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9 Capítulo 9 - Revelações


Capítulo 9 — Revelações

Marin General Hospital, Condado de Marin, 8 de janeiro de 2023

9:45 pm

O médico falava sem parar. Mesmo olhando nos olhos dele, Velma não prestou atenção em uma única palavra. O pensamento dela estava na imagem de sorridente de Shaggy, acenando patetamente pelo vidro da janela. Ela sorriu com ternura e Shaggy exibiu orgulhosamente um pacote de papel, com o logo do restaurante favorito dela. Na linguagem de Norville Rogers, aquilo era uma declaração de amor comparável a um buquê de flores após um encontro. Sem querer, Velma riu, e o médico parou de falar, ofendido pela interruopção.

Velma: Desculpe, Dr. Smith, mas eu realmente gostaria de ver o meu namorado nesse momento.

Sem graça, o médico resumiu o que tinha para dizer a ela e se despediu. Shaggy entrou no quarto caninamente e se jogou nos braços da namorada. O abraço apertado a fez gritar de dor, devido às costelas quebradas. Assustado, ele a soltou e se desculpou, mas continuou a demonstrar alegria por vê-la bem após um acidente tão grave. Velma se sentiu sortuda por ter alguém como Shaggy ao seu lado. Mesmo após ela ter sido rude e ter cometido um erro que resultou em um acidente de carro, ele estava lá para apoiá-la. Por isso, com lágrimas nos olhos, ela o beijou com ternura. No intervalo entre um beijo e outro, ela pediu desculpas pelo que fez, e agradeceu por ele ter ido até Marin para ajudá-la. Após tamanha demonstração de afeto em público, Shaggy ficou envergonhado, e começou a passar as mãos nos cabelos para disfarçar a timidez. Velma notou não apenas o desconforto dele, mas também que seus braços tinham hematomas.

Velma: Desta vez, você brigou por um lugar na fila do food truck, ou porque limitaram a quantidade de saches de ketchup?

Shaggy: Nah! Tipo, o festival gastronômico foi de boa! Esses hematomas aqui foram de uma briga que eu tive em um asilo em Bernal Heights…

Velma fez uma cara de interrogação, aguardando explicações sobre o absurdo que acabara de ouvir. Porém, a prioridade de Shaggy era esticar a pequena mesa anexa à cama de hospital e servir toda a comida que estava dentro do saco de papel. Velma ficou impaciente com a falta de atenção dele.

Velma: Norville, por que raios você estava em um asilo em Bernal Heights?

Shaggy: Ah, é verdade! Tipo, eu esqueci de te contar! Lembra daquela moça da biblioteca, a tal “Lisa Genau”? Lembra que ela disse que a avó dela era a antiga bibliotecária e trabalhou na Biblioteca Comunitária por 60 anos? Então, tipo, quando você saiu ontem, eu decidi pesquisar sobre o nome da velha…

Velma: Você quer dizer: “da senhora”…

Shaggy: …sim, tipo, eu pesquisei o nome daquela senhora… ela chama Gertrudes Genau, e eu descobri que ela está em um asilo em Bernal Heights. Então, quando todo o estoque de yorkshire puddings acabou, eu percebi que não havia mais sentido em ficar no festival, afinal, não tem graça nenhuma comer gravy sem yorkshire puddings… aliás, colocaram nata naquele gravy, e o sabor estava muito…

Velma: Shaggy, por favor, seja objetivo!

Shaggy: Ah, sim, tipo, assim que acabaram os puddings eu e Scoob fomos visitá-la, para perguntar se ela sabia sobre aquele livro!

Velma: Meu Deus, Shags, e como você conseguiu entrar?

Shaggy: Tipo, Scoob ajudou… eu fingi que ele era um cão de terapia e eles acreditaram…

Velma encarou o namorado com admiração e aguardou mais detalhes, enquanto molhava uma batata frita em um pequeno pote de molho ranch. Mas ao invés de continuar a falar, Shaggy copiou a namorada. Velma decidiu que era uma boa hora para envergonhá-lo novamente, e o abraçou com alegria.

Velma: Querido, você é incrível! Diga-me, o que você descobriu?

Ao invés de envergonhado, Shaggy ficou irritado, pois o abraço o impediu de levar as batatas fritas à boca. Quando Velma o soltou, ele abocanhou o feixe de batatas que tinha nas mãos, e após mastigar, explicou.

Shaggy: Tipo, literalmente nada. Ela foi muito gentil comigo, brincou com o Scoob e tal, mas quando eu perguntei sobre o livro, ela literalmente surtou…

Velma: Como assim ela surtou?

Shaggy levou um novo feixe de batatas à boca, e demorou a responder.

Shaggy: Tipo, ela se transformou completamente quando eu mencionei o nome do livro. Ela teve um ataque de raiva, gritou, xingou e começou a jogar coisas em mim e até tentou rasgar a minha camiseta!

Velma: Oh, meu Deus, ela causou esses hematomas em você?

Shaggy: Tipo, claro que não! Eu fiquei com medo da velha louca e fugi… ela ficou estranha, forte demais, parecia possuída! Eu tive que ir para a cafeteria do asilo para me acalmar. Lá, estavam comemorando o aniversário de 90 anos de um veterano… os enfermeiros me impediram de pegar um pedaço de bolo para o Scooby, por isso, acabei brigando… onde já se viu negar um pedaço de bolo para um cão de terapia?

Velma riu e concordou, enquanto molhava as últimas batatas no molho.

Velma: Mesmo assim foi um grande trabalho. Você me surpreendeu. Você foi muito corajoso, e eu estou orgulhosa de você!

Sem batatas para mastigar, Shaggy não pôde evitar o constrangimento causado pelo beijo demorado que Velma deixou em sua testa. Deslumbrado com os elogios, ele continuou a contar seus feitos.

Shaggy: Ah, tem mais! Tipo, horas atrás, quando você me falou sobre o tecido da camisa do Mailand, eu decidi pesquisar… e, tipo, olha só que sinistro!

Shaggy passou os dedos engordurados pela tela do celular até achar a imagem de um site de internet, que exibia um túmulo com o nome de Toby Mailand. Logo abaixo do nome e das datas, havia uma pequena inscrição que dizia: “Mateus 25:46”, o mesmo versículo encontrado na lápide de James Arthur e Jane Doe.

Velma: JINKIES! É EXATAMENTE IGUAL AOS DOIS CRIMES!

Sem querer, Velma elevou a voz, e Shaggy pediu para ela falar mais baixo. Em seguida, ele procurou outra foto do mesmo site, e sussurrou.

Shaggy: E, tipo, tem mais! Stevins e Mailand se conheciam. Eles serviram juntos, mas Stevins era um militar de merda, enquanto Mailand foi um verdadeiro herói. Quando Mailand morreu, por um milagre, a carreira de Stevins decolou, ele subiu de patente e virou o herói. Stevins praticamente tomou o lugar do cara, tá ligado? Então, tipo, não é uma coincidência que a camisa de Mailand estava enrolada em um livro que tinha uma conta de Stevins…

Velma: Jinkies! Stevins assassinou Mailand!

