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10 Capítulo 10 - Vítimas do Medo


Marin General Hospital, Condado de Marin

9 de janeiro de 2023

1:10 am

Quando a ligação chamou pela décima vez, Velma falou um palavrão e desligou. Aquela era a sexta chamada que Lisa Genau não atendia. Mesmo sabendo que era muito tarde e, provavelmente, a bibliotecária deveria estar dormindo, Velma ligou mais uma vez. Afinal, a raiva que ela sentia, e a urgência de fazer Lisa apagar tudo o que publicara, não permitiam que ela desistisse. Entretanto, no momento em que ligação chamou pela quarta vez, seus olhos distraídos miraram no vidro que separava o quarto do corredor e, sem querer, eles perceberam que havia dois homens lhe observando — os mesmos homens que vira a caminho da sala de ressonância magnética. Eles eram altos e usavam crachás do FBI. Um deles tinha olhos azuis, cabelos, bigode e barba grisalhos; o outro tinha cabelos negros, nariz fino, olhos cor de âmbar e um olhar austero que lhe causou arrepios. Velma sentiu o medo se espalhar pelo seu corpo, e imediatamente encerrou a ligação inadequada à Srta. Genau.

Shaggy: Tipo, até agora, a publicação dela tem 34 respostas. Ninguém falou porra nenhuma sobre livro, mas todos ficaram curiosos, e isso é um puta problema!

A mensagem de texto repentina de Shaggy a distraiu por um momento, mas logo após lê-la — e perceber que dezenas de pessoas foram informadas sobre a existência daquele maldito livro —, Velma sentiu o medo novamente lhe sufocar. Certamente, o FBI já sabia de algo sobre ele — ou até sobre as invasões secretas da Mistério S/A em locais de crimes.

Shaggy: 35 respostas agora. Você falou com a Lisa? Tipo, ela tem que apagar isso logo, cara! Ou a gente pode se foder com a polícia!

“Aquela vadia não me atende!”, Velma digitou com raiva, enquanto sentia seu coração a ponto de explodir. Ao tirar os olhos da tela do celular, ela notou que o homem alto ainda a encarava com o mesmo olhar mau, e mesmo que ela o encarasse de volta, a expressão facial dele não se modificava.

Shaggy: Tipo, me passa o número dela. Às vezes, ela não atende porque ela sabe que é você que está ligando.

Ao encaminhar o contato de Lisa a Shaggy, Velma percebeu que suas mãos estavam trêmulas. Mesmo sem encarar o estranho agente que a observava, ela conseguia sentir o peso do olhar dele sobre ela.

Shaggy: É, tipo, a vadia não atende mesmo. Mas eu vou continuar tentando. Ela não vai dormir enquanto não apagar as merdas que escreveu!

Velma respondeu a mensagem do namorado com um emoji de coração e uma figurinha escrita “boa noite”. Sem conseguir olhar novamente para os homens, ela guardou o celular na bolsa e desligou a luz da cabeceira da cama. Em seguida, ela tirou seus óculos, deitou-se e fechou os olhos com força, desejando que aquelas ações fizessem os dois pararem de vigiá-la. Infelizmente, o sono não apareceu. Velma ficou vários minutos naquela posição, sem conseguir relaxar e sem coragem de abrir novamente os olhos. Quando a taquicardia começou a incomodá-la, ela desistiu de dormir e se sentou na cama. Infelizmente, ao olhar para o vidro, ela percebeu que os homens ainda estavam ali. Irritada, ela pegou seu celular e tirou várias fotos deles. Em seguida, encaminhou as fotos para Shaggy, junto com uma mensagem:

“Esses filhos da puta estão na porta do meu quarto há horas, e simplesmente não param de me vigiar. Então, se eu desaparecer, morrer, ou for presa, você já sabe quem são os responsáveis!”

Velma pensou que a foto intimidaria os dois homens, mas eles sequer deixaram de encará-la. Como consequência, ela mesma se intimidou, e sentiu sua mãos ficarem frias.

Shaggy: Que merda! Tipo, quer que eu vá até aí?

Velma riu da mensagem do namorado. Aquela era uma sugestão fofa, mas ela sabia que nenhuma das qualidades de Shaggy incluía ser um protetor.

Velma: Se eu disser que quero, o que você poderia fazer por mim?

Shaggy: Tipo, poderíamos sentir medo juntos…

A resposta era esperada, mesmo assim, fez Velma sorrir e isso acalmou seu coração. Por alguns minutos, eles trocaram mensagens divertidas de apoio, até o momento em que ela recebeu uma mensagem que dizia: “sduifhueiadnmasklwejaksncas”. Em sequência, ela recebeu alguns emojis e outras séries de números e letras sem o menor sentido. Imediatamente, ela riu, e entendeu que Shaggy havia adormecido subitamente — e Scooby estava batendo a pata no celular para fazê-lo parar de vibrar. Para a sua surpresa, ao tirar os olhos da tela, ela percebeu que os homens finalmente haviam sumido, e ela se sentiu confiante o bastante para dormir em paz. Infelizmente, a tranquilidade não foi suficiente para fazer o sono dela aparecer, e Velma cogitou a possibilidade de tomar um calmante. No momento em que seu dedo iria apertar o botão da campainha do seu leito, ela hesitou. Ela temeu que um simples comprimido pudesse lhe custar mais de 75 dólares na despesa hospitalar final, e por isso, desistiu. Por fim, Velma recorreu ao comprimido de um antialérgico potente que ela tinha em sua bolsa, e em poucos minutos, sentiu suas pálpebras pesadas e adormeceu.

Velma se assustou com o barulho da maçaneta da porta, por isso, sentou-se na cama e procurou seus óculos. Quando seus olhos focaram em direção ao som, ela viu uma moça de pele parda, de cabelos longos e ondulados, usando um vestido com estampas parecidas com o tecido que ela encontrara ao redor do livro, em São Francisco. Quando a moça se virou, ela tomou um susto: imediatamente, ela reconheceu que se tratava de Allyra Mahon, e a barra do vestido dela estava suja de lama, bem como suas mãos e pés. A mulher sorriu e caminhou lentamente em direção a ela, deixando um rastro de lama por onde passava. Em pânico, Velma tateou pela cama, tentado fugir da imagem assustadora que se aproximava, mas, estranhamente, a metade inferior de seu corpo estava paralisada. Sem que ela pudesse evitar, Allyra chegou até a cama e segurou a mão esquerda dela com força. Olhando diretamente nos olhos de Velma, Allyra sorriu e sussurrou “obrigada!”. Em pânico, ela gritou e retirou sua mão da mão suja da mulher, e no mesmo momento, ela acordou. Ela estava suada e ofegante, e ao se sentar no leito de hospital, percebeu que tudo fora apenas um sonho vívido. Velma precisou de alguns minutos para se recuperar daquele provável episódio de paralisia do sono, e quando se sentiu mais forte, ela tateou em busca de seus óculos e seu celular.

Velma: Jinkies!

Ao digitar a senha de desbloqueio do aparelho, Velma estremeceu ao ver o horário “1:41” na tela. “Deixe de ser ridícula, Velma! Obviamente, a explicação lógica para tudo isso foi a mistura totalmente inadequada de um anti-histamínico com um analgésico derivado de morfina!”, ela pensou. Porém, no minuto seguinte, toda a racionalidade se esvaiu: ao tocar o aparelho com a mão esquerda, ela sujou a tela com lama.

