Dark Love
27 Empty land
Notas iniciais
URSS, Leningrado, 15 de abril de 1947 — 21h 37 pm— Mansão de Edward Cullen Scherbítsky
O quarto ainda estava do mesmo jeito de sempre.
Desde que ele trancara ali, ninguém entrou lá nem sequer uma mísera vez.
Ainda estava tudo em seu devido lugar, — em sua devida bagunça, por assim dizer.
O último dia que Edward entrara ali foi o último dia que aquele quarto viu o rosto de alguém. Ele retornou da guerra e teve suas horas lá dentro, saindo e fechando a porta para que ela nunca mais fosse aberta. Mas agora a situação era outra.
Ele entrou calmamente, como se estivesse medo de estar ali, como se precisasse de uma permissão para estar ali. Alice ficou parada na porta e em determinado momento ela resolveu deixa-lo á sós, fechando a porta atrás de si.
Ele olhou o quarto, relembrando o último dia que estivera ali.
URSS, Leningrado, 4 de maio de 1945.
Todos estavam á espera de Edward em casa. Seus pais ordenaram aos criados para fazer-lhe um banquete, mesmo a data não sendo tão comemorativa como eles gostariam. Claire e Tanya haviam acabado de falecer e os criados tinham acabado de retornar à mansão, pois com a guerra, muitos deles não estavam nem saindo de suas casas.
Um carro chegou à mansão pela manhã. Jasper e Carlisle estavam no banco da frente do mesmo, carregando Edward no banco de trás. Ele já tinha passado pelo hospital do exército e já era hora de retornar para casa.
Jasper desceu do carro e abriu a porta de trás, pegando as muletas do chão e as entregando para Edward. Ele as pegou e saiu do carro com dificuldade. Seu rosto nunca esteve tão triste e machucado, e quem o conhecia sabia que havia muita dor ali. Roza fez menção de ir até ele, mas recebeu um olhar tão gélido que nem conseguiu sair de seu lugar. Ivanov, mesmo com a cara feia de Edward, foi até ele e o segurou pela cintura, o auxiliando com Jasper para a entrada da mansão. Carlisle saiu do carro e os seguiu, assim como todos os criados que o esperavam na parte de fora casa.
Ao entrar ele se deparou com sua mãe e irmã, que o esperavam parte triste parte felizes. Realmente lidar com a família era a última coisa que ele gostaria de fazer no momento.
— Eu quero todos fora. – Ele apenas ordenou, se soltando de Jasper e Ivanov e seguindo com suas muletas para o andar de cima. Sua dificuldade era gritante, mas ninguém tinha coragem de encaram um homem de 2m de altura que havia acabado de perder a família e tinha sido brutalmente torturado. Era demais para qualquer um dali.
Ele subiu os degraus, demorando tempo demais até chegar ao andar de cima, indo diretamente para a porta no final do corredor.
Entrou no quarto e se trancou ali.
Olhou para as paredes, e nelas haviam fotos de sua família, de Claire, do casamento dele e de Tanya, suas medalhas de honra do exército... E nunca na vida ele havia visto tanta mentira em um só lugar, tanta tristeza.
O seu pé gritava pedindo por um auxilio, mas suas muletas já estavam no chão e no momento seguinte ele pegava todos os quadros da parede e os jogava contra o chão. Em um armário próximo haviam suas roupas de exército, estas que ele pegou uma por uma e rasgou com as próprias mãos, as deixando por ali mesmo. Sua mesa de madeira foi quebrada por diversos socos seguidos, as cadeiras jogadas contra a parede, as cortinas puxadas de suas janelas, tudo destruído.
Em meio do caos, ele encontrou algo tão significativo que quase o fez chorar de novo. Até então era só raiva que ele tinha dentro de si, esta que ele colocava para fora quebrando tudo que via pela sua frente. Mas aquilo era especial, era a primeira boneca de Claire. Ele se lembrava como se fosse naquele dia, a primeira vez que sua filha pegou a boneca em suas pequenas mãos, lhe dando o sorriso mais inocente e puro do mundo. Ele esmagou a boneca entre suas mãos enquanto chorava como uma criança desamparada, novamente afundado em sua miséria. Olhou em sua volta e seu armário de armas estava ali, juntamente com a bandeira do seu país, — esta que ele rasgou com toda sua vontade. Ele andou até o mesmo e analisou arma por arma com os olhos, cogitando usar uma delas por um momento e se perguntando qual delas poderia lhe dar uma morte mais limpa – estupidamente ele estava analisando como ficaria em seu caixão, então procurava uma arma que fizesse o menor buraco possível. Ridículo, se parássemos para analisar que ele morreria de qualquer forma, e levando em consideração que o jeito mais rápido era um tiro na cabeça, nenhuma arma poderia possibilitar que seu velório fosse com caixão aberto.