Shaggy: Não, Velma! Tipo, Stevins SACRIFICOU Mailand para ficar com a fama dele! Tipo, é uma seita maligna, esqueceu? É isso que seitas fazem… sacrificam pessoas para conseguir algo em troca!

Velma ficou boquiaberta com o raciocínio do namorado. Mas ao invés de envergonhá-lo com outra demonstração de afeto, ela apenas apertou as mãos dele, extravasando todas as emoções fortes que sentiu.

Velma: Bem, o caso Mailand definitivamente prova que estamos lidando com uma seita, e essas mortes fazem parte de um ritual envolvendo o tal livro e as figuras misteriosas nas cenas dos crimes…

Shaggy: E, tipo, também prova que Joel sacrificou Allyra. Fred achou um artigo falando do sucesso da empresa dele, lembra?

Velma: Jinkies!

Espantada, Velma levou as duas mãos à boca e se calou. Shaggy ficou curioso com o que ela tinha a dizer, e nem mesmo a porção de nuggets foi capaz de lhe distrair.

Shaggy: O quê? Tipo, é obvio, Vel! Se o DNA de Elandra provar que a Jane Doe é Allyra, conseguimos provar que o assassino é Joel… tipo, temos o artigo, temos o tecido que estava enrolado no livro, temos…

Velma: Não, não é isso! Eu só acabei de pensar que… talvez… Raffalo tenha sacrificado o Sr. Arthur também… ele ganhou o Nobel após a morte de James… e Fred disse que ele foi preso por destruir a garagem do Sr. Arthur na noite passada… acho que ele estava procurando o livro!

Shaggy: Tipo, isso explicaria por que ele surtou e destruiu a garagem, mas se ele realmente usou o livro em um ritual e sacrificou o Sr. Arthur, porque ele iria querer o livro de volta?

Velma observou Shaggy mastigar alguns nuggets, enquanto refletia sobre o que havia falado. Quando chegou a uma conclusão, ela fez uma rápida pesquisa em seu celular e exibiu o resultado.

Velma: Porque se alguém desenterra o livro, quem o enterrou durante o ritual morre!

Velma exibiu o obituário de Herbert Stevins, mencionando que ele falecera na noite anterior de causas desconhecidas. A revelação foi tão impactante que Shaggy parou de mastigar.

Velma: O casal que me vendeu o livro em Marin mencionou que eles acharam o livro sem querer na semana passada, enquanto praticavam detectorismo… dias depois, Stevins se foi. Fred mencionou que Raffalo está desesperado e repete “que precisa recuperar aquilo que lhe pertence e está ficando sem tempo”. Talvez seja por isso, ele sabe que o FBI pegou o livro ao vasculhar a casa do Sr. Arthur, e que ele morrerá em alguns dias!

Imediatamente, Velma ligou para Fred, mas a chamada foi prontamente recusada. Em pânico, ela tentou contatá-lo mais três ou quatro vezes, mas Fred se recusava a atendê-la. Ao invés de se desesperar, Shaggy calmamente enfiou os três últimos nuggets na boca. Após mastigar um pouco, ele olhou para o teto, abriu a boca e esvaziou um sache de ketchup lá dentro. Em seguida, ele terminou de comer. Velma assistiu à cena com incredulidade e nojo, mas antes que pudesse emitir uma opinião sobre o que vira, Shaggy limpou a boca com um guardanapo e se manifestou.

Shaggy: Tipo, por que a pressa em falar com o Fred? Não podemos fazer nada! O livro que o FBI pegou deve ter sumido, assim como o livro de Stevins e o livro que nós desenterramos em São Francisco, não tem como devolver! Raffalo e Marlow estão fudidos…

Shaggy pontuou a frase com longos goles de refrigerante, e Velma o encarou com admiração e concordou.

Velma: Bem, acho que você tem razão. E, aparentemente, o assassino é uma entidade sobrenatural, então, não há como a polícia ajudar. Agora, só nos resta saber quantos dias de vida os dois ainda têm. Vou entrar em contato com Meg e Greg para saber exatamente que dia eles encontraram o livro.

O canudo fez um barulho alto de pressão quando Shaggy bebeu o resto de refrigerante no fundo do copo, e Velma o repreendeu. Ao jogar o copo vazio no lixo, ele continuou.

Shaggy: Tipo, ou então a gente entra em contato com quem sobreviveu ao ataque da entidade. Fred não disse que Daphne Blake sangrou até a morte ontem à noite? E depois voltou à vida falando que viu um velho, o Herbert Stevins, e até a Hannah Renner? Então… tipo, alguém desenterrou o livro dela… e vai saber que tipo de merda satânica ela deve ter feito para ter escapado… Zoinks, esses malditos famosos são todos ocultistas!

Velma o achou um gênio, e por isso, elogiou-o pela conclusão e beijou a testa dele com alegria. Em seguida, ela tornou a ligar para Fred — e ele, novamente, recusou a chamada. Após uma nova tentativa, Velma percebeu que Fred havia desligado o telefone, por isso, ela tentou contatá-lo por mensagem. Enquanto Velma digitava, Shaggy lhe cutucou e mostrou que um homem estava na porta do quarto, chamando-a. Ao olhar para ele, Velma o reconheceu imediatamente: era o motorista do outro carro envolvido no acidente, pai das crianças feridas. Ela se intimidou com a presença dele, mas ele sorriu e pediu para entrar.

Sr. Usher: Srta. Dinkley? Posso falar com você?

Em silêncio, Velma concordou, mas o medo lhe fez arregalar os olhos e morder os lábios. Shaggy também sentiu medo, mas segurou as mãos da namorada com força, para protegê-la. O homem puxou uma cadeira, sentou-se ao lado da cama e olhou fixamente para ela.

Sr. Usher: Eu sou Ed Usher. Sou pai das três crianças que você feriu…

O coração de Velma acelerou, e antes mesmo que o homem terminasse a frase, ela escondeu o rosto com as mãos e chorou desesperadamente.

Velma: Sr. Usher, eu sinto muito pelo acidente! Por favor, me perdoe! Eu… eu… eu realmente não tive a intenção! Eu… eu juro que não bebi, nem me distraí com o celular, eu não estava correndo, eu… eu… só me assustei e… por favor, me perdoe, eu não quis ferir seus filhos!

Velma soluçou, e Shaggy apertou a mão dela para confortá-la. Ele olhou de maneira ameaçadora para o homem, mas não ousou dizer nada para enfrentá-lo. O Sr. Usher se comoveu com o desespero da moça e a confortou.

