Dark Cigarette

4 Capítulo 3 - Rover


Notas iniciais
Ahoy! Cá estou eu, correndo contra o tempo porque tenho mais cinco dias pra concluir essa história, ganhar umas medalha e arrumar as malas, mas tô aqui o/ Esse capítulo é todo focado na Emma, então vocês vão poder ver o jeitinho que eu dei pra tentar encaixar o drama dos livros na vida dela aqui... E também por que, exatamente, ela está nessa faculdade. Espero que gostem!

So baby, pull me closer in the backseat of your Rover

That I know you can’t afford

Bite that tattoo on your shoulder

Então baby, me puxe mais para perto no banco de trás do seu Rover

Que eu sei que você não pode pagar

Morde aquela tatuagem no seu ombro

The Chainsmokers ft. Halsey – Closer

Cristina ergueu as sobrancelhas ao entrar e ver Emma se arrumando em frente ao espelho na porta do guarda-roupa.

— Você matou a última aula?

— A última antes do almoço – corrigiu Emma, sem se alterar. – O professor nunca faz a chamada, mesmo.

Cristina deixou a mochila cair no chão ao lado da cama e se sentou.

— E agora, vai almoçar com Julian – adivinhou.

Não era um palpite arriscado: os dois haviam criado o hábito de almoçar juntos todos os dias desde que Emma voltara para Los Angeles, e já fazia quase dois meses agora. Às vezes, eram só os dois; em outros dias, Mark ou Helen se juntavam a eles, curiosos sobre a vida de Emma em Nova York e, Emma suspeitava, sobre como era a relação dela com Julian agora. Cristina até os acompanhara uma vez, e parecera se dar bastante bem com Julian.

Emma deu de ombros. Ela sabia que não precisava responder. Cristina suspirou.

— E provavelmente vai matar a primeira aula depois do almoço.

— Ei, isso é pura suposição – protestou Emma, embora esse fosse exatamente seu plano.

— Emma, você é bolsista. Isso não te preocupa?

Cristina também tinha uma bolsa de estudos na universidade, embora zelasse muito mais por ela do que a amiga. Verdade seja dita, Emma não queria mesmo estudar direito. Ela ainda não sabia se gostaria de estudar alguma outra coisa.

Emma se virou para a colega e lhe ofereceu uma piscadela.

— Eu vou ficar bem, Tina.

E provavelmente ia mesmo. Afinal, era a tutelada de Diana Wrayburn.

Quando Cristina desistiu de tentar colocar algum juízo em sua cabeça, Emma se despediu com um aceno e saiu do quarto com um cigarro entre os dedos, procurando um isqueiro no bolso. Conseguiu encontrar um, mas, assim que ergueu a cabeça para acender o cigarro, se deparou com uma mulher negra e imponente encarando-a. E ela não parecia feliz.

Emma acenou, imperturbável.

— Oi, Diana.

— Emma – Diana estreitou o olhar, analisando-a de cima a baixo. – Sabe que não pode fumar nos dormitórios.

Tentando não parecer constrangida, Emma devolveu o isqueiro ao bolso.

— Eu já estava de saída. Ahn, posso ajudar?

— Posso conversar com você um minuto? No meu escritório?

Estava óbvio que a proposta era irrecusável, então Emma assentiu e seguiu Diana até a sala dela, no prédio ao lado. Diana se sentou atrás da mesa que ocupava a maior parte do cômodo, e, depois de hesitar, Emma ocupou a cadeira em frente a ela.

— Um professor seu veio me procurar – começou Diana. Emma sabia aonde aquilo levaria, mas não falou nada. – Ele disse que você não aparece na aula dele há um mês.

Emma permaneceu em silêncio. Alguns anos atrás, talvez ela tivesse feito uma piada, desafiado a tutora, ou algo do tipo. Agora, ela devia coisas demais àquela mulher para confrontá-la assim.

Diana analisou-a atentamente, e suspirou.

— Emma, eu consegui a bolsa, mas você precisa mantê-la. Ou isso, ou vai ser obrigada a deixar a faculdade.

— As aulas mal começaram – protestou Emma. A ameaça de ter que sair da faculdade a despertara; seu coração estava aos pulos. – E foram só três semanas. Meu Deus!

Diana não pareceu se comover.

