Dar-se Uma Chance
10 Paixão – Parte 1/9
Notas iniciais
Apego (substantivo masculino)
1. Apegamento;
2. Aferro;
3. Afeição;
4. Timão (da charrua);
5. [Botânica] Inserção.
Naruto entrou em casa com a cabeça latejando de dor, depois de passar horas com seu grupo, repassando um projeto que precisava ser entregue na próxima semana. A estranha quietude do espaço o fez franzir a testa, porque Kushina sempre estava tagarelando ou fazendo algum barulho involuntário pelos cômodos, como batendo panelas e ouvindo música ou a TV, enquanto cozinhava o jantar. Era tarde da noite e ele não sentia cheiro de comida e nem viu os pais na sala, mas sentiu que lhe encaravam e ele se virou para a sala de jantar. Seus pais estavam sentados um ao lado do outro com expressões sérias e carregadas. A atmosfera esquisita e incomum o fez amassar o rosto numa careta preocupada e ele se aproximou com cautela.
— Hey! – cumprimentou-os. – Está tudo bem? – indagou receosamente.
Sua mãe nem se deu ao trabalho de responder, ela apenas se levantou da cadeira e subiu os degraus para o primeiro andar, pisando firme no piso de madeira clara. As sobrancelhas e lábios cheios estavam apertados em uma carranca, juntamente com o corpo tenso, que emanava uma força e energia de fúria. Quando a figura pequena da ruiva sumiu das vistas dos outros dois ocupantes, eles esperaram alguns segundos com os músculos rígidos e os olhos comprimidos em antecipação, aguardando o conhecido bater de portas que fez todas as paredes e vidros tremerem violentamente.
Algo definitivamente estava errado.
O mais novo olhou para o pai, perguntando silenciosamente o porquê do estresse e fazendo Minato suspirar resignadamente em resposta. Geralmente, o papel de ser compreensivo, educador e conversar com os filhos sobre temas sérios ficavam ao encargo da mãe, enquanto o pai era indiferente, até o momento que as atitudes das crianças não refletissem do lado de fora. Só que nada em sua família se enquadrava no “geralmente”. Se o Namikaze não conhecesse a esposa bem o bastante, teria ficado irritado, mas a mulher nunca foi uma pessoa convencional. Na verdade, eles nunca foram tradicionais, em que cada um tinha a sua responsabilidade muito bem definida e os papeis nunca eram questionados.
E estava tudo bem, porque todos eles achavam que era melhor assim. Até porque Kushina nunca aceitaria o lugar de matriarca obediente. Ela só aceitou casar depois de garantir que nunca a faria abandonar a carreira para ser só dona de casa.
— Desculpe, sua mãe está um pouco chateada... – murmurou com um pequeno sorriso que deveria parecer tranquilizador, mas era incomodado.
— O que aconteceu? – tornou a perguntar, vendo o humor do outro.
O homem olhou para o teto, parecendo pensativo por um minuto e, por fim, voltou a atenção para o rosto do rapaz.
— Você tem algo para nos contar, Naruto? – indagou em um tom tão sério, tão incaracterístico, que fez o jovem ficar receoso de novo.
Naruto arregalou os olhos assustado. Ele só conseguiu pensar em um assunto que estivesse ocultando da família naquele momento, mas tinha quase certeza que eles seriam incapazes de descobrir sozinhos. A não ser que Sakura tivesse dito, mesmo dizendo que não o faria. E ele não acreditava que a mulher seria capaz disso.
— Como assim? – quis ter certeza.
— Você conhece alguém com o sobrenome Uchiha? – o questionamento o fez sentir que um balde de água gelada caiu em sua cabeça.
"Como...?", os olhos azuis tremeram e ele precisou engolir em seco, tentando desvendar o rosto atipicamente em branco do outro.
— Conheço a Mikoto-san, Itachi-san e o bastardo... – a voz rouca soou hesitante.
— Bastardo...? – Minato franziu a testa em confusão.
Pelo que Mikoto havia dito, seu filho mais novo estava romanticamente envolvido com o seu primogênito. Ver o rapaz nomear o "namorado" ou que quer que fossem desta forma nada carinhosa, fê-lo acreditar que houvera algum engano.
— É como eu chamo o Sasuke... – fez beicinho, desconfiado com o rumo da conversa. Mesmo sendo tão óbvio, Naruto ainda rezava para que não fosse o que parecia.
