Dark

6 R a i s e H e l l


Notas iniciais
A n t e r i o r m e n t e Damian Dakarai pensava que o tinha em suas mãos, pensava que o mago dono da UPA, Thristan, não ousaria trair a aliança que mantinha por tantas décadas. Errou. Seja por qual jogo, Thristan denunciou a humana para o governo de Eris. O que está tentando ganhar com isso ainda não é sabido. Logo, quando a busca do anjo pela garota estava praticamente encerrada, por acaso, encontra o corpo dessa na baia e corre para socorrê-la.

Não há dor física. Não há barulho mais ensurdecedor. Minha mente parece desabar e se reconstruir no mesmo minuto, não consigo explicar.

Sinto meu corpo cair e tento abrir os olhos, aos poucos o lugar em que estou deitada vai tomando forma e quase começo a chorar assim que a lembrança de saltar da falésia me invade.

Eu morri.

Olho para o solo sujo e repugnante abaixo das minhas mãos, consigo enxergar latas de lixo a minha frente e aquilo era um rato? ah, não. Isso definitivamente não é o céu. O aroma de álcool no ambiente é capaz de deixar qualquer um bêbado.

Levanto-me às pressas, percebendo que estou em um beco escuro e imundo de provavelmente um pub, já que mais a frente há uma rua com filas desorganizadas de pessoas e há uma porta de metal ostentando o nome “exit” ao meu lado. Então, quer dizer que se eu entrar, encontrarei uma baladinha com Hitler? Napoleão? Rainha Ranavalona I? Pinochet? Stalin? Eichmann? Lenin? Mao Tsé-Tung? Mussolini? Bem, se assim for, esperarei mesmo até Bolsonaro chegar. Até lá talvez eu possa bater um papo com Osama Bin Laden, descobrir se as teorias da conspiração sempre estiveram certas… Ou se eu não encontrá-lo, merda... se ele tiver vivo…

Meu devaneio é totalmente cortado quando a porta do beco se abre com um estrondo e um corpo é jogado brutalmente contra a parede, suprimo um grito. É isto, os demônios chegaram.

Encosto os joelhos com mais força, não posso urinar agora. Dou passos para trás, me encostando na parede perto da porta onde a luz do poste mais a frente não chega.

Outro corpo sai da mesma abertura e olha para o que foi jogado. Prendo a respiração.

— Levante-se, lobo. Agora. — Eu conheço essa voz… O corpo jogado emite um grunhido, obedecendo a ordem dada pelo outro.

— Eu não sei, okay? — O chamado “lobo” respira profundamente depois que cada palavra saída da sua boca carrega um tom de angústia. — Já contei tudo o que sabia, mago. Cumpri minha parte, me liberte! Cumpra o seu trato!

Dou um suspiro contido, alguém quer escapar do inferno?

As mãos dos magos vão diretamente para a garganta do lobo, levantando seu corpo contra a parede de tijolos. Pressiono a mão na boca para abafar qualquer barulho quando finalmente o agressor dá um passo mais perto da vítima e a luz atinge seu rosto. Mesmo tendo uma iluminação precária, eu nunca esqueceria de tais feições.

Thristan range os dentes de raiva.

— Não minta para mim! — Sua voz é uma navalha para meus ouvidos. — O que mais você sabe?! — Seu aperto se faz mais intenso e penso que estou presenciando um assassinato. No entanto, o lobo não parece lutar para sair do apuro.— Eu quero nomes, datas, informações válidas e não rumores da p*ta da sua mãe!

O lobo estrangulado grunhe e é jogado num segundo contra a porta de metal que já se encontra fechada, causando um longo “bum” sonoro e me fazendo pular.

Monto base na mesma hora, preparada para lutar corpo a corpo com Thristan, mas mesmo estando praticamente ao seu lado, ele não me vê. Ele está me ignorando? Ou eu sou invisível? Estou no inferno errado? Meu Deus, até nisso eu sou errada?