Sr. Usher: Está tudo bem querida. As crianças estão fora de perigo e minha esposa só sofreu ferimentos superficiais. Eu não vim aqui culpá-la pelo acidente, eu vim aqui porque Deus me pediu para orar por você. Ele me disse que o demônio estava em seu carro e tentou tirar a sua vida. Por isso você saiu da rodovia e bateu no nosso veículo…

Em choque, Velma olhou fixamente para o homem e prendeu a respiração. Ela percebeu que Shaggy também se assustou, pois as mãos dele estavam trêmulas. Para provar que o que dissera era verdade, o homem mostrou uma bíblia totalmente queimada, com as páginas escurecidas e cheias de furos. Após folhear algumas páginas, o homem apontou para um pedaço de papel intacto, que não fora atingido pelo fogo e leu.

Sr. Usher: “E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna”, Mateus 25:46. Esse foi o único versículo que permaneceu intacto na minha bíblia após o acidente, Srta. Dinkley. E como a senhorita bem sabe, nossos carros não se incendiaram. Então, como cristão, eu creio que isso foi uma mensagem de Deus. O Senhor está do nosso lado, Srta. Dinkley, nós somos os justos! E ele não permitirá que nenhum demônio nos destrua.

Aos ouvir aquelas palavras, Shaggy imediatamente agarrou o braço da namorada. O Sr. Usher continuou a pregar e a dizer mensagens religiosas, mas Velma não conseguiu esboçar nenhuma reação. Seu coração sentiu medo de enfrentar os sentimentos que aquela revelação despertou. Porém, no momento em que o homem iniciou a oração, a razão fez Velma sair da paralisia: ela segurou as mãos dos dois homens e rezou junto com o Sr. Usher.

Velma: Espero que o senhor esteja certo, Sr. Usher.

Crystal Cove Road, 8 de janeiro de 2023

10:15 pm

Após uma curva acentuada, Daphne leu em uma placa: “Você está deixando o condado de Crystal Cove”. O aviso adicionou doses extras de medo ao seu coração. Ela já estava há quase uma hora de distância de sua casa, dirigindo o carro roubado do chefe do FBI, e tinha ao seu lado a única pessoa com quem ela não podia estar. Além disso, ela estava ferida, atravessando o estado por vontade própria para falar com uma desconhecida, sobre um livro maligno que já lhe causara muitos problemas. “Você sabe o que viu, Daphne, é real! Você precisa descobrir a verdade, não deixe o medo fazer você desistir!”, cherryred lhe fez pensar. Mas… também havia milhões de evidências de que aquilo era uma emboscada, e ela, como uma donzela em perigo frágil e burra, seria a próxima vítima. A começar pela maneira impulsiva e repentina como a viagem começara. Fred Jones lhe disse meia dúzia de palavras e ela simplesmente acreditou… porque era Fred Jones falando. “Como você pôde ser tão ingênua? Você literalmente passa horas lendo sobre crimes brutais, e aparentemente não aprendeu nada!”, Daphne sentiu raiva de si mesma. Mas… Fred queria realmente ajudá-la. Ele se importava com ela. Ele salvara sua vida! Ele enfrentou Raffalo por ela! E em mais de uma vez, ele provou que era um homem bom. Ele tinha uma ótima família, bons antecedentes, uma boa relação com a comunidade… “Como Ted Bundy, Daphne! Que droga, como você pôde cair nas armadilhas de um psicopata?”, a raiva surgiu mais violenta, e Daphne sentiu suas mãos ficarem frias. Na rodovia, uma placa anunciou que logo ela entraria em uma região montanhosa e sem retorno. De maneira suspeita, Fred Jones desligou o próprio celular após recusar várias ligações. Os sinais eram claros: ele estava planejando algo contra ela. Então, em um impulso, Daphne decidiu sair da estrada e parou o carro no último trecho de acostamento disponível. Ela pensou em gritar, correr, ligar para a polícia, pensou até em agredi-lo, mas a reação pacífica e protetora de Fred a desarmou.

Fred: Você está bem, Daphne? Quer ir ao médico? Você parece bastante machucada…

O rosto dele estava sério e exibia uma preocupação real. Daphne se sentiu horrível por ter pensado tantas coisas ruins sobre ele, por isso, não conseguiu olhá-lo nos olhos.

Daphne: Está tudo bem… eu… eu… só quero voltar para casa!

Lágrimas involuntárias surgiram nos olhos de Daphne, e ela escondeu o rosto entre as mãos. Os sentimentos de culpa e medo ainda duelavam em sua mente, e ela não sabia qual deles ela deveria sentir naquele momento, em relação a Fred Jones.

Fred: Tudo bem. Me desculpe por ter feito você vir até aqui, foi uma péssima ideia!

Além de preocupado, Daphne viu que ele também estava envergonhado, e todo o medo que ela nutrira por ele desapareceu. Ele era mesmo um bom homem, e queria ajudá-la.

Daphne: Está tudo bem, Fred… foi ideia minha também…

Daphne enxugou as lágrimas com um lenço, e sentiu seu coração acelerar ao notar que ele olhava fixamente para ela. Em silêncio, ela ligou novamente o carro, manobrou e acelerou até o carro atingir a pista que retornava a Crystal Cove. Fred Jones não disse uma palavra, nem esboçou nenhuma reação além de preocupação. “Como você é ridícula, Daphne, ele só queria te ajudar!”, cherryred lhe provocou, trazendo a culpa de volta ao seu coração. “Aliás, ele PODE te ajudar, Daphne… ele é o ÚNICO que sabe do livro… e o único que pode te ajudar a resolver todos aqueles casos!”, cherryred enfatizou. De repente, Daphne avistou uma placa que dizia: “Condado de Marin, retorno a 1km”, e novamente um impulso lhe fez sair da estrada e parar no acostamento. Fred a olhou com espanto e aguardou uma explicação, mas ela se calou.

Fred: Você está mesmo bem? Se quiser, eu posso dirigir…

Daphne: Eu estou bem! Eu… eu… só estou assustada. Eu confesso que estou com muito medo de ir até Marin… mas, também, estou com medo de voltar para casa sem respostas…

O coração de Daphne batia tão rápido que a respiração dela tinha dificuldade de acompanhá-lo. Fred olhou para ela e sorriu com ternura.

Fred: Você está com medo de estar aqui? Se não estiver, podemos ficar aqui mesmo e conversar.

Daphne desviou o olhar e concordou. O sorriso de Fred despertou sentimentos indefinidos em seu peito e lhe fez corar.

Fred: Ok. Então, que tipo de problemas eu posso te causar dessa vez, Daphne Blake?

Daphne riu da piada, e sentiu seu coração bater mais forte ao vê-lo sorrindo para ela. Seus sentimentos indefinidos lhe fizeram sentir confiança em Fred.

Daphne: Bem… eu… estou muito encrencada…

O olhar sério e preocupado voltou ao rosto dele. Secretamente, Daphne gostou de ser o alvo de toda aquela preocupação, mas a razão logo lhe obrigou a esconder tais sentimentos.

