Dark

5 E a s i e r


Notas iniciais
A n t e r i o r m e n t e Após entrar em Eris e ser devidamente curada do veneno das filhas de Nedyalka, Astrid acorda desesperada após um pesadelo com Damian apenas para ser informada de que o anjo havia a deixado sozinha em uma UPA, cujo dono apesar de se mostrar disposto em ajuda-la, é o mesmo que a denuncia para o governo. Sozinha, confusa e com uma única seringa para se defender, Astrid decide tentar a sorte, seguindo uma certa ilusão mental, e fugir, o que a faz despencar da falésia em que a UPA fora construída.

— Damian, que surpresa! — Niobe atendeu aos toques na porta do enorme casarão gótico, recebendo o tenso anjo em sua frente com um dos seus travessos gêmeos no colo. — Seja bem-vindo.

O rapaz alto de profundas olheiras sorriu fraco e adentrou no ambiente familiar da bruxa.

— Dakarai! — A voz grossa de Richard fez presença assim que avistou o amigo de longa data. O forte homem mal esperou pelas palavras do anjo e o envolveu em um abraço acolhedor.

Damian quis se esquivar do contato, mas continuou estático ao não querer machucar mais o seu corpo.

O bebê no colo de Niobe começou a chorar, atraindo a atenção do homem barbudo que finalizando o abraço apertado, suspirou enquanto a negra começava a embalar a criança suavemente.

— Vejo que a paternidade não está sendo como esperava? — O anjo deu um meio sorriso para o amigo, notando traços de envelhecimento em toda a sua figura masculina. O loiro de seus cabelos juntamente com o da barba só contribuia para isso.

Richard coçou a cabeça, tendo que concordar.

— Tenho ajudado Niobe o máximo que pude. — Contou sentando-se no enorme sofá de veludo. — Mas definitivamente não consigo aguentar tanto quanto ela…— A mulher de longos cabelos pretos sedosos riu após o comentário do marido. — Sabe o quanto esses filhos da mãe choram por comida? — O tom de incredulidade atingiu o seu discurso quando observou que seu filho ainda chorava, levando Niobe a rapidamente desculpar-se e retirar-se da sala para algum lugar mais privado. — Estou lhe dizendo, Dam, quando chegar o momento de casar com algum anjo, cara, invista bastante em métodos contraceptivos. Não irá querer um mini anjo demoníaco toda noite berrando.

— Uma coisa de cada vez, certo? — Damian relaxou no outro lado da sala de visitas. — Nesse exato momento estou mais preocupado em permanecer vivo.

Os olhos amarelos de Richard saltaram. Era claro que esperava algum problema assim que o anjo de asas negras batera em sua porta, mas não tinha suposto que seria tão grave.

— O que você fez, Dakarai? — A pergunta saiu curta e grossa, diretamente ao ponto.

Com um respirar profundo, o rapaz começou a contar tudo o que havia acontecido, desde escutar o grito de Astrid até levá-la a UPA de Thristan. O homem bruxo o escutou atentamente, não ousando interrompê-lo até tudo estar explicitamente dito.

— Por que, porcaria, você a levou para a UPA? — O loiro quase gritou, porém controlou-se mais fortemente, não queria dificultar o trabalho de Niobe e acordar o seu outro filho depois de tanto esforço em fazê-lo dormir. — Você sequer estava sóbrio? Sabe que esse bruxo de merda está envolvido até as bolas com o CCHM e mesmo assim corre para ele?

O anjo não expressou estar surpreso, mas estava. Depois de toda a explicação, essas eram as perguntas indignadas de seu amigo? Estava esperando explicar sobre o quanto não foi o ponto da criatura a ser salva ser uma humana, o quanto tentou agir o mais racionalmente possível… mas Richard não o perguntou nada sobre isso.

— Respire, homem. — Damian bufou. Irritava-lhe quando alguém deduzia que seu QI era baixo, o que era um hábito em Pluto. — Thristan me deve favores, um dos enormes. Ele não ousaria usar-me como um peão. — Seus olhos estreitaram-se. — Thristan sabe do que sou capaz.

— Niobe é uma curandeira, você sabe. — As palavras de Richard saíram cuidadosas. — Poderíamos ter cuidado dela.

O anjo arqueou uma das sobrancelhas, entendeu a mensagem por trás daquelas palavras: o amigo não acreditava que ele realmente conseguisse controlar Thristan.

— Não. O nível do veneno era elevado até mesmo para Niobe.

Com um menear de cabeça o homem concordou ainda que pensativo.

— Então, o quer que eu faça, Dakarai? — Richard curvou-se para frente, demonstrando mais interesse no que deveria fazer para tirar as garras políticas do universo mágico da garganta de seu colega. — Claramente não veio aqui para desabafar.

