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8 Capítulo 8 – Péssimas decisões em série


Capítulo 8 – Péssimas decisões em série

Condado de Marin, 8 de janeiro de 2023.

4:00 pm

Velma sentiu uma dor intensa na testa. Ao abrir os olhos, ela percebeu que estava de cabeça para baixo, e seu rosto pressionava fortemente a direção do carro. As lentes de seus óculos estavam rachadas e, ao tentar se mover, viu que seus braços e pernas estavam presos na lataria do veículo. Ela entrou em pânico e tentou pedir socorro, mas o mínimo esforço de gritar fez sua cabeça doer violentamente até lhe fazer perder a consciência. Quando recuperou os sentidos novamente, sentiu-se forte o bastante para retirar seus dois braços dos destroços do painel do carro, porém, não teve fôlego para vocalizar outro pedido de ajuda. Após vários minutos se esforçando para retirar suas pernas das ferragens, ela finalmente conseguiu sair pela janela do carro.

De pé, ela viu que o outro veículo envolvido no acidente havia capotado e caído em um barranco e, aparentemente, todos os seus ocupantes estavam lá dentro. Desesperada, ela engatinhou para dentro do seu carro, em busca de seu celular. O esforço lhe fez sentir uma dor de cabeça intensa e náuseas, mesmo assim, ela persistiu em sua busca, pois sabia que qualquer demora poderia custar a vida dos ocupantes do outro veículo. Com dificuldade, Velma conseguiu encontrar sua bolsa em meio ao banco traseiro esmagado e, imediatamente, trouxe-a para fora. A luz do sol revelou que a capa e a estrutura do aparelho estavam queimadas. Misteriosamente, o celular ainda estava funcionando, e a tela inicial mostrava o horário 4:14. Sem demora, Velma discou o número 911 e pediu ajuda. No meio da ligação, ela ouviu gritos por socorro, e ao olhar em direção ao carro acidentado, ela viu um casal acenando para ela. Velma correu em direção a eles com a intenção de ajudá-los, mas após percorrer alguns metros, ela se sentiu mal e teve que diminuir a velocidade. Quando finalmente chegou, ela encontrou uma mulher coberta de sangue e desesperada, implorando por ajuda para seus três filhos pequenos que estavam desacordados e presos dentro do veículo. O homem não tinha sangue em seu corpo e estava mais calmo, mas exibia a mesma urgência em ajudar as crianças. Velma tentou se espremer pela janela traseira destruída para tentar ajudar, mas a imagem de uma fratura exposta lhe aterrorizou e lhe fez recuar. No mesmo momento, ela ouviu o barulho de sirenes se aproximando, e decidiu retornar à beira da estrada, no topo do barranco, para mostrar o local do acidente à polícia e à ambulância. Porém, no meio do caminho, ela se lembrou do livro e das evidências que achara sobre o caso Mailand, e por isso decidiu voltar ao próprio carro para recuperá-los, antes que a polícia os achasse. Infelizmente, ela achou apenas o pedaço de tecido e a antiga conta de telefone em nome de Herbert Stevins. O livro não estava em lugar nenhum, e não havia um indício sequer de que ele fora destruído durante o acidente. Velma se desesperou diante da possibilidade de ter perdido um exemplar de um livro tão raro, e por isso, usou todas as suas forças para revirar os destroços que obstruíam a parte traseira do carro. Sem querer, uma de suas mãos tocou um pedaço de vidro, e a dor do corte lhe fez recuar.

“Senhorita, somos da equipe de resgate e iremos ajudá-la. Por favor, permaneça onde está!”

A voz masculina do lado de fora do carro fez Velma paralisar. Lentamente, ela levou a mão machucada até o peito e a comprimiu com força, para que o sangue parasse de fluir. Em seguida, ela usou a outra mão para colocar o tecido e a conta dentro da bolsa, para que a polícia não os achasse.

“Senhorita, para a sua segurança, por favor, não se mexa!”

Velma: Eu estou bem! Eu… eu… apenas retornei para pegar a minha bolsa… fui eu que liguei para a emergência.

Ao terminar de falar, Velma se arrastou até sair totalmente do carro, e os paramédicos se afastaram, por perceber que ela não precisava de ajuda. Porém, quando ela se levantou, eles a forçaram a sentar na maca e a levaram para a ambulância, ignorando todas as palavras que ela usou para dizer que estava bem. Quando a ambulância começou a andar, ela pegou o celular dentro da bolsa, para avisar Shaggy sobre o ocorrido. Para a sua surpresa, ao ligá-lo, a tela inicial ainda exibia o mesmo horário de minutos atrás: 4:14.

Blake Manor, Crystal Cove, 8 de janeiro de 2023.

4:45 pm

Nan Blake: Muito obrigada pela sua ajuda, Dr. Hughes! Iremos tomar as providências necessárias para ajudar as garotas.

Daphne viu a mãe sorrir enquanto apertava a mão do psiquiatra. Em seguida, foi a vez de seu pai, que agradeceu ao médico pela avaliação inesperada, em pleno domingo. A ação foi suficiente para fazer Daisy suspirar de raiva e se levantar da poltrona.

Daisy: EU NÃO VOU AO PSIQUIATRA, ESTÁ ME OUVINDO? NÃO VOU! EU NÃO SOU DOENTE! EU SEI O QUE EU VI!

Daisy elevou a voz e apontou o dedo em direção ao tal Dr. Hughes, mas a sua birra adulta não chamou a atenção de seus pais. Daphne foi a única espectadora daquele espetáculo ridículo, e isso enfureceu Daisy ainda mais. Quando o médico finalmente partiu, Bart fechou a porta e, imediatamente, o sorriso e a simpatia de Nan desapareceram.

Nan: Se vocês me fizerem perder mais um segundo com essa maldita história, eu interno as duas em uma clínica psiquiátrica! Eu fui clara? Deveriam se envergonhar! As duas! Mobilizamos o FBI por causa de um delírio! E, no fim, era só uma alucinação causada por alguma porcaria que vocês ingeriram em uma merda de festa de faculdade!

Daisy: NÃO FOI UM DELÍRIO, MÃE! NÓS NÃO USAMOS NADA! FOI REAL!

Nan: Isso é o que iremos descobrir amanhã, quando o Dr. Hughes avaliar vocês duas no hospital Darrow!

Daisy: EU NÃO ESTOU DOENTE, MERDA! EU NÃO VOU AO MÉDICO!

Bart: Nan, Daisy, parem imediatamente! Não quero mais ouvir uma palavra sobre isso! Tudo não passou de um grande mal-entendido, assunto encerrado!

Como uma adolescente contrariada, Nan revirou os olhos e cruzou os braços, demonstrando insatisfação. Daisy não conseguiu conter a sua indignação, e continuou a falar.

Daisy: Você coloca rastreador nos nossos carros e controla cada passo de nossas vidas, mas não vai sequer fazer um retrato falado do homem que eu vi aqui? Inacreditável, pai! Você dedica sua vida a estranhos, e quando se depara com um crime envolvendo a própria filha, você nem se importa!

Daisy não elevou a voz, mas exagerou no drama e no peso de cada uma de suas palavras. Ao invés de se comover com a acusação, Bart apenas suspirou e segurou as mãos de Daisy com ternura.

Bart: Querida, infelizmente, eu não posso me importar com mentiras. Quando você e sua irmã decidirem me contar a verdade sobre tudo isso, talvez eu me esforce um pouco mais para ajudá-las.

Bart terminou a frase olhando fixamente para Daphne, e em seguida se retirou. Daisy gaguejou e tentou dizer algo para continuar a discussão, mas o pai não lhe deu atenção e ela descontou sua frustração em um olhar inquisitivo, direcionado à irmã mais nova. Sentindo todos os olhares e sentimentos ruins em si, Daphne estremeceu. O tom amargurado e, ao mesmo tempo, ameaçador das palavras de seu pai fez seu coração acelerar. Temendo que Daisy e Nan continuassem o assunto, Daphne correu para o seu quarto, e ao chegar, trancou a porta. “Chega, Daphne, você já foi longe demais, hora de parar”, foi o primeiro conselho que ela deu a si mesma, para se convencer a abandonar aquela vida dupla. “Além do mais, a sua vida é maravilhosa! Você é famosa, qualquer garota gostaria de estar no seu lugar, você odiaria estragar tudo isso!”, ela acrescentou, e ao terminar o conselho, acessou a própria conta do Instagram.