Ele estava completamente inerte á tudo, se movendo como se fosse um zumbi sem vontade própria, apenas agindo automaticamente. Ele andou até as armas e pegou uma Taurus calibre 38, equipando-a com uma única bala. Ele apontou para a própria cabeça e girou o tambor, tentando a sorte e atirando. Para sua felicidade — ou não – a bala não estava ali. Antes que ele girasse o tambor novamente, a porta foi arrombada por Jasper, que correu até ele e jogou a arma longe, o encarando de olhos arregalados.
— Eu te tirei daquela merda pra você se matar, seu idiota? – Ele berrou na cara de Edward, que estava ajoelhado no chão, encarando o nada. Jasper lançou um tapa em seu rosto, finalmente conseguindo a atenção dele. – Mas que merda, Edward!
— Não foi você quem perdeu tudo o que tinha. E eu não pedi para ser salvo, que queria a morte e você sabe disso. – Edward respondeu com uma calma perturbadora.
— Você não morreu por que não era seu momento, cara. Você precisa ser forte. Agora, mais do que nunca você precisa ter fé. – Jasper disse sério, abaixando-se na altura dele. Edward gargalhou sem humor.
— Fé? Isso é uma grande piada, Jasper. Não existe ninguém olhando por mim nesta merda de mundo. E ser forte? Me diga como posso fazer isso se a única garotinha que me dava forças esta morta? – Ele continuou apático, falando como se estivesse lendo algum papel com o texto pronto, completamente desnorteado e fora de sintonia.
Jasper respirou fundo, sem realmente saber o que responder, mas afinal, quem sabe o que dizer em momento desse?
— Eu quero ficar sozinho. Não vou me matar, eu sou muito covarde pra isso. – Ele continuou apático, levantando do chão com dificuldade e deixando a boneca de Claire no chão.
Jasper se levantou com ele e pegou as muletas para lhe entregar, estas que Edward dispensou e saiu do quarto, esperando por Jasper. O amigo saiu do mesmo e ele trancou a porta, guardando a chave em seu bolso e seguiu mancando até seu quarto, se trancando ali e ficando em sua escuridão, esta que seria sua amiga por um longo ano.
Jasper bufou cansado, descendo as escadas e dando a Edward o espaço que ele precisava no momento, apesar da sua única vontade ser estar ali por Edward, ele sabia que não poderia. Então o que lhe restava era descer as escadas e rezar pela alma dele, esta que ele sabia que já estava perdida.
URSS, Leningrado, 15 de abril de 1947 — 21h 45 pm— Mansão de Edward Cullen Scherbítsky
Retornando de suas memórias, ele olhou novamente ao redor, analisando a sala ainda destruída de um ano atrás. Tudo estava onde ele se lembrava, a não ser pelas teias de aranha que tomaram conta do local. Ele pisou delicadamente no assoalho, suas pegadas ficando fixas no chão cheio de poeira. Ele andou pela sala, observando cada detalhe e se sentido como á 1 ano atrás, revivendo aquele dia como se tivesse sido ontem. Não demorou muito para que ele visse a boneca de Claire jogada no chão.
Andou até a mesma e a pegou em sua grosseira mão, aquele pedaço de pano parecia tão precioso em suas mãos, que ele quase chorou novamente.
Guardou a boneca no bolso e andou até sua antiga mesa de armas, olhando-as atentamente. Ele lembrava cada morte que havia sido produzida por elas, ele lembrava todas as guerras que participara e qual arma usou em cada uma delas. Ele se lembrava de quantas balas havia usado em cada guerra.
Mil e trinta e três.
Novecentas e setenta e quatro.
Trezentas e cinquenta.
Mil e noventa e sete.
Três mil duzentas e quarenta e três.
Cada uma doía nele e o lembrava de quantas pessoas haviam morrido em suas mãos, isso sem contar os ataques á flecha, bombas e canhões. Tudo o que ele odiava estava naquele quarto.
Mas nada mais daquilo era importante. Ele só estava ali por duas coisas. Suas armas e sua farda.
Verdade, ele rasgou todas suas roupas penduradas, mas sua primeira farda estava guardada em uma das gavetas, e por sorte ele não a tinha rasgado. Era a primeira roupa de exército que seu pai havia lhe dado. Seu pai não, Carlisle. E bem, nada mais irônico do que ele mata-lo usando-a.
Depois de ter pegar sua farda, ele andou até a mesa de armas e começou a colocar balas em todas as 11 que estavam ali. Por último, ele segurou a Taurus de calibre 38 e aquela única bala ainda estava ali. A encarou por um momento e colocou-a na parte de trás no cós de sua calça. Encarou novamente o local e depois saiu, trancando a porta atrás de si.
