Dark Cigarette
3 Capítulo 2 - Refeitório
Notas iniciais
‘Cause I remember when I found you
Much younger than you are now
And once we started having friends around
You created a television of your mouth
Porque eu me lembro de quando te encontrei
Muito mais jovem do que você está agora
E uma vez que começamos a ter amigos por perto
Você criou uma televisão da sua boca
The 1975 – Heart Out
Ao contar para sua companheira de quarto que conhecia Julian e Mark Blackthorn desde a infância, Emma não esperava que ela arregalasse os olhos e cobrisse a boca com as mãos, como se isso fosse algo absurdo.
— O quê? – perguntou. – Eles têm uma reputação ruim ou algo do tipo?
Ela não se incomodaria se Julian tivesse criado uma reputação ruim – afinal, sua própria não era das melhores –, mas seria uma surpresa.
Cristina Rosales, uma mexicana deslumbrante e discreta, sacudiu a cabeça.
— Bem, não. Julian é conhecido por alimentar os gatos que vivem na faculdade, e Mark, bem...
Ela não completou a frase, mas corou um pouco. Emma sorriu, maliciosa.
— E Mark...?
— Bem, ele namora com esse menino esquisito de cabelo azul, Kieran – O semblante de Cristina se fechou, só o suficiente para que Emma notasse. – Acho que isso é o mais próximo de reputação que ele tem.
Emma ponderou sobre a informação. Quando se mudara para Nova York, Helen, com seus vinte anos, tinha uma namorada, mas ela nunca ouvira nada sobre a sexualidade de Mark, talvez por ele ser mais fechado do que a irmã.
— Ele é gay?
— Bi – respondeu Cristina. – Definitivamente, não é gay.
Boa como era em ler nas entrelinhas, Emma não demorou para abrir outro sorriso carregado de malícia para a colega.
— Você tirou a prova, hein? – Ela gargalhou quando Cristina ficou vermelha. – Eu não te culpo, sério. Tive uma quedinha por ele lá pelos meus doze anos.
Cristina hesitou.
— E Julian?
Emma pensou no assunto. Era segunda-feira de manhã, o que significava que já haviam se passado quase dois dias desde que ela encontrara Julian Blackthorn em um bar, e ela ainda não conseguia acreditar que tinha acontecido de verdade. Na verdade, mal se lembrava do acontecimento; as únicas coisas claras em sua mente eram os olhos de Julian e a sensação da pele dele quando ela escrevera seu número de telefone na mão dele.
— Com Julian, sempre foi diferente – concluiu. – De tudo.
Cristina não pediu por uma explicação, pelo que Emma ficou grata. Desde que conhecera a mexicana, poucas semanas atrás, sabia que as duas se dariam bem. O que era um alívio, considerando que iam passar anos dividindo o mesmo quarto no alojamento da faculdade.
— Bem, eu tenho que ir para a aula – disse Cristina. – Boa sorte. Vai que você encontra com ele por aí?
A ideia fez o estômago de Emma se contrair em ansiedade. Ela acenou para a colega.
— A gente se vê por aí, Tina.
***
Julian passou a manhã fugindo de Cameron Ashdown, que queria saber todos os detalhes de sua infância com Emma. E estava se saindo bastante bem, até Mark encontrá-lo durante o intervalo para o almoço e puxá-lo pelo braço até um corredor deserto.
— Credo – Julian se desvencilhou do aperto do irmão, ligeiramente irritado. – O que foi?
— Você não vai acreditar em quem eu encontrei – disse Mark, simplesmente. No segundo seguinte, Cameron surgiu no final do corredor, gritando:
— Cara, você não vai acreditar em quem eu esbarrei no corredor!
Julian sabia quem era. E não, ele não conseguia acreditar.
Mark ignorou completamente a chegada de Cameron, mantendo o olhar no irmão mais novo.
— Emma Carstairs – disse, como se estivesse anunciando que Julian vencera na loteria. – Aqui. Na faculdade.
— Quê? – Realmente, Julian não conseguia processar a informação.
— Eu sei! – concordou Mark. – E, meu Deus, você não vai acreditar quando a vir. Ela está completamente diferente.
— E ela não me ignorou – acrescentou Cameron, que havia se aproximado. Mark olhou para ele, desconfiado.
— Você conhece ela desde...?
— Ontem à noite – Julian respondeu por ele. Antes que seu irmão pudesse começar a disparar xingamentos, ele continuou: — Na festa em que fomos. E ela estava trabalhando lá.
Os olhos de Mark se arregalaram.
— Trabalhando tipo...?
Julian deu um tapa no ombro dele.