Mesmo sem postar algo autoral há quase 2 dias, havia milhares de comentários em suas fotos. A maioria das mensagens expressava apoio e preocupação com seu estado de saúde. Até mesmo o conteúdo clichê postado por suas assessoras havia engajado, e contava com milhares de interações. Durante vários minutos, Daphne se distraiu lendo e respondendo algumas postagens de seus fãs, e ao perceber que seria impossível dar atenção a todas as pessoas que lhe escreveram, ela decidiu gravar um vídeo para mostrar que estava bem. Ela falou para a câmera do celular durante três minutos, sem palavras ensaiadas e com pouca maquiagem. Calmamente, explicou que se sentiu mal enquanto estava a caminho do shopping, desmaiou, e por isso foi hospitalizada para fazer alguns exames. Ao fim, ela agradeceu toda a preocupação e todas as mensagens de carinho que recebera, e prometeu continuar com seus conteúdos sobre moda e beleza em breve. Poucos minutos após o vídeo sincero aparecer em seu Instagram, o número de mensagens duplicou. Ela era uma celebridade, e todos tinham simpatia por ela. O apoio em massa fez Daphne sorrir e se sentir aliviada. Aquela era a prova empírica de que era melhor ser a famosa influencer Daphne Blake do que a clandestina cherryred. Deslumbrada, ela interagiu com seus seguidores por um tempo, até o momento em que uma mensagem privada apareceu em seu perfil. Ao abri-la, o coração de Daphne acelerou. Era Alice May, noiva de Fred Jones. Alice enviou algumas fotos que mostravam Daphne coberta de sangue e inconsciente na sala de emergência, bem como imagens do monitor de sinais vitais, e do prontuário médico que atestava sua morte às 8:38 do dia anterior. Nas duas últimas fotos, Daphne aparecia ao lado de seus pais e de agentes do FBI em um corredor do hospital Darrow, e Fred Jones estava ao fundo, segurando a sua bolsa. Se não bastasse o pânico causado por imagens comprometedoras de um episódio que ela queria esquecer, Daphne ainda sentiu o peso de cada palavra intimidatória que Alice escreveu em uma breve ameaça:

“Querida Daphne,

Adorei o seu vídeo sincero sobre o seu sumiço das redes sociais! Pena que tenho provas convincentes de que você está mentindo. Eu sei que você esteve com meu noivo na noite de ontem, e algo muito grave aconteceu com você, tão grave que você mesma quer esconder. Será que as pessoas ainda te apoiariam se elas soubessem disso? Seria uma pena perder toda essa fama, já que fama é tudo o que você tem. Por isso, tome cuidado. Essas fotos podem aparecer nos noticiários de celebridades enquanto você estiver em um encontro com um homem comprometido.”

O susto demorou a passar, e quando passou, todo o medo se converteu em raiva. Daphne digitou várias respostas raivosas por impulso, mas apagou todas elas antes de enviar, temendo que Alice as usasse para difamá-la. Afinal, a fama não era tudo o que ela tinha, mas era um bem valioso, pelo qual ela deveria prezar. Sem saber como reagir, ela deixou o quarto e procurou Daisy, para expor o que Alice havia feito com ela. Encontrou a irmã na academia da mansão, descontando em uma esteira toda a raiva que sentira horas antes, com o veredicto do psiquiatra contratado pelos pais.

Daphne: OLHA SÓ O QUE A SUA AMIGUINHA ACABOU DE ME MANDAR! QUEM ELA PENSA QUE É PARA FAZER UMA AMEAÇA NOJENTA DESSAS?

Sem querer, a raiva foi liberada em voz alta. Mesmo diante da atitude enérgica da irmã, Daisy tirou os fones calmamente e a olhou com desdém. Daphne ficou furiosa com o desprezo que recebeu, e mostrou a mensagem de Alice na tela do celular, esperando que a irmã mais velha lhe desse razão. Depois de ler, Daisy revirou os olhos e minimizou os sentimentos da caçula.

Daisy: Hmmm… talvez ela seja só uma mulher indignada com as mentiras que uma influencer famosíssima conta na internet?

Daphne: MENTIRAS? QUANDO FOI QUE EU MENTI? COMO VOCÊ SE ATREVE A FICAR DO LADO DESSA PSICOPATA?

Sem dizer uma palavra, Daisy mostrou a tela do próprio celular para a irmã, e nela havia o vídeo de Daphne explicando que se sentira mal enquanto estava a caminho do shopping.

Daphne: O que há de errado no vídeo que eu postei?

Daisy: Ah Daphne, me poupe, você estava em um subúrbio em Riverdale, todo mundo sabe disso! Você chegou ao hospital nos braços de Fred Jones, sangrou até a morte, voltou à vida da mesma maneira misteriosa como morreu, e você não tem nada a dizer sobre isso?

Daphne: E o que eu poderia dizer? Nem os médicos sabem o que aconteceu ontem! Por que eu saberia?

Daisy: Ah, não? Você não sabe de nada? Então por que mentiu para o papai e para o FBI sobre a sua localização? Por que diabos você estava em Riverdale, e por que não mencionou isso no vídeo?

Daphne: E por que eu deveria mencionar? Isso não é da conta de ninguém! Não muda nada do que aconteceu, e não dá a Alice o direito de me ameaçar!

Daisy: Mas dá a ela o direito de querer saber a verdade, não? Se o seu noivo levasse uma mulher ensanguentada para a sala de emergência, surtasse com a morte dessa mulher e ainda escondesse os pertences dela do FBI, você também não iria querer saber o que está acontecendo?

Daphne sentiu tanta raiva que, parte dela, invadiu seus olhos, na forma de lágrimas. Ela tentou argumentar, mas lhe faltaram palavras. Daisy continuou lhe encarando com desdém, sem se importar com as emoções ruins que ela demonstrava. Sem conseguir responder adequadamente, ela resumiu toda sua indignação em uma frase.

Daphne: Eu já entendi. Você está do lado dela.

Daisy: Eu estou do lado da verdade, Daphne. Assim como o papai, a mamãe, o FBI, e a Alice. E infelizmente, esse não é o lado que você e Fred Jones escolheram.

Ao terminar, Daisy colocou novamente os fones de ouvido, sinalizando que não iria continuar aquela discussão. O desprezo doeu em Daphne, e ela se retirou. Ao subir as escadas em direção ao seu quarto, ela viu seu pai abrir a porta e apertar a mão do xerife Stone. Sem demora, o xerife disse que Emmanuel Raffalo estava pronto para ser interrogado, e Bart disse que a equipe de São Francisco chegaria em breve. O barulho dos passos de Daphne fez Bart olhar para ela por um momento, e pelo olhar, ela percebeu o quanto o pai estava decepcionado.

Novamente em seu quarto, Daphne abandonou o celular em cima da escrivaninha e jogou seu corpo na cama. Ela ruminou todos os sentimentos ruins por algum tempo, em silêncio, olhando para o teto, e sem saber como reagir. Após arquitetar diversas narrativas fantasiosas para explicar os fatos, Daphne suspirou. A mentira era exaustiva, e seria ainda mais cansativo mantê-la. Infelizmente, para encerrar aquele assunto, não havia boas alternativas além de dizer a verdade. Por outro lado, não havia como dizer toda a verdade. Apesar de benéficas, as coisas que ela fazia eram totalmente ilegais. Cherryred cometia crimes federais e ela sabia disso, e se ela assumisse tudo, sofreria consequências muito piores do que rejeição e cancelamento. Então, Daphne decidiu contar apenas uma parte dos fatos que ocorreram no dia anterior. Seria mais fácil suportar o peso de toda a verdade envolvendo sua identidade secreta se ela se livrasse de uma pequena parcela dos fatos. E a parcela escolhida, obviamente, foi a mais inofensiva: sua localização na noite anterior. Se ela assumisse que esteve na casa de James Arthur, teria a confiança de sua família de volta e todos os questionamentos acerca do incidente cessariam. Por isso, com um pouco de coragem, ela caminhou até a sala onde seu pai e o xerife Stone estavam, e entrou sem bater.

Bart: …não há dúvidas que Raffalo é um membro da seita que…

Ao ver a filha na porta, Bart parou de falar, e a encarou com fúria. O xerife também a olhou de maneira interrogativa, sem entender por que ela havia feito aquilo. Daphne ficou envergonhada da própria atitude, e tratou de se explicar antes que o pai lhe desse uma bronca pela falta de educação.

Daphne: Desculpe, pai… eu… eu deveria ter batido… mas…eu… eu estou um pouco nervosa e preciso te contar uma coisa sobre ontem à noite… eu não quero mais mentir sobre isso…

As palavras dela fizeram a expressão facial de Bart mudar magicamente, e toda a fúria desapareceu. Sem dizer uma palavra, o xerife Stone caminhou até a porta, sinalizando que deixaria os dois sozinhos, mas Daphne o impediu.

