Dark Love
6 You should say thank you while you can
Notas iniciais
URSS, Leningrado, 7 de maio de 1946
Isabella levantou cedo. O sol nascera á pouco tempo, o relógio marcando 6:45 da manhã. Ela foi até o banheiro e tirou suas roupas, as colocando em um cesto branco e entrando no box. Ligou o chuveiro e soltou o coque dos cabelos, os lavando. A água morna acalmou seus músculos e a preparou para um novo dia difícil com seu adorável e estúpido russo.
Isabella se trocou e deixou os cabelos soltos, descendo as escadas até a cozinha. Chegando lá, ela encontrou Roza fazendo o café da manhã.
— Bom dia Roza. — Isabella disse sorridente. — Como está?
— Bom dia anjo. — Ela respondeu com um sorriso, continuando a mexer os ovos na frigideira. — Melhor impossível. — Ela disse, rindo de leve. Logo em seguida Ivanov entrou sorridente na cozinha.
— Bom dia senhoritas, já viram o belo sol lá fora? — Ele disse animado e olhou para Roza. Isabella encarou os dois e riu.
— O que eu estou perdendo aqui? — Isabella perguntou divertida. Roza e Ivanov se entreolharam e Roza desviou o olhar, encabulada.
— Nada senhorita. — Ele disse sorridente. — Eu apenas colhi duas belas rosas bravas para vocês. — Ivanov sorriu, entregando uma flor á Isabella e depois indo até Roza, beijando a costa de sua mão e a dando a outra flor. Ela sorriu encabulada e Isabella se engrandeceu a velos, eles a lembravam seus pais, e só ela sabia como sentia falta deles.
Isabella respirou fundo e tentou não pensar no seu passado, o que importava era o agora, ela se convenceu.
— Roza, o café do Sr. Cullen esta pronto? — Isabella se segurou para não chamá-lo de Edward, sua própria mente a censurando depois disso, ela não achava que tinha esse direito, e realmente não o tinha.
— Ele não toma café, Isabella. — Roza disse delicadamente, tentando persuadir Isabella a não insistir nisso, ela sabia o gênio da moça e sabia o que viria a seguir.
— Prepare o café dele, por favor. Hoje ele vai tomar café. — Isabella disse autoritária, o que, apesar de deixar Roza e Ivanov receosos, os deixou com uma esperança que a tempos não tinham.
Roza preparou a bandeja do café da manhã de Edward. Fazia meses que ele não tomava o café, mas Roza nunca se esqueceu de suas preferências. Ela preparou uma tigela de frutas vermelhas, ovos, panquecas, um copo generoso de suco de abacaxi natural e uma tigela de cereal. O mesmo café da manhã que ele comia desde pequeno, ela se lembrou, sorrindo ao preparar aquela bandeja novamente. Roza sentia saudades de Edward, do seu menino, que sempre fora tão carinhoso com os criados, tão presente e tão amoroso, nunca este homem amargo e retraído, ela sentia saudades dele. Mais do que um patrão, Edward sempre fora seu segundo filho, que ela cuidou desde pequeno, e continuava dessa forma, o que a deixava ainda mais triste, o que a fazia se entristecer mais por vê-lo definhar sem nem lutar pela vida, sem nem esperar pela misericórdia que ela sempre acreditou que ele merecia.
Porém, ao olhar para a nova pequena petulante que residia na mansão do Sr. Cullen, Roza pode ver renascer aquela esperança que ela sempre teve, o anseio que ela sempre teve pela felicidade de Edward. Sim, ela sabia que ele amava Tanya e que ela sempre fora uma boa pessoa, mas também acreditava que nada como um novo amor para amenizar um antigo. E Roza acreditava piamente que Isabella poderia ser este novo amor.
Isabella pegou a bandeja de prata e subiu as escadas. Ela não tinha boas lembranças com refeições, muito menos boa lembranças com refeições e Sr. Cullen, juntos.
Ela suspirou.
Chegou ao último degrau da escada e depositou a bandeja em uma mesinha que havia ali. Isabella entrou em seu quarto e pegou a caixa de primeiros socorros, hoje seria o primeiro dia que ela cuidaria do calcanhar machucado do Sr. Cullen, e temia o quão ruim aquela ferida estaria.
Ela colocou a caixa dentro de uma bolsa branca e colocou a mesma sobre os ombros, saindo de seu quarto. Ela pegou a bandeja de prata, a equilibrando em uma só mão, com a outra, dando dois toques na porta do Sr. Cullen. E ela esperou.