Seu ser estava gritando por dentro. O coração aos pulos não ajudava em nada para amenizar a pressão que sentia no pescoço e nos ombros, por causa da tensão. Não era assim que ele tinha imaginado conversar com os seus pais. No fundo, ele agradecia que era Minato diante dele, e não Kushina, porque ambos eram extremamente diferentes e ele tinha certeza que a conversa não seria tão simples, se fosse com a sua mãe, mas ele queria poder ter escolhido o momento certo para si mesmo, ter tempo para se preparar psicologicamente para aquilo. Desde o começo, nada estava sendo como ele queria e isso estava começando a deixá-lo chateado.
Ele não pôde nem contar com o apoio de Sasuke, como tinham planejado.
Naruto se sentiu sozinho naquele momento. Lidar com Kiba e Sakura já tinha sido difícil, mas ele ainda teve o respaldo de pessoas próximas. Ali, com o pai, ele só podia contar consigo mesmo, o que o fez se perguntar se era assim que os LGBTQ+ se sentiam na maior parte do tempo, por serem tratados como algo diferente, um bicho não identificado. Não é como se heterossexuais precisassem daquela reunião para dizerem que eram heterossexuais, e fazer toda esta cena, que os fazia se sentir expostos e julgados, para todas as pessoas que conheciam, apenas para confessar uma coisa que os outros consideravam “proibido e anormal”.
— E você o chama de “bastardo”? – o homem estava entendo menos ainda.
— Sim, pai... Eu chamo o Kiba de “vira-lata” o tempo todo, qual é o problema? – perguntou, começando a se irritar. – Este era o tópico da conversa ou eu posso ir para o meu quarto? Estou morto de cansaço e tenho aula amanhã cedo!
Minato encarou o filho, tentando ler as emoções contraditórias que emanavam dele, como se nem mesmo o próprio conseguisse controlar e defini-los perfeitamente. Num segundo ele estava receoso, no outro amedrontado, no instante seguinte, irritado... Naruto sempre foi uma pessoa extremamente transparente, assim como a mãe, por isso, se o rapaz decidiu ocultar algo da família, tinha um bom motivo para isso. Mesmo quando criança, o menino sempre assumiu o que fazia independentemente se estava certo ou não, por que seria diferente agora?
— Esse Sasuke é seu amigo? – jogou, não querendo assumir nada, sem ter certeza.
— Sim. – respondeu simplesmente, afinal, Sasuke não deixava de ser seu amigo também.
Naruto preferiu agir com cautela sobre o assunto, pois ainda não sabia o que o pai achava sobre ele estar envolvido com outro cara. O homem sempre foi muito calmo e sereno. Demonstrava alegria e tristeza sem hesitação, claro, mas também conseguia ser uma incógnita quando queria. Naquele momento, o rosto bonito estava em branco, apenas o analisava com uma intensidade tão grande, que o intimidava.
— Pai, eu queria que o senhor parasse de dar voltas e fosse direto ao ponto. – pediu humildemente e se sentou de frente para o mais velho. Ele cansou da pressão e não aguentava mais aquela lengalenga, precisava acabar com aquele diálogo, antes que enlouquecesse de vez!
Minato meneou em concordância com a cabeça.
— Eu e sua mãe tivemos uma reunião com os pais desse garoto, porque nós seremos a empresa responsável pela construção da nova filial da corporação Uchiha. – lambeu os lábios secos. – Mikoto-san e Fugaku-san são velhos amigos nossos e ela soltou sem querer que em breve seremos uma só família, já que o nosso filho estava namorando o filho dela. – conforme falava, ele observava a coloração do outro ficar cada vez mais rosa, espalhando um tom rubro pelas bochechas, pescoço e orelhas.
O rapaz desviou os olhos para encarar em um ponto da parede às costas de Minato. Seu coração parecia que ia saltar do peito a qualquer segundo, tamanha a violência do batimento cardíaco. Ele estava com vergonha e ouvir seu pai falar daquele jeito, parecia ter dado outra perspectiva para o seu relacionamento com Sasuke. Xingando-se mentalmente, ele amaldiçoou os sentimentos confusos que corriam pelo seu interior. Aquela relação parecia estar tomando proporções muito mais sérias do que ele estava preparado, ainda mais quando a Sra. Uchiha fez questão de assumir que os dois jovens estavam quase casados.
Não era bem assim.
— Pai... – tentou começar, mas foi interrompido.
— Nós não temos outro filho, acredito... – levantou as sobrancelhas ironicamente. – Então, imagine a nossa surpresa, minha e a de sua mãe, quando descobrimos que o nosso filho, ou seja, você, está namorando outro rapaz? – perguntou tranquilamente, mas de modo firme e que exigia uma resposta; uma explicação.