Fred: O que houve com você ontem?

Daphne: Por favor, sem perguntas difíceis, Freddy!

A pergunta fez Daphne sentir pânico e perder a doçura. Imediatamente, ela se arrependeu da grosseria, mas Fred não lhe deixou pedir desculpas.

Fred: Ok, Daph, sem perguntas difíceis.

Ao olhar para ele, lá estava o lindo sorriso, abaixo dos olhos mais charmosos que ela já vira. Para piorar, sem querer, ela o chamara por um apelido estúpido. Daphne corou tão violentamente que desviou o olhar, e em seguida, riu.

Daphne: Desculpe, Fred, eu não quis dizer isso…

Fred: Não, tudo bem, Freddy é ótimo… nunca me chamaram assim, mas é ótimo…

A resposta dele deixou Daphne mais tímida. Para ajudá-la a esquecer da gafe, Fred mudou de assunto.

Fred: Então, eu vou te contar a minha história difícil. Ela pode ser uma resposta para algumas de suas perguntas difíceis, ok?

Daphne concordou sem olhar para ele.

Fred: Bem… é sobre o livro que eu vi em sua bolsa. Há dois dias, o cão do meu amigo farejou algo, e ao cavar, nós encontramos um exemplar desse livro enterrado em um jardim, envolto em um tecido. Minha amiga achou muito estranho, e como o livro tinha o carimbo da biblioteca local, ela decidiu levá-lo até lá e buscar informações sobre ele. Porém, o livro desapareceu. Minha amiga disse que a bibliotecária ligou para ela e contou que, ao deixar o livro aberto, um velho muito sinistro apareceu e o livro sumiu.

Fred fez uma pausa, esperando que Daphne falasse algo, mas ela permaneceu em silêncio, olhando para ele.

Fred: Minha amiga também achou outro exemplar desse livro em um sebo na internet. O casal que vendeu o livro também achou o exemplar enterrado, envolto em um tecido. E quando minha amiga deixou o livro aberto no banco de trás do carro, o velho apareceu, ela sofreu um acidente de carro e o livro sumiu. Então, eu queria sab…

Daphne: Nos locais onde os exemplares estavam havia uma mandala, né? Uma mancha esquisita no chão…?

Fred arregalou os olhos e se calou. Em seguida, concordou com o que ela disse.

Daphne: O FBI chama essas manchas de fractais, e elas são cenas de crimes. Não são? Os livros estavam enterrados perto do local onde alguém morreu?

Fred concordou novamente.

Fred: O cão do meu amigo achou o livro no local onde o corpo de uma jovem foi encontrado décadas atrás, em São Francisco.

Daphne: Oh meu Deus, vocês cavaram o local do crime do pingente da Lua?

Fred ficou desconcertado e se calou, demonstrando que não queria responder aquela pergunta.

Daphne: Pergunta difícil?

Fred suspirou e cedeu.

Fred: Se o FBI descobrir, eu vou saber que foi você que contou.

Os dois riram e Daphne cruzou os dedos, jurando que guardaria o segredo.

Daphne: Deixe-me adivinhar… True Crime Forum?

Fred sentiu vergonha de admitir, por isso, balançou a cabeça positivamente e logo mudou de assunto.

Fred: E o livro que minha amiga comprou estava enterrado no local onde o corpo de Toby Mailand foi encontrado.

Daphne: Foi exatamente assim comigo… achei o livro embaixo de uma mancha, envolto em tecido. Depois, eu o deixei aberto em meu quarto, o velho apareceu e o livro sumiu.

Fred: E tudo isso aconteceu antes ou depois de você ir para o hospital e…?

Daphne o olhou com espanto e Fred percebeu que havia passado dos limites.

Fred: Sem perguntas difíceis, já entendi. Me desculpe… não foi a minha intenção…

Daphne: Bem, eu mexi em uns documentos do meu pai e descobri que existem centenas de crimes não solucionados envolvendo essas manchas misteriosas, há mais de 90 anos. Por isso, quando vazaram as fotos da casa de James Arthur, eu decidi ir até lá. Então, eu encontrei o livro embaixo do assoalho. Ao pegá-lo, eu o abri, e me senti muito mal enquanto folheava as páginas. Quando tirei os olhos do livro, vi que o velho estava na minha frente. Eu me assustei e acabei me ferindo. Consegui escapar com o livro, mas piorei no meio do caminho e decidi ir ao hospital… bem, o resto você já sabe…

Fred ficou surpreso por ouvir tantas informações, e ela respirou fundo após revelar o segredo. Era um alívio poder contar para alguém, mas… será que ele era mesmo confiável? Ou será que ele estava apenas usando seu charme para fazê-la falar?

Fred: Eu preferia não saber… foi a cena mais assustadora que eu já vi…

Fred sorriu para ela com ternura, e ela percebeu que ele estava sendo sincero. Ele realmente se importava com ela. A timidez fez Daphne olhar para baixo e sorrir.

Fred: …e eu imagino o quanto foi assustador para você passar por tudo aquilo… você parecia muito assustada…

Daphne: Eu vi coisas absurdas, Fred. Tudo parecia um pesadelo. Mas, depois que voltei à vida, eu pesquisei… e descobri que aquelas coisas eram reais…

Fred: Reais como… Herbert Stevins?

Daphne: Sim! Eu ouvi uma mulher gritar esse nome diversas vezes. Depois, eu o vi sangrando, foi horrível! Eu me senti ainda pior quando pesquisei esse nome na internet e descobri que esse homem existia. E ele morreu de hemorragia no mesmo dia!

Fred: Na verdade, ele morreu enquanto você estava inconsciente, eu vi os paramédicos levando o corpo dele para o necrotério. Mas não se sinta mal com isso, foi apenas uma experiência de quase morte. Muitas pessoas que voltam à vida contam coisas parecidas… elas vêem túneis de luz, pessoas que já se foram, vultos, a visão e a audição delas aumentam… mas a neurociência explica tudo isso.

Fred sorriu, mas suas palavras gentis não acalmaram a moça. Pelo contrário, os olhos de Daphne se encheram de lágrimas ao se lembrar da cena. Por impulso, ele moveu uma de suas mãos em direção às mãos dela, com o intuito de confortá-la, mas no meio do caminho, ele percebeu que seria inadequado tocá-la e desistiu.

Fred: …mas não foi só a morte do Stevins, né? Você viu outras pessoas…

A pergunta fez as lágrimas escorrerem pelo rosto de Daphne.

Daphne: Eu vi três crianças… uma delas era um garotinho chamado Otto, ele está desaparecido desde 1962! Eu o vi em uma sala de estar muito antiga, e quando pesquisei, descobri que essa sala foi o último local onde ele foi visto… ele parecia assustado e doente…

Fred: …você viu a minha mãe?