No andar de baixo, Jasper e Emmett também equipavam suas armas. O telefone já tocava freneticamente, pois Jasper havia avisado seus companheiros de guerra sobre o ocorrido. Desde que eles começaram a fazer as investigações, grande parte dos soldados já os vinha ajudando, além de que a maioria dos homens já tinha pego uma raiva grande de Carlisle.
Depois que a guerra acabou, Jasper acabou tendo seu próprio batalhão, o que lhe rendeu muitos homens leais. Ele marcou com todos na mansão, para que eles pudessem sair em busca por Leningrado. Pelas suas pesquisas sobre Carlilse, ele tinha ciência sobre alguns possíveis cativeiros que ele mantinha na época da guerra, e que provavelmente ainda estavam no mesmo lugar, eles iriam começar por estes lugares, para assim depois ir para uma busca mais rígida. Mas ele sinceramente esperava encontra-las logo, pois ninguém poderia saber o que ele era capaz.
Os soldados chegaram e os dois coronéis se colocaram na sala de estar, todos em volta da grande mesa, onde Jasper havia colocado um mapa com lugares previamente demarcados.
— Bom, vamos nos dividir em grupos e cada um vai para um local. Vamos começar por estes 4 locais — ele apontou no mapa — que são os mais recentes nos registros e depois seguimos para os outros. Edward e eu vamos aqui — ele apontou no mapa — com o meu grupo de homens, o Emmett vai com um outro grupo e vocês dois — ele apontou para os coronéis — vão para esses outros lugares — ele avisou a todos, demarcando suas posições no mapa-. Podemos nos comunicar por rádio, e se alguém achar algo suspeito, chame os reforços. — Ele disse sério. Edward olhava para o mapa sem expressar nada realmente, sua cabeça estava tão longe dali, pensando em Bella e em sua filha, em como ele as traria de volta, que mal percebeu quando os homens deixaram a sala, ficando só Jasper e ele ali.
— Nós vamos achá-las, cara. Eu prometo a você. — Jasper disse esperançoso, segurando no ombro dele com firmeza, lhe lançando um pequeno sorriso. Edward respirou fundo e eles saíram da mansão. Os jipes já estavam prontos para a saída, então eles apenas entraram e cada grupo de homens seguiu o seu destino.
1 mês depois
Um mês de buscas, e nada.
Edward encarou o mapa pela milésima vez, se irritando como todos aqueles "X" que não os levaram á lugar algum, e empurrando-o sobre a mesa. Ele passou as mãos pelos cabelos em um ato de desespero, puxando alguns fios no processo.
Nesse meio tempo, havia chego uma caixa de papelão com um dedo indicador, o que indicava que ele estava torturando Isabella pra valer, e isso apertava cada vez mais o peito dele.
Á essa altura Esme já sabia de tudo, e Carlisle tão pouco tinha voltado para casa em todo esse tempo. Ninguém entendia como ele podia se esconder por todo esse tempo, e por Deus, onde seria esse local? Ele não tinha como sumir do mapa dessa forma, e só Deus sabia como Jasper e seus homens estavam rodando por toda Leningrado.
Os homens já estavam exaustos das buscas diárias e a casa de Edward havia se tornado um enorme acampamento. Os homens agora moravam na casa dele, para que tudo se tornasse mais fácil.
Edward só conseguia pensar no bebê. Ele sabia que agora Isabella já devia estar no seu nono mês de gestação, e Senhor, ela poderia ter o bebê a qualquer momento, e ele se preocupava com o que Carlisle poderia fazer com o seu filho.
Eles estavam novamente na mesa de jantar, olhando novamente para o imenso mapa. Jasper bufou e encarou a folha sobre a mesa.
— Eu não sei que lugar esta faltando, nós rodeamos tudo, porra! — Ele esbravejou, completamente transtornado e exausto.
— E se ele não estiver em nenhum lugar desses, e se for algo novo? — Emmett questionou, encarando o mapa como todos os homens ali faziam.
— Haviam uns rumores sobre algum lugar ao sul, mas nada realmente concreto e nada que veio de alguém confiável. — Um dos coronéis comentou, dando de ombros.
— Onde fica? Nós vamos. — Edward disse apenas, encarando o mapa como se a vida dele dependesse disso.
— É uma área protegida pelos alemães. Na verdade é um dos refúgios deles na época da guerra, e eu acredito que ainda tem alguns soldados por lá. — Ele continuou.
— Vocês acham que Carlisle pode ter alguma aliança com eles? Por que honestamente, pelos registros que nós temos me parece que ele e os alemães são bem próximos. — Jasper comentou apreensivo. Se isso fosse realmente verdade, Carlisle era bem pior do que eles já haviam descoberto.