Darrow University Campus

9 de janeiro de 2023

1:45 am

Depois de muito chamar, a ligação foi recusada sem ser atendida. Fred digitou a mesma mensagem pela décima vez: “Alice, por favor, me atende, precisamos conversar!”. Porém, para humilhá-lo, ela fez questão de visualizar e não responder. Como o telefone parecia ineficaz, ele tentou contatá-la por mensagens de voz na caixa postal, e até mesmo por meio das redes sociais. Inútil. Ela não queria conversar. Além do mais, no Instagram, ela apagara todas as fotos do casal e todos os rastros de um relacionamento de quase cinco anos, e ainda por cima, mudara seu status para “solteira”. Definitivamente, era o fim. Em desespero, ele correu em direção ao carro, com a intenção de dirigir até a casa dela. Porém, no momento em que ele ocupou o banco do motorista, o celular vibrou e, finalmente, uma resposta surgiu.

Alice: Não temos mais nada para conversar, Jones, por favor, pare de insistir. E não se atreva a vir até aqui. Eu não quero ver você. Eu seria capaz de te matar!

A mensagem fria conteve toda a urgência de querer consertar o que ele havia feito. E as palavras duras lhe atingiram com força. Ela a perdera, e junto com ela, perdera parte de seu passado e, também, o seu futuro. Na verdade, ele a trocara por distrações e banalidades de internet, e para piorar, expusera-a ao ridículo. Fred suspirou e descontou a raiva e todas as emoções avassaladoras que sentia no volante, por meio de socos. Alice tinha razão, era melhor ele não ir. As emoções que ambos sentiam naquele momento poderiam tornar tudo pior — e eliminar as mínimas chances que eles ainda tinham de permanecer juntos. “Eu vou consertar isso, Alice. Eu vou te explicar cada detalhe e vou lutar para reconquistar você”, ele digitou quando conseguiu se acalmar.

Alice: Não se pode consertar o que não existe mais, Jones. Aproveite a sua influencer. Afinal, você está solteiro agora.

Fred encarou as duras frases por um momento, até ver a foto de Alice sumir do aplicativo de mensagens, indicado que ele fora bloqueado por ela. Sem poder evitar, as emoções o engoliram. Tristeza, raiva, nostalgia, arrependimento e, principalmente, culpa. Era como se ele estivesse morrendo, e aqueles cinco anos com Alice passassem lentamente diante de seus olhos. O transe emocional só cessou quando uma ligação de Velma surgiu.

Velma: Fred? Pode falar? Você não vai acreditar! Acho que estamos encrencados e a Mistério S/A já era. Dois agentes do FBI me vigiaram por horas aqui no hospital! E para deixar as coisas mais bizarras, eu acabei de sonhar com Allyra Mahon e…

Fred: QUE SE DANE ALLYRA MAHON E A MERDA DO FBI, EU NÃO QUERO MAIS SABER DISSO! A MISTÉRIO S/A ACABOU COM A MINHA VIDA!

Fred ouviu a amiga suspirar do outro lado da linha. Mesmo sabendo que cometera um grande erro ao descontar nela as decisões erradas que ele mesmo tomara, ele não se desculpou. Em seguida, a raiva o fez encerrar a ligação sem dizer uma palavra. Com a neve se acumulando do lado de fora do carro, ele decidiu voltar para casa. Ao fechar a porta principal com violência, o barulho se espalhou em todos os cômodos, até o vazio ecoar em seu coração. Pela primeira vez na vida, ele não tinha nada. Alice e toda a vida que ele tinha com ela acabaram. A Mistério S/A e as fugas da realidade deveriam acabar. E aquela linda ilusão de cabelos ruivos… ele nunca poderia ter.

***

Apesar de exausto, Fred não foi para a cama, ele estava nervoso demais para adormecer. Ele tentou recorrer aos livros de faculdade, mas logo descobriu que também estava cansado demais para estudar. Entediado, ele se sentou na cadeira em frente ao computador. Suas mãos desejaram recorrer à válvula de escape mais óbvia — True Crime Forum —,mas seu coração partido o impediu. Aquele maldito fórum já lhe causara problemas demais, e era hora de parar. Sem outra opção para lidar com a insônia, ele abriu o site de buscas e pesquisou sobre o desaparecimento de Hannah Renner.

Fred leu com atenção todas as notícias e artigos que encontrou nas primeiras três páginas do site de buscas. Depois, ele revisitou cada uma das imagens que apareciam nas notícias da época, em busca de pistas que mostrassem onde um exemplar do livro fora enterrado. Nas fotos da cena do crime, ele reconheceu o antigo xerife de Crystal Cove, Ted Almerick, e as versões mais novas de Brad Chiles, do Dr. Carlswell e do seu próprio pai. Além de policiais conhecidos, Fred também encontrou Bart Blake — ainda como agente do FBI e sem os cabelos grisalhos—, e dois homens altos que ele não conhecia. Um deles tinha olhos azuis, cabelos, bigode e barba grisalhos, e vestia roupas antigas, que destoavam das roupas comuns do ano de 2002. O outro homem estranho tinha cabelos negros, nariz fino, olhos cor de âmbar e olhava fixamente para Fred Jones Sr. Fred ficou intrigado com a presença dos dois desconhecidos, e por isso, salvou as fotos em que eles apareciam. Em seguida, ele recorreu às lentes do site de buscas para tentar identificar quem eram os dois homens, e encontrou mais perguntas do que respostas.

O site de buscas o levou para uma série de fotos onde os rostos dos dois homens apareciam, algumas coloridas, outras em preto e branco. Para a surpresa de Fred, todas as fotos foram tiradas em cenas de crimes, e todos os crimes ocorreram em datas que formavam um palíndromo. Fred sentiu um arrepio percorrer sua espinha, mesmo assim, continuou a analisar cada uma das imagens. A mais recente delas era de 22 de fevereiro de 2022, e mostrava os dois homens em uma escola no Kentucky, o local onde Adam Fuller, um garoto de 15 anos, foi encontrado morto. Fred comparou a foto de 2022 com a imagem de 2002, e estremeceu ao perceber que a aparência dos dois homens não mudara em um período de 20 anos. “Bem, 20 anos nem é tanto tempo assim. Além disso, Chiles, Carlswell e Blake têm longos turnos de trabalho e sofrem com muito stress, por isso, envelheceram tanto”, Fred pensou, tentando normalizar o que vira com argumentos racionais. Então, ele analisou fotos de datas mais antigas e constatou o mesmo fato macabro. Ao analisar as primeiras imagens em preto e branco, datadas de 1909 e 1904, Fred se convenceu de que aqueles homens não eram humanos, ou talvez, não estivessem vivos. Afinal, se eles já eram adultos no início do século XX, eles não poderiam continuar com a mesma aparência cem anos depois, no século XXI. Por impulso, Fred digitou uma mensagem para Velma, mas antes de clicar em “enviar”, a razão lhe conteve.

“Você tem tomado decisões bastante estúpidas, Frederick, mas essa, sem dúvida, é a mais estúpida de todas. Primeiro, você desistiu da sua carreira e do seu relacionamento por causa de um livro e o fantasma de um velho; agora, você está acreditando que dois homens não são humanos. Você vai virar uma piada na faculdade!”, um pensamento intruso o repreendeu. “Não é mais óbvio pensar que é um erro das lentes do site de buscas? O algoritmo simplesmente juntou fotos de pessoas muito parecidas”. Apesar do argumento ser bastante racional, Fred não se convenceu e, por isso, buscou evidências para provar que se tratava mesmo de um erro. Ele tentou achar o nome dos dois homens, porém, as matérias sobre o desaparecimento de Hannah não mencionavam nada. Também não havia nenhuma menção a eles nas notícias sobre a morte do adolescente no Kentucky, tampouco, nos recortes de jornal mais antigos. “Você sequer sabe os nomes deles, como pode afirmar que são as mesmas pessoas?”, Fred admitiu. E, no minuto seguinte, ele encontrou a prova de que suas crenças estavam corretas: em um vídeo sobre o caso de Adam, uma jornalista andava pela escola do garoto e entrevistava algumas pessoas. No momento em que a mulher passou por um espelho, a câmera filmou o reflexo de todas as pessoas presentes, exceto dos dois homens misteriosos. Sem tirar os olhos da tela do computador, Fred enviou a longa mensagem a Velma.