Pela primeira vez em sua vida, o tom tranquilo do mais velho parecia estar o deixando mais nervoso do que se ele estivesse gritando.
— Por que escondeu isso de nós, Naruto? – perguntou visivelmente magoado. – Sua mãe está chateada, eu estou chateado, então, me desculpe por não ir direto ao ponto, porque eu não sei o que se passa na sua mente e muito menos na minha neste momento. – olhou para os lados, procurando algo intangível que o ajudasse a formalizar as palavras. – Eu não sei como lidar com isso e, pelo visto, nem a sua mãe! Me ajuda a encontrar uma resposta, a entender o que está acontecendo, a te entender, porque eu juro que não sei o que fazer! – exclamou.
Minato parecia com raiva, mas o sentimento parecia muito mais autodirigido.
— Gomen-nasai¹... – ele abaixou a cabeça, sem coragem de encará-lo. – Mas, faz pouco tempo que eu e Sasuke estamos saindo. Vai fazer duas semanas no sábado, na verdade, e como é algo muito recente e incerto, decidimos ver como essa coisa... – tentou definir, mas não conseguiu e desistiu. – Que nós dois temos, evolui primeiro, e só depois tomar qualquer decisão. Nós estamos nos conhecendo, velho. A senhora Uchiha se precipitou, porque não estamos namorando ainda e estamos bem longe de pensar em construir uma família. – torceu as mãos e mordeu o lábio inferior. – Eu fiquei com medo de contar mais cedo, porque... – remexeu-se na cadeira. – Eu não sei! – mexeu no cabelo, bagunçando-o. – Porque eu achei que não aceitariam.
Um grande silêncio se estendeu entre eles até que o Namikaze decidiu responder:
— Naruto... – respirou fundo, enquanto esfregava as pálpebras com a ponta do polegar e o indicador. – Nós jamais te descriminaríamos por algo que você não tem escolha... – resmungou, com o tom estranhamente grave. – É justamente essa sua falta de confiança em mim e na sua mãe que nos incomoda! – pausa. – Kushi pode ser bem temperamental na maioria das vezes, dizer coisas dolorosas no calor do momento e esbravejar pela casa por motivos pequenos, mas ela nunca deixaria de te amar. Eu jamais deixaria de te amar. Acontece que a revelação nos pegou um pouco desprevenidos, mas jamais te condenaríamos por isso, pelo contrário... Se for isso o que você quer, o que te faz feliz, eu te apoio. – suspirou profundamente para continuar logo em seguida. – Só que isso não minimiza o quanto estou decepcionado com você!
— Eu sei... – murmurou em resposta. – Agora eu sei... – corrigiu. – Eu só fiquei apavorado com a ideia de ser julgado da mesma forma que fui julgado pela Sakura e pelo Kiba, principalmente porque ele, mais do que ela, é o meu melhor amigo. Não que eu esperasse um tapinha nas costas e um consentimento, mas eu esperava que ao menos ele se esforçasse para me entender. E o pior é que ele me chamou de coisas horríveis e me tratou de uma forma que eu não consigo ignorar. Estamos bem agora, mas o olhar de nojo é algo que martela na minha cabeça o tempo inteiro, porque doeu como o caralho ser tratado como um inseto asqueroso por alguém que deveria me amar, só porque descobri que não sou o que sempre achei o que era...
Naruto quis chorar e Minato, percebendo os olhos marejados, colocou uma mão no braço dele e deu um aperto firme de consolo.
— Kiba é muito verde e precisa de um tempo maior para maturar sobre certas coisas, Naruto. – o homem se levantou e apoiou a mão na cabeça loira, fazendo carinho nos fios macios. – É natural que ele tenha levado de outra maneira... – abraçou-lhe os ombros. – E me diga, esse garoto te faz bem? – perguntou por fim.
— ‘tou-chan? – ergueu uma sobrancelha em dúvida, vendo o sorriso carinhoso no rosto paterno. Naquele momento, ele derramou as lágrimas que estava segurando.
O rapaz se levantou da cadeira e se jogou nos braços do outro com tanta força, que quase os derrubou, chorando toda a rejeição que tinha sentido nos dias anteriores e não sabia como botar para fora. Tudo parecia tão pequeno com o apoio incondicional do cara que era o seu herói desde sempre. Ele se sentiu mais protegido que nunca, e foi bom que Sasuke não estivesse ali para ajudá-lo. Ele descobriu que havia mais alguém especial que pudesse contar, caso tudo ruísse a sua volta.