Daphne: Não, xerife, o senhor pode ficar… você também precisa saber.

O pedido fez o rosto de Bart mudar novamente, e demonstrar certa preocupação com o que iria ouvir. Com os olhares voltados a ela, Daphne suspirou e, com alguma coragem, começou a falar.

Daphne: Bem… eu queria dizer que não fui sincera sobre o que fiz ontem à noite. Eu não fui ao shopping, nem a um encontro, eu… eu… eu fui a casa de James Arthur em Riverdale.

Bart e o xerife Stone não disseram uma palavra, mas havia espanto nos olhos deles. Bart suspirou e apoiou a testa em uma das mãos, em uma clara expressão de decepção, logo em seguida, encarou a filha novamente, esperando que ela continuasse. Daphne sentiu cada centímetro de seu corpo tremer de medo, e não conseguiu dizer mais nada. Então, Stone, o mais emocionalmente estável dali, continuou.

Bronson Stone: Por que você fez isso, querida? E o que aconteceu com você?

Daphne: Eu… não sei… eu… ouvi as pessoas comentando sobre o caso James Arthur e Molly Becker, e… fiquei curiosa… então… eu decidi ir até lá dar uma olhada no local, e fazer algumas fotos e vídeos para o meu TikTok, mas as coisas não saíram como eu imaginei e… quando eu me dei conta de que havia tomado uma péssima decisão, já era tarde demais… acho que inalei algum fungo ou alguma coisa daquele lugar, porque, de repente, eu me senti muito mal e…

Daphne não conseguiu segurar as lágrimas, e terminou a frase com um choro desesperado. Ao ouvir a filha, Bart fechou os olhos e suspirou com força, tentando conter o impacto emocional que aquela confissão lhe causou.

Bart: Mas que droga, Daphne! Você invadiu o local de uma investigação federal para fazer vídeos? E ainda colocaria tudo na internet? Onde estava com a cabeça? Você sempre diz que não é mais uma garotinha, mas se comportou como uma adolescente inconsequente!

Bart tentava controlar o tom de voz e o peso das palavras, para não ofender a filha. Entre uma frase e outra, deixava parte da raiva escapar na forma de suspiros. Mesmo assim, Daphne chorava sem parar devido a culpa que sentia. Novamente, o xerife era o único emocionalmente estável daquela sala, e por isso, ele interveio de maneira sensata e profissional.

Bronson Stone: Calma, querida, eu preciso que você se acalme. Eu fico feliz que você tenha confessado o que fez, não importa quão errado seja…

Bart: VOCÊ VAI AGORA MESMO REGISTRAR SEU DEPOIMENTO NA DELEGACIA! EM SEGUIDA, CONVERSARÁ COM OS AGENTES DO FBI QUE ESTÃO CUIDANDO DO CASO, E SOFRERÁ AS CONSEQUÊNCIAS DO QUE FEZ!

Sem querer, Bart elevou a voz e liberou toda a raiva. O choro de Daphne cessou por um momento, mas as mãos dela começaram a tremer incontrolavelmente. O xerife sinalizou para Bart se acalmar, e tentou tomar as rédeas da situação.

Bronson Stone: Creio que o mais sensato a se fazer é manter essa confissão em sigilo. Será melhor para reputação de todos nós, e também para o andamento do caso Molly Becker. A presença da filha do chefe do FBI na cena do crime poderia acabar com tudo o que conseguimos até agora…

Daphne se sentiu aliviada ao ouvir as considerações do xerife e secou as lágrimas. Apesar de zangado, Bart concordou que o sigilo era a melhor opção para o bom andamento das investigações. Mesmo assim, ele impediu Daphne de deixar a sala e exigiu explicações.

Bart: Muito bem, Daphne. Eu preciso que você fale tudo o que viu e tudo o que viveu na casa de James Arthur.

Daphne respirou fundo e calmamente contou que esteve na casa com o intuito de fazer vídeos para suas redes sociais. Porém, ao contrário do que ela pensou, a verdade não lhe trouxe paz, tampouco trouxe de volta a confiança do seu pai. Logo após terminar, Bart a bombardeou com perguntas detalhadas sobre a ordem das ações da filha dentro do imóvel, sobre detalhes dos cômodos da casa e sobre a disposição de portas, janelas e escadas, e Daphne se desesperou. Ela sabia que estava sendo testada. Então, novamente, ela respirou fundo, e tentou responder cada uma das perguntas com calma, mantendo a sua narrativa inicial. O xerife Bronson a ouviu atentamente, e vez ou outra, anotava algum detalhe em uma caderneta. Quando Bart ficou satisfeito com as respostas, ele interrompeu a filha.

Bart: Muito bem. Agora me fale sobre o tal velho que você viu. Ele estava na casa?

Daphne: Eu o vi na casa, mas eu não sei… bem… se ele realmente estava lá…

Bart: Como assim ele não estava lá?

Daphne: Bem… ele apareceu de repente… e depois sumiu… de maneira muito rápida… assim como apareceu e sumiu aqui em casa de maneira inexplicável durante a noite, então… eu não sei se ele era real…

Bart: Então você acha que viu um fantasma?

Bart arregalou os olhos demonstrando incredulidade, e expressou deboche com um sorriso. Daphne se sentiu intimidada pela reação do pai, mas em seguida, o xerife lhe mostrou uma foto na tela do celular dele, provando que acreditava no que ela estava dizendo.

Bronson Stone: O velho que você viu se parece com esse homem, querida?

Bart: Pelo amor de Deus, Stone! Você acha mesmo que era o fantasma de James Arthur?

A risada de deboche de Bart fez o xerife esconder imediatamente a foto do falecido Sr. Arthur, e Daphne se sentiu desconfortável novamente.

Bronson Stone: Sr. Blake, quando não temos nenhuma resposta, precisamos fazer todas as perguntas.

Bart: Discordo! Não precisamos fazer todas as perguntas, apenas as corretas… por exemplo: por que Fred Jones estava na casa de James Arthur com você? Por que ele escondeu os seus pertences? E o que havia dentro da sua bolsa?

Daphne sentiu seu coração acelerar, e gaguejou ao tentar responder. Satisfeito, Bart riu com desdém novamente.

Bart: Está vendo, xerife? Três perguntas corretas.

Daphne: Fred Jones não estava lá! Eu o encontrei na entrada do hospital quando comecei a sangrar, e ele me ajudou.

Bart: Que coincidência encontrar um amigo na porta do hospital, não?

Daphne: Ele não é meu amigo, pai, eu só o vi uma vez!

Bart: E você não acha estranho um desconhecido esconder a sua bolsa dos agentes do FBI? Como ele sabia o que havia lá dentro?

Daphne ficou tão tensa com as perguntas perspicazes do pai que gaguejou ao respondê-las, e ao perceber que se contradizia, calou-se. Porém, seu silêncio durou uma fração de segundo, e ela se revoltou contra todas aquelas injustiças.

Daphne: EU NÃO O CONHEÇO, PAI! O QUE EU PRECISO FAZER PARA PROVAR QUE EU NÃO O CONHEÇO E NÃO ESTIVE COM ELE NAQUELA NOITE? TESTE DE POLÍGRAFO? QUER VASCULHAR MEU CELULAR? VÁ EM FRENTE!

Em uma explosão de raiva, Daphne digitou a senha de seu celular e o jogou na mesa em frente à cadeira onde seu pai estava sentado, esperando que Bart o vasculhasse. Para a sua infelicidade, a primeira mensagem não lida de seu aplicativo era de Fred Jones, e dizia: “Olá Daphne, espero que você esteja bem. Desculpe incomodá-la, mas preciso falar com você a respeito de ontem à noite, sobre um assunto que eu não posso falar por mensagem. Se possível, me ligue”. Bart clicou na mensagem e a mostrou para a filha, enquanto exibia um sorriso triunfante. Envergonhada com a infeliz coincidência, ela arrancou o celular das mãos do pai com raiva e protestou.

Daphne: Pai, não é o que você está pensando! Eu não conheço o Fred Jones, por favor, acredite em mim!

Bart: Não se preocupe, querida, eu sei que o fantasma do velho te enviou essa mensagem só para me fazer duvidar de você

Daphne ficou furiosa com o deboche e deixou sala, batendo a porta logo após sair. Bart suspirou e riu da própria piada. Em seguida, o xerife Stone fez algumas anotações em seu bloco de notas, e Bart o repreendeu.

