu corpo de frente? Não teria como, e essa é a última coisa que ele quer, que ela o veja.
– Eu me viro. – Disse receoso. Ele sabia que iria se foder se machucasse seu pé, mas qualquer coisa era menos pior do que ela vê-lo na claridade do banheiro. – Só feche a cortina do box, por favor. – Isabella fechou a cortina e encarou o pano, tentando olhar através do mesmo, tentando vê-lo.
– Sr. Cullen, eu sou uma profissional, não precisar ter vergonha e... – Ela começou a dizer despreocupadamente, mas ele a cortou.
– Eu apenas não preciso, senhorita. Apenas saia, por favor. – Ele aumentou o tom de voz, o timbre ácido e grosso alcançando os ouvidos de Isabella. Ela bufou.
– Senhor Cullen, eu só... – Ele a cortou novamente.
– Só saia, por favor. Não me faça brigar com você, leelan. – Ele disse em súplica. Isabella sentiu a doçura em sua voz, apesar de tudo. Ela respirou fundo e se deu por vencida dessa vez. Foram tantas coisas em um só dia, também não adiantaria ela forçar a barra daquele jeito com ele, isso só pioraria as coisas.
– Tudo bem senhor. Mas qualquer coisa, me chame por favor. É o meu trabalho cuidar do senhor, não o de Ivanov. – Ela disse. – Sua toalha esta em cima do vaso sanitário. – Ela avisou, saindo do banheiro e fechando a porta atrás de si. Isabella ouviu o barulho do chuveiro ligado, este que abafou a respiração aliviada de Edward. Ele apoiou a cabeça no azulejo frio e sentiu a água quente cair por seus ombros.
‘Deus, eu a chamei de leelan.’ – Ele pensou um tanto quanto desesperado. Nunca chamara ninguém assim além de sua filha, nunca. Um único dia e a pequena mulher já mudara seu mundo de cabeça para baixo, ou teria ela justamente o colocado no lugar novamente? Ele não sabia dizer.
Ela o confunde, o transtorna, ele não sabe como agir perto dela, fica nervoso, imprudente, agressivo. Edward esta completamente confuso, seus pensamentos e desejos se tornando várias ideias aleatórias e misturadas, e no momento, todos seus pensamentos se voltam para ela, seu anjo pessoal, Isabella.
– Isabella. – Ele sussurrou seu nome, o rolando em sua língua. O dizer em voz alta esclarece muita coisa, como do jeito que ele se sente ao ouvir o nome dela, um sensação de calmaria, de paz. Ele está embriagado por ela.
Edward não sabe dizer se apenas gosta da atenção e preocupação que nunca recebera de um estranho, ou se apenas sua presença o agradava demais para o seu próprio bem. Ele realmente não sabia. Ele tem tantos pensamentos quanto a quantidade de água que passeava pelo seu corpo.
É bom estar perto dela, sim. Mas ao mesmo tempo é assustador e dolorido. Isabella traz o melhor dele e o seu pior.
Seus pensamentos vagaram de Isabella até Tanya, e ele se sentiu culpado e devastado no mesmo momento. Era inevitável não se lembrar do sorriso de Tanya, do modo como seus cabelos louros ficavam lindos espalhados pelo peito de Edward, do modo carinhoso com que ela pronunciava seu nome.
‘Edward’ – Ele quase pode ouvir a voz de Tanya o chamando, um sussurro. Mas ao meio da voz dela veio a voz de Isabella, ela dissera seu nome.
‘Edward’. Parecia um nome de flor em seus lábios. Ela pronunciou seu nome tão delicadamente, quase como se tivesse medo que quebrá-lo, medo que as letras se soltassem umas das outras e seu nome se desfizesse.
'Eu só posso estar ficando louco' — pensou, sorrindo ironicamente para si mesmo.
Com um pouco de dificuldade, Edward se sentou na cadeira que estava dentro da banheira, então se lavou por completo.
Depois, ele fechou o chuveiro e se levantou com dificuldade, se apoiando nas paredes e no ferro que sustentava a cortina. Ivanov havia trocado o ferro antigo por um aço forte e resistente. Um russo de 100 quilos quebraria facilmente o cabo anterior.
Edward se segurou no cabo de aço e abriu a cortina do box, se curvando para pegar a toalha em cima do vaso sanitário. Com uma mão ele secou seu corpo, seu outro braço apoiado na parede no banheiro. Ele se secou por completo e jogou a toalha em cima do vaso. Respirou fundo.
Edward, com um medo enorme de machucar seu calcanhar, se segurou na barra de ferro com os dois braços, se pendurando na mesma. Ele não sabia se ela aguentaria seu peso, mas ele não pensou muito nisso. Com os braços ele sustentou o próprio peso, levantando seu pé bom do chão. Ele forçou o abdome e levantou os joelhos até o peito, colocando sua perna boa no chão, deixando a ruim ainda dobrada. Ele se soltou da barra de ferro e quase caiu para trás, dentro da banheira. Procurou seu próprio equilíbrio e conseguiu se manter em pé, sem nenhum arranhão.
Foi difícil, ele admitia. Era tão melhor ter a ajuda de alguém, ele também admitia. Mas ela não poderia vê-lo, ela não suportaria tamanha horribilidade.
Ele foi pulando de um pé só até o próprio armário, pegando uma de suas cuecas. Edward pulou com dificuldade até sua cama e se sentou na mesma. Ele passou o calcanhar ruim pela cueca e quase gritou de dor. Mesmo fazendo um ano do ferimento, seu calcanhar quase tinha sido arrancado, e nesse meio tempo seu pé infeccionou várias vezes, seus pontos sempre abriam, então ele nunca sarara por completo. E a falta da fisioterapia também ajudava na sua debilidade. Ele passou o outro pé pela cueca e deitou na cama, vestindo a mesma.
Edward respirou fundo ao terminar e se endireitou na cama. Seu quarto já estava escuro, então ele encarou a janela em cima de sua cabeça, o céu estrelado o cobrindo como um enorme manto, então ele chorou novamente. Era sempre assim, todas as noites, o choro. Mas dessa vez seu choro não continha só dor, culpa ou arrependimento. Continha vergonha, medo e uma miserável dose de felicidade. E ele só podia agradecer Isabella por estes novos sentimentos.
No quarto ao lado Isabella observava o mesmo céu que o seu adorável e arrogante russo. Ela relembrava como uma cena em repetição o momento dos dois no banheiro, como ele havia se abrido com ela, falado sobre seus sentimentos, como ele a tinha deixado tocá-lo, como ele tinha docemente falado com ela. Ela sorriu e fechou os olhos, respirando fundo.
O primeiro dia não havia sido tão ruim assim, ela pensou. E nada como um dia após o outro para melhorar as coisas.
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