— Eu entendo que precise de um período de adaptação – disse ela. – Emma, eu realmente entendo isso. Quer dizer, você passou por uma grande perda, e voltar para Los Angeles assim, sem mais nem menos, deve ter sido difícil.

Emma sentiu um nó começar a se formar no estômago. Pensou em Julian, nas conversas que tinham, em quando ele prometera levá-la à praia em breve.

— Voltar para cá foi a parte fácil – retorquiu. – Os Blackthorn...

— Ah, sim, eu percebi que você está passando muito tempo com Julian – Diana sorriu de leve. – Ele está deixando as coisas mais fáceis, não está?

Não havia como facilitar certas coisas, mas Emma tinha certeza de que ela sabia disso e só concordou com a cabeça. Diana prosseguiu:

— Então, eu entendo que é difícil. E realmente espero que você só esteja se adaptando, e não se rebelando por causa do que aconteceu.

— Eu não estou me rebelando – Emma não pretendia levantar a voz, mas a insinuação a deixou indignada. Diana ao menos a conhecia? — Eu era assim muito antes do acidente.

Para sua surpresa, Diana sorriu de novo, dessa vez de verdade. Como acontecia às vezes, Emma se sentiu estranhamente infantil diante do olhar dela.

— Assim como, atrevida ou matadora de aula?

Emma considerou a pergunta.

— Os dois.

— E os cigarros?

Ela não respondeu imediatamente. Havia se interessado pelos cigarros depois do acidente, no dia do velório; estava tão nervosa que roubara um maço da gaveta do pai.

— Eu tenho idade o suficiente para decidir isso – disse, por fim. Diana sacudiu a cabeça.

— E eu não vou discutir. Contanto que não os consuma no dormitório.

— Eu estava de saída – repetiu Emma. Costumava gostar da companhia de Diana, mas estava ficando irritada com a maneira condescendente como a outra a tratava.

— De novo, eu não vou discutir – Diana se inclinou para a frente, apoiando os cotovelos na mesa. – Mas seus pais me deixaram responsável por você, e não vou só ficar olhando enquanto você dá um jeito de arruinar seu futuro, Emma. Não era isso que eles queriam para você;

Foi então que Emma perdeu a paciência. Diana não tinha o direito de usar seus pais contra ela daquela forma.

— Se isso é sobre as faltas, foram só três semanas – retrucou. – E, francamente, quem é que liga para aquela aula idiota? Metade da sala mata a aula daquele professor.

— Metade da sala também é rica e pode pagar pelas burradas que faz.

Era difícil discutir com Diana – ela era rápida nos argumentos –, mas Emma estava com raiva e não ia desistir.

— É, e eles também querem estar aqui – Ela se levantou, quase derrubando a cadeira. – Eu nem queria fazer esse curso, e você sabe. Nunca escondi isso.

— Mas nunca me disse o que você queria mesmo fazer – Embora Emma estivesse quase gritando, a voz de Diana permanecia inalterada, talvez porque ela sabia que estava certa. – Ficar em Nova York? Arranjar um emprego lá? Achei que você sempre tivesse querido voltar para cá.

Isso era verdade, mas Emma não ia admitir. Ao invés de responder, ela se virou e começou a se encaminhar para a porta.

— O que é, então? – insistiu Diana. – O que você quer fazer, Emma?

Emma parou de andar e se virou. Ah, ela estava provocando.

— Eu não sei – admitiu. – Mas não é você quem vai me dizer, e muito menos os meus pais, sabe por quê? Porque eles estão mortos, e você não tem o direito de usá-los contra mim!

Ela não quis sair pisando forte, mas saiu. Não pretendia bater a porta, mas bateu. Às vezes, Emma simplesmente não conseguia se segurar.

Ela pensou em voltar para o dormitório, mas a ideia de encontrar Cristina e ter que responder a perguntas fez seu estômago revirar. Por fim, decidiu caminhar pelo campus até se acalmar. Sabia que não estava em condições de ir ao encontro de Julian, e isso a entristecia. Em outros tempos, ele seria a primeira e única pessoa com quem Emma conversaria em circunstâncias assim, mas agora ela não tinha mais certeza de que ele entenderia, ou de que se importaria.