Bart: Pelo amor de Deus, Stone, o que diabos você está anotando? Não existe uma verdade sequer no depoimento da minha filha! Está claro que ela e esse garoto fizeram algum tipo de besteira… mas nada preocupante a ponto de atrapalhar as investigações acerca de Becker, Arthur e Raffalo.

O xerife Stone ficou envergonhado por ser repreendido, e por isso arrancou o papel cheio de anotações, amassou-o e o jogou no lixo. Bart continuou a falar sobre o interrogatório de Raffalo, e o xerife concordou, sem ouvir realmente o que o chefe do FBI estava dizendo. Enquanto isso, Stone pegou o próprio celular e digitou secretamente uma mensagem para Daphne Blake: “eu acredito em você”.

***

Daphne subiu as escadas descontando toda a raiva nos degraus que pisava. Maldito Fred Jones. Maldito, enxerido e desocupado Fred Jones, que apareceu de repente naquele jardim e tirou sua paz com uma simples foto; Maldito Fred Jones que lhe causou tantos problemas e… salvou a sua vida. E, para piorar, ele ainda se importava com ela. Ao fim dos degraus, Daphne suspirou e toda a raiva se desfez. Maldito Fred Jones, ela sequer conseguia odiá-lo! Ao checar novamente o celular, ela percebeu que ele havia lhe enviado novas mensagens, insistindo nos fatos da noite anterior.

“Bem, eu sei que estou sendo intrometido por insistir nesse assunto, mas… eu adoraria ouvir sobre tudo o que você passou ontem à noite. Parece loucura, mas muitas coisas que você falou fizeram sentido para mim. Então, se você estiver a fim de conversar com alguém sobre isso, pode me ligar. Não importa o quão estranho pareça, eu acredito em você”.

Inevitavelmente, Daphne corou e sentiu seu coração acelerar. Seu peito foi invadido por outro sentimento avassalador, porém, indefinido, e tão confuso que, ao mesmo tempo, tirava-lhe o ar e lhe fazia suspirar. Maldito Fred Jones, que lhe causava emoções estúpidas e incompreensíveis! Envolta por tais emoções, Daphne clicou imediatamente no ícone de telefone e iniciou uma ligação para Fred. Três segundos e uma tentativa depois, o juízo surgiu em sua mente, e lhe fez desistir imediatamente da ligação. Maldito Fred Jones, noivo da doutora psicopata, melhor amiga de sua irmã. Após a dose inicial de juízo, a tempestade de emoções precipitou um enorme arrependimento. Ligar para ele era a única coisa que ela não podia fazer, e foi exatamente o que ela fez. Agora, Alice May e seu próprio pai teriam motivos para acabar com ela. Maldito Fred Jones, que lhe induzia a fazer coisas tão estúpidas. Antes que ela decidisse o que fazer, uma nova mensagem de Fred chegou.

“Eu vi a sua bolsa e preciso falar sobre isso, por favor, me liga”

Daphne entrou em pânico. Ele sabia sobre o livro! Por isso, escondeu sua bolsa? Mas o que Fred sabia? E por que ele escondeu o livro da polícia e do FBI? De repente, os sentimentos confusos se transformaram em medo. De Fred? Não, Fred era um maldito, mas não parecia ser um homem mau. Porém, era assustador que um bom moço como ele soubesse coisas sobre aquele livro macabro. Então, era medo do pai? Que ele lesse aquelas mensagens, investigasse e descobrisse que ela era cherryred? Ou era medo de Fred saber que ela era a cherryred? Daphne não teve tempo de entender o que sentia. No momento seguinte, Fred retornou a chamada e a foto dele apareceu na tela de seu celular. Imediatamente, o medo de Daphne se definiu: ela temia que Alice May descobrisse sobre as mensagens de ligações. Então, em um impulso desesperado, ela recusou a ligação e bloqueou o contato dele, sem piedade. Os sentimentos loucos de antes ficaram sólidos, e pesaram em seu peito, fazendo-lhe sentir remorso. A tristeza pesou logo em seguida, quando ela percebeu que nunca mais falaria com ele. Maldito Fred Jones, que apareceu de repente naquele jardim! E depois daquele momento, ela não teve mais paz… com ou sem ele.

Marin General Hospital, Condado de Marin, 8 de janeiro de 2023

6pm

Mesmo consciente e sem graves ferimentos, Velma foi levada para a sala de emergência às pressas. Ela não resistiu, pois a náusea, a tontura e a enorme dor de cabeça que sentia indicavam que algo sério havia acontecido com ela naquele impacto. Porém, mesmo sendo uma das vítimas, ela sentiu culpa e chorou descontroladamente. Ela havia causado aquele acidente e machucado aquela família, fora os danos materiais que causara a Shaggy, por destruir o carro dele, e as gigantescas despesas médicas que geraria para si mesma. Crianças pequenas poderiam morrer, e ela e o namorado se endividariam. Tudo por causa de uma obsessão infantil e inconsequente por mistérios. O sentimento de arrependimento aumentou quando ela manuseou seu celular e percebeu que as fotos que tirara do livro misterioso estavam totalmente borradas, tornando o conteúdo das páginas ilegível. Todo o esforço que fizera, e todo risco que correra havia sido em vão. Para piorar, a tela inicial do celular ainda exibia o horário 4:14, indicando que, possivelmente, ela também teria que arcar com a compra de um novo aparelho. A sequência de sentimentos ruins só foi interrompida quando uma mensagem carinhosa de Shaggy surgiu na tela, dizendo que ele e Scooby estavam a caminho do hospital.

No mesmo momento, uma enfermeira entrou no quarto do hospital, anunciando que os médicos a esperavam na sala de ressonância magnética. Velma depositou seus pertences em uma bandeja, incluindo seus óculos de armação metálica, e seguiu a mulher por um longo corredor. Porém, no meio do caminho, uma funcionária chamou seu nome, impedindo-a de continuar. Ao olhar para trás, Velma viu a mulher correr em sua direção, com um celular nas mãos.

“Srta. Dinkley, seu celular está tocando, pode ser alguém da sua família!”

Velma agradeceu a gentileza, porém, ao olhar para a tela do aparelho, estremeceu: a foto da bibliotecária Lisa Genau estava logo acima de um número desconhecido. Velma prendeu a respiração ao aceitar a ligação de Lisa, temendo o que ouviria.

Lisa: Alô, Srta. Dinkley? Velma Dinkley? Aqui é Lisa Genau, a bibliotecária que te atendeu na Biblioteca Comunitária horas atrás…

Velma: Oi Lisa, sim, eu me lembro de você…

Após o cumprimento, Velma tornou a prender a respiração. Certamente, o motivo daquela ligação era o livro misterioso.

Lisa: Ótimo. Bem… o motivo dessa ligação é o livro que a senhorita trouxe para a biblioteca, que pertencia ao seu avô e… hmm… isso é bastante desconcertante, mas… eu… preciso te contar que… eu não fui sincera quando eu disse que não sabia o que havia acontecido com ele…

Lisa se calou, esperando algum tipo de reação. Porém, Velma sentiu um medo profundo tomar conta de cada centímetro de seu corpo, e por isso não conseguiu vocalizar nenhuma palavra. Quando percebeu que Lisa também lutava com seus próprios medos e emoções, Velma a encorajou a falar.

Velma: Ok, Lisa, continue, estou ouvindo.

Lisa: Bem… meu Deus, eu nem sei como vou te contar! Eu mesma não acredito que estou falando isso, por favor, não ria de mim e…

Velma: Lisa, o que quer que tenha acontecido com o livro, eu acredito em você! Continue!

Lisa: Bem… no dia em que você o trouxe, eu o levei para o acervo e o cadastrei no sistema… depois, coloquei uma etiqueta magnética nele e… err… eu… eu o abri… porque fiquei curiosa e quis saber do que o livro falava e…

Lisa se calou novamente, e pelos suspiros ouvidos, Velma percebeu que ela estava tensa.

Velma: E…?

Lisa: Bem… eu li algumas páginas… e o deixei aberto na minha mesa, enquanto eu fui buscar um café… e… e…

Velma sentiu seu coração acelerar. Ela sabia exatamente o que ouviria em seguida, pois vivera a mesma situação horas atrás. Mesmo assim, sentiu medo da resposta de bibliotecária.

Lisa: E… por favor, não pense que eu sou louca pelo que vou dizer, nem ache que estou mentindo para esconder o livro de você e te lesar…

Velma: Lisa, o livro desapareceu misteriosamente, né?

A bibliotecária se calou por um momento, em seguida, concordou.

Velma: E antes dele desaparecer, algo muito assustador aconteceu, não?

Lisa concordou de maneira comedida, com medo de dizer exatamente o que acontecera.

Velma: Você viu uma aparição fantasmagórica? Um velho assustador? Com olhos brilhantes?