Daphne enxugou as lágrimas de seu rosto e balançou a cabeça afirmativamente.

Fred: Ela também estava no local onde ela desapareceu?

Daphne: Ela estava em uma casa muito antiga na rua Myrna…

Fred: Nós morávamos em uma casa na rua Myrna quando ela desapareceu!

Daphne: …mas não parecia exatamente o dia em que ela desapareceu, no ano de 2002. Era como se estivéssemos em outra época, Fred, no início dos anos 80. As roupas, a mobília, tudo parecia de outra época. Aliás, nessa casa havia um calendário do ano de 1981, e era como se eu realmente estivesse naquele ano… mais especificamente, no dia 5 de abril de 1981…

O rosto assustado de Fred fez Daphne sentir vergonha de continuar a história. Ela temia que Fred lhe considerasse louca.

Daphne: Olha, Fred, eu sei que parece loucura, mas eu juro que…

Fred: Loucura? Não, faz total sentido. 5 de abril é o dia do aniversário dela…continue…

Daphne: …bem, depois que eu vi o calendário, a Hannah me levou para o andar de cima da casa, mas ao chegar lá, não havia cômodos… era… o mirante de Crystal Cove… do mesmo jeito que ele era no início dos anos 80…

Fred riu com satisfação, e Daphne novamente parou de falar, temendo que ele duvidasse de sua sanidade.

Fred: Era mesmo ela. Hannah te levou ao local favorito dela… quando eu era pequeno, Judy e eu escrevíamos cartas para ela e deixávamos no mirante. Ela acreditava que Hannah poderia voltar para ver a vista daquele penhasco novamente… mesmo sem querer voltar para ver o filho e o marido…

Daphne: E você acha que alguma vez ela voltou e leu essas cartas?

Fred suspirou e se calou. O silêncio dele a incomodou.

Daphne: Desculpe, foi uma pergunta difícil… eu não tive a intenção…

Fred: Sinceramente, eu acho que ela nunca voltou, porque eu acho que ela nunca fugiu. Eu acho que alguma coisa aconteceu com ela dentro daquela casa. E talvez o corpo dela ainda esteja lá.

Daphne: Eu sei que é uma pergunta difícil, mas… você acha que o livro e o velho têm alguma coisa a ver com o desaparecimento dela? Afinal, você sabe que existe uma mancha na casa da rua Myrna.

Fred: Depois de todas as experiências sobrenaturais que esse livro já causou, eu tenho certeza.

Daphne: Então deve haver outro livro enterrado em algum lugar daquela casa. Se conseguirmos achá-lo, podemos lê-lo com calma e, quem sabe, poderemos entender o que está fazendo todos esses crimes acontecerem.

Fred ergueu as sobrancelhas de espanto. Aparentemente, ele não havia pensado naquilo antes de Daphne mencionar.

Fred: E se nós desenterrarmos o livro, saberemos quem é o assassino! Genial, Daphne!

Daphne: Como assim, Fred?

Fred: Bem, havia uma conta antiga em nome de Herbert Stevins no meio do livro achado na cena do crime de Mailand. Isso indica que, provavelmente, Herbert o enterrou e tirou a vida de Toby. Dias após o livro ser encontrado, Stevins faleceu de maneira misteriosa. Então, se acharmos o livro usado durante o sacrifício da minha mãe, em poucos dias, o assassino dela também morrerá.

Fred ficou satisfeito por ter chegado àquela conclusão, e sorriu. Daphne, por sua vez, fez uma expressão de horror, e levou as mãos à boca.

Daphne: Fred, isso é terrível! Herbert Stevins teve uma morte horrível, não podemos fazer isso com alguém!

Fred: O que fizeram com a minha mãe, com Toby e com aquela garota foi terrível, Daphne. Fazer um ritual com pessoas inocentes é terrível. Desenterrar um livro maligno é apenas uma consequência das decisões terríveis que esses psicopatas tomaram!

A raiva fez Fred levantar a voz.

Daphne: Vingança não é justiça, Fred. Que tipo de justiça seria dar aos assassinos a mesma sentença das vítimas? Você cresceu sem a sua mãe, sua família foi destruída e você foi para o sistema de adoção, você acha que o assassino merece passar o resto da vida dele na prisão ou merece agonizar por só cinco minutos e dormir por toda eternidade?

Daphne terminou a frase com um sorriso empático. Fred suspirou e concordou com ela.

Fred: É… eu acho que você tem razão quanto a isso… mas se não desenterrarmos um livro, nunca entenderemos esse mistério.

Daphne: Precisamos achar o local onde Otto desapareceu, deve haver outro livro lá. Podemos desenterrar aquele livro sem o risco de machucar ninguém, afinal, o garoto sumiu em 1962. Quem quer que tenha o enterrado, já deve estar morto.

Fred a olhou com tanta admiração que Daphne se sentiu desconfortável e desviou o olhar.

Fred: Você iria arrasar no True Crime Forum. Acho que você deveria se inscrever… ou tentar uma vaga no FBI. Você é boa nisso.

Daphne sorriu e corou.

Daphne: Você também é bom nisso. E em ouvir histórias malucas sobre livros demoníacos e experiências de quase morte. Obrigada por acreditar em mim.

Em resposta ao agradecimento, Fred colocou uma de suas mãos sobre a mão dela e apertou brevemente. No momento em que Fred soltou, Daphne repetiu o gesto e segurou a mão dele. Ao contrário do que ela pensou, ele não recuou, nem desviou o olhar. Ela também não sentiu vontade de se afastar. A razão bombardeava a sua cabeça com centenas de motivos que tornavam aquela atitude inadequada, mas seus sentimentos lhe pediam para permanecer ali, ao lado do homem gentil que se importava com ela e, de alguma forma, enxergava a verdadeira Daphne. Porém, após dois ou três minutos, o gesto se tornou incômodo e o silêncio ficou perigoso. A ausência de palavras virou um convite para ações que eles sabiam que não podiam acontecer. Então, Fred apertou a mão dela pela última vez e encerrou o contato.

Fred: Bem, está tarde, e creio que Bart Blake precisa ter o carro e a filha dele de volta.

Daphne concordou, ligou o carro e acelerou. Seus sentimentos confusos se ofenderam com a atitude dele, mas a razão lhe fez entender que, de fato, aquela fora a decisão mais racional que eles poderiam tomar. Durante a maior parte do trajeto de volta, eles dividiram um silêncio constrangedor. Não estavam envergonhados apenas pelo que aconteceu, mas por aquilo que eles sabiam que poderiam ter feito, e por pouco não fizeram. Daphne ensaiou centenas de desculpas para romper o clima tenso que se instaurou entre eles, mas não teve coragem de vocalizar nenhuma delas. Afinal, se ela dissesse, seria pior. Se ela dissesse, suas intenções ficariam evidentes, e ela sabia que o único lugar onde tais sentimentos poderiam existir era em seu coração. Fred também teve um árduo trabalho reprimindo emoções. Apesar de calado, ele estava inquieto. Daphne concluiu que a melhor forma de se livrar daquela situação desconfortável era voltar ao assunto anterior, antes do momento em que suas mãos se tocaram.