— Arigatou²... – murmurou com a voz embargada, afundando o rosto no pescoço daquele que havia o criado e amparado a vida toda. – Estou cagando para a opinião dos outros, mas se qualquer um de vocês, que são importantíssimos para mim, me odiassem, ia doer como o inferno e eu não ia aguentar...
— Baka. – deu-lhe um tapa carinhoso na nuca, enquanto sorria.
— Você acha que okaa-chan³ está muito chateada? Tipo, muito mesmo? – mordeu o lábio inferior, afastando-se do calor reconfortante que o pai lhe transmitia.
— Dê uns dias para ela. Você conhece a sua mãe, ela tende a agir primeiro e pensar depois, quando está chateada. – riu e deu um afago nos cabelos do mais novo.
— Hai⁴. – deu um pequeno aceno de cabeça, observando o mais velho subir as escadas para o andar superior.
Naruto até tentou conter a euforia que tomava conta do seu coração, mas não conseguiu e deu um pequeno sorriso, sentindo-se acalentado pela aceitação de Minato. Ele ainda estava preocupado sobre como seriam as coisas com a sua mãe, mas ter o pai do seu lado, já lhe tirava um peso enorme das costas.
(***)
Quando Sasuke chegou em casa na sexta-feira de noite, depois de uma tarde exaustiva de aulas e teleconferências, ele apenas encontrou um loiro deitado na cama no quarto de Karin. A cabeça amarela brilhante estava apoiada nas coxas delgadas da mulher, enquanto ela afagava os fios macios e balbuciava sem parar sobre um assunto qualquer. Naruto brincava com uma madeixa vermelha e sorria discretamente sobre algo, parecendo mais distraído que atento ao que ela dizia.
A primeira reação do Uchiha foi erguer uma sobrancelha, incrédulo com o desenrolar da cena inédita, mas bonita. Os dois estavam tão absortos na companhia um do outro, que não o perceberam na porta, apoiado no batente com os braços cruzados.
O moreno pigarreou para chamar a atenção.
— Teme! – o homem se levantou bruscamente, caminhando a passos rápidos para a direção do outro e enlaçando o pescoço pálido em um abraço apertado.
— Dobe. – murmurou, retendo a frustração acumulada com um sorriso apertado e dando leves tapas em um dos lados do quadril estreito.
— Deuses, arranjem um quarto! – exclamou a ruiva indignada. – Vocês não podem se ver que esquecem todos os outros que estão a volta! – jogou os braços para o alto em sinal de desistência.
Sasuke rolou os olhos. Só Karin para estragar o momento.
— Com ciúmes? – o loiro balançou as sobrancelhas sugestivamente com um sorriso cafajeste.
— Cala a boca. – ela rebateu secamente e depois gritou surpreendida quando sentiu dois braços fortes a apertando num abraço de quebrar ossos, enquanto lábios distribuíam beijos em todo o seu rosto. – Me larga, seu retardado! – ela berrou enfurecida, tentando empurrar a figura enorme de Naruto para longe.
Sasuke os observou com o cenho franzido, balançando a cabeça de um lado para o outro, antes de se mudar para ir para o seu próprio quarto. Ele precisava – mais do que desejava – tirar a roupa sufocante e trocar por algo mais confortável.
Ele tentou ignorar a memória do sorriso doce e radiante de Naruto há poucos instantes, porque a visão o ofendia. Ele passou parte da semana remoendo as palavras da sua mãe naquela ligação, amaldiçoando a língua grande da mulher e se culpando por Naruto não querer atender suas ligações. O loiro tinha razão em querer manter a distância, afinal, sua família tinha estragado tudo; os planos que fizeram e o tempo que tinham estipulado para se conhecerem e se descobrirem. Ele passou dias se martirizando por ter fodido com um relacionamento bom que mal tinha começado, desenhando cenários tenebrosos sobre ter desestabilizado a família Uzumaki, para o rapaz apenas aparecer como se nada tivesse acontecido?
Só de pensar, Sasuke ficava puto.
Vê-lo agora, agindo normalmente, tornou a sensação de contrição e perda em seu peito humilhante. Era como se tivesse passado uma temporada inteira se torturando para nada, porque enquanto ele se sentia como lixo, o Uzumaki continuava exultante e maravilhoso ao ignorar todas as suas ligações e mensagens.