— Tem mais ou menos 3 refúgios de ex soldados alemães por Leningrado. — O coronel voltou a falar, pegando uma caneta preta e circulando no mapa. — São locais de difícil acesso, inclusive um deles é só acessível por helicóptero, mas não custa nada tentarmos. — Ele disse sério, analisando as possíveis rotas.
Enquanto os homens discutiam, pensando em como proceder, o telefone tocou na sala, e Alice, que estava mais perto dali, correu para atender.
— Alo? — Ela perguntou nervosa. O telefone tinha se tornado ouro por ali, pois a qualquer momento poderia vir um telefonema importante.
— Alice, só me escute, não fale nada. É a Tanya, eu consegui ligar por um momento, mas logo o seu pai esta vindo aqui. Nós estamos na área sudeste, é preciso tomar a estrada velha pra vir pra cá, não tem erro. A Bella esta mal e eu acho que ela vai parir em breve, não demorem. — Ela disse rapidamente, desligando o telefone na cara de Alice. Ela, que ficou encarando o aparelho como uma boba, sem conseguir falar nada.
— Edward! — Ela gritou finalmente, e ele veio rapidamente á seu encontro.
— O que houve? Quem era? — Ele perguntou nervoso, se aproximando do telefone e o pegando da mão de Alice, colocando em seu ouvido, mas não havia mais nada ali.
— Era Tanya, ela me disse onde elas estão, é em algum lugar no Sudeste, pegando a estrada velha. Oh meu Deus. — Ela caiu no sofá, completamente extasiada e ainda um pouco tonta pela conversa.
— Você acredita nela? — Jasper perguntou calmo, se sentando do lado dela e acariciando suas costas. Ela ainda tremia e Edward ainda encarava o telefone.
— Ela parecia tão honesta. — Ela disse com a voz trêmula. — Eu não sei o que pensar, Jasper. Ela falou de Bella. — Edward voltou ao seu estado normal, encarando Alice. — Disse que ela esta mal e que acha que ela vai ter o bebê logo. — Então ela começou a chorar compulsivamente. — Nós temos que achá-las, Jasper. Ela, o bebê e Claire. Nós precisamos. — Ela disse triste, sendo abraçada por Jasper. Edward ainda estava perplexo, e no momento seguinte os homens já estavam na sala.
— Sr. temos um local suspeito ao sudeste, eu acho que devemos mandar alguns homens lá, mesmo com a dúvida, a moça pode ter falado a verdade. — O homem disse firmemente.
— Não vão enviar homens nenhum. Eu vou. Só preciso de 4 comigo. — Edward disse firme, engatando sua arma.
— Esta louco? Não vai sozinho nem fodendo, Edward. Você não sabe quantos homens ele tem lá, o protegendo. E além do mais, isso pode ser uma fodida armadilha. — Jasper respondeu nervoso.
— Eu preciso tentar, merda! Eu preciso ir até lá, Jasper. Mesmo se for uma fodida armadilha, eu preciso tentar. — Ele disse nervoso, parando na frente do amigo. Sua face era tão desesperada e cansada, que todo mundo sabia que era o certo a fazer.
— Que seja, mas você não vai sozinho, e vamos com no mínimo 50 homens pra lá, ok? Eu e Emmett vamos com você. — Jasper ordenou. Edward assentiu, engolindo as lágrimas de sua garganta. Ele beijou o topo de cabeça de Alice e saiu da sala, indo falar com seus coronéis. Ela se levantou e abraçou o irmão, molhando sua camisa com as lágrimas.
— Eu senti a verdade na voz dela, irmão. Ela fez coisas horríveis mas eu sinto, a Bella e a Claire estão lá. — Ela disse triste, o abraçando apertado. Ele retribuiu o abraço, mordendo o lábio inferior para não cair em lágrimas.
— Eu vou achá-las, Alice. Eu juro. Nem que for a última coisa que eu faça, elas vão ficar em segurança. — Ele prometeu para a irmã, beijando o topo da cabeça dela e a abraçando mais apertado.
Em menos de 10 minutos os homens já estavam á postos, e o plano para o dia seguinte já estava sendo passado. Eles iriam partir ao amanhecer, e nada poderia dar errado.
Todos foram dormir em meio de suas orações, tanto os soldados como a família Cullen. Uns pedindo por suas vidas, outros por suas famílias, mas a maioria das pessoas da casa só queria uma coisa, que o local que Tanya havia indicado fosse realmente o certo. Eles esperavam que elas estivessem no local, e que nada mais estivesse faltando além do dedo de Isabella. Por que iria haver vingança. E se algo mais faltasse ali, haveria sangue. Muito sangue.
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