E assim o anjo explanou detalhe após detalhe; Entretanto, minutos após concluir a sua estratégia com o bruxo, o celular que estava no bolso da calça vibrou, notificando uma mensagem de Thristan.

“A humana foi denunciada.”

Ao pousar próximo aos pomares, algumas bruxas inclinaram-se a impedi-lo, mas contiveram-se subitamente. Damian disparou para a entrada da UPA, entrando na varanda, carregando uma profunda raiva nas veias.

— Damian, eu posso explicar. — Thristan apareceu no final da sacada com uma postura tensa. Dakarai praguejou e se jogou em um ataque quase letal.

O mago não desviou dos socos e chutes que o anjo desferia. Todos os funcionários do prédio pararam, observando, impressionados, a violência na qual Thristan não respondia.

— Eu confiei em você! — Gritou em sua face, dando-lhe um murro certeiro no olho direito. — Você… — Não conseguiu formular o restante da frase, deu outro chute com mais força em suas pernas. Thristan não perdeu o equilíbrio, apenas emitira um resmungo de dor.

Ele havia matado Astrid. Ela estava nas mãos do governo. Estava morta.

E o pior, se a mínima probabilidade da humana ser interrogada se fizesse presente, a sua morte também estaria garantida. Se Astrid abrisse a boca apenas para lhe chamar… o CCHM utilizaria muito bem tal prova quando a hora oportuna chegasse, isso ele não tinha dúvida.

Incomodado com a intensidade que os punhos de Damian estavam tomando, o mago o imobilizou ao proferir sussurros em latim.

— Eu fiz isso para o seu bem, Damian. — Thristan se afastou do corpo estático e repleto de adrenalina do rapaz, curando-se rapidamente dos golpes que havia recebido. — A curei, ela estava bem, cumpri a minha parte, não o traí como me acusa.

— Ela era inocente. — Dakarai cuspiu. A íris amarela vacilou com o desgosto que sentiu ao olhar na imensidade âmbar. — Eu a deixei sobre a porcaria dos seus cuidados! E francamente, seu bastardo, para meu bem? — Uma curta e seca risada escapou de sua garganta. — O que acha que vai acontecer quando ela clamar pelo meu nome?

O mago pensou por breves segundos antes de voltar a falar.

— Ela não seria capturada para interrogatório, Damian, e você sabe disso. — Respondeu deixando transparecer a mágoa por ser chamado de bastardo. — O que ela significava para você além de problema? — Perguntou sem entender tal comportamento, tentando analisar a mente do anjo.

— Tire as mãos da minha mente, seu filho da mãe! — Bradou ainda lutando contra o feitiço de imobilidade. Tudo estava uma confusão em sua mente, a única coisa que estava clara como a luz do dia era a sua raiva.

Entretanto, Damian sabia que não poderia se descontrolar, apesar de querer, mas não era por causa da humana. Não, não era isso. Ao encontrar uma brecha no pedido do anjo, o bruxo trouxe mais problemas incertos para a sua vida. Ele ainda não sabia quem havia mandado as filhas de Nedyalka para o mundo humano, ainda não tinha reportado o acontecimento para o CCHM e agora… bem, com certeza tal órgão já deveria estar sabendo,pelas Nedyalkas, sobre uma humana em Eris e que provavelmente chamava por seu nome. Seria só juntar 1+1 para os jogos mortais políticos começarem e sua cabeça ser degolada.

O homem se afastou com um sorriso sínico no rosto.

Thristan era um bastardo, pelo que conhecia, havia sido jogado a periferia como um mero rato. Em uma das guerras contra rebeliões à ascensão da família Dakarai em Pluto, sua vila fora afetada. Eris havia consentido a entrada militar para dizimar aqueles seres mágicos, mas ao ver o homem, que era metido no ramo clandestino de animais para rituais, tomar a atitude de defender crianças contra tais militares, as barreiras de Damian abaixaram-se um pouco, mas não foi pelo ato heróico que resolveu ajudá-lo.

O anjo não era definitivamente reconhecido como um dos misericordiosos da sua espécie e continuava assim sendo, a sua reputação nunca esteve errada. Não era a empatia ou a compaixão que movia as atitudes de ajudar alguém, Damian agia por interesse.

Cada pessoa que o anjo ajudava por debaixo das asas era alguém que tinha um grande potencial e que poderia ser maleável se precisasse de alguma coisa futuramente, afinal, tinha que agir assim com a família que tinha. Pelo menos costumava agir dessa forma antes de ter ajudado a humana, isso ainda era um assunto delicado em sua mente.