O moreno enrolou os lábios em desgosto, lembrando o quanto o abraço do outro se sentiu bem-vindo em seu corpo. E como ele foi incapaz de recusar o gesto, quando sua pele cantarolou em êxtase ao sentir o tronco rígido de encontro ao seu, os braços em volta do seu pescoço, parecendo tão necessitado como ele mesmo se sentiu.
E, ainda assim, a ação calorosa não amenizou o quanto se sentia descartável agora.
Seus dedos estavam trêmulos, enquanto ele desabotoava a camisa, nervoso e irritado consigo mesmo por todo o sentimento negativo que tinha ruminado por tanto tempo à toa e por alguém que parecia ter cagado para a sua preocupação e cuidado. E para descontar o bolo borbulhante que crescia em sua garganta, jogou a peça de roupa com raiva em cima da cama.
Sasuke ficou encarando a parece por trás da cabeceira da cama, sem realmente ver, e puxando respirações profundas para se acalmar.
“Quem esse Usuratonkachi acha que é para me deixar assim?”, questionou cansado.
Suas mãos passearam pelos cabelos, bagunçando-os. Ele precisava recobrar o senso, porque Naruto entraria em seu quarto em breve e ele queria estar equilibrado mentalmente para que pudessem dialogar como dois adultos, encarar bem os fatos e colocar todas as cartas na mesa, caso contrário, aquela coisa entre eles não funcionaria. Ele podia ouvir Karin brigando com o primo de onde estava, e o Uchiha teria sorrido sozinho se fossem em outras circunstâncias.
Ele puxou as costas da regata que usava por debaixo da camisa e ouviu um assovio vindo da porta. Ignorou, jogando a roupa em cima da outra peça descartada.
Seus lábios apertados numa linha ao se impedir de vocalizar tudo o que estava entalado na garganta em meio a frases grosseiras e irracionais.
— Você podia fazer um show para mim, Suke, e rebolar essa bunda apetitosa quando abaixar essa calça. – cantarolou maliciosamente com a voz baixa e rouca.
O moreno nem se deu ao trabalho de responder, apenas chutou o jeans, tentando ser o menos sexual possível. O tecido se arrastou pelo chão, mas o homem desejou febrilmente que tivesse acertado a cabeça loira com força mortífera. Se ele não tivesse tão empertigado com a vibração da presença masculina e o perfume marcante que apertava seu estômago, talvez tivesse calculado melhor onde jogaria a raiva.
Naruto sentou na cama meticulosamente arrumada e coberta por uma colcha azul marinho com as costuras pretas. Ele passou os dedos pela textura de forma nostálgica, lembrando-se da primeira noite que passaram juntos ali. Seus olhos se fixaram no pedaço extenso de músculos firmes e pele macia, coberto apenas por uma boxer escura, e sua boca se encheu de água. Ele quase podia sentir o gosto daquele homem e a superfície lisa e salgada de suor na língua.
O mais novo deles engoliu a saliva acumulada, antes que babasse.
Mordendo a carne do beiço com força, ele se forçou a se concentrar nos traços delicados e bem desenhados do rosto másculo, quando reparou as sobrancelhas finas vincadas, a expressão fechada e o olhar distante. Bateu-se mentalmente.
— Sasuke? – chamou humildemente, quase com receio.
Silêncio.
Expandiu as narinas, já antecipando o que estava por vir.
— Suke? – chamou mais carinhosamente, tentando aplacar o humor do Uchiha.
Silêncio. Sasuke pegou um moletom na poltrona no canto do quarto e o vestiu inabalavelmente. Naruto respirou fundo.
— Bastardo?! – chamou mais energeticamente, começando a ficar irritado e impaciente com a indiferença. Pegou um dos travesseiros encostados na cabeceira e tacou sem qualquer cerimônia em direção ao Uchiha, que pegou o objeto antes de atingi-lo e jogou de volta, com força o suficiente para fazer Naruto soltar um guincho surpreso e quase cair ao tentar se desviar.
O moreno quis sorrir frente ao sentimento infantil de vingança realizada, quando viu os olhos azuis cerúleos piscarem em indignação e confusão, mas não conseguiu. Os dois apenas se encararam, medindo emoções através dos olhares.
— Filho da puta... – o loiro quebrou a quietude pesada entre eles e jogou a almofada para trás, antes que se sentisse tentado a jogar de novo no homem.
— Você está falando de mim ou de você mesmo? – Sasuke rebateu.