Velma: Vá se foder, Fred. Do fundo do meu coração.

A resposta rude fez Fred se lembrar do que havia feito para sua amiga. Mesmo assim, a urgência em contar o que descobrira lhe fez ligar para ela — mas Velma prontamente recusou a ligação.

Fred: Desculpe por ser um idiota e descontar os meus erros em você. Por favor, atende a minha ligação!

Velma respondeu a mensagem dele com a figurinha de um polegar fazendo sinal positivo e ignorou qualquer tentativa de Fred de se desculpar. Sem outra opção, ele encaminhou todas as evidências que encontrara, esperando que a curiosidade típica da moça a induzisse a responder.

Fred: Por favor, Velma, é urgente. Eu preciso falar com você sobre esses dois homens estranhos. Eles estão em todas as cenas de crimes em que há fractais desde 1904. E, como você pode notar nesse vídeo, a imagem deles não aparece refletida no espelho.

Em menos de um minuto, Velma enviou as fotos que tirara pouco antes, e finalmente respondeu.

Velma: Você quer conversar sobre esses dois homens estranhos? Eles estavam aqui horas atrás.

Fred sentiu uma descarga de adrenalina ao ler a resposta, e imediatamente ligou para ela.

Fred: Onde eles estão?

Velma: Eu não sei! Eles sumiram. Eu vou reportá-los aos seguranças do hospital, certamente, eles não são agentes do FBI, eles devem ser membros da seita!

Fred: Velma, esses homens não são humanos, você viu o vídeo! Você corre perigo, e os seguranças não podem te proteger! Chame Shaggy e venha para casa imediatamente!

Velma: Eu não posso, eu ainda estou em tratamento, esqueceu? Além disso, não podemos ser irracionais, Fred. Se entrarmos em pânico e fizermos coisas estúpidas, teremos problemas com os agentes reais do FBI. Esqueceu-se de que desenterramos um livro e vasculhamos a casa do Sr. Arthur? Esqueceu-se de que temos 2 tecidos que são provas de 2 assassinatos sem solução?

Fred: Estamos sendo racionais desde o início, e não está funcionando. As coisas estão ficando cada vez piores para nós, e a qualquer momento, um de nós pode morrer ou sumir. É hora de ceder. As coisas fugiram do controle. Estamos lidando com algo maior do que imaginávamos!

Velma: Fred, fique calmo, ok? Certamente, a seita está tentando nos assustar para nos afastar desse mistério. Ou, até mesmo, para fazer a polícia nos culpar pelos crimes que eles cometeram. Deve haver uma explicação lógica para essas fotos… tem certeza que não foram feitas ou editadas por inteligência artificial?

Fred suspirou, demonstrando impaciência. Ele ficou irritado por Velma questionar suas descobertas, porém, ele mesmo sabia que ela poderia ter razão.

Fred: Se as fotos são reais ou não, isso é apenas um detalhe. Há outras evidências macabras. Raffalo está morto, ele tirou a própria vida há algumas horas. E pouco antes disso, ele atacou Daphne Blake brutalmente enquanto gritava frases desconexas, e nem os federais conseguiram contê-lo. Eu mesmo vi os olhos dele, Vel, havia o mesmo brilho prateado que você viu nos olhos daquela aparição. Não há como negarmos que estamos lidando com o sobrenatural!

Foi a vez de Velma suspirar impacientemente, demonstrando irritação por, inevitavelmente, Fred ter razão. No momento, ela se lembrou do sonho vívido com Allyra Mahon, mas sentiu vergonha de revelar que tivera uma experiência sobrenatural.

Velma: Sim… infelizmente, eu acho que você tem toda razão. Shaggy viu um vídeo no True Crime Forum, e nele, Joel Marlow se comportava da mesma forma. Shaggy também viu Gertrudes Genau, a antiga bibliotecária da biblioteca que visitei, exibir o mesmo comportamento violento no momento em que ele questionou sobre o livro. Ele a visitou em um asilo, e teve que fugir da ira da mulher. Realmente, há algo inexplicável sobre esse livro. Até os animais se comportam de maneira estranha perto dele.

Fred: É por isso que temos que proteger todos que entraram em contato com ele. Não importa se são forças sobrenaturais ou somente uma seita de assassinos, todos nós estamos em perigo agora. Ligue para Shaggy e voltem imediatamente. Esses homens aparecem em cenas de crimes, se eles estão aí, você pode ser a próxima vítima.

Velma concordou monossilabicamente, e no momento em que Fred se despediu, ela o interrompeu.

Velma: Espera, Fred! Há outras pessoas envolvidas… o casal que vendeu o livro e, possivelmente, Gertrudes Genau. E também Lisa Genau, a bibliotecária que me atendeu em São Francisco. Ela abriu o livro. E, para piorar, postou sobre ele no True Crime Forum

Fred: O QUÊ?

Velma: Sim, infelizmente ela fez isso. É uma longa história… mas Shaggy já está cuidando de tudo…

Fred: Velma, se esse livro viralizar, nós podemos…

Velma: Não queremos que viralize, Fred, mas se viralizar, a seita vai priorizar a ocultação dos fatos, e estaremos seguros por um tempo.

Fred: Bem… acho que você tem razão. Mesmo assim, é melhor tomar cuidado. Avise Lisa e o casal que você encontrou em Marin, e venha para casa com Shaggy e Scooby assim que possível.

Fred se despediu novamente, e Velma o interrompeu mais uma vez.

Velma: Espere! Você precisa avisar Daphne Blake. Não importa qual seja o envolvimento dela com esse maldito livro, ela também corre perigo. Mesmo eu não gostando nem um pouco dela, eu não quero que ela morra.

O pedido fez o coração de Fred acelerar. Velma se despediu rapidamente e desligou antes que ele verbalizasse uma resposta. A urgência em proteger Daphne o fez digitar diversas mensagens para ela — e, no fim, ele considerou todas elas ridículas. “Cara, por que você se importa tanto com essa garota?”, um pensamento intruso surgiu, incentivando-o a desistir. “Por que você pensa que deve protegê-la?”, outro pensamento o atacou. Felizmente, no mesmo momento, a voz doce de Daphne ecoou na mente dele, fazendo-o mudar de ideia: “Sem perguntas difíceis, Freddy!”.

Blake Manor, Crystal Cove

9 de janeiro de 2023, 2:15 am

Daphne já estava em silêncio há dez minutos, mas as lágrimas continuavam a correr por seu rosto. Mesmo sem conseguir olhar nos olhos de seu pai, ela sentia a fúria daquele olhar, e o silêncio dele lhe torturava.

Daphne: Agora que o senhor já sabe de tudo, será que eu posso tomar um banho quente e dormir um pouco? Estou machucada e exausta… e se eu não dormir, vou ficar com olheiras horríveis…

Bart suspirou, e novamente levou uma das mãos à testa, em um sinal claro de decepção.

Bart: Podemos continuar essa conversa amanhã. Mas antes de ir, quero que saiba que a sua mãe ficará em choque quando descobrir. Talvez ela nunca te perdoe. Então, prepare-se para isso.

Daphne sentiu a dor de cada palavra, e várias lágrimas escorreram por seu rosto. Mesmo assim, ela se levantou, admitindo que a fala de Bart era uma permissão para se retirar.