Daphne: Se você e seus amigos descobrirem algo sobre o livro, me avise. Eu vou tentar descobrir mais detalhes sobre o caso do garotinho Otto.

Fred concordou timidamente, enquanto olhava fixamente pela janela. No momento em que viu uma placa na estrada que dizia “Riverdale a 10km”, uma ideia o incomodou.

Fred: Daphne, mesmo sem querer, nós vamos matar duas pessoas! Os livros que desenterramos sumiram!

Daphne o olhou com preocupação.

Daphne: Bem, infelizmente, não sabemos quem os enterrou para poder ajudar… o assassino do caso do pingente da lua nunca foi descoberto!

Fred: Não sabemos quem é o assassino de São Francisco, mas eu acho que sei quem enterrou o livro na garagem de James Arthur: Raffalo! É por isso que ele está tão transtornado! É por isso que ele te atacou, ele sabe que foi você que pegou o livro! Eu preciso falar com ele, deve haver uma maneira de quebrar a maldição!

Daphne: Fred, é perigoso, ele está possuído, você viu os olhos dele! Você viu como ele estava anormalmente forte, meu pai atirou nele e ele nem sentiu! Se Raffalo corre perigo, o melhor que podemos fazer é contar tudo para o xerife, a polícia saberá o que fazer. Enquanto isso, podemos descobrir mais sobre a seita com o livro enterrado na casa de Otto Reinier.

Fred: E se ele for atrás de você novamente?

Fred falou com raiva, e assim que percebeu seu ato falho, suspirou e se calou. A confissão inesperada fez Daphne corar. Constrangido, ele tentou reformular a frase.

Fred: Desculpe, eu falei sem pensar, eu sei que você tem o seu pai e agentes do FBI para te proteger. Eu só acho que deveríamos fazer tudo o que está ao nosso alcance para solucionar todos esses mistérios.

Daphne concordou e aumentou a velocidade. Quando ela se deu conta que não tinha somente o pai e os agentes do FBI para protegê-la, ela sorriu.

Marin General Hospital, Condado de Marin, 8 de janeiro de 2023

11:15 pm

Shaggy: Tipo, eu não sei quanto você paga no seu convênio médico, mas vale cada centavo. Olha só essa sopa de abóbora com bacon, isso aqui é coisa de restaurante cinco estrelas!

Shaggy sorriu antes de pegar a colher e tomar a sopa em um ritmo de 4 colheradas por minuto. Velma concordou em silêncio, enquanto assistia seu namorado acabar com a comida que fora servida para ela. Indignada, a enfermeira interveio.

“Srta. Dinkley, você precisa comer para se recuperar!”

Velma: Não se preocupe, eu estou sem fome.

A enfermeira ficou frustrada por não conseguir impedir Shaggy de comer a refeição de Velma. Após suspirar, ela tentou pará-lo mais uma vez.

“Srta. Dinkley, eu sinto muito, mas as refeições servidas neste hospital devem ser consumidas pelos pacientes!”

A enfermeira foi enfática, e as palavras dela fizeram Shaggy ficar de mau humor.

Shaggy: Tipo, você não ouviu que ela não está com fome? Se ela não está com fome, alguém tem que impedir que toda essa comida vá para o lixo! A sua mãe nunca te ensinou que não se deve desperdiçar comida?

Shaggy falou de maneira agressiva, e Velma fez um gesto para fazê-lo parar. Irritada, a enfermeira deu de ombros e se retirou. Enquanto Shaggy dizia um compilado de palavrões sobre a mulher que queria lhe impedir de comer, Velma ligou para Fred, mas o celular dele ainda estava desligado. Enquanto ela lia e respondia mensagens de seus pais e de sua irmã Madelyn, seu celular tocou. Para a sua surpresa, não era Fred, era Lisa Genau.

Velma: Olá Lisa, em que posso ajudar?

Lisa: QUEM VOCÊ PENSA QUE É PARA IR ATRÁS DA MINHA FAMÍLIA? SUA PSICOPATA! EU ESTOU INDO AGORA MESMO ATÉ A POLÍCIA TE DENUNCIAR!

Velma: O quê?Do que você está falando, você enlouqueceu?

Lisa: QUEM ENLOUQUECEU FOI VOCÊ QUE MANDOU UM HOMEM IR ATRÁS DA MINHA AVÓ PARA SABER SOBRE AQUELE MALDITO LIVRO! ONDE ESTAVA COM A CABEÇA? AQUELE HOMEM A DEIXOU MUITO NERVOSA, ELA ATÉ ME ATACOU!

Velma: Lisa, eu realmente sinto muito por isso, mas não foi ideia minha. O homem que visitou a sua avó é meu namorado, e eu te garanto que ele não tinha nenhuma intenção ruim quando…

Lisa: FIQUE LONGE DA MINHA FAMÍLIA, SUA LOUCA! OU EU TE MANDAREI PARA A CADEIA POR ABUSAR EMOCIONALMENTE DE UMA IDOSA!

Lisa continuou gritando ameaças, sem deixar Velma se explicar. Ao perceber que seria impossível ter uma conversa civilizada, Velma encerrou a chamada e, em seguida, desligou o telefone. Naquele momento, Shaggy havia finalizado a sopa e lambia as laterais do prato.

Shaggy: Tipo, eu pensava que o descontrole emocional da avó dela era devido à idade… mas pelo jeito, é algo de família…

Velma: Que merda! Eu não acredito que eu fui tão burra a ponto de envolver a Lisa nisso. Eu nunca deveria ter ido até a Biblioteca!

Shaggy: Tipo, você não deve se culpar, a culpa é minha! Fui eu que procurei a avó dela e causei os problemas. Foi mal!

Velma: Mas se eu não tivesse entregado o livro, nada disso teria acontecido e, talvez, ele ainda estivesse conosco…

Shaggy: Tipo, mas se você não tivesse devolvido, você não saberia tudo o que sabe sobre ele.

Velma: E, afinal, o que eu sei sobre ele, Norville? Não descobrimos nada de extraordinário! Lisa e Gertrudes não sabiam de nada e eu ainda sofri um acidente que, por pouco, não foi fatal!

Shaggy: Hmmm… tipo, eu não diria que Gertrudes não sabe de nada…

Velma: Como assim?

Shaggy: Tipo, eu não estava exagerando quando disse que a velha ficou possuída! Ela ficou furiosa quando eu perguntei. Tipo, se levantou da cadeira e me pegou pelo colarinho! E os olhos dela estavam bizarros… tipo, sei lá, parecia os olhos de um animal… tudo isso por causa de uma simples pergunta!