A falsa calmaria se estendeu novamente, enquanto o mais velho pegava uma camiseta de algodão surrado e passava pela cabeça e braços. Ele pegou a calça jogada no chão e se aproximou de má vontade do Uzumaki para pegar as outras roupas sujas espalhadas a esmo na cama. No entanto, antes que pudesse se afastar para colocar as coisas no cesto da lavanderia, uma mão grande segurou seu pulso.
Ele poderia se afastar, visto que o apego em seu braço mal parecia um toque de tão suave, mas o Uchiha não podia; ou não queria. Algo o segurou ali, assim como reteve seus olhos no contraste vívido entre sua pele pálida e a bronzeada.
— Me desculpa? – o mais novo pediu, procurando pela atenção do outro.
Sasuke suspirou, voltando a se sentir esgotado e preso em si mesmo, como se não tivesse acabado de tirar as roupas que pareciam esmagar o seu ser dentro do seu próprio corpo. Talvez, o problema não fosse o que vestia, mas como se sentia.
— Você sabe o quanto eu fiquei preocupado, Naruto? Eu te liguei várias vezes, mandei inúmeras mensagens, apenas para ser ignorado por você. Então, você aparece no meu apartamento como se nada tivesse acontecido e ainda exige atenção, quando tudo o que tive de você por três longos dias foi apenas silêncio? – começou. – As coisas não funcionam assim, sinto muito.
Naruto fez menção de responder, mas o Uchiha o calou com um gesto.
— Eu não terminei de falar. – declarou com firmeza, vendo-o abaixar os ombros em rendição. – Sabe como eu me senti com a sua reticência nesses dias? Você sabe que eu não costumo exigir respostas imediatas quando conversamos. Droga, nós temos uma rotina agitada demais, nossos próprios compromissos e nossa individualidade para nos permitir demandar coisas um do outro o tempo todo. Mas, na quarta-feira até a quinta-feira de manhã, eu precisei de algum sinal de vida. Qualquer coisa que me dissesse que você estava bem, que tudo entre você e sua família estava bem...
O moreno lambeu os lábios secos e engoliu o bolo que ainda sentia, mesmo desabafando parte do que precisava ser dito. O homem não desgrudou os olhos dos seus.
Com um brilho intenso, determinado e expressivo que era tão... Naruto.
— Eu precisava saber se eu não tinha fodido tudo. – terminou, finalmente expondo o ponto que o incomodou em todo esse período e se sentindo, enfim, leve.
O problema definitivamente não era a roupa, era aquele sentimento horrível que o sufocava. Ele remoeu tanto a culpa que estava prestes a explodir.
O mais novo mastigou o lábio inferior, parecendo ponderar sobre o que dizer. Os dedos calejados deslizaram do pulso para seu antebraço de maneira tão suave, que causou arrepios. Ele ouviu o Uzumaki suspirar.
— Suke... – murmurou reverente, quase em oração.
O interior do Uchiha se remexeu em um sentimento estranho e ele apertou a boca.
— O que deu em você para me chamar por esse apelido idiota, hein?! – rosnou irritado, porque toda vez que o rapaz o chamava daquela forma carinhosa, uma chama quente borbulhava em seu coração, desfocando-o.
Ele precisava se manter centrado no que era importante, porra.
Mas a mão do homem tinham outras intenções, quando se arrastou pelo seu braço até conseguir tocar as pontas dos seus cabelos. A nuca se eriçou em antecipação e saudade. E o moreno se perguntou como um simples toque e um olhar que o mantinham refém tinham o poder de incutir tantas emoções diferentes. Os dígitos leves o tocaram na bochecha e ele precisou respirar fundo e fechar os olhos para garantir um pouco de sanidade, antes de jogar tudo para o alto.
Dessa vez, foi ele quem agarrou o pulso do Uzumaki para pará-lo.
Sasuke engoliu uma exclamação surpresa, quando sentiu uma boca faminta colidir com a dele. Os lábios secos e rachados deslizaram pelos dele com carinho e cautela, mas assertividade, pedindo pelo consentimento. Foi o moreno que passou a língua pelo beiço carnudo, antes de invadi-lo. Seu ritmo era autoritário e imperioso, mas também lânguido e terno. Sentiu o outro segurar o seu rosto com medo de que ele pudesse se afastar, tocar o lóbulo das suas orelhas com os dedos e massageá-lo.