Daphne: Eu sei. Eu vou ter que lidar com isso. Eu realmente sinto muito, eu nunca quis magoar vocês…

Bart: Espere o mesmo das suas irmãs, elas irão odiar você. Principalmente a Daisy. Você arruinou a vida dela na faculdade… e a vida de Alice Carlswell também!

Daphne: Eu sei, eu sinto muito, eu nunca quis fazer isso!

Daphne apertou os olhos de dor, e chorou copiosamente. Bart se comoveu ao ver a filha soluçar, mas se manteve firme e não a consolou.

Bart: Além disso, eu não poderei esconder a sua confissão do FBI. Você se intrometeu em mais de sessenta casos arquivados. A mídia, as autoridades e a comunidade estão cobrando explicações, e é o meu dever fornecê-las. Então, prepare-se para isso também. Infelizmente, eles vão indiciar você e seus amigos por tudo.

Daphne sentiu o pânico tomar conta de seu corpo, e cobriu as mãos com o rosto, para conter o choro. Bart cedeu por um momento e a abraçou brevemente, para acalmá-la. Após o susto inicial, Daphne refletiu sobre as palavras do pai e reagiu.

Daphne: Espera! Que amigos? Eu agi sozinha, ninguém me ajudou! As garotas da faculdade não sabiam de nada… e a Tessa nem é a minha amiga de verdade, ela só é a minha assistente e…

Bart: Ora, eu me refiro a Velma Dinkley, Norville Rogers e Fred Jones Jr.. Eu terei que acusá-los por…

Daphne: O quê? Não, eu agi sozinha o tempo todo, pai! O Fred não fez nada, ele só queria me ajudar!

Bart riu da inocência da filha, e Daphne se calou, por não saber o que havia dito de errado.

Bart: Querida, você realmente não sabia que Fred e os demais são a tal da “Mistério S/A”? Vocês têm trabalhado juntos há tempos!

Daphne fez uma expressão de espanto e levou as mãos à boca. Bart sorriu e acariciou os cabelos vermelhos da filha com ternura. Mesmo com 21 anos, ela ainda era inocente demais.

Bart: Por isso, eu sempre duvidei de você quando dizia que não era amiga de Fred Jones. Pensei que estivesse mentindo para mim.

Daphne: Não, não somos amigos, eu o vi apenas duas ou três vezes. E os outros dois eu nem sei quem são. De qualquer forma, eu assumo toda a responsabilidade. Eles não têm culpa! Eles nunca teriam feito nada ilegal se eu não tivesse postado informações confidenciais no True Crime Forum.

Bart riu novamente.

Bart: Seria como culpar quem inventou as armas pelo assassinato de Kennedy, querida. Não há dúvidas de que você foi irresponsável e forneceu informações que não deveria, porém, todos eles são adultos e sãos. Eles sabiam o que estavam fazendo quando invadiram aqueles lugares.

Daphne olhou para baixo e deixou as últimas lágrimas escorrerem por seu rosto. Mesmo bravo, Bart enxugou cada uma delas, e ao terminar, puxou o queixo dela para cima, para fazê-la olhar em seus olhos.

Bart: A boa notícia é que, por ser um crime federal, tudo correrá em segredo de justiça. Pelo menos por enquanto, a identidade de vocês será preservada, e vocês não terão que lidar com as manchetes de jornais e as reações das pessoas.

Daphne assentiu e tornou a olhar para baixo. Sem se despedir, ela caminhou em direção à porta, e no momento em que tocou a maçaneta, Bart a impediu.

Bart: Espere! Você ainda precisa me esclarecer algo. Há algumas horas, você disse que esteve na casa de James Arthur e presenciou coisas estranhas relacionadas a uma seita… você ainda não me contou o que viu lá.

Daphne revirou os olhos e suspirou impacientemente, por ser impedida de descansar. Mesmo assim, ela se virou e voltou calmamente para a cadeira onde estava. Em seguida, ela contou detalhadamente tudo o que vivera naquela noite, do momento em que chegara à casa de Arthur, até o instante em que ela morrera inexplicavelmente. Mesmo sabendo que muito do que vivera não fazia o menor sentido, ela sentiu que o pai merecia saber a verdade. Quando terminou, Daphne se surpreendeu com a reação dele. Ao invés de ficar mais zangado e mais decepcionado com o que ela fizera, Bart ficou assustado e arregalou os olhos. Em silêncio, ele caminhou até um arquivo que estava na prateleira, retirou uma pasta muito antiga e, após abri-la, entregou três fotos nas mãos da filha.

Bart: Por um acaso, o “Otto Reinier” ao qual você se refere… é esse garoto?

Daphne pegou as fotos com cuidado, e sentiu um aperto no peito ao ver o rosto sorridente do garotinho nas fotos em preto e branco.

Daphne: Sim, é ele. Mas ele parecia bem mais velho e muito doente. Ele estava pálido, tinha olheiras e… bem, era como se ele estivesse morto. Ele também estava muito assustado.

O semblante de Bart piorou com a confirmação. Ele recolheu as fotos que dera e, em seguida, deu a ela outras fotos.

Bart: Você reconhece algumas dessas crianças?

Daphne analisou as fotos calmamente, e seu coração acelerou ao reconhecer os rostos infantis.

Daphne: Sim! Eram as outras crianças que estavam assistindo à TV fora do ar com Otto! Elas também pareciam estar mortas… inclusive, essa garotinha… ela sequer parecia uma garota!

Bart: E o local onde havia esta TV… era esse?

Antes de recolher as fotos, Bart entregou alguns recortes de jornal amarelados, que mostravam a mesma sala de estar antiga. Ao olhar para a foto, os olhos de Daphne se encheram de lágrimas, e ela balançou a cabeça positivamente. Em silencio, Bart recolheu todas as fotos e guardou-as novamente na pasta.

Bart: Bem, então, eu creio que devemos manter tudo isso em segredo. Vamos dar uma resposta satisfatória às autoridades e colocar um ponto final em cherryred, Mistério S/A e True Crime Forum sem alarde, ok? Não mencionaremos o livro e os mistérios dos fractais, e você não conta para mais ninguém o que viveu durante a morte súbita… vamos reparar os danos e seguir em frente.

Daphne concordou em silêncio e se despediu. Porém, antes de sair, ela encarou o pai novamente, que ainda parecia preocupado.

Daphne: Tudo aquilo é real, né? Hannah, Otto, o livro, o velho… não foi um delírio da minha cabeça! É por isso que as autoridades não querem que as pessoas saibam o que está acontecendo. Eles não querem ajudar as vítimas, nem querem impedir que outras pessoas tenham o mesmo destino… e, infelizmente, você está do lado deles.

Bart suspirou ao ouvir a acusação, e olhou seriamente para a filha.

Bart: Na verdade, eu e algumas pessoas lutamos há anos para que as autoridades não saibam que estamos investigando esses crimes, querida. E ao contrário do que você pensa, muitas pessoas sabem o que está acontecendo. Neste momento, a maioria delas está em um cemitério. Por isso, eu pedi discrição. Se você quiser descobrir a verdade, tem que fingir ser um deles.

Daphne sentiu seu coração acelerar de medo e desviou o olhar.

Bart: Posso contar com você para guardar esse segredo?

Daphne olhou para ele antes de sair.

Daphne: Com certeza!


Marin General Hospital, Condado de Marin

9 de janeiro de 2023

5:10 am

Velma ligou para Shaggy pela quinta vez, e assim como as vezes anteriores, sua ligação foi prontamente rejeitada. Em seguida, outra mensagem sem sentido apareceu na tela: “SE$2m1USCmdiiue3rm20657qwe”. Era Scooby-Doo mais uma vez, dizendo-lhe, à sua maneira particular, que ela deveria parar de ligar para o seu tutor. Velma revirou os olhos e suspirou para aliviar a frustração. Ela precisava acordar Shaggy imediatamente. Ela já havia avisado a enfermeira que precisaria sair sem terminar o tratamento, e temia que a demora em deixar seu leito lhe custasse algumas centenas de dólares a mais. Enquanto ela discava novamente o número do namorado, a enfermeira apareceu com alguns papéis nas mãos.