Lisa: Sim… errr… e eu me assustei, gritei, corri de medo e chamei o segurança que estava de plantão no momento… mas quando voltamos ao acervo, não havia ninguém, e o livro havia desaparecido sem nenhuma explicação… e como eu disse anteriormente, ele tinha uma etiqueta magnética e nenhum alarme apitou, então, não sei explicar como o livro sumiu…

Velma: Era exatamente o que eu temia, Lisa… e agradeço por ter me contado…

Lisa: Como assim “exatamente o que você temia”?

Velma sentiu seu coração acelerar mais uma vez. Ela se sentiu burra por ter falado demais e, portanto, ter que explicar a Lisa o que havia dito. Após um longo suspiro para se acalmar, ela planejou tudo o que diria, e tentou falar de maneira séria, para que a bibliotecária não suspeitasse.

Velma: Bem… é uma longa história de família… que… diz que o fantasma do meu avô aparece toda vez que alguém abre esse livro… eu sei, parece loucura, mas é o que dizem… tudo isso porque, como eu disse, há uma disputa por uma herança, e o livro tem informações cruciais sobre o dinheiro… então, quando alguém abre o livro, o fantasma aparece para afastar os curiosos e evitar que se apossem da fortuna…

Velma estava quase rindo quando terminou de contar a mentira que inventara, pois considerou-a ridícula demais. Felizmente, Lisa levou tudo a sério.

Lisa: E você já tinha visto o fantasma do seu avô?

Velma: Eu? Não, nunca! Eu… eu… não abri o livro quando o encontrei no porão… porque eu já sabia da lenda, então, evitei abrir… tentei ser mais esperta e buscar informações sobre o livro na biblioteca…

Lisa: Então, por que o livro sumiu dessa vez? Se, em outras ocasiões, outras pessoas o abriram e viram o fantasma, porque ele não havia sumido antes?

Velma: Bem… na verdade… ele tinha sumido antes sim… err… toda vez que o fantasma aparece ele some! Ele… ele some por um momento, mas depois reaparece em outro lugar… eu sei que parece ridículo, mas é uma magia antiga do vodu para proteger coisas valiosas…

Velma estava tensa. Sem querer, suas mentiras haviam piorado a situação. Para piorar, as longas pausas de Lisa não demonstravam mais medo ou vergonha, mas sim dúvida.

Lisa: Então você sabe onde ele vai reaparecer?

Velma: Não, não exatamente… da última vez levou anos para acharmos! Como eu disse, depois de quase quarenta anos, nós descobrimos o livro no porá da casa do meu avô…

Lisa iniciou outra pausa longa, e Velma torceu para que ela acreditasse. No entanto, após certa reflexão, ela respondeu de maneira agressiva.

Lisa: Mas o livro não pertencia à biblioteca comunitária? Por que seu avô esconderia uma fortuna em um livro que nem era dele?

Velma entrou em pânico. Lisa fora mais esperta e percebera as inconsistências de sua frágil história. Ela sentiu medo, desespero e raiva ao mesmo tempo, e mesmo assim, teve que manter a compostura, pois a enfermeira e a funcionária que lhe trouxera o celular estavam prestando atenção em suas palavras.

Velma: Olha, Lisa, como eu disse anteriormente, é uma longa, estranha e complicada história de família, e eu adoraria explicá-la em detalhes para você, mas infelizmente, neste momento, eu estou a caminho de uma ressonância magnética porque sofri um acidente de carro. Será que posso te retornar mais tarde?

Lisa respondeu monossilabicamente e afirmativamente, demonstrando descontentamento. Velma não esperou que um novo silêncio iniciasse. Com pressa, ela agradeceu pela confissão e encerrou a chamada sem esperar a resposta da bibliotecária. Em seguida, ela devolveu o celular para a funcionária e agradeceu pela paciência. A enfermeira retomou o caminho pelo corredor e Velma a seguiu. Ao passar por uma fileira de cadeiras, ela viu dois homens olhando fixamente para ela. Ao olhar para o crachá que um deles tinha pendurado no bolso da camisa, Velma leu: “FBI”.

Blake Manor, Crystal Cove, 8 de janeiro de 2023.

6:20 pm

Daphne finalizou sua maquiagem com o rímel que uma marca famosa de cosméticos lançaria em breve. O compilado de vídeos de publicidade que ela deveria fazer para a tal marca deveria ser postado somente no fim do mês, mesmo assim, ela decidiu que era o momento perfeito para começar a fazê-los. A propaganda da nova coleção de maquiagem era uma ótima maneira de focar em sua identidade real e esquecer todos os rastros e estragos que cherryred deixou em sua vida. Além disso, o trabalho era a melhor forma de ignorar duas conversas que ela não queria continuar: o recado do xerife Stone, dizendo “eu acredito em você”, e as postagens do insistente Fred Jones, que mesmo após ser bloqueado no aplicativo de mensagens, continuava a lhe contatar por meio do Instagram. As intenções de Daphne foram bem sucedidas por certo tempo. O vídeo inicial gerou muitos likes, visualizações e compartilhamentos, centenas de pessoas começaram a segui-la e os comentários encorajadores na publicação lhe fizeram sorrir. Porém, por ironia do destino — ou do algoritmo do Instagram —, ela foi forçada a encarar seus fantasmas novamente. Enquanto acompanhava o seu feed, Daphne viu uma publicação do perfil oficial da cidade de Crystal Cove, que mostrava fotos antigas de diversos lugares da cidade.

“Fotos de Crystal Cove do início dos anos 80! Comente e diga se você se lembra dessa época!”. A primeira foto da postagem mostrava uma rua residencial idêntica àquela que Daphne viu durante os minutos em que perdera a vida. “Myrna Street em 1980”, dizia a legenda da foto. O susto tirou os sentidos de Daphne aos poucos. Com o coração acelerado e as pernas fracas, ela foi forçada a se sentar e a respirar fundo para não desmaiar. Quando recuperou um pouco da calma perdida, ela decidiu ver as demais fotos do compilado publicado. Para o seu espanto, as duas últimas fotos mostravam o penhasco de Crystal Cove em 1982. As árvores, as poucas casas, o asfalto precário, a cerca de metal, as placas de sinalização, os postes antigos, cada mínimo detalhe daquelas imagens estava presente na memória vívida do sonho — ou pesadelo? — que ela viveu enquanto esteve sem vida. “Tudo foi real!”, foi a única conclusão plausível que Daphne conseguiu obter após ver aquelas fotos. Mas… como tudo aquilo poderia ser real? Como ela poderia estar em 1982, se nascera em 2002 e estava em 2023? Por outro lado, como seu cérebro poderia sonhar com aquelas imagens, com tanta riqueza de detalhes, se ela nunca esteve naqueles lugares naquela época? Duvidando da própria sanidade, Daphne bebeu um pouco de água para se acalmar. “Daphne, você está ficando louca, você está doente! Primeiro, você desenvolveu dupla personalidade; depois, teve uma alucinação com um velho. Agora, está delirando novamente e vendo coincidências onde não há, você precisa ir a um psiquiatra urgentemente!”, ela disse a si mesma, ofegante. Com as mãos frias e trêmulas, ela tentou iniciar outro vídeo da campanha publicitária, para esquecer aquelas coincidências macabras. “Myrna Street… eu já vi esse nome em algum lugar”, um pensamento intrusivo lhe atrapalhou. Durante vários minutos, ela tentou focar em sua vida e sua carreira, e duelou arduamente contra a vontade incontrolável de investigar sobre tudo o que vira enquanto esteve morta. Mas, em algum momento entre um rímel e um gloss, cherryred venceu e lhe instigou a procurar sobre “Myrna Street, Crystal Cove”.