— Eu já disse, master!— Sinto o aroma de sangue predominar sobre o álcool, mas não ouso interferir na briga, a despeito de estar indignada com a resignação do lobo.— A resposta que tanto procura está com a abençoada pelos deuses ou com a própria Diana. Não há outro recurso, não há outro oráculo. — Houve uma pausa, sua respiração estava pesada e como se sentisse muita dor, curvou seu corpo na posição fetal. — Pode enfiar suas garras na minha mente, Thristan, pode dilacerar toda as lembranças, faça isso e perca no julgamento! Você precisa de mim nessa merda!

— Eu não preciso de você, dog. — A risada sem humor do mago me pôs de joelhos. — Não mais. Você achou mesmo que poderia me chantagear? Que poderia barganhar comigo? — O lobo urrou de dor após receber um chute e o barulho de ossos quebrados ressoar. — A sua querida mãe não lhe ensinou nada depois de tanto ser usada e descartada por feiticeiros? Ah, é mesmo, você não sabe porque ela sempre esteve ocupada sendo fodida por todo o mundo mágico.

Houve um grito. Dois e três. Não sei se foram meus ou do lobo quando a boca do mago começou a se mexer e palavras em latim foram expelidas. Algo estava errado, minha visão começou a ficar borrada, meu corpo começou a esquentar e então senti meu corpo ser puxado por um caminhão em alta velocidade.

Senti uma mão na minha face, bem, acho que o que estava passeando pela minha bochecha e cutucando o meu nariz era um conjunto de dedos. Franzi o cenho e virei o rosto, tentando sair daquele toque.

— Tóki! — Escuto uma voz feminina falar em tom de repreensão. — Quantas vezes vou falar para não cutuca-la?

Oh, não...

Sento-me rapidamente e quase grito. Há um garotinho de pele negra, cabelo curto e olhos amarelos ao meu lado.

Seu sorriso sem alguns dentes é totalmente diferente da minha expressão aterrorizada.

— Você acordou! — A mesma voz feminina que tinha escutado antes soa bem atrás de mim. — Que ótima notícia!

Viro minha cabeça apenas para encontrar uma versão mais hippie e mágica da Rihanna com outro garotinho idêntico ao do meu lado.

— Diga olá para ela, Thor! — A Rihanna pega o bracinho do garoto em seus braços e o balança para mim.

Minha cabeça parece estar em loading e acho que minha linguagem corporal explicita justamente isso.

— Oh, que cabeça a minha! — A mulher negra ri baixinho. — Seja bem-vinda, Astrid. Eu me chamo Niobe, sou uma bruxa. — Faço menção em sair da cama, mas uma mão pequenina no meu braço me faz ficar estática. — Este em meus braços é meu filho Thor e este ao seu lado é o meu Tóki.

— Onde estou? — Pergunto analisando o local em que me encontro. É um quarto de hóspedes, pelo visto. Sem fotos nos portas retratos em cima de uma escrivaninha vazia, uma arara de roupas inutilizado e nenhuma decoração pessoal, o tom do resto do quarto se mantém em um azul neutro. — Aqui não é a UPA, não é?

— Não, credo. — Niobe enruga a testa e afasta a mão do seu filho que tenta pegar seu piercing nasal. — Você está na minha casa.

— Como… — Olho para Tóki engatinhando em direção ao meu colo. — Como cheguei aqui?

— Ah… Você não lembra mesmo, não é?

— Lembro de ter despencado da falésia e… — Penso em contar sobre o pesadelo, mas algo me inibe. Não sei porque, mas sinto que não devo contar seja lá o que quer que aquele momento fosse. — só. e só.

Tóki deita sua cabecinha em meu colo e puxa minha blusa. Sem entender o que ele quer, deixo que puxe e logo me arrependo: sua boca começa a procurar por meu peito.

— Ai minha santa wicca! — Niobe faz o seu máximo para ignorar minha expressão super constrangida. — Tóki!

A bruxa faz seu rápido caminho até mim e em um instante pega o seu outro garoto no braço.

— Me perdoe, Astrid! — Niobe balança suavemente a cabeça. — Eu não sei o que há nesses garotos, sempre estão com fome!