“Soube que você pediu para sair sem terminar o tratamento… algo te desagradou nesse hospital?”

Velma ficou constrangida com a pergunta.

Velma: Oh, não, claro que não! O atendimento foi ótimo, é que… eu sou estudante de direito e tenho um julgamento imperdível amanhã… creio que minhas costelas poderão esperar…

“Certo. Você precisa assinar essas declarações, afirmando que se responsabiliza por abandonar o tratamento. E também esses papéis do seu convênio. A última folha é uma guia de pagamento, referente aos procedimentos não inclusos no seu plano de saúde, e você deve realizar o pagamento na recepção. Eu recomendo que chame um Uber imediatamente, pois o uso da sala de espera por mais de uma hora pode gerar despesas extras…”

Após colocar os papéis sobre a pequena mesa, a enfermeira retirou todos os acessos venosos do braço da garota.

Velma: Obrigada. O meu namorado já está a caminho.

“Por favor, peça para ele vir com os sapatos limpos. Olhe como ele deixou o chão na noite passada!”

Velma levou um susto ao ver o rastro de lama no chão, e ficou tão transtornada que não conseguiu se importar com a rispidez da enfermeira. Ela sabia que Shaggy não fizera aquilo. E, consequentemente, ela sabia que o sonho que tivera… não fora apenas um sonho.

Velma: Uh… desculpe, mas creio que não foi o meu namorado… ontem, eu vi dois homens do FBI no corredor da ressonância magnética… e depois, eu vi que estavam me observando pelo vidro… eu acho que eles entraram no quarto com os sapatos sujos enquanto eu adormeci…

Velma se aproveitou da revolta da mulher para saber mais sobre os dois homens misteriosos, porém, para a sua surpresa, a enfermeira parou de reclamar e a olhou interrogativamente.

“Desculpe… quais homens? Estou há 8 horas aqui e não vi ninguém do FBI”.

Velma sentiu o medo lentamente tomar conta de seu corpo. Ela tentou insistir na pergunta, mas gaguejou em todas as tentativas.

“Você tem certeza que está bem para deixar o hospital? Aparentemente, a morfina não te fez bem… acho melhor você ficar e conversar com um médico…”

Velma: NÃO! Não… não se preocupe! Eu estou ótima! Eu só fiquei curiosa para saber por que o FBI estava aqui… mas acho que eu me confundi…

Velma assinou os papéis com pressa, e teve que apertar a caneta para que o tremor de suas mãos não atrapalhasse as assinaturas. Quando terminou, ela entregou os documentos e saiu da cama, para juntar seus pertences. Imediatamente, ela sentiu uma dor lancinante nas costelas, e se arrependeu de sua decisão. A enfermeira conferiu brevemente as assinaturas e se retirou. Assim que deixou o quarto do hospital, Velma teve uma ideia brilhante para acordar Shaggy: ligar para o serviço de entrega de algum fast-food e fazer um pedido grande. Afinal, o único som capaz de despertar Shaggy era o barulho da buzina da motocicleta de um entregador de comida. Ela finalizou o pedido no momento em que alcançou as cadeiras da recepção. E só tirou os olhos da tela do celular no momento em que uma atendente perguntou: “Em que posso ajudá-la, senhorita?”.

Velma: Eu gostaria de pagar pelos procedimentos que não estavam inclusos no meu plano de saúde.

Velma entregou o papel para a atendente, e se arrependeu de não tê-lo lido. Enquanto ela digitava as informações em um computador, ela sofreu com a possibilidade de não ter dinheiro o suficiente para pagar todos aqueles valores abusivos.

“Oh, querida, não se preocupe, suas despesas já foram pagas! Você já pode ir…”

Em um lapso de segundo, ela pensou na possibilidade de seus pais terem feito o pagamento, mas eles estavam longe demais de Marin. Ela pensou em Madelyn — e logo se lembrou que ela ainda não tinha idade suficiente para ter tanto dinheiro. Pensou em Shaggy… “mas Shaggy está dormindo profundamente!”. Inconformada, ela questionou a atendente.

Velma: Desculpe, pode verificar novamente? Eu acho que você se enganou. Eu não paguei as despesas, e ninguém da minha família fez isso. Creio que você verificou as despesas de outro paciente.

A mulher não gostou do pedido, porém, ela demonstrou admiração pela honestidade de Velma. Após digitar as informações novamente no computador, a atendente apontou para a tela e mostrou.

“Está correto, Velma Dace Dinkley, certo? Veja… as despesas foram mesmo pagas. Aqui está! Pagamento feito às 2:40 am por… uhh… Bartholomew George Blake. A senhorita o conhece?”.

A revelação adicionou doses extras de adrenalina ao (já sobrecarregado) sistema cardiovascular de Velma. Incrédula, ela apenas balançou a cabeça afirmativamente, sem dizer nada.

“Esse nome me parece familiar… não é o nome do homem que virou chefe do FBI?”

A pergunta de outra atendente chamou a atenção das pessoas ao redor. Velma deu de ombros e tentou pensar em uma resposta inteligente e plausível para aquela pergunta — mas não encontrou.

“Nossa! Você deve ser bem importante para o chefe do FBI pagar as suas despesas médicas…”

A atendente entregou a folha de papel nas mãos de Velma e sorriu. Velma também forçou um sorriso.

Velma: Mais do que eu gostaria…

Darrow University Campus

9 de janeiro de 2023

6:00 am

Fred acordou com um sobressalto. Ele sabia que sonhara algo perturbador, mas não conseguia se lembrar o que era. Ao olhar no relógio, ele se decepcionou: seis horas. Duas horas antes do horário que ele deveria despertar. A insônia lhe permitira ter apenas três horas de sono, e apesar de se sentir exausto, ele sabia que não conseguiria adormecer novamente. Ainda deitado, ele tateou pela cama vazia, em busca do celular… e a ausência de Alice naquela cama doeu. Então, ele se lembrou do término, das circunstâncias que levaram ao término — e de tudo o que ele teria que enfrentar devido a isso. Por alguns minutos, a ansiedade o paralisou, e o sentimento de fracasso e abandono lhe tirou a vontade de sair da cama. Mas ao encontrar o celular, uma pequena esperança o motivou: uma nova mensagem de Daphne Blake.

Daphne: Desculpe pela noite passada, não queria trazer problemas para você. Espero que você esteja bem.

Eram apenas quinze palavras, mas… significavam tanto. Tanto, que como em um passe de mágica, elas fizeram toda a angústia dele desaparecer. Imediatamente, Fred se sentou na cama e apagou toda a mensagem estúpida que escrevera para ela horas atrás — e não teve coragem de enviar. Nos minutos seguintes, ele pensou em algo adequado para responder. “Não precisa se desculpar, eu me diverti muito”, foi a primeira tentativa fracassada de resposta. Ele não queria que ela se desculpasse pelos momentos que passaram juntos. Mesmo em meio ao caos, a vida parecia diferente ao lado dela. Porém, era desrespeitoso falar em diversão naquele momento. “Não precisa se desculpar, você não me causou problemas”, foi a segunda tentativa fracassada de resposta. Ele não queria que ela se sentisse culpada pelo pequeno vínculo que eles criaram… mas ele sabia que tal vínculo lhe causara sérios problemas. Aliás, todo mundo sabia, e agora, com o explícito fim do seu noivado, mais e mais pessoas ficariam sabendo. “Foi tudo culpa minha”, foi a terceira tentativa de resposta. A única verdadeira, e por isso, foi enviada. Fred encarou a tela por um instante, ansioso por uma resposta dela e, ao mesmo tempo, por novas palavras adequadas para continuar aquela conversa. Em meio a tantos sentimentos confusos, ele só conseguiu traduzir em palavras um dos seus desejos: “Espero que você esteja bem”.