— Não esse tipo de trabalho, Mark. Meu Deus. Ela era barman ou sei lá.
— Barwoman – corrigiu Cameron.
— Tanto faz! – Julian se controlou para não bater nele também. – Ela estava trabalhando no bar.
Ao contrário do que ele esperara, Mark pareceu impressionado.
— Bem, isso não é tão diferente da Emma que eu conhecia. E você viu aquelas tatuagens?
Julian assentiu, distraído. Ainda parecia impossível. Em menos de 24h, não só reencontrara sua melhor amiga de infância, completamente tatuada e trabalhando em um bar, e descobrira que não só ela estava de volta a Los Angeles, mas também estava estudando na mesma faculdade que ele.
Rapidamente, ele se despediu dos outros, deixando para trás um silêncio desconfortável, já que Mark e Cameron não se conheciam. Juntando toda a coragem que tinha, tirou o celular do bolso, abriu os contatos e se deparou com o nome de Emma logo no início da lista. Era surreal. Simplesmente surreal.
Ela atendeu no segundo toque.
— Eu não acredito – disse. – que você ainda usa o mesmo número, depois de todo esse tempo.
Julian não tinha uma resposta para aquilo.
— Ahn, oi.
— Oi – Dava para ouvir o sorriso de Emma na voz dela. – E aí?
— Eu estava pensando... Mark acabou de me dizer que viu você na faculdade hoje – começou Julian. Ele sentia as palmas das mãos começando a suar.
— Ah, é. Eu achava que ele já teria terminado a essa altura.
— Ele reprovou em algumas matérias. Escuta, eu tava pensando se você não quer, ahn, almoçar ou algo assim. Quer dizer – Ele consultou o relógio. – Eu tenho aula daqui a pouco, então é melhor comermos no refeitório, mas...
— Te encontro lá em cinco minutos.
Ela desligou antes que ele pudesse dizer mais.
Julian passou alguns minutos parado ali, só olhando para o nome na tela de seu celular e se perguntando se destino existia. Então, imaginou que deveria começar a se encaminhar para o refeitório, antes que Cameron ou Mark decidisse atrapalhá-lo.
Quando ele chegou ao local, Emma já estava sentada a uma das mesas, usando óculos escuros que a deixavam ainda mais intimidadora, com uma garrafa de água e dois copos à sua frente. Julian notou, com certo choque, que ela segurava um cigarro entre os dedos, mas ela o jogou no chão e pisou em cima do objeto ao vê-lo se aproximar.
— Oi – cumprimentou Emma, sorrindo.
— Oi.
Foi preciso que Emma fizesse um gesto indicando a cadeira à sua frente para que ele finalmente deixasse de encará-la e se sentasse. Ela riu, e ele retribuiu com um sorriso tímido.
— Deixe-me adivinhar – disse Emma. Ela empurrou os óculos escuros para o topo da cabeça, e Julian perdeu um pouco da concentração ao ver seus olhos. – Artes?
Julian assentiu. Constrangido, deu-se conta de que não tinha a menor ideia do que Emma gostaria de cursar. Ela sempre parecera livre demais para os assuntos acadêmicos.
— Na mosca – respondeu, tentando recuperar um pouco da naturalidade que eles tinham aos catorze anos. Droga, não fazia tanto tempo assim, mas parecia uma eternidade. – E você?
— Direito – Emma deu de ombros, ignorando o choque na expressão de Julian. – Eu tinha que escolher alguma coisa, certo?
— Ah. Então, você não queria estar aqui?
Emma sorriu. Parecia estar achando graça da falta de jeito do antigo amigo.
— Bem, eu encontrei você, então acho que foi uma coisa boa.
Eles ficaram em silêncio por alguns instantes, durante os quais Julian procurou desesperadamente um assunto, algo que os trouxesse de volta ao que eram antes. Ele não conseguiu. Foi Emma quem tornou a falar, minutos depois, em um tom de voz tão baixo que Julian duvidou que ela queria que ele ouvisse:
— Eu realmente senti sua falta, Julian.
Ela não usou o apelido que inventara na infância, mas tudo bem. Um passo de cada vez, imaginou Julian; só aquela declaração já foi o suficiente para fazê-lo sentir um alívio que não imaginara que fosse sentir.
— Pensei que tivesse sido o único – disse.
Emma despejou um pouco de água num copo e o empurrou na direção de Julian.
— Você não pode ter achado seriamente que, depois de catorze anos grudada em você, eu não iria sentir sua falta – Foi a vez de Julian de dar de ombros. Ela sacudiu a cabeça. – Meu Deus, Julian. Só... – Ela mordeu o lábio inferior, hesitando. Julian lembrava do gesto; quantas vezes já a vira fazer aquilo? – Vamos tentar evitar que aconteça de novo, certo?