Velma sentiu um arrepio percorrer a sua espinha quando ouviu o namorado descrever os olhos da Sra. Genau.

Velma: Acho que ela estava realmente possuída… pelo espírito daquele velho que eu vi. Os olhos dele eram exatamente assim.

Ao invés de continuar descrevendo suas experiências no asilo, Shaggy estremeceu e agarrou o braço da namorada, assustado. No mesmo momento, a mesma enfermeira entrou no quarto para retirar a bandeja da refeição e interrompeu a conversa. A enfermeira tinha um semblante sério e abordou Shaggy.

“Senhor, a visita acabou. Você precisa se retirar imediatamente!”

Shaggy não gostou do que ouviu. O fim da visita significava ficar sozinho com Scooby. E ficar sozinho com Scooby significava ter que enfrentar o fantasma de um velho sozinho com Scooby. Como uma criança pequena mimada, ele agarrou o braço de Velma com mais força, sinalizando que não iria se retirar. Sentindo-se desafiada, a enfermeira cruzou os braços e olhou de maneira severa para ele, aguardando que ele obedecesse a sua ordem. Para evitar um conflito, Velma retirou delicadamente as mãos de Shaggy do seu braço e deixou um beijo em sua testa, encorajando-o a sair.

Velma: Ok, meu bem, é hora de ir, Scooby precisa de você. Nos vemos daqui a poucas horas, ok?

Por um momento, Shaggy resistiu, e assim que Velma soltava as suas mãos, ele agarrava o braço dela novamente, com mais força.

“Senhor, infelizmente eu terei que chamar o segurança se o senhor não cumprir a minha ordem!”

Ao ouvir a ameaça, Velma olhou para o namorado de maneira séria, e exigiu que ele parasse. Shaggy suspirou, deu um beijo rápido nos lábios dela e saiu, murmurando um compilado de palavrões enquanto caminhava.

***

Ao abrir a porta do quarto do hotel, Shaggy foi empurrado violentamente pelas patas eufóricas de Scooby-Doo e caiu sentado no chão. Ele falou uma série de palavrões compostos enquanto o cão pulava em seu tórax e lambia seu rosto com alegria. Scooby desistiu da recepção calorosa quando sentiu o cheiro da comida que seu tutor trouxera em meia dúzia de sacos de papel, e concentrou seus esforços em rasgar as embalagens.

Shaggy: Calma, Scoob, tem o suficiente para nós dois!

Obediente, o cão sentou e sorriu, enquanto assistia Shaggy desembalar as dezenas de hambúrgueres que comprara. Depois de colocar os lanches do cão no chão, Shaggy se sentou na cama com sua comida e ligou a TV. Enquanto mastigava, ele procurou algum entretenimento barato para fazê-lo esquecer que estava sozinho e o espírito de um velho maligno estava lhe espreitando. Infelizmente, ele não encontrou nada de interessante para assistir: os programas de entrevista falavam sobre assuntos sérios, os noticiários só falavam de política, os reality shows não mostravam nenhuma briga e nenhuma garota de biquíni, e ele já vira as melhores séries das plataformas de streaming. Então, sem outra opção, Shaggy ligou o laptop e recorreu ao melhor entretenimento que ele podia ter naquele momento: True Crime Forum.

Por quase quinze minutos, ele se divertiu lendo o interminável embate entre as filhas de Joel Marlow e os usuários que acusavam o velho de ser o assassino de Jane Doe. Porém, na última página, um vídeo o fez estremecer. Nele, uma das filhas de Joel mostrava o velho sujo de terra e extremamente perturbado, batendo descontroladamente em uma porta e pedindo para sair.

“Parabéns, seus inúteis! Vejam o que fizeram com o meu pai! Vocês disseram tantas coisas horríveis sobre ele que ele surtou! Agora ele fica vagando pelos jardins das casas, cavando buracos com as mãos! Hoje o encontramos em uma casa abandonada! Espero que estejam satisfeitos por ter feito um pai de família chegar a esse estado! Preparem-se, pois em breve cada um de vocês irá responder pelas mentiras que espalham na internet!”

No vídeo, o velho Joel Marlow tinha um semblante assustado, e olhava de um lado para o outro, como se estivesse procurando algo. Em seguida, ele correu até a porta e tentou abri-la com violência. Por não conseguir, ele surrou a madeira e começou a gritar.

Joel: Abram! Abram agora, malditos! Eu preciso recuperar o que é meu! Eu estou ficando sem tempo, malditos!

Shaggy ficou tão assustado que pausou imediatamente o vídeo e empurrou o computador. Ao ver a atitude de seu tutor, Scooby-Doo parou de comer e se aproximou. Ele ofereceu a pata amigavelmente, mas Shaggy estava em choque e não respondeu. Chateado, ele pulou no colo de seu dono, tirando-o do transe. Shaggy o acariciou por um momento, e em seguida o empurrou para cima da cama, por ser pesado demais. Em seguida, ele encaminhou o vídeo de Joel para Fred e Velma, e ao receber, Velma ligou para ele.

Shaggy: Oi Vel… Tipo, o que você acha? Será que ele está procurando o livro?

Velma: Eu tenho certeza! Fred disse que Raffalo está do mesmo jeito, repetindo as mesmas frases

Shaggy: Então, tipo, solucionamos o mistério do pingente da Lua. Seja qual for a identidade de Jane Doe, Joel fez o sacrifício!

Velma: Descobrimos o assassino, não solucionamos o mistério. Para solucionarmos o mistério, precisamos manter Joel e Raffalo vivos, somente eles podem esclarecer o que diabos é esse livro e esse velho. E para isso, precisamos de Daphne Blake.

Shaggy sentiu medo ao ouvir que eles ainda teriam que lidar com tudo aquilo. Em seguida, eles se despediram e encerraram a ligação. Percebendo que Shaggy não estava bem, Scooby-Doo se aproximou e encostou a cabeça nos ombros de seu tutor, para confortá-lo. Shaggy agradeceu o apoio e deu ao cão um hambúrguer extra, como recompensa. Enquantou comia, Shaggy navegou pelos tópicos novos do True Crime Forum, em busca de alguma resposta de cherryred. De repente, um novo tópico surgiu no fórum, e o título dele era tão impactante que Shaggy deixou seu hambúrguer cair: “O misterioso livro “Numerologia Cabalística” de Frank Melker”.

Shaggy: Zoinks!

Shaggy recuperou o hambúrguer caído na cama com as mãos trêmulas. Para a sua surpresa, o usuário responsável pelo tópico era Lisa Genau, e nele, ela contava tudo o que vivenciara com o misterioso livro — do momento em que o recebera de uma mulher na Biblioteca Comunitária, até o momento em que um espírito fez o livro desaparecer. Por fim, Lisa pedia que os usuários compartilhassem informações sobre aquele livro, e em poucos minutos, o tópico recebeu dezenas de respostas. Felizmente, nenhuma delas revelava algo inédito, mas Shaggy sentiu pânico de ver tantas pessoas interessadas em um assunto que deveria ser mantido em sigilo.