Enquanto preparava o café da manhã, Fred lutou contra a vontade de perguntar a Daphne se o pai dela estava zangado. Não era apenas uma preocupação pessoal, Fred temia que Bart Blake descobrisse tudo o que ele, Shags e Velma fizeram nos últimos dias — e, consequentemente, tudo o que eles estavam fazendo nos últimos meses.“Sem perguntas difíceis, Freddy!”, mais uma vez,a voz meiga dela surgiu em sua mente para lhe repreender, e Fred sorriu. Daphne era um problema que lhe fazia sorrir. Por isso, às vezes, ele achava que ela era uma solução. Uma solução problemática, muito bonita, e que ainda por cima, o chamava de Freddy… mas era uma solução inatingível, para os graves problemas que ele mesmo criara. “É hora de reparar os erros e enfrentar a realidade, cara…”, ele disse para si mesmo, em voz alta, enquanto encheu uma xícara com café e um prato com sua refeição. “… antes que Bart Blake descubra sobre a Mistério S/A”, ele concluiu. E no mesmo momento, um pensamento atiçou sua curiosidade: “O que será que Bart Blake descobriu sobre Raffalo, Marlow, Arthur e todos os casos que a Mistério S/A investigou?”. Então, Fred colocou a xícara e o prato em frente ao computador, e ao acessar o site de buscas, ele digitou: “Bart Blake”.

“Bart Blake (nascido Bartholomew George Blake, em 13 de Julho de 1956, em Cartersville, Georgia) é o atual diretor do FBI. Ele foi nomeado em 2017, após uma brilhante carreira no Departamento de Justiça, iniciada em 1992, no caso Deacon Carlswell, em Los Angeles…”, foram as primeiras frases que a IA do site de buscas escreveu. Ao terminar de ler, Fred ficou intrigado com o sobrenome conhecido, e resolveu procurar sobre o emblemático primeiro caso do Sr. Blake. “O caso Deacon Carlswell refere-se à morte misteriosa do famoso banqueiro John Deacon Carlswell, em 9 de setembro de 1990. Ele foi encontrado morto por seu filho Joseph Carlswell em sua mansão em Beverly Hills, e as circunstâncias que levaram à sua morte permanecem um mistério até os dias de hoje…”, informou a IA, ao mesmo tempo em que mostrou algumas fotos gráficas do onde o corpo do banqueiro foi encontrado. Fred estremeceu ao perceber que Deacon era pai do Dr. Carlswell — e, portanto, avô de Alice May. Ele passara anos frequentando a casa dos Carlswell, e nunca soubera daquela tragédia. Para piorar, ao olhar as fotos, ele notou os mesmos padrões dos casos já conhecidos pela Mistério S/A: havia uma mandala ao lado do corpo, a morte ocorrera em uma data palíndromo, e os dois homens misteriosos apareciam nas fotos, em meio aos policiais e paramédicos. Intrigado, Fred perdeu alguns minutos lendo notícias sobre o caso, até que uma frase de um artigo do ano de 1991 lhe chamou a atenção: “a primeira decisão que o jovem estudante de medicina Joseph Carlswell tomou após herdar a fortuna de seu pai foi demolir a mansão da família. A segunda decisão tomada foi processar o agente especial Bartholomew Blake, por escavar o terreno da mansão sem a sua permissão”. Sem tirar os olhos da tela, ele ligou para Velma.

Fred: Sou eu de novo. Nós temos um problema sério…

Velma: Já estou sabendo que o Sr. Blake está nos vigiando… e estou tentando não surtar com isso…

Fred: O QUÊ? Como assim?

Velma: Ele pagou as minhas despesas médicas, Fred, e certamente isso não foi uma generosidade aleatória. Ele sabe de tudo! Estamos fodidos!

Fred suspirou e apoiou a testa em sua mão, para dissipar o nervosismo.

Fred: Ele não sabe da Mistério S/A, Vel, ele sabe sobre o livro. E ele sabe há anos! Eu liguei porque, agora mesmo, eu descobri mais um caso ocorrido há mais de 30 anos, em uma data-palíndromo… a vítima foi o avô de Alice, Deacon Carlswell… e o assassino, provavelmente, foi o próprio filho dele, o pai de Alice! Esse foi o primeiro caso em que Bart Blake trabalhou… na época, ele escavou a propriedade dos Carlswell, então, eu acho que ele sabia o que estava procurando!

Velma ficou em silêncio, e após uma longa pausa, ela sussurrou: “Jinkies”.

Velma: Você acha que ele descobriu que nós desenterramos um livro em São Francisco?

Fred: Com certeza!

Velma: Mas como ele descobriu? Será que ele nos viu invadindo a propriedade?

A respiração de Velma estava irregular. Pelo teor jurídico da pergunta, ele entendeu que Velma estava tentando descobrir qual tipo de crime o Sr. Blake poderia processá-la.

Fred: Acho pouco provável…

Velma: Então, como ele descobriu? Será que ele sabe dos tecidos que achamos?

Fred usou o silêncio de Velma para refletir brevemente, e logo se lembrou que ele mesmo contara para Daphne — e, provavelmente, ela contara para o pai. Ele sentiu pânico, mas também se sentiu constrangido de revelar a verdade para a amiga.

Velma: Fred, é sério, precisamos saber o que ele sabe, para contratarmos bons advogados e fazermos uma boa defesa!

Fred não conseguia fazer as palavras saírem de sua boca. Sua mente estava ocupada demais repetindo a frase que ele dissera a Daphne: “Se o FBI descobrir, eu vou saber que foi você que contou”. Felizmente, Velma chegou a uma conclusão plausível.

Velma: Já sei! Lisa! Foi a Lisa Genau, com certeza! Ela disse mesmo que denunciaria às autoridades… foi tudo culpa minha! Eu não acredito que pude ser tão burra a ponto de confiar naquela vadia!

Fred ouviu e concordou — mesmo discordando do que Velma dizia.

Fred: Não é hora de se culpar. Como você mesma disse, precisamos nos defender. E, também, nos proteger, afinal, o FBI é o menor dos nossos problemas nesse momento.

Velma concordou, e passou os minutos seguintes falando coisas nas quais Fred não conseguiu prestar atenção. Quando ela desligou, ele sentiu alívio, por Velma não ter desconfiado que ele contara a Daphne, e também um imenso vazio, por saber que, possivelmente, Daphne o enganara. “Ela não é o que você pensa, cara. E essa é mais uma evidência para você cair na real e parar de perder tempo com tudo isso”, Fred concluiu, enquanto fechava as abas de pesquisa do navegador. Ele remoeu a decepção com Daphne Blake e o medo de ser condenado pela justiça enquanto fazia a barba. Quando terminou de se arrumar, encontrou uma solução para os problemas e contatou Velma.

Fred: Fique calma, eu tenho um plano. Há um exemplar do livro enterrado na casa onde minha mãe desapareceu, e vou procurá-lo hoje mesmo. Se Bart nos interrogar, entregamos o livro e o tecido que encontramos em São Francisco. Se entregarmos as provas intactas ao FBI, iremos nos livrar de vários crimes, não?

Segundos após Fred clicar no botão “enviar”, o aplicativo de mensagens sinalizou que Velma estava digitando uma longa resposta. Pela demora em receber a mensagem, Fred percebeu que seu plano não inocentaria a Mistério S/A — e Velma estava argumentando juridicamente sobre isso. Depois de alguns minutos, uma mensagem simples apareceu.