— N-não tem pr-problema. — Gaguejo constrangida. Se ao menos tivesse algo para ele procurar… Garota errada, querido. Aqui só tem osso.

— Enfim, você realmente despencou do morro da UPA, foi uma sorte não ter morrido. — A mulher continua ao sentar-se no final da cama de casal em que me encontro. — Damian encontrou seu corpo quase sem pulso na baia da praia.

Damian. Damian. Damian.

— Ele está aqui? — Pergunto agitada, saindo da cama e me arrependendo em seguida. O mundo balança um pouco e tenho que me segurar na cabeceira dessa.

— Calma, querida. — Niobe tenta acalmar o choro de Tóki que agora já está estressado por não mamar. — Ele e Richard foram resolver umas papeladas, mas já estão voltando. Não é, mamãe? O papai já está chegando para cuidar de quem? De quem? — Sua fala torna-se super dócil e aguda ao focar sua atenção em Tóki.

— Perdão, quem é Richard? — Tento ignorar a profunda irritação que estou sentindo ao saber que mais uma vez fui largada a qualquer pessoa por Damian.

Será que era esse o plano? Traficar humanos para a sua dimensão? Mas qual o intuito, então, de ser perseguida pela morte a todo tempo? Não faz sentido. A não ser que como não morri, Damian tenha achado que um dos seus amigos precisasse de uma escrava, uma babá?

— É o imprestável do meu marido. — Seu sorriso destinado a mim se contorce em uma careta quando a boca de Tóki encaixa em seu seio. — Sem morder, seu filho da mãe!

— E-eu, E-eu não-o sei cui-d-dar de crianç-as. — Meu nervosismo me leva a gaguejar novamente. Tento respirar para manter a calma, mas é complicado. Todos os meus instintos estão apontando que serei mantida em cativeiro e ainda obrigada a cuidar de crianças que com uma palavras podem me matar. Não é uma sensação boa.

— Pela deusa, mulher! — Niobe tenta não rir do meu estado. — Quem está pedindo isso a ti? Relaxe! Nós somos amigos de Damian e se ele a protegê, nós a protegemos também.

— Thristan também era amigo de Damian. — Solto. Maldito filtro.

A bruxa ajusta um Thor meigo em seu ombro e me encara com seriedade.

— Aquele mago nunca foi amigo de Damian, não importa o que ele diga. — Disse em um tom baixo. — Levá-la até ele foi a única opção de curá-la de um veneno letal, não fique irritada com o anjo.

— Não ficar irritada? — Cerro meus punhos. — Se a senhora não reparou, eu sou uma humana que entrou em um universo totalmente paralelo e novo. Minha única, repito, única fonte, que nem conheço o nome completo e é praticamente um estranho também, simplesmente resolve me abandonar cada vez que pareço precisar dela! Então não, eu não estou irritada com Damian, eu estou completamente furiosa com ele!

Niobe me encara com uma expressão triste.

— Eu só quero voltar para o meu mundo. — Suspiro, sentindo minha visão ficar embaçada de lágrimas. — Voltar para a minha tia Melissa e sua mulher, voltar para meu treino de Muay Thai e minha escola infernal, até mesmo voltar para Chris, o meu ex.

A bruxa me dá um sorriso duvidoso. — Até mesmo o ex?

— Nah. — Balanço a cabeça, passando as mãos pelo rosto. — Exagerei demais.

— Eu escutei o que aconteceu no hospital, Damian contou a Richard. — Começa suavemente ao deixar que Thor engatinhe pela cama. — Não acho que seja uma opção segura voltar para lá agora, Astrid. O governo de Eris já sabe que há uma humana em sua dimensão, se dermos um passo a mais em falso, você pode ser morta e não teremos como salvá-la.

— Não há nenhum de vocês que possa simplesmente apagar minhas memórias e fazer com que eu retorne ao mundo humano? — Pergunto quase implorando. — Você não é uma bruxa? Não pode fazer isso em mim?