A honestidade dela o pegou de surpresa, embora não devesse. Aquela era Emma, afinal.
— C-certo – concordou. Ele bebericou a água, só o suficiente para molhar sua garganta seca pelo nervosismo, e mudou de assunto bruscamente. – Então, Nova York! Como é lá?
Emma começou a falar sobre as maravilhas de Nova York, e não demorou muito para que os dois estivessem engajados em uma conversa sobre o que haviam feito nos últimos quatro anos. Ela falou sobre as peças que vira na Broadway, sobre a vez em que fora fazer um piquenique no Central Park e um cachorro roubara seu lanche, e sobre como sentira falta do mar. Em troca, Julian lhe falou sobre como seus irmãos haviam crescido, sobre como expusera um de seus quadros na escola em seu último ano do ensino médio, sobre o apartamento que dividia com Mark e Helen.
Embora Julian também tenha contado sobre seu pai – sua mãe falecera muito tempo atrás – e sobre seu tio adoentado, que agora morava com o resto dos Blackthorn para receber os devidos cuidados, Emma não falou nada sobre os próprios pais. Quando Julian perguntou como ela acabara de volta em Los Angeles, ela apenas disse que uma grande amiga de sua mãe, Diana Wrayburn, trabalhava na faculdade e, portanto, ela achara uma boa ideia estudar ali.
— Ela é ótima – disse, a respeito de Diana. – Um pouco severa, mas não sei o que seria de mim sem ela. Ela me arrumou uma bolsa aqui.
O trabalho no bar, contou Emma, era para ajudar a pagar tanto a faculdade quanto seu novo carro, um Range Rover usado que ela conseguira por um preço incomumente baixo com um maconheiro que estava se formando naquele ano. Julian ficou impressionado ao ouvir isso.
— A gente ainda tem o Toyota – informou ele. – Sabe, aquele velho? Quer dizer, papai comprou um carro novo, mas Mark, Helen e eu ainda dirigimos ele.
A informação pareceu agradar Emma.
— E a casa? – perguntou ela. – Vocês ainda moram em frente ao mar?
Para a satisfação dela, Julian contou que eles ainda moravam na mesma casa – afinal, ressaltou, não era fácil encontrar outro lugar que acomodasse uma família com um pai, um tio adoentado e sete filhos, já que, mesmo que os três mais velhos morassem fora, eles faziam questão de ter um espaço na casa da família.
— Eu posso te levar lá qualquer dia desses – ofereceu ele. – Você vai ficar impressionada com o quanto as crianças cresceram. Quer dizer, praticamente não temos mais crianças. Só o Tavvy, e até ele já está enorme...
Emma adorou saber que Helen estava noiva de Aline Penhallow, a mesma garota que namorava quando ela fora embora, e que Livvy, a mais velha depois de Julian, tinha começado a demonstrar interesse em artes marciais. Ela mesma fizera boxe por algum tempo, contou, só por diversão. Isso não surpreendeu Julian; quando se mudara, Emma tinha acabado de começar aulas de kung fu.
Quando percebeu, Julian já estava quinze minutos atrasado para sua próxima aula.
— A gente se vê depois? – perguntou Emma, ao saber disso. Ela soava esperançosa; Julian se lembrou da última noite que haviam passado juntos, encolhidos em sua cama, e de como ela prometera voltar para Los Angeles. Emma era uma garota de palavra.
— Claro – respondeu ele. – Você quer anotar meu número?
Emma sorriu, como se ele tivesse dito algo hilário.
— Ainda tenho seu número salvo, lembra?
Depois de dar risadinhas constrangidas, eles tiveram um momento de hesitação antes de se abraçar. Não foi um abraço como os de antigamente, nos quais eles afundavam nos braços um do outro até se sentirem seguros de novo, mas não chegou a ser o contato frio entre recém-conhecidos.
— A gente se fala – disse Julian, quando eles se separaram. Por algum motivo, achou que estivesse corando.
Emma sorriu de um jeito que confirmou a hipótese de Julian sobre suas possíveis bochechas vermelhas.
— A gente se fala – concordou ela.
Embora estivesse mais do que atrasado, Julian ainda estava parado no mesmo lugar quando Emma fez uma curva e desapareceu dentro dos alojamentos da faculdade. E ainda ficou ali por algum tempo, pensando em tudo o que acontecera quando eles eram mais novos – e no que poderia acontecer agora.
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