A primeira tentativa foi bem sucedida. Imediatamente, diversas notícias sobre o caso Hannah Renner apareceram, noticiando que a esposa de Fred Jones Sr. desaparecera em sua residência em Myrna Street, 2002. “Você não está louca, Daphne, isso é real, quantas provas você precisa para entender que isso é real?”, cherryred gritou para a incrédula Daphne Blake, motivando-a a continuar. E Daphne Blake continuou, afinal, ela precisava de novas provas para acreditar definitivamente que seu pesadelo não fora uma mera experiência de quase morte. A primeira delas surgiu quando Daphne pesquisou sobre o rio Patapsco, cuja foto vira em um quadro durante o pesadelo. De fato, o rio existia e atravessava o estado de Maryland, porém, as imagens que viu no Google não eram exatamente como a foto que Hannah lhe mostrara. Novamente, a dúvida e a certeza duelaram pela conquista de sua mente, e a certeza venceu no momento em que Daphne pesquisou novamente sobre “fractais em cenas de crimes”. A foto que mostrava a “Cena do local de desaparecimento do garoto Otto Reinier, 1962” era exatamente a mesma sala de estar em que estivera, com a mesma mobília antiga, o mesmo tapete marrom, e a mesma TV de tubo com estrutura em madeira. Para o seu espanto, o garoto Otto Reinier era uma das crianças pálidas que Daphne vira naquele lugar. Para finalizar, o nome “Herbert Stevins”, que ela ouvira diversas vezes, estampava um obituário no jornal local. A nota de falecimento citava uma hemorragia, e a foto comprovava que ele era, de fato, o homem que ela vira sangrando até a morte. “Satisfeita? É real!”, cherryred a provocou, de forma arrogante. Porém, Daphne não estava satisfeita. Ela precisava de mais. Ela precisava falar com Fred Jones, Bronson Stone e Emmanuel Raffalo.

Hospital Darrow, Crystal Cove, 8 de janeiro de 2023.

07:15 pm

Dr. Hughes: Srta. Nichols, eu te garanto que você é perfeitamente saudável. Você não tem personalidades múltiplas só porque consegue fazer caligrafias diferentes. E a sua vontade de xingar incontrolavelmente não faz de você uma portadora da Síndrome de Tourette. Porém, a sua necessidade constante de vir até o hospital e fingir uma doença me preocupa, por isso, eu recomendo que você inicie a terapia com a Dra. Clark. Infelizmente, é tudo o que eu posso fazer por você. Eu não posso medicá-la se você não tem uma doença real.

A jovem se irritou com o que ouviu e saiu da sala aos berros, acusando o médico de várias coisas. Ao invés de se importar com a atitude da moça, Dr. Hughes, chefe da psiquiatria do Hospital Darrow, calmamente se virou para o estudante que o acompanhava durante a consulta e sorriu.

Dr. Hughes: Mais um transtorno mental diagnosticado pelo Dr. Instagram, filho.

Fred: Na verdade, eu acho que dessa vez foi o Dr. TikTok.

Os dois riram um pouco da situação antes de Fred deixar a sala de consultas para pegar um pouco de água. Ele sabia que estagiar na psiquiatria lhe proporcionaria situações difíceis, mas ele estava disposto a enfrentar todas elas para vigiar o Professor Raffalo. Além do mais, para ele, era mais fácil lidar com jovens hipocondríacas do que com os frequentadores de Crystal Cove Golf Club — incluindo sua noiva. A caminho do bebedouro, Fred aproveitou para passar pelo quarto onde Emmanuel Raffalo estava internado, para checar seu estado mental. Infelizmente, mesmo após horas, o professor ainda estava deitado, e ainda olhava fixamente para o teto, com uma expressão de horror.

Dr. Hughes: Esse homem é um dos maiores gênios da química moderna. É uma pena que tenha terminado nessa ala psiquiátrica, sendo vigiado como um animal de zoológico.

A fala repentina do médico assustou Fred, pois ele imaginava estar sozinho. Para disfarçar o susto, ele fingiu um interesse acadêmico no caso clínico de Raffalo.

Fred: Sim, eu o conheço, ele foi meu professor de ciências há alguns anos. Eu o cumprimentei, mas ele não foi amigável. Eu dei uma olhada no prontuário e vi que ele teve um surto psicótico. O senhor acha que é esquizofrenia?

Dr. Hughes: É muito cedo para afirmar qualquer coisa. Eu não vi qualquer sinal de delírio no comportamento dele. Ele está totalmente lúcido, mas muda de personalidade de repente e se torna agressivo. Eu desconfio que algo esteja o estressando, e o pânico o faz surtar.

Fred: Ele parecia estar aterrorizado e totalmente fora da realidade quando me atacou. O senhor não acha que são delírios de perseguição?

Dr. Hughes: Não, não são delírios. Esse homem sabe exatamente o que fez e sabe que está encrencado por isso, por isso está em pânico. O FBI e a polícia local estão a caminho para interrogá-lo. Ele está metido na morte daquela garotinha, a Molly Becker, sabia? E acho que na morte do amigo dele também, o professor James Arthur… de qualquer forma, fique longe dele. As autoridades irão nos ajudar a entender o quadro clínico, e o que quer que ele tenha feito. E assim poderemos dar a ele o tratamento correto.

O Dr. Hughes deu um tapinha nas costas de Fred antes de se retirar. Fred olhou fixamente para o corpo imóvel de Raffalo por um ou dois minutos, depois, continuou a caminhar até o bebedouro. De volta à sala de consultas, Fred percebeu que o Dr. Hughes iniciava um novo atendimento, desta vez, bem mais urgente que o anterior. Entretanto, naquele momento, a única urgência em sua mente era a resposta de Daphne Blake a todas as mensagens insistentes que ele havia enviado no Instagram após ser bloqueado no aplicativo de mensagens. Quando a curiosidade conseguiu vencer todas as barreiras da razão, Fred teve o impulso inadequado e inconsequente de checar o próprio celular, enquanto o Dr. Hughes conversava com a mãe do paciente. Então, em um golpe único e rápido, sua curiosidade foi nocauteada: Daphne Blake havia lhe bloqueado no Instagram, um golpe baixo e dolorido. E por que aquilo lhe doeu tanto? Ele nem a conhecia! Por que se importar com o desprezo de uma desconhecida? Além do mais, ele fora ridículo, perguntara tantas coisas pessoais que merecera tamanho desprezo. Para uma ação idiota, uma reação idiota, muito simples. Mas ainda doía. E como doía! Afinal, não era um desprezo qualquer, era o desprezo de Daphne Blake, a moça doce que ele conhecera sem querer e… que tinha um segredo envolvendo um livro sombrio e uma morte inexplicável. De repente, a razão lhe deu um tapa na cara e o tirou das ilusões lascivas que nutria por ela. A verdadeira Daphne Blake não era quem ele pensava, muito menos quem 36 milhões de pessoas pensavam. No mínimo, ela era uma adepta de uma seita ocultista, responsável por crimes e eventos macabros. Ou, então, ela sabia da existência da seita e estava tentando fazer parte dela, um crime igualmente grave e condenável. Enfim, Daphne Blake era a própria personificação do demônio, atraente e maligna, portanto, ser bloqueado por ela era uma espécie de salvação. Mas ainda doía. E como doía! Era como se o mal escondido pelas formas físicas perfeitas não atingisse a doçura que ele conheceu… durante cinco ou dez minutos, em uma conversa clichê? Então, a realidade lhe atingiu novamente com sequências de verdades. Daphne Blake era uma ilusão, apenas uma ilusão criada por sua mente doentia e cheia de vontade de escapar da realidade. Mas… era uma ilusão que doía. E como doía.

Dr. Hughes: E então? O que você sugere nesse caso, Jones? Poderia compartilhar conosco as suas anotações?

As perguntas repentinas do médico, acompanhadas por um olhar severo, fizeram Fred entrar em pânico. Ele não ouvira uma palavra sequer do atendimento, então, não sabia o que dizer. Desconcertado, ele colocou o celular sobre a mesa e tentou se explicar.

Fred: Desculpe, Dr. Hughes, eu me distraí… e…

No momento seguinte, o paciente — um adolescente aparentando vício em entorpecentes — correu da sala. Desesperada, a mãe gritou por ajuda, e imediatamente o Dr. Hughes, Fred e um grupo de enfermeiros correram atrás do garoto pelo corredor. Após o jovem ser contido e encaminhado para a internação, Fred e o Dr. Hughes retornaram para a sala de consultas. Para quebrar o silêncio incômodo que reinava após a bronca, Fred arriscou iniciar uma conversa.

Fred: Bem… qual medicação o senhor sugere para o garoto? Eu estava pensando em…

Dr. Hughes: Para ele, eu sugiro um benzodiazepínico para suportar a abstinência. Para você, desintoxicação e muita terapia… essa mulher vai acabar com você, filho, cuidado…

Ao se levantar para deixar a sala, o Dr. Hughes jogou o celular nas mãos de Fred, para mostrar que vira a mensagem de Daphne. Porém, como um bom dependente, ele voltou ao seu vício. Para a sua surpresa, ao abrir o aplicativo de mensagens, ao invés do aviso de bloqueio, havia uma nova mensagem de Daphne: “Eu não posso te ligar. Será que podemos conversar pessoalmente?”.

Blake Manor, Crystal Cove, 8 de janeiro de 2023.