Um polegar ergueu o queixo cinzelado para expor o pescoço longo e pálido e Naruto não hesitou ao se abaixar para afundar o nariz na pele que cheirava uma mistura de perfume caro e dia agitado. Sasuke parecia ter tido uma sexta-feira daquelas e o loiro estava pronto para sugar o cansaço e tensão para longe dos músculos tensos. Raspou os dentes na tez imaculada e branca e chupou o pulso com força, ouvindo a própria respiração se acelerar ao escutar o Uchiha chiar e senti-lo arquear as costas e agarrar os seus ombros com vigor.
Estava difícil pensar com clareza. Para os dois.
Foi quase um sacrifício Naruto afastar a boca daquele corpo para rosnar, enquanto escorregava a mão pela barriga para brincar com o cós frouxo do moletom.
— Você acha que eu te beijaria assim se estivesse tudo fodido? – rosnou baixo.
— Não sei; me diz você... – conseguiu responder em meio ao fôlego curto. E teve que apertar o maxilar para evitar gemer, quando o sentiu apertar levemente seu membro semirrígido por cima da calça.
Antes que pudessem continuar o que estavam fazendo, um grito feminino os interrompeu e ambos se afastaram como se tivessem se queimado. Os dois olharam juntos para a porta e viram uma figura rubra e pequena choramingando a meio caminho da saída do cômodo e sua acompanhante loira, que mal escondia o interesse e a malícia do rosto.
— Karin?! Ino?! – o Uzumaki balbuciou desnorteado.
A mulher agachou os fios vermelhos em desespero, consolando a si mesma sobre o trauma vivido, enquanto murmurava sem parar algo que parecia com um “eu não vi isso”. Já a Yamanaka parecia pronta para pedir que continuassem para que ela pudesse continuar assistindo. Seus olhos azuis pálidos brilhavam de um jeito muito maníaco e Sasuke temeu pela integridade de todos ali presentes.
— Vocês ao menos poderiam ter trancado a porcaria da porta! – a ruiva berrou. – Eu nunca mais vou conseguir dormir sem ver essa cena impressa na minha retina!
Sasuke bufou. Começou o drama.
— Eu não vou reclamar nem um pouco de ter que conviver com essa visão por todos os dias da minha vida. – a outra disse levianamente, encarando as unhas.
— Não é como se estivéssemos fazendo algo demais. – o Uchiha contestou, tentando minimizar o escândalo que estava começando a lhe dar uma dor de cabeça.
— Ainda! – ela retorquiu num tom energético. – Você... – apontou para o primo. – Já estava com as mãos nas calças dele! – virou-se para o melhor amigo. – Deus, eu não precisava ser atormentada para o resto da minha existência!
— Eu achei excitante. – Ino comentou casualmente, fazendo-se muito confortável ao sentar na cama com as pernas cruzadas.
— É por isso mesmo! – Karin rebateu. – Eu fui apaixonada pelo Sasuke-kun primeiro e quem entra nas calças dele é o meu primo idiota! – explicou com entusiasmo. – E eles parecem fodidamente bons juntos, sabe como isso é injusto? E o pior de tudo é saber que eu apoiei isso desde o começo, tendo ciência de que eu sou uma opção muito melhor. É muito masoquismo mesmo!
— Hey! – Naruto cortou o desabafo indignado, finalmente tendo uma reação decente sem ser encarar todo mundo como se fosse um cego no meio do tiroteio.
— Eu te entendo bem, amiga. – murmurou a loira com uma expressão de condolência. – Eu também estaria arrasada se perdesse o homem da minha vida para o Naruto, mas ninguém pode negar que ele tem um charme. – divagou, levantando e se aproximando do Uzumaki para pegar o rosto masculino entre as mãos. – Veja, nem o Kiba resiste a essa carinha. Naruto o tem ao redor do dedo.
Sasuke bufou de novo, concordando.
— Verdade. – a outra concordou com um beicinho emburrado. – Na verdade, eu acho que ele tem vários ao redor do dedo, não sei nem como demorou tanto para se descobrir bissexual. Sasuke precisa ter cuidado, acho até que aquele amigo de vocês... Como é o nome dele mesmo? Gaara? – a loira meneou positivamente com a cabeça. – Ele tem uma queda pelo meu primo idiota.
Ino engasgou com a própria saliva, enlaçando a mulher pelos braços e a puxando em direção da sala para discutirem melhor o assunto.
— De onde você tirou essa ideia?!
Os homens ouviram à distância e Naruto se voltou para encarar Sasuke.
— Eu não sei do que elas estão falando. – garantiu com um semblante assustado.
— Hn. – o Uchiha nem se deu o trabalho de responder, voltando a pegar as roupas que tinham caído no chão, enquanto eles se beijavam.