— Não é assim que as coisas funcionam, querida. — Niobe me lança um olhar piedoso. — É necessário um nível de magia muito antiga para retirar traços sem acabar com toda a sua memória. O máximo que conseguimos fazer, nós avançados, é mesclar sua mente, fazer com que duvide se realmente o que sentiu ou viu ou escutou foi verdadeiro. E isso não é o suficiente para qualquer governo daqui.

Sem reparar, lágrimas descem pelo meu rosto.

— Não chore, criança. — A mulher me oferece sua mão e ao aceitar, ela me puxa para o seu lado. — Nem tudo está perdido. Veja, Damian é uma pessoa relativamente importante por aqui, ele pode se safar dessa. Você poderá voltar para casa e no último caso, há as Smind.

Seu meio abraço em minha cintura é bem recebido por mim. Fico um tempo em silêncio, somente observando Tóki mamar e Thor rolar controladamente pela cama.

Respiro fundo antes de perguntar: — Quem são as Smind?

As íris amarelas de Niobe capturam cada traço do meu rosto.

— São crias do inferno. — Seu sorriso é contido. — Muito sábias e completamente cabeças abertas.

— Então o seu plano seria mandar-me para demônios? — Me afasto de sua presença. Ela é louca? Como isso me ajudaria a fugir da morte? Tortura não é uma opção!

— Claro que não, Astrid! — Seu timbre sai magoado. — Eu nunca faria mal a você, além de claramente ser uma protegida de Damian, consigo ler alguns traços de sua alma, sei que é uma pessoa boa. A legião Smind é a única que possui limitado acesso ao mundo humano, são as únicas, fora os contatos do anjo, que podem tirá-la daqui.

— São mulheres? Aonde estão? O que pedirão em troca de me levarem de volta? Eu faço tudo o que quiser, Niobe, se você puder me ajudar! — Falo tão rapidamente que mal consigo expelir as palavras direito. É a chama da esperança queimando novamente.

— Não sei, Astrid. — A mulher negra hesita. — Deveríamos esperar Damian chegar para resolver tudo isso, mas, respondendo às suas perguntas, acho que a legião só pesquisaria alguns fatos com você e só. É justamente por isso que possuem acesso ao mundo humano, são intelectuais natas e bem sucateadas pelo governo de Eris e, infelizmente, pela sua população também.

— Niobe, tente me compreender, por favor! — Peço, ajoelhando-me. — De mulher para mulher. — Que a sororidade funcione, amém. — Eu fui simplesmente agredida por um ser mágico enquanto estava na plenitude do meu quarto e então, um outro ser entrou na minha vida dizendo que eu e minha família estávamos correndo perigo. Eu estive mais de duas vezes próxima de bater as botas e nenhuma dessas foram por minha culpa. Estou sendo perseguida por simplesmente estar em um local que eu fui obrigada a estar e me vejo completamente nas mãos de um rapaz que mal sei o nome! — Ponho minhas mãos em seu colo. — Eu tenho uma família me esperando. Já perdi meus pais, minha avó e só me resta a minha tia e sua mulher. Por mais que eu só faça dar trabalho a minha tia, imagine a desgraça que causaria em sua vida se eu de um dia para outro sumisse e nunca mais retornasse? Meus pais me deixaram sobre sua tutela, ela enlouqueceria. Você tem filho, sabe como é a sensação. E, por favor, ponha-se no meu lugar. Eu nunca pedi para estar aqui e do modo como as coisas andam, acha mesmo que Damian arriscaria a sua bunda pela minha? Eu não sou idiota, ele pode tentar me proteger, mas se algo for muito arriscado para si, é óbvio que me abandonará. Então eu estou lutando por mim e peço a sua ajuda. Me leve para as Smind. É só o que peço.

Até mesmo Thor e Tóki estão me encarando, como se percebesse a tensão no ambiente.

— Merda, garota. — Niobe fecha os olhos, praguejando. — Isso vai criar um completo inferno, mas eu vou ajudá-la. Vou levá-la até a legião Smind.

Notas finais
Sugestão de música tema para a leitura: Raise Hell by Dorothy ( https://youtu.be/5XHHxfkImKo ) [Qualquer erro, por favor, reportar à escritora.]
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.