Do outro lado da porta, um Edward rabugento acordava. E ao conhecer o histórico petulante de sua enfermeira, nem se mobilizou á uma discussão sobre a falta de vontade de ver qualquer pessoa, mesmo que fosse ela.
Edward bufou e destrancou a porta, voltando manco até sua cadeira. O quarto se mantinha escuro como sempre, apenas sua singela luminária no canto do quarto. Ele sabia que havia um sol lindo la fora, e diabos, como ele sentia falta do sol, do calor, de se sentir aquecido, amado.
Isabella, abismada com a recepção inesperada de Edward, abriu rapidamente a porta, com medo que ele mudasse de ideia. Ao entrar ela se deparou com o tão conhecido escuro no qual ele se encontrava, a tristeza tomando o coração de Isabella, assim como a compaixão que ela sentia por ele.
— Bom dia Sr. Cullen, trouxe seu café. — Isabella disse firme, entrando no quarto e fechando a porta atrás de si. A luz do sol atravessava suavemente o manto que cobria as janelas, deixando o quarto abafado e um pouco claro. Edward estava sentado em sua cadeira de praxe, com a cabeça baixa e com seu típico manto preto cobrindo todo seu corpo.
— Não tomo café da manhã. — A voz de Edward saiu autoritária e rouca ao mesmo tempo, o que trouxe arrepios á Isabella, que se recompôs no momento seguinte.
— Sr. Cullen, eu temo que hoje o senhor... — Ele a cortou.
— Se sabia que não estou habituado á tomar café, por que se deu ao trabalho, senhorita? — Ele quase cuspiu as palavras. Ele sentia raiva, só queria ser esquecido por tudo e todos. E as vezes, Edward sentia raiva de Isabella, pois ela fora mandada por seu pai, justamente por que ele não importava o bastante para lutar por ele. Edward sentia raiva por Carlisle nem sequer tentar lidar com ele, mandando alguém para fazer esse trabalho, para cumprir essa obrigação. E por mais que uma boa parte de Edward se sentia lisonjeado pela presença de Isabella, ele não queria mantê-la presa á um inválido como ele, á alguém sem esperança como ele.
— Eu achei que hoje pudesse estar com apetite. — Ela rebateu. — E eu temo, senhor, que terá que mudar seus antigos hábitos. Não vou passar a mão em sua cabeça e aceitar suas birras, deve saber. Portanto, trate de tomar o seu café, eu vou arrumar as coisas para examinar seu ferimento. — Ela disse em tom de ordem, deixando a bandeja em uma mesa ao lado da cadeira de Edward. Ele sorriu de canto por baixo do pano que cobria seu rosto, divertido pela petulância de Isabella.
— Você é abusada, senhorita. — Ele disse divertido. — Audaciosa, devo dizer. E inclusive pensa que manda em mim ou algo do tipo. — Ele disse irônico.
— Enquanto se portar como uma criança mimada, não me importarei em me comportar como uma abusada, como o senhor diz. Agora coma, pode ser que perca algum sangue quando eu cuidar de seus ferimentos.
— Não vou comer. — Ele disse birrento e Isabella bufou, virando de frente pra ele e encarando seus olhos verdes pela penumbra do quarto.
— Terei que dar em sua boca, senhor Cullen? — Ela indagou com um pouco de raiva, pousando as mãos na cintura. Qual era a dificuldade dele comer, ela pensou irritada. Isabella não entendia como ele podia ser tão inflexível e irritante.
Edward sorriu pela segunda vez, e Isabella estava com ele á menos de meia hora. Ele encarou aquela mulher pequena demais para ser tão irritante, suas mãos em sua cintura definida e seu semblante raivoso e saturado, e em um lapso de insolência ele desejou agarra-la e calar-lhe a boca insolente com um beijo. Mas certamente não o faria, nunca.
— Eu realmente não me importo, já alimentei idosos antes. — Isabella continuou, já que não recebera uma resposta. Ela se posicionou em frente a badeja e começou a manusear os talheres. Edward teve que rir, um tanto quanto alto agora. Isabella, surpresa, tomou um susto ao ouvir o riso do homem que nunca sequer vira sorrir, e o som de sua risada atravessou seus poros, a causando uma paz interior que ela nunca pensava que sentiria de novo, mas este momento não durou mais do que 2 ou 3 segundos, logo depois a máscara de amargura já estava presente no âmago de Edward Cullen.