Quando voltara para Los Angeles e descobrira que Julian estava matriculado na mesma universidade que ela, Emma imaginara que eles se reencontrariam e as coisas voltariam a ser como antes, como se nunca tivessem se separado. Parecia idiota, agora que ela pensava sobre o assunto, mas, de certa forma, isso acontecera em parte: suas conversas não pareciam tão diferentes. Talvez eles não conversassem sobre os mesmos assuntos, mas a sensação era a mesma; os dois ainda passavam horas falando sem parar, com a naturalidade e a confiança de quatro anos atrás.

Claro, Emma ainda não contara a Julian sobre a morte dos pais, porque temia começar a chorar se o fizesse e não sabia como ele reagiria. Ela se lembrava de Julian aos dez anos de idade, logo depois de perder a mãe. Emma o deixara chorar em seu ombro, molhando sua camiseta preferida, e o consolara durante dias; achava que não suportaria se ele não fizesse o mesmo por ela. Perder os pais era ruim o suficiente; ela precisava da esperança de reatar seja lá o que fosse com Julian.

Muito tempo depois do horário de almoço ter acabado, Emma foi tomada por uma vontade irresistível de falar com o amigo. Não mencionaria a discussão com Diana nem o que acontecera a seus pais, decidiu, mas queria vê-lo; conversar com Julian a fazia se sentir inexplicavelmente normal. Graças a muitos irmãos mais novos e um irmão mais velho impaciente, Julian era bom em tranquilizar as pessoas, mesmo que inconscientemente.

O problema era que ele estava na aula, e provavelmente não era o tipo de pessoa que gostava de perder conteúdo.

Ei, digitou Emma. Vamos dar uma volta.

Ela apertou “enviar” e cruzou os dedos. Inacreditavelmente, ele respondeu poucos minutos depois:

Agora? Você não devia estar na aula?

Emma riu. Antes de Diana e Cristina, Julian sempre fora o encarregado de garantir que ela fizesse o dever de casa.

Vamos lá, Jules, escreveu. Nem percebeu que usara o apelido que inventara para ele na infância. Viva um pouco.

Dessa vez, a resposta demorou quase dez minutos. Emma estava começando a achar que tinha sido dispensada quando sentiu o celular vibrar nas mãos.

Posso perder a próxima aula, dizia a mensagem. Dez minutos.

Emma pulou e deu um soco no ar, animada, então verificou se havia alguém olhando. Se Julian ainda estava disposto a matar aula simplesmente porque ela queria fazer alguma coisa com ele, talvez as coisas não tivessem mudado tanto, afinal. Talvez eles ainda tivessem uma chance de voltar ao que costumavam ser.

Ok, dez minutos. Me encontre na saída do campus. Eu dirijo.

Ela não esperou a resposta antes de começar a agir.

Assim que Julian cruzou a entrada, Emma o puxou pelo braço na direção do Ranger Rover preto surrado. Ele deixou escapar um assobio ao ver o carro.

— Quando você disse velho – falou. –, não achei que quisesse dizer caduco.

— Disse o dono daquele Toyota horroroso – retrucou Emma, abrindo a porta do motorista.

— O Toyota é um bom carro – Julian ocupou o banco do passageiro. – Pelo menos ele é fiel.

Emma riu e deu a partida. O carro pegou de primeira, o que pareceu impressionar o garoto.

— Eu disse que ele rodava, não disse? – provocou Emma. Julian, aparentemente, decidiu deixar para lá.

— Tudo bem. Para onde vamos?

Emma refletiu sobre a pergunta. Como sempre, agira apenas por impulso, sem planejar os detalhes.

— Para algum lugar do qual eu senti falta quando estava em Nova York – concluiu. – Sugestões?

— A praia.

A resposta de Julian foi tão imediata que Emma sentiu seu coração apertar. Ele ainda a conhecia, afinal. Ela hesitou, olhando para ele pelo canto do olho.

— A nossa praia?

Julian corou.

— Eu estava pensando nela – admitiu. – Ou na praia em frente à minha casa. Ou à sua.

Emma riu. Havia alguma coisa a respeito daquele Julian subitamente tímido que a fazia querer provocá-lo.

— A nossa praia, então.

Sem esperar resposta, ela acelerou e saiu do campus, em velocidade mais alta que a permitida. E, porque Julian a conhecia, ele não protestou.

Notas finais
Não revisei nem nada, então, qualquer erro, já sabem. Eu quero fazer uma playlistzinha pra história, mas não sei quando isso vai sair. Se quiserem se adiantar, Closer, do The Chainsmokers, é uma boa xD Até a próxima!