Ao saber que Thristan era um mago com extrema capacidade para a sua idade, Damian o manteve em uma clínica especializada em aprendizes de cura. O homem estudou por longos anos até que pudesse assumir o papel de auxiliar de enfermeiro, lutara bastante contra todo o preconceito que vinha ao ser visto como bastardo. Porém, ao mostrar seu empenho em cura, logo foi subindo de cargo.

Ser traído pelo que considerava um forte aliado era revoltante, todo o seu investimento meticuloso no ser mágico havia ido para o lixo. E não poderia matar o bruxo ali, seu nome estaria em pauta novamente.

Thristan cruzou os braços e desfez seu feitiço ao ver que o anjo estava mais calmo. Dakarai não moveu-se para atacá-lo novamente.

— Para ser mais específico, ela não foi capturada pelas filhas de Nedyalka. Ela, de alguma forma, conseguiu encontrar uma rota de fuga. — O mago suspirou, contando a verdadeira versão dos fatos.

— Eu deveria acreditar nessa porcaria antes ou depois que você contactou aquelas vadias? — As asas negras foram recolhidas. Suas mãos fecharam-se em punhos cerrados assim que seus olhos estreitaram-se. — Entregá-la a CCHM o garantiria uma grande e positiva reputação, deveria ter imaginado isso antes.

— Ele está falando a verdade. — Um dos espectadores da discussão, uma bruxa, interrompeu. — Vi quando a humana correu em direção a porta que dava acesso ao final da falésia.

Um ácido sorriso estampou a face de Damian.

— Então você está tentando se colocar como misericordioso? Morrer pelo impacto da água é a sua barganha? — A voz saiu carregada de sarcasmo. — Quando é que a utilidade de chamar as filhas de Nedyalka surge nessa anedota se não for para matar a humana com suas próprias mãos? Ela chamou por mim, não é mesmo?

O silêncio fez Damian mudar de base. Com um menear de cabeça de Thristan, os funcionários da UPA voltaram às suas tarefas. As íris amarelas saíram rapidamente da varanda, provavelmente vendo que o anjo já estava mais contido e que só iria rolar papo político, nada de diversão. Lá se ia o entretenimento na pacata UPA.

— Ela estava com uma proteção mental, mesmo que fosse pega, não iriam conseguir extrair algo de sua mente e sobre seus gritos… não se importune com isso, sei muito bem mesclar pensamentos de outros seres. Não contei ao governo que ela estava filiada a você, contei uma outra versão dos fatos. — Apontou o mago, mudando de assunto. — Se quiser um conselho, voltaria imediatamente para concluir a punição e seguiria com a vida normalmente; Os meus funcionários podem desaparecer com o corpo da humana, se achado, em questão de segundos.

— Obrigada, serei eternamente grato. — Damian sorriu sem mostrar os dentes. — Quer que eu lhe ofereça um café, ou melhor, louros?

— Pense racionalmente, Damian. — Sentou-se sobre a mesa branca, afastando uma cesta de biscoitos. — O que você faria se o império Dakarai descobrisse que descumpriu as ordens? Se o CCHM suspeitasse que você matou um do seu próprio mundo ao invés de matar uma humana? O que aconteceria se o fato de trazer uma humana para nosso mundo tomasse um raio de propagação maior do que apenas ao limite territorial dessa UPA? — Perguntou o mago sem cessar, mantendo uma postura descontraída. O anjo quis arrancar seus olhos amarelos, ele achava que não havia pensado nisso? Quanta audácia para um bastardo que não sabe o dia de amanhã. — Ser expulso permanentemente do exército estaria legal para você? Ter suas asas arrancadas, viver no esgoto de Pluto, valeria a pena por uma humana? Sobreviver como um fugitivo, vagando entre as dimensões, talvez até mesmo indo ao mundo humano para refugiar-se, seria digno de um anjo? Viver com cobras demoníacas, levando-o a insanidade, na prisão de Gesher? Futuro promissor o seu. — Gozou. Damian fechou os olhos com força. — Acredite, ela está mais segura morta. Sei que foi buscar ajuda no desmiolado do Richard, sei que tem aliados que podem me decepar se assim você mandar, não sou cego nem surdo como você pensa.

— Se não quiser que eu o mate, acho melhor não me confrontar agora. — Disse o anjo entre os dentes. Apesar da raiva que estava sentindo, estava cada vez mais calmo. Sua parte racional estava o dominando, um plano quase já havia sido formado em sua mente e sempre soubera que a humana morta seria menos problema. Porém, aquela outra parte, a que desconhecia e era insistente, o envolvia em uma nostalgia inexplicável, fazendo-o prosseguir com a ideia de mantê-la a salvo. Era confuso para ele.

— Eu posso conviver com o seu desgosto ou a sua desconfiança. — Thristan confessou em um comentário desanimado. — Mas pelo menos você está vivo e intacto, tenho certeza que se livrar de alguma prova que o leve até a... humana não será difícil.