— Esta me comparando com um idoso, senhorita? Não sou tão velho assim, de certo. — Ele sorriu consigo mesmo. — Mas não será necessário, eu posso comer minha própria comida. — Ele disse, fazendo Isabella se afastar.
— Então vai tomar todo o café? — Ela indagou animada, se sentindo vitoriosa por tê-lo dobrado. Edward nada respondeu, apenas pegou a bandeja da mesa de madeira e a trouxe para seu colo, começando a comer tudo o que havia ali. Isabella sorriu e deu-lhe as costas, indo até a mesa ao lado la luminária, colocando a caixa de primeiros socorros ali.
Isabella encarou a janela á sua frente. Seria tão mais fácil com a luz do dia tratar do ferimento dele, mas ela sabia que isso era inegociável, ela entendia os limites dele, afinal.
Edward terminou de comer enquanto Isabella arrumava as últimas coisas que ela usaria para tratar-lhe. Ela o olhou para Edward e deu-lhe um meio sorriso, um sorriso um tanto quanto cúmplice, que o encorajou, afinal.
— Senhor, pode se sentar perto da luz, por favor? Não enxergo nada ai. — Ela disse suavemente, sem querer aparentar ofensiva. Edward se levantou com dificuldade e mancou até a cadeira próxima á luminária. Isabella até o teria ajudado, se não soubesse o quão teimoso e autossuficiente ele é.
Edward se sentou na cadeira e Isabella se sentou em um banco mais baixo, na frente dele. Ela abaixou a luz na altura de seu colo, onde o pé de Edward repousaria.
— Eu preciso que deixe seu pé a mostra, e que o coloque em meu colo, tudo bem? Deve doer um pouco, mas é necessário. — Ela falou calmamente, como uma mãe que fala com uma criança assustada. Isabella colocou uma toalha branca em seu colo, e logo em seguida, viu o imenso russo de quase dois metros se curvar á sua frente, retirando sua meia preta e a colocando ao lado da cadeira, deixando seu pé mal enfaixado á mostra.
— Você que faz seus curativos? — Ela indagou. A ferida nem sequer havia sido limpada ou lavada.
— Fiz isso por um ano. Infeccionou várias vezes, quase sempre sangra e dói muito. — Ele disse apreensivo. Isabella pode ver o porque o ferimento nunca sarava, além de ser profundo, era muito mal higienizado e tratado, isso lhe daria um belo trabalho.
Com cuidado, ela pousou os dedos em sua canela e o sentiu arrepiar. Aquele simples toque se tornou algo tão íntimo para os dois que o que menos havia ali era uma conotação de relação paciente-enfermeira. Isabella respirou fundo e colocou o pé do homem em seu colo, tomando um cuidado imenso para não machucá-lo ainda mais.
Ela retirou as gazes que cobriam toda a extensão de seu calcanhar, vendo a ferida feia e infeccionada que havia ali. O pé dele estava inchado, quase roxo podia-se dizer, e a ferida por pouco não necrosara. Isabella pegou um dos panos úmidos que preparara com água e sabão e passou primeiramente onde o ferimento não tocava.
— Eu preciso limpar o excesso de pus e sangue coagulado, para ver a profundidade da ferida e os estragos, tudo bem? Vai arder um pouco e... — Ele a cortou.
— Só faça o que tem que fazer, não se preocupe comigo. — Ele disse firme. Isabella pensou em dizer o quanto se importava com ele mas se calou, apenas prosseguiu com seu trabalho.
Ela sabia que a cada vez que limpava sua ferida, que a examinava, que a manuseava, a dor imensa que ele sentia, mas ela ainda o fez. Se não, ele corria um risco sério de perder o pé. Não que Edward se importasse com isso, o que seria um membro para quem já havia perdido um coração e uma família? Nada. Ele até se sentiria aliviado em perder um membro, menos uma parte dele que sentiria sua imensa dor.
Isabella terminou sua sepsia mas ainda não era o suficiente, e a carne do calcanhar dele estava tão desgastada e ferida, que precisava de um descanso, assim como ela. Bella cobriu o ferimento com gaze e faixas, as prendendo com esparadrapos corretamente. Antes que ele pedisse, ela pegou sua meia preta do chão e o vestiu com a mesma, pois ela sabia a vergonha que ele tinha e não queria embaraça-lo mais.
Isabella o olhou e esperou pelas palavras. Mas elas não vieram.