Shaggy: Puta merda, Lisa, o que você pensa que você está fazendo?

Hospital Darrow, Crystal Cove, 9 de janeiro de 2023.

12 am

O estacionamento do hospital estava lotado de carros de polícia e veículos da mídia. Daphne paralisou de medo e imediatamente pisou no freio, recusando-se a avançar. Em seguida, os olhos assustados dela procuraram consolo nos olhos dele.

Daphne: Fred… eu… eu estou com um pressentimento ruim. Eu acho que algo muito ruim aconteceu!

Fred: Não se preocupe, hospital é assim mesmo. Deve ter sido um acidente de trânsito grave.

Fred também se assustou com a cena, mas não quis demonstrar medo. Ele sentiu vontade de segurar a mão dela novamente para confortá-la, mas ele sabia que se repetisse aquele gesto, poderia estragar a amizade e a confiança que eles haviam construído. Daphne se sentiu confortada com as palavras dele, e sorriu de maneira confiante, enquanto acelerava o carro novamente. Quando o carro se aproximou dos demais veículos, Fred ficou mais apreensivo. Ele percebeu que os jornalistas estavam eufóricos, e os policiais estavam tensos. De repente, um policial surgiu na janela de Daphne e a obrigou a parar.

“Srta., por favor, pare o carro, desça e volte. A polícia isolou a área e você não pode continuar!”

O policial arregalou os olhos ao reconhecê-la, e começou a chamar o xerife Stone diversas vezes no rádio. Daphne olhou fixamente para Fred, como se quisesse lhe dizer alguma coisa. No momento seguinte, aproveitando a distração do policial, ela abriu a porta em um movimento rápido e correu em direção à entrada do hospital. Fred a seguiu, e o policial correu atrás deles. Ao passar pela fita amarela que isolava a área, Daphne fez uma cara de espanto e parou de correr. Quando Fred a alcançou, ele notou que alguns agentes do FBI empurravam uma maca que carregava um cadáver dentro de um plástico preto. No local, havia vários jornalistas de várias emissoras noticiando que o Professor Emmanuel Raffalo havia tirado sua própria vida. Imediatamente, Daphne recuou e procurou a mão dele de maneira desesperada. No momento em que ela encontrou, ela apertou com força, como se toda a dor que ela sentiu pudesse ser dissipada naquele toque. A chegada inesperada dos dois atraiu a atenção das pessoas no local, inclusive de alguns policiais. Fred notou que alguns deles se aproximavam para abordá-los, por isso, ele a puxou pela mão em direção ao corredor de entrada. Porém, ao passarem pela porta, os dois encontraram Bart Blake e o xerife Stone. Assustada, Daphne imediatamente soltou a mão de Fred e tentou se explicar.

Daphne: Pai, não é o que o senhor está pensando!

Bart: É MUITO PIOR DO QUE EU ESTOU PENSANDO, DAPHNE!

Bart elevou a voz, e isso chamou a atenção de todos. Furioso, ele pegou a filha rispidamente pelo braço e a puxou em direção à porta. Fred teve o reflexo de ir em direção a ela, mas Bart o pegou pela gola da camisa e o impediu.

Bart: NÃO SE ATREVA, JONES! VOCÊ NÃO SABE DO QUE EU SOU CAPAZ!

Para evitar que Fred reagisse, o xerife Stone o segurou pelos ombros e manteve Fred em seu lugar, enquanto ele assistia a cena de Bart puxando a filha bruscamente pelo braço até a saída.

Stone: Raffalo se enforcou enquanto procurávamos por vocês dois como idiotas, pensando que tivessem sido sequestrados. Espero que estejam satisfeitos.

O xerife deu um tapinha irônico nas costas de Fred, como uma forma de parabenizá-lo pelo grande erro que ele e Daphne haviam cometido. Ao olhar ao redor, Fred notou que todos o olhavam com reprovação, inclusive Brad Chiles, que o encarava com os braços cruzados a alguns metros de distância. Desconcertado, ele olhou para baixo e se retirou. Fred dirigiu mecanicamente até a sua casa. Seus pensamentos estavam distantes: na vida perdida de Raffalo, no livro misterioso, no desaparecimento de sua mãe e… em Daphne Blake. Quando estacionou na garagem de sua casa, ele abriu o aplicativo de mensagens, clicou na foto dela, digitou “Você está bem?” e… desistiu de enviar. Ele não podia iniciar outra conversa, ele já causara problemas demais para ela. Por favor, sem perguntas difíceis, Freddy!”, a voz dela ecoou na mente dele, e ele sorriu ao se lembrar do apelido inédito que ela deixara escapar. Enquanto apagava a mensagem inadequada, uma pergunta difícil o perturbou: “Será que vou vê-la novamente?”. Fred hesitou, e contemplou a foto dela por um instante. “Cara, você literalmente não pode vê-la novamente! Tire isso da cabeça!”, ele disse em voz alta para si mesmo, para que pudesse digerir cada palavra daquela resposta difícil. Em seguida, Fred deixou o carro e procurou esquecer todas as emoções e momentos difíceis que vivenciara nas últimas horas. Entretanto, ao entrar em sua casa, ele teve que lidar com mais uma: em cima da mesa da sala havia uma aliança, e uma carta longa, escrita com a letra de Alice.

Blake Manor, Crystal Cove, 9 de janeiro de 2023.

1 am

Durante todo o caminho até a mansão, Daphne se desculpou e explicou brevemente o que acontecera entre ela e Fred Jones. Porém, todas as suas tentativas de iniciar um diálogo com o pai foram em vão. Irredutível, Bart se manteve em silêncio, com uma expressão furiosa no rosto, e desprezou todas as tentativas da filha de lhe causar empatia. Ao chegar à sala principal da mansão, Daphne perdeu a paciência.

Daphne: Pai, o senhor não tem o direito de me tratar assim! Eu estou explicando tudo o que aconteceu, e o senhor se recusa a acreditar em mim! Prefere acreditar nas suas ideias ultrapassadas!

Novamente, Bart não exibiu reação diante da raiva da filha, e continuou caminhando até o seu escritório. Irritada, Daphne o seguiu, e durante o caminho, continuou acusando o pai. Quando os dois chegaram ao escritório, Bart trancou a porta, olhou severamente para ela e cruzou os braços. Daphne estremeceu e se calou. Ela sabia que caíra em uma armadilha.

Bart: Muito bem. Eu estou disposto a abandonar minhas “ideias ultrapassadas” e acreditar em você. Mas para isso, eu preciso que você me fale a verdade, Daphne. Oh, desculpe, você quer que eu te chame de Daphne? Ou prefere que eu te chame de cherryred?