8:20 pm

“Claro. Pode ser amanhã, às 9pm, na Rua Fleet, 42?”, Fred respondeu imediatamente a mensagem que Daphne enviara. “Certo, até amanhã!”, ela digitou antes de apagar os registros daquela conversa. Enquanto escrevia uma mensagem ao xerife Stone, ela lutou contra a culpa que insistia em lhe envergonhar. “Não é um encontro, idiota, é apenas uma conversa importante e necessária que pode solucionar muitos casos”, Daphne disse em voz alta para si mesma, para afastar os sentimentos algozes. “Mas é na casa dele, Daphne! Onde você estava com a cabeça quando concordou de ir até a casa de um desconhecido comprometido à noite?”, a culpa respondeu energicamente, com um argumento intrusivo e constrangedor. Felizmente, o xerife Stone logo lhe respondeu e interrompeu aquele duelo íntimo interminável.

“Querida, eu adoraria ouvi-la e ajudá-la, mas eu preciso que o seu pai saiba disso. Não posso ouvir o seu depoimento em sigilo, a menos que o seu segredo envolva alguém de sua família. Além disso, o FBI está nesse caso, então, tudo o que você tem a dizer a respeito do que viu, você terá que falar com eles também”

Daphne concordou e, no mesmo instante, deixou o quarto em busca do pai. Encontrou-o em seu escritório, preparando-se para sair.

Daphne: Pai, eu preciso da sua ajuda… preciso falar com o xerife Stone!

Bart organizava alguns papéis dentro de uma pasta e, por um instante, parou o que estava fazendo para olhar para a filha com impaciência.

Bart: Vai contar suas histórias de fantasmas para ele também? Eu sei que ele parecia bastante interessado, querida, mas acho que ele tem coisas mais importantes para fazer nesse momento…

Daphne: Não, eu preciso falar toda a verdade sobre o que aconteceu ontem à noite… comigo, com Fred Jones e com outras pessoas conhecidas também…

A expressão de desprezo desapareceu do rosto de Bart imediatamente, e deu lugar a um olhar de espanto.

Bart: Por que não começa dizendo a verdade para o seu próprio pai?

A expressão de desprezo voltou gradativamente, na medida em que Daphne demorava a lhe responder. Quando o silêncio se tornou insuportável, Bart instigou a filha a falar.

Bart: …pensei que precisasse da minha ajuda.

Sem saída, Daphne suspirou e arriscou uma explicação.

Daphne: Pai, eu preciso da sua ajuda! É por isso que estou aqui… eu preciso que me apóie e confie em mim. Por favor! Me leve até o xerife Stone, eu preciso falar com ele!

Bart suspirou impacientemente e fechou a pasta com força, demonstrando claro descontentamento. Sem dizer uma palavra sobre o pedido da filha, nem se despedir, ele caminhou até a porta, e antes de girar a maçaneta, Daphne implorou.

Daphne: Olha, eu sei exatamente onde você está indo! Você e o xerife vão entrevistar o Raffalo, não vão? Sobre uma seita, não é? Uma seita que comete os mesmos crimes há quase 90 anos? Sabe por que eu sei de tudo isso? Porque eu sou uma das vítimas! Quando eu estive na casa de James Arthur para gravar, sem querer, eu presenciei algo muito grave acontecendo lá, e isso tem relação com vários casos sem solução… e é por isso que eu estou implorando pela a sua ajuda e seu apoio, pai! Por favor! Eu preciso que você me apóie e me proteja como uma testemunha! E eu preciso falar com o xerife Stone agora mesmo! Por favor, confie em mim e me deixe ir com você!

O espanto voltou a tomar conta do rosto de Bart, e o fez desistir de girar a maçaneta. Assustado, ele foi até a filha e a abraçou com força, confortando-a. Daphne o abraçou de volta, e quando o abraço terminou, Bart concordou em ajudá-la. Imediatamente, Daphne correu para o seu quarto para pegar seus pertences e seu casaco, em seguida, os dois partiram. A viagem até o hospital Darrow ocorreu em silêncio. Bart respeitou a privacidade da filha e não fez perguntas. Porém, ao estacionar o carro no estacionamento do Hospital Darrow, ele olhou nos olhos dela e a aconselhou.

Bart: Quero que saiba que você tem o meu apoio e a minha confiança para qualquer coisa. Menos para se relacionar com Fred Jones… eu fui claro? Quero que fique longe dele e corte qualquer tipo de contato com ele…

Sem conseguir encará-lo, Daphne baixou os olhos e concordou. Mesmo sem saber como faria aquilo.

Hospital Darrow, Crystal Cove, 8 de janeiro de 2023.

09 pm

Dr. Hughes: Hora de ir para casa, filho…

O chefe da psiquiatria surgiu de repente na porta da sala onde Fred estava, e isso lhe fez fechar rapidamente o navegador do notebook.

Fred: Obrigado, Dr. Hughes, mas eu vou ficar mais um pouco, para adiantar algumas pendências da faculdade…

Sem insistir, o velho apertou a mão de Fred e se despediu. Sozinho novamente, ele voltou ao site True Crime Forum, para checar as atualizações desde o seu último acesso. Infelizmente, cherryred não postara novas mensagens. Para piorar, usuários comentavam que as fotos da mancha misteriosa da cena do crime de Allyra Mahon haviam viralizado por meio de diversos canais no youtube, e as filhas de Joel Marlow deixaram claro que descobririam a identidade dos usuários e processariam cada um deles. Como resposta à ameaça, Fred postou a foto da reportagem antiga de Joel Marlow, em que ele aparecia em sua mansão em 1982, ao lado de artesanatos aborígenes. Em seguida, ele fez um pequeno texto para esclarecer a sua teoria de que Joel esteve na tribo de Allyra Mahon na época do desaparecimento da moça — e desejou que a repercussão de sua postagem instigasse cherryred a responder.

Judy: Você não deveria estar se divertindo com a sua noiva no clube?

A entrada repentina de sua mãe na sala o fez fechar o site novamente, e abrir um artigo científico para disfarçar. Antes de ouvir uma resposta, Judy acariciou os cabelos do filho e deixou um beijo na testa dele.

Fred: Você não deveria estar se divertindo com o seu marido em casa?

Fred riu da provocação que fez e Judy o olhou com raiva.

Judy: Muito engraçado! Você não sabe que eu tenho que trabalhar?

Fred: Muito engraçado! Você não sabe que eu tenho que estudar?

Judy percebeu que o filho claramente queria irritá-la. Fred riu novamente e ela deu um tapa nas costas dele, para fazê-lo parar.

Judy: Se continuar assim, você vai deixar de ser um aluno do Dr. Hughes e vai se tornar um paciente dele… vá para casa logo, ok? A temperatura está despencando, e certamente Alice precisa de você.

Judy deixou outro beijo na testa do filho antes de deixar a sala, e Fred concordou em silêncio. Além da marca de batom na testa, ela também deixou um pouco de culpa no coração dele, e isso o motivou a escrever para Alice e avisar que ficaria até tarde no hospital.

“Sem problemas, querido. Senti sua falta hoje no clube. Eu amo você!”, dizia a mensagem final de Alice, após uma sequência longa de mensagens carinhosas que eles trocaram. “Também amo você”, Fred respondeu mecanicamente, e logo em seguida, sentiu o peso daquelas palavras. Ele a amava? O simples questionamento sobre um sentimento tão sério o fez se sentir culpado. Ele não tinha o direito de questionar aquele amor, ele deveria amá-la! “Não tanto quanto eu!”, Alice respondeu a última mensagem, pontuando-a com um emoji de um coração sorridente. Sim, era verdade: ele não a amava tanto quanto ela o amava. E, talvez, por isso, ele não merecia aquele amor. “Claro que não, eu amo bem mais!”, Fred respondeu, impulsionado pela culpa. Era mentira, mas Alice não merecia saber a verdade. Ela merecia bem mais do que o amor negligente que ele lhe oferecia. A culpa se tornou ainda maior quando uma mensagem de seu pai surgiu no aplicativo.

Brad: Sua mãe disse que você ainda está no hospital. É verdade? Espero que seja uma boa decisão.