Velma: Tecnicamente, não. E, considerando que estamos sendo vigiados, essa é uma ideia bem estúpida. Mas eu não consigo pensar em um plano melhor nesse momento, então… por favor, seja discreto.

Fred respondeu com um emoji positivo e, em seguida, caminhou até a garagem para pegar algumas ferramentas. Ao colocar as pás no porta-malas, ele sentiu um prazer sádico em saber que, se ele encontrasse o maldito livro, o responsável pelo desaparecimento de sua mãe morreria de maneira horrível. Mas, no minuto seguinte, a lembrança da voz doce de Daphne o fez cair na real: “Não podemos fazer isso, vingança não é justiça!”. Então, Fred fechou o porta-malas com força e suspirou. Ele não podia fazer aquilo. Matar não traria Hannah de volta, nem resolveria todo o mistério. E seria muito mais proveitoso para a justiça ter o criminoso vivo. Além do mais, seria uma atitude totalmente estúpida. A cidade era muito pequena, e certamente, as pessoas descobririam e o denunciariam. Felizmente, no mesmo momento em que Fred desistiu de ir à casa da Rua Myrna, ele se lembrou da sugestão de Daphne: “procurar o livro no local onde Otto Reinier desapareceu”. E isso o motivou a voltar para o computador.

“O caso Otto Reinier refere-se a um misterioso evento ocorrido em Cartersville, Georgia, em 26 de setembro de 1962, envolvendo quatro crianças, que culminou no desaparecimento do garoto Otto Reinier e, supostamente, de sua irmã Anna…”, a IA escreveu. Fred teve um insight ao ler o nome da cidade, e imediatamente se lembrou da biografia de Bart Blake. Após pesquisar novamente o nome do Sr. Blake, ele confirmou que ele era da mesma cidade de Otto — e ele tinha apenas seis anos quando Otto desapareceu. “No fim da tarde do dia 26 de setembro de 1962, Otto estava treinando arremessos de baseball com dois amigos. Sua mãe Peggy Reinier chamou os garotos para um lanche e os atraiu até o porão. Cerca de meia hora depois, a vizinhança ouviu gritos vindos da casa dos Reinier, e ao saírem na rua, se depararam com um dos garotos coberto de sangue, pedindo ajuda. Quando a polícia chegou, ela se deparou com velas, sangue, e uma misteriosa mancha no assoalho do porão. Também havia um menino deitado sobre o assoalho, inconsciente. Peggy Reinier foi encontrada dois dias depois, caminhando em uma estrada. Ela estava em surto psicótico e tinha as mãos sujas de terra e de sangue. Otto Reinier nunca foi encontrado. De acordo com um dos garotos, a pequena Anna Reinier também estava no porão e desapareceu junto com o irmão…”. Fred sentiu seu coração bater mais rápido a cada palavra que lia. “Qual o nome dos garotos que estavam com Otto e Anna Reinier?”, Fred digitou rapidamente. “De acordo com o Serviço de Proteção à Testemunha, a identidade das crianças envolvidas no incidente em Cartersville foi mantida em sigilo”, respondeu a IA, fazendo Fred suspirar de frustração. Então, ele recorreu aos sites de busca de imagens — e novamente se frustrou, pois encontrou as mesmas imagens antigas de sempre: o local do desaparecimento e a foto do garoto. Ele só conseguiu um resultado relevante quando pesquisou pelo nome “Peggy Reinier”. “Em hospital psiquiátrico, mãe de Otto Reinier confirma que usou os filhos em ritual”, dizia a manchete de um jornal local muito antigo, datado de 1963. “Peggy Reinier encontrada morta no Sanatório Garrison”, dizia outramanchete do mesmo ano. “Peggy Reinier foi executada com 13 tiros, diz xerife de Cartersville”, dizia a última notícia que Fred encontrou. Depois de ler atentamente todas as notícias sobre a mãe, Fred acessou o site do jornal para pesquisar sobre o garoto. “Cartersville em choque após incidente macabro com 4 crianças”, dizia uma manchete do dia 27/09/1962, que trazia fotos dos três meninos e da garotinha. A foto era em preto e branco e de péssima qualidade, mesmo assim, Fred estremeceu ao reconhecer os traços de Bart Blake em um dos meninos. “Cartersville nunca mais será a mesma”, dizia a próxima manchete, que trazia fotos diferentes das mesmas crianças — e, novamente, Fred notou uma semelhança incrível entre o Sr. Blake e um dos garotos. “ “Eu vi o demônio levar os meus amigos”, diz garoto que sobreviveu ao ritual de Peggy Reinier”, era o título de outra matéria, e logo abaixo dela, havia uma foto grande e nítida de um menino que, claramente, era Bart Blake.

Fred: Velma, sou eu mais uma vez, nós temos outro problema… eu não sei o que Bart Blake descobriu sobre nós, mas eu descobri por que ele sabe sobre o livro. Ele foi uma vítima! Ele sobreviveu a um ritual em 1962 na Georgia!

Ao terminar a mensagem de áudio, Fred encaminhou as fotos e notícias que encontrara. Em seguida, ele clicou na última notícia, de maio de 1977: “Quinze anos após incidente em Cartersville, sobreviventes continuam com sequelas”. Nela, o jornalista relatava que um dos sobreviventes continuava em estado vegetativo, e o outro — aquele que Fred acreditava ser o Sr. Blake — tinha sangramentos nasais frequentes. Imediatamente, Fred se lembrou do que acontecera com Daphne naquela noite. Pai e filha haviam sobrevivido ao mesmo acontecimento macabro e, certamente, aquilo não era uma simples coincidência. Enquanto terminava de vasculhar outras notícias a respeito do caso Reinier, Fred lutou contra o impulso de contar a Daphne sobre sua descoberta. Ela merecia saber. Na verdade, ela deveria saber, afinal, os Blakes tinham algo especial que os tornava inatingíveis. Então, ele pegou o celular… e paralisou. Era um assunto idiota. E ele, era só um idiota que criava assuntos idiotas… para poder falar com ela. Por sorte, ao olhar no relógio, Fred desistiu. Afinal, ele tinha problemas demais para consertar, e não poderia perder tempo e energia criando um novo problema. Porém, no instante seguinte, um problema fez seu celular vibrar. Aquele lindo problema de cabelos ruivos.

Daphne: Não foi culpa sua, Fred. Na verdade, eu gostaria de te agradecer por me ouvir e não me julgar. Eu me sinto bem melhor por ter dividido esse segredo com alguém.

Fred contemplou a mensagem por um momento e sorriu. Como um passe de mágica, toda a decepção que ele sentira se dissolveu, e ele sentiu um orgulho tolo de dividir um segredo com ela.

Fred: Ainda iremos conversar hoje, na Rua Fleet, 42, às 9 pm? Eu e meus amigos descobrimos algumas coisas sobre o livro.

Ele digitou a resposta por impulso, sem pensar nos riscos e consequências daquele encontro. Afinal, Daphne Blake era um problema que ele gostava de lidar.

Daphne: Claro! Nos vemos à noite!

A conversa acabou rápido demais, e levou o sorriso de Fred com ela. Novamente, surgiu o impulso de contar sobre o passado de Bart… mas ele mesmo não sabia como contaria a ela. Enquanto se preparava para ir à faculdade, ele pensou em diversas estratégias e, por fim, digitou a melhor delas.

Fred: Você pesquisou sobre o local onde o garoto desapareceu?

Ele sabia que ela era inteligente o bastante para descobrir a verdade sozinha. Uma mulher como ela não precisava de ajuda, muito menos da ajuda de um cara como ele.