Não por falta de Edward em querer dizê-las, mas por ele ser orgulhoso demais para tal. Era um simples "muito obrigado" mas para ele era uma fraqueza, mais uma em sua vida. Isabella guardou suas coisas e fechou a caixa de primeiros socorros, se levantando e desligando a luminária. Edward queria detê-la, pegar na mão dela, vira-la de frente para ele e lhe dizer obrigada, mas ele não o fez, apenas a deixou ir. Isabella pegou sua caixa, decepcionada, e saiu do quarto.
Edward continuava sentado em sua cadeira, estático e inexpressivo, apenas maquinando sobre os últimos acontecimentos relacionados a Isabella Swan, a abusada que o tinha feito sorrir mais de uma vez e rir, tudo isso em menos de uma hora. Isabella Swan, a petulante de cabelos longos que cheiravam á morango com chantilly, o que fazia querer passar seus dedos por eles, cheirá-los e se enroscar neles. Mas mesmo que ele a quisesse, não poderia tê-la. Quem iria querer um homem sujo pela guerra como ele? Um homem indigno, errôneo e mutilado como ele. Ele não a merecia e nunca a mereceria, ele sabia disso.
Logicamente a atração por Isabella era iminente, e isso tudo vinha junto com o jeito perseverante dela que nunca desistia dele, o modo com o qual ela tinha seu riso fácil e o fazia amolecer, pela sua simples audácia. Ele se sentia um tanto quanto vivo perto dela, ela traz um pedaço do que resta de bom nele.
Mas havia Tanya, e ela estava sempre ali, o acompanhando, o fazendo sentir culpado. Mas nada comparado a dor em que ele sentia sobre sua filha, a mulher que ele mais amara no mundo, até mais que sua mãe. A garotinha que ele nunca pudera ver crescer, estudar, casar, ter seus próprios filhos construir sua vida. E mais do que isso, ele sentia falta do sorriso angelical de sua garotinha, em como ela dizia que o amava e o idolatrava, o jeito que ela o fazia sentir vivo e amado, o homem mais amado do mundo todo. E só Deus sabia como ele sentia falta disso, todos os malditos dias. E isso só aumentava a imensa culpa que ele sentia por tê-la deixado, por ter deixado sua família enquanto ele protegia seu país. E a que preço? De que lhe valeu salvar um país para poder viver, se ele não tinha o que o motivava a respirar? Do que adiantava um país se ele não tinha uma família?
O dia todo se arrastou. Bella entrou no quarto apenas na hora das refeições e se mostrou rápida em levá-las e trazê-las, como se quisesse sair dali o mais rápido possível, e do contrário que Edward pensava, ela não sentia aversão, ela apenas estava magoada por sua frieza extrema. Algo em Bella ainda achava que ele poderia mudar de um dia para o outro, mas nada seria tão fácil assim.
Ao fim do dia, quanto Edward soube que todos estavam dormindo, ele se levantou da cama com dificuldade, se apoiando em muletas, e andando até a estante de livros que tinha na parede do seu quarto, a que dividia seu quarto do de Isabella.
Como toda boa casa antiga, haviam passagens secretas, sim. Ele apertou um botão escondido entre os livros, e silenciosamente, a estante se moveu para o interior da parede, o bastante para que ele visse Isabella dormir, ou melhor, um anjo dormir.
Nunca fora de seu feitio espionar os outros ou coisas, ainda mais algo que não lhe pertencia, era quase erótico. Ele se sentia sujo e insolente, mas para um homem tão marcado e destruído, o que seria mais um pecado?
Ele olhou como seus cabelos negros caiam sobre o travesseiro branco, e o modo que sei peito subia e descia conforme ela respirava em seu sono profundo, era como um anjo, Edward pensou. E a única coisa que ele conseguia sentir naquele momento era o deslumbre e a adoração, como se ela fosse um ser divino, tão inalcançável para ele, a ponto de lhe doer.
Edward recuou e fechou a passagem para o quarto de Isabella, saindo de seu próprio quarto em seguida. Todas as madrugadas ele saia de seu quarto, e ia para onde ninguém era autorizado á ir. Então ele encarou a porta que estava fechada á um ano, a porta que guardava todas as lembranças de dor que ele tinha. Toda noite ele ia ali e olhava para a porta, realmente sem coragem nenhuma para abri-la. Pois afinal, ele achava que nunca conseguiria superar o seu passado. Ele observou a fechadura por um momento, segurando a chave firmemente em seu pescoço, dando meia volta e entrando em sua escuridão de sempre.
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