— Isso se desconsiderarmos o fato de que filhas de Nedyalka foram mandadas para o mundo humano com o objetivo de capturar Astrid antes que entrasse em Eris. — Damian cruzou os braços, mantendo a expressão de poucos amigos. — Alguém poderoso já está ciente do jogo antes mesmo que haja um segundo movimento de peças.

— Mas você as matou, não há como revelarem que está agregado a humana. E se fossem até mesmo de Valast, já veríamos o fogo no primeiro sinal da fumaça. — O mago gesticulou suavemente com as mãos, concentrado em raciocinar. — Mesmo que coincidentemente essa fosse uma que vivia exatamente na rua em que você patrulhava.

— Você vasculhou a mente dela, seu bastardo! — O anjo deu um passo à frente, mas foi impedido a dar o segundo por uma parede invisível.

— Corte a parte dramática, Damian. — Bufou. — Se está realmente dando tanto valor a um ser insignificante, o máximo que poderia fazer era procurar o corpo dela no mar. Talvez se devolvê-lo para a sua família mundana alivie uma culpa que, sinceramente, desacredito que tenha.

— Thristan, eu estou lhe avisando pela última vez. — O rapaz deixou que seus olhos tomassem forma demoníaca, tornando-se mais intimidante. — Seja cuidadoso com o que fala. — As mãos do mago estavam suadas. — Nenhuma arma será capaz de salvá-lo de mim, se não for. — Dakarai não sucumbiria mesmo à parte mais metafísica de si, mas o detentor das íris amarelas não precisava saber disso. — Você contactou as filhas de Nedyalka para mostrar-se prestativo à CCHM, não foi? — Acusou mais calmamente, ainda sustentando a iminente ameaça no olhar.— Para deixar como um esplendoroso marco e ganhar um mínimo de voz nas reuniões, talvez mais acesso a Valast? — O mago não respondeu, apenas o encarou. Damian havia acertado em cheio, não era burro.

Contudo, desconhecia o motivo da ambição. Seria verdadeiramente apenas por status? Um homem do esgoto que agora tinha voz na CCHM era um grande chute na bunda de todas as pessoas que lhe humilharam. Apesar de que se o bastardo almejava mesmo a Valast, estava superestimando ao extremo o que tinha feito.

Seria por poder? Manipular assassinatos por vingança e ser encoberto pela proteção de uma grande comissão era um bom plano. Seria esse tipo de homem que o bastardo Thristan havia se tornado?

Por politicagem? O que um mago de cura poderia querer em um ambiente totalmente político? A sua UPA era independente, não precisava de verbas do Estado de Eris ou qualquer apoio interdimensional.

Sem mais uma palavra, Damian deixou que suas asas negras saíssem de suas costas pelos rasgos milimetrados da camisa regata preta, e tomou voo em direção ao mar. Se Astrid já estava morta, deveria arrumar um modo de fazer o corpo sem vida desaparecer de seu destino; Não confiaria essa tarefa a ninguém mais que ele mesmo.

O sol já estava se pondo quando terminava a sua segunda busca.

Astrid?

Tentou por tentar, não esperava resposta.

Depois da terceira busca, cansou. Deitou-se na areia da praia que raramente era utilizada e lembrou da última vez que sentira a brisa marítima, fazia semanas, mas pareciam anos.

Suas mãos afundaram na areia molhada, sentindo os grãos modelarem-se conforme fechava o punho, acidentalmente achando uma seringa e a jogando para o lado com descaso.

Por que havia, em primeiro lugar, desativado a runa da invisibilidade? Astrid poderia estar internada em um manicômio, seria mais seguro e adequado para ela.

Mas não, Damian tinha que escolher o caminho mais complexo de ser resolvido. Pensou nas batalhas militares que agora pareciam um tanto longínquas, era um ótimo modo de esvaziar sua fúria, mantendo a maldição sobre controle.

Talvez por não sentir mais aquela adrenalina, a maldição tomou o passo de envolver-se com uma humana? Isso explicaria o fato de não conseguir entender o motivo de continuar tentando mantê-la segura, havia muita adrenalina envolvida em todo o processo. E o anjo realmente sentia-se usado por alguma força quando estava perto de Astrid.

Seu celular emitiu um suave vibrar no bolso da calça jeans rasgada que usava, tirando-o dos devaneios.

Era uma mensagem de Richard, mas quando estava prestes a ler pela barra de notificação, um corpo inerte na areia chamou a sua atenção.

Astrid.

Notas finais
Sugestão de música tema para a leitura: Easier by Mansionair ( https://youtu.be/cn_-HihVCcE ) [Qualquer erro, por favor, reportar à escritora.]