Antes que o moreno pudesse sair do quarto, para colocar as peças no cesto, Naruto o chamou com um timbre tão sério, que fez seu estômago afundar em antecipação.
— Sasuke? – quando viu o homem se virar, continuou. – Está tudo bem com os meus pais. Eles só ficaram chateados por eu não ter confiado neles e contado antes, mas encararam bem a ideia de estarmos juntos. – sorriu aliviado. – Não foi nada que eu esperei; foi muito melhor que eu imaginei... – mordeu o lábio inferior com os olhos marejados. – Eu queria que você estivesse lá, mas foi uma troca muito íntima com o meu velho e eu acho que eu precisava passar por tudo isso sozinho. – respirou fundo para ganhar alguns segundos e colocar a cabeça em ordem.
O outro meneou a cabeça distraidamente concordância.
— Foi por isso que você não me ligou?
— Por isso e por outras coisas que eu precisava organizar comigo mesmo também. – contou com um tom baixo e arrependido. – Eu sei que foi errado e eu deveria ter te ligado ou ao menos ter mandado uma mensagem, mas eu precisava da companhia da minha própria mente para entender o que está acontecendo comigo. Conosco.
Naruto viu o pomo de adão no pescoço pálido subir e descer, enquanto engolia em seco. Sasuke parecia estar matutando suas próprias coisas também.
— E você chegou a uma conclusão? – a pergunta soou cautelosa.
— Sim. – assentiu. – E não. – deu de ombros, não querendo prolongar a conversa.
— E eu posso saber o que você já concluiu? – continuou, não querendo parecer invasivo, mas curioso demais para deixar o assunto morrer tão facilmente.
O barulho de louças e garrafas de cerveja os distraiu por alguns segundos, e ambos olharam para o corredor, em direção à cacofonia de vozes que dava para se ouvir da sala. O moreno franziu a testa em conflito.
— Vamos falar sobre isso depois. – Naruto sorriu, antes de se aproximar, encostar a boca na sua em um selinho fogoso e se afastar.
Sasuke observou o corpo masculino até sumir da sua visão, querendo agarrá-lo de volta para que pudessem terminar aquele diálogo enfadonho que pareceu esclarecedor, mas foi mais inconclusivo e obscuro do que se não tivessem dito nada.
Os olhos negros se estreitaram para o vazio.
— Acho que estou pegando muito leve com você, Uzumaki. – sussurrou para si mesmo, antes de seguir o homem para poder ir até a lavanderia.
(***)
Quando Sasuke chegou na sala, encontrou um Naruto muito emburrado e duas garotas tagarelando sem parar sobre algo que ele desconhecia.
O loiro havia tirado a jaqueta de couro caramelo que usava há um instante e estava somente com uma camiseta regata branca simples, salientando os músculos firmes dos bíceps e do dorso bronzeado. Tanta pele à mostra, fez com que ele não resistisse ao impulso de levantar a barra da peça para poder tocar a cútis dourada na região do cóccix. O jeans, como sempre, caía frouxamente, revelando o elástico vermelho e branco da cueca, fazendo-o cantarolar internamente em ânsia.
Naruto estremeceu com um arrepio, antes de virar para o Uchiha.
— Do que elas estão falando para deixar você com essa cara tão feia, Usuratonkachi? – murmurou com a voz grave no ouvido, fazendo os cabelos claros da nuca se levantar ainda mais.
Antes que o mais novo pudesse responder, Karin os interrompeu:
— Sasuke-kun! – exclamou animadamente com um sorriso de orelha a orelha. – Estamos combinando de ir a um dos clubes LGBT de Tóquio amanhã. – deu pequenos pulinhos de alegria. – É claro que todos estão reclamando, mas vamos dar um jeito para convencer todo mundo! – piscou vigorosamente com aqueles cílios de boneca.
E o Uchiha não teve dúvidas de que ela estava falando sério. Ela daria um jeito de persuadir todo mundo, afinal, era Karin – uma Uzumaki teimosa como os outros da família. Ou era o que parecia, convivendo com Naruto.
— Eu estou achando que isso não vai dar certo... – o loiro ao seu lado falou mais para si mesmo que com os outros.
Sasuke bufou.
— Faça-a acreditar no contrário e eu te dou o que você quiser. – desafiou, antes de caminhar até a lavanderia, crente que o homem falharia, afinal, era de Karin que estavam falando. A mulher não desistia até que todas as opções se esgotassem.
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