A bronca de seu pai se tornou a primeira mensagem em seu aplicativo. Em segundo lugar, estava a declaração de amor de Alice, seguida da mensagem em que ele marcava um encontro secreto com Daphne Blake na casa de Velma e Shaggy. Não, aquilo definitivamente não era uma boa decisão, tampouco era algo coerente e aceitável. Ele poderia ser melhor do que aquilo, Alice e Brad mereciam algo melhor do que aquilo. Vencido pelo remorso, Fred bloqueou o número de Daphne Blake e apagou as mensagens que enviara para ela em todas as redes sociais. Em seguida, desligou o computador, juntou seus pertences e saiu. Antes de deixar o hospital, ele decidiu checar Emmanuel Raffalo pela última vez. Para a sua surpresa, o corredor que levava até o quarto do professor estava cheio de policiais locais e agentes FBI. De longe, pelo vidro, ele viu o xerife Stone conversando com Raffalo, acompanhado dos mesmos federais que o entrevistaram na noite anterior. Apesar de não ter mais a expressão de horror em seu rosto, Emmanuel parecia apático e catatônico, e sua boca permanecia imóvel quando questionado. Fred observou a entrevista por alguns minutos, até que o barulho de sapatos de salto alto pisando no assoalho lhe chamou a atenção. Ao olhar na direção do som, ele viu Daphne e Bart Blake caminhando pelo corredor paralelo. “Espero que seja uma boa decisão”, as palavras de seu pai ecoaram imediatamente em sua mente, como uma ordem, para que seu corpo continuasse a caminhar até a saída do hospital. Obediente, Fred ignorou a aparição inusitada da moça e deixou o hospital. Porém, pouco antes de passar seu crachá pela fechadura eletrônica, seu celular tocou, e a foto de Velma apareceu na tela.

Velma: Fred? Tenho péssimas notícias! Sofri um acidente de trânsito muito grave e estou em um hospital, com uma concussão cerebral e duas costelas quebradas. Eu machuquei gravemente três crianças, perdi os dois livros, destruí o carro do Shags e…

A voz determinada de Velma logo ficou rouca e falhou, silenciada por um choro incontrolável. Ao ouvir a notícia, Fred sentiu seu coração acelerar, mesmo assim, tentou acalmá-la diversas vezes, para que ela continuasse a contar os detalhes. Com dificuldade, Velma contou tudo o que vivenciara, desde o sumiço misterioso do livro na biblioteca até a aparição tenebrosa do velho no banco de trás de seu carro, que a fez perder a direção do veículo. Ela também detalhou como o livro inexplicavelmente desaparecera após o acidente. Comovido, Fred prometeu ir até Marin para ajudá-la. “Espero que seja uma boa decisão”, a voz de seu pai novamente surgiu em sua cabeça, deixando-o em dúvida se deveria mesmo fazer aquilo.

Velma: Não precisa se preocupar, Shaggy está aqui comigo. Estamos bem, na medida do possível.

Velma precisou repetir várias vezes para Fred se convencer de que ela estava bem e sua presença não seria necessária. Além disso, ele também sabia que se importar com uma amiga, ao invés de se importar com a sua própria noiva, não era uma boa decisão. No momento em que Velma detalhava sobre os exames e tratamentos que teria que fazer, Fred ouviu um barulho muito alto de vidro quebrando. Em seguida, ele ouviu gritos femininos desesperados e, imediatamente, ele reconheceu que se tratava de Daphne. Preocupado, ele encerrou a ligação e correu em direção ao barulho. No caminho, ele ficou mais aflito ao ouvir várias vozes masculinas aos berros, entre elas, as vozes de Raffalo, Stone e Bart Blake.

Ao chegar à ala psiquiátrica, Fred se deparou com o corpo de Emmanuel Raffalo em cima de Daphne Blake, e entre gritos e frases desconexas, ele tentava enforcá-la com muita ira. Bart Blake, o xerife e os demais agentes tentavam impedi-lo, mas Raffalo apresentava uma força sobre-humana e os afastava com facilidade. No mesmo instante, Fred agarrou o pescoço dele com o braço, para fazê-lo parar, e mesmo usando toda a sua força, Raffalo não parou. Pelo contrário, o professor o encarou com fúria, e Fred notou que seus olhos tinham um brilho prateado sinistro. Ao se lembrar do que Velma lhe contara, Fred entrou em pânico, e em um lapso de distração, Raffalo lhe atingiu com força no peito e o empurrou para longe. Antes que Fred pudesse golpeá-lo novamente, ele ouviu o barulho de dois tiros, e em seguida, Raffalo soltou o pescoço da moça e recuou. Daphne aproveitou o momento para empurrar o corpo do professor e se livrar do peso que prendia suas pernas. Quando Emmanuel tentou agarrá-la novamente, o xerife Stone e os agentes pularam sobre ele e o impediram. Em pânico e chorando muito, Daphne correu pelo corredor até desaparecer pela porta da ala psiquiátrica. Perplexo, Bart continuou olhando para a própria arma, e ao se dar conta do que fizera, fechou os olhos e escondeu o rosto com as mãos, arrependido. Mesmo com os dois ombros sangrando, Raffalo continuava alterado, lutando contra mais de seis homens.

Emmanuel: DEVOLVA! DEVOLVA! EU ESTOU FICANDO SEM TEMPO! DEVOLVA!

Aos poucos, os agentes conduziram Raffalo para outra sala, e um grupo de enfermeiras e médicos providenciou sedação e socorro médico ao professor ferido. Aproveitando a distração de Bart e do xerife Stone, Fred saiu às pressas. Inevitavelmente, ele seguiu o caminho de Daphne, usando como referência as gotas de sangue que ela deixara no corredor. Quando finalmente a encontrou, ela estava dentro do carro de Bart e chorava muito. Fred bateu desesperadamente no vidro da janela, e só depois de fazer isso, ele percebeu o quanto aquilo era inadequado. Para a sua surpresa, Daphne abriu o vidro, mas não disse nada. Fred também não sabia o que dizer. O impulso inicial acabara, e ele se sentia um grande idiota por estar ali, perturbando-a novamente.

Daphne: Fala logo o que você quer! Não está vendo que eu fui atacada?

Daphne foi rude, e ele se sentiu um idiota ainda maior. Porém, ele não conseguiu se importar com si mesmo, pois os soluços involuntários do choro dela atraíram toda a sua atenção. Ela estava muito machucada. Inexplicavelmente, Raffalo a atingira como um lutador profissional e deixara vários hematomas, no corpo dela, principalmente no pescoço. Além disso, ela também tinha cortes causados pelos cacos do vidro que ele quebrou.

Daphne: FALA LOGO, JONES!

Daphne gritou antes de esconder o rosto entre as mãos e chorar. Em seguida, em um acesso de raiva, ela pegou a chave e ligou o carro, demonstrando que não se importava com a resposta dele. Fred entrou em pânico. Ele queria fazê-la ficar. Mas como iria convencê-la a ficar? Então, sem tempo para discernir se era ou não uma boa decisão, ele usou o melhor argumento que tinha.

Fred: Daphne, espere! Por favor! Eu… eu vi os olhos dele enquanto ele te atacava. E, neste momento, minha amiga está em um hospital em Marin, porque ela viu um velho assustador com esses mesmos olhos prateados, e sofreu um acidente de carro devido ao susto. Eu sei que você também viu esse velho enquanto esteve morta, e sei que ele está relacionado ao misterioso livro que você tinha na sua bolsa, usado por uma suposta seita ocultista. Minha amiga também tinha um exemplar do livro e ele desapareceu, por isso, eu preciso da sua ajuda para entender o que está havendo. Por favor, vamos conversar, precisamos trocar as informações que temos e nos ajudar. Somos todos vítimas e testemunhas, nem a polícia, nem o FBI podem fazer isso por nós.

Como um passe de mágica, o semblante de Daphne mudou e ela parou de soluçar. No mesmo momento, ela olhou de maneira surpresa para Fred e o encarou, em silêncio. Mas ao invés de ficar, Fred a convenceu a ir. No instante seguinte, ela destravou as portas do carro e o convidou para ocupar o banco do passageiro. Quando Fred se sentou e fechou a porta, Daphne se arrependeu.

Daphne: Eu não posso ser vista com você em lugar nenhum, meu pai me proibiu! E eu não posso ir tão longe, meu pai vai me matar!

Fred: Então, vamos à Marin. Você poderia conversar com a minha amiga, e poderíamos conversar durante o caminho.

Daphne ficou ainda mais surpresa, e hesitou por um momento. Tentando minimizar a distância entre Crystal Cove e o condado de Marin, Fred olhou rapidamente para o relógio e a encarou.

Fred: É tempo o suficiente para eu te contar toda a história, e você me contar o que aconteceu com você. O carro tem rastreador, seu pai saberá exatamente onde você está. Se conseguirmos solucionar o mistério envolvendo o velho e o livro, tenho certeza que ele te agradecerá por isso e nem irá se importar por estar comigo.

Convencida, Daphne colocou o cinto e acelerou. No momento em que o carro deixou o estacionamento do hospital, Fred soube que aquela era uma péssima decisão. Mas era uma péssima decisão… ao lado de Daphne Blake.