Daphne: Ainda não. Podemos fazer isso hoje à noite?

A estratégia dele gerou um resultado surpreendente, e Fred não conseguiu esconder o que sentiu. Seus dedos ansiosos rapidamente digitaram uma confirmação, e Daphne respondeu com a figurinha de um gato mandando beijos. Era só uma figurinha… mas significava tanto!

Condado de Marin

9 de janeiro de 2023

8:30 am

Ao se deparar com a tela do navegador em branco, Shaggy falou um palavrão e apertou a tecla “Enter” dezenas de vezes. Em vão. A página inicial do True Crime Forum não carregava de jeito nenhum. Quando percebeu que era inútil insistir, ele fechou o laptop com raiva e amaldiçoou o fraquíssimo sinal de wifi do motel vagabundo em que ele se encontrava. Scooby-Doo se assustou com o barulho e se aproximou de seu tutor, tentando entender o que estava acontecendo.

Shaggy: Não se preocupe, Scoob, é só a internet!

Shaggy sorriu e deu um tapinha nas costas do cão. Em seguida, ele se levantou e retirou as diversas embalagens de comida que estavam espalhadas sobre a cama. Ao pegar um pacote de papel, ele estremeceu:

Shaggy: ZOINKS!

Havia um bilhete escrito no pacote: “Shags, é a Velma, por favor, venha me buscar no hospital às 6 am, estamos encrencados e precisamos voltar para casa!”. Ele recebera um grande pedido de comida gratuitamente, rasgara o pacote, comera tudo o que havia dentro… e sequer lera o recado de quem havia lhe enviado tudo aquilo. Shaggy se sentiu incrivelmente estúpido, e entrou em pânico por imaginar o quanto Velma deveria estar zangada com ele. “Tipo, relaxa, cara, ela nem te ligou”, ele pensou, tentando se acalmar. “E olha bem esse 6, parece um 8! Tipo, relaxa, ela estava pedindo para buscá-la às 8 am!”, ele concluiu. Enquanto juntava desesperadamente seus pertences, ele viu Scooby-Doo bater a pata insistentemente na tela do seu celular, que estava sobre a cama. Ao se aproximar, ele percebeu que Scooby recusara uma ligação de Velma — a 27ª ligação que ela fizera. Shaggy se desesperou e, imediatamente, afastou o cão e ligou para a sua namorada.

Velma: EU ESTAVA PRESTES A REGISTRAR O SEU MALDITO DESAPARECIMENTO NA POLÍCIA! ONDE VOCÊ ESTAVA?

Shaggy gaguejou ao tentar se explicar, pois sentiu vergonha de dizer a verdade. No momento em que ele finalmente encontrou uma boa resposta, Velma o interrompeu rispidamente.

Velma: VENHA ME BUSCAR AGORA!

Antes que ele pudesse responder, Scooby-Doo bateu a pata novamente na tela, encerrou a ligação, e sorriu satisfeito para o seu tutor — orgulhoso do que fizera. Shaggy jogou todos os seus pertences dentro de uma mochila — inclusive os itens do frigobar —, deixou o valor da diária em cima da cama e correu. Confuso, Scooby-Doo abocanhou algumas notas e seguiu o seu dono.

***

Velma estava de braços cruzados quando Shaggy a encontrou na sala de espera do hospital. Desconcertado, ele a beijou rapidamente nos lábios e a abraçou, mas ela não retribuiu nenhuma das demonstrações de afeto. Sem coragem para perguntar qualquer coisa, ele a conduziu até o carro em silêncio. Ao abrir a porta da van, Scooby-Doo explodiu de alegria ao vê-la, e pulou nela desengonçadamente até derrubá-la no chão e fazê-la gritar. Envergonhado, Shaggy conteve o cachorro, e ajudou a namorada a se levantar.

Velma: CEM DÓLARES, NORVILLE! VOCÊ ME FEZ PERDER CEM MALDITOS DÓLARES USANDO AQUELA SALA DE ESPERA POR QUASE TRÊS HORAS! ONDE DIABOS VOCÊ ESTAVA? A COMIDA FOI ENTREGUE ÀS 6:10 DA MANHÃ!

Velma cruzou os braços novamente, e encarou o namorado, exigindo uma explicação. Shaggy desviou o olhar e tentou esconder suas mãos trêmulas. Desesperado, Scooby-Doo andou de um lado para o outro, pensando em algo para acalmar Velma. Quando se deu conta de que ainda guardava dinheiro em sua boca, ele cuspiu as notas nos sapatos de Velma, sentou-se e sorriu. Velma suspirou ao ver os dólares cheios de saliva sujando seus sapatos, e quando Shaggy surtou ao se dar conta de que seu cachorro havia roubado o dinheiro do pagamento da estadia, ela começou a rir. Após recuperar as notas mastigadas, Shaggy conduziu Scooby de volta à van e abriu a porta do passageiro para a namorada. Velma analisou o veículo antigo e sujo com asco, e sem ter outra opção, ela se alojou ao lado do motorista.

Velma: Você veio com a van de pesca do seu pai… é sério, Norville?

Shaggy: Desculpe por isso… tipo, destruíram o meu carro, e eu não tive outra opção.

Shaggy não olhou para ela, mas o tom de voz dele denunciou que ele estava irritado. Ele era incapaz de descontar sua frustração em sua namorada, mesmo quando ela era culpada por tal emoção. Velma sorriu timidamente e apertou uma das mãos dele com ternura.

Velma: Eu sei. Desculpe por isso. E pelo seu carro. Eu juro que irei pagar.

Shaggy sorriu e beijou a mão dela.

Shaggy: Tipo, relaxa. Sem pressa. Você deve ter uma dívida gigantesca com o hospital nesse momento…

Velma: Bem, na verdade, não. Bart Blake pagou tudo, e é por isso que precisamos sair daqui agora mesmo… estamos encrencados…

Enquanto olhava para ela com um olhar assustado, Shaggy tateou o volante em busca das chaves. Quando encontrou, ligou a van e saiu em alta velocidade.

Velma: …e não é só isso! Fred descobriu que aqueles homens que estavam me vigiando são… bem… há algo muito errado com eles! Eles sempre aparecem nas cenas de crimes ocorridos em datas-palíndromo… há mais de cem anos!

Shaggy arregalou os olhos e aumentou a velocidade, enquanto afivelava o cinto de segurança.

Shaggy: Tipo, vamos passar em São Francisco. Precisamos falar com a Lisa, ela precisa apagar aquele post!

Velma concordou, e no mesmo momento, ligou para Lisa Genau. Após muito chamar, ela encerrou a chamada e tentou novamente. Ela tentou contatar a bibliotecária mais de vinte vezes, e nunca foi atendida. Então, Shaggy sugeriu que ela acessasse o True Crime Forum para verificar quantas respostas havia no post de Lisa. Velma digitou o endereço no navegador e se deparou com a mesma página em branco que Shaggy encontrara horas atrás. Ela insistiu, mas a página inicial do Fórum não abria. Ao procurar “True Crime Forum” no site de buscas, ela se deparou com notícias informando que o site fora tirado do ar nesta manhã pelo FBI.

Velma: JINKIES!

A exclamação assustou Shaggy. Velma leu as manchetes em voz alta, e depois, leu todas as matérias que encontrou a respeito até chegarem em São Francisco. Infelizmente, o fim repentino do True Crime Forum não foi a única notícia impactante que eles receberam. Quando Shaggy estacionou a van perto da Biblioteca Comunitária, eles perceberam que a porta principal estava fechada e havia dezenas de flores e velas na calçada. Entre as diversas homenagens e orações, havia uma foto de Lisa, e logo abaixo dela, um cartaz escrito: “Em memória de Lisa Michelle Genau”.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.