Dar-se Uma Chance
17 Capítulo 17
Notas iniciais
Eu sei, eu sei... Devo um pedido de desculpas pela minha demora, mas é que nesses últimos meses, eu entrei em uma crise gravíssima com o meu eu literário. Não queria saber de escrever, nem ler as minhas histórias mesmo que as palavras fossem pintadas de ouro, porque estava tudo errado.... TUTO ERRATO!
O problema é que eu sou MUITO perfeccionista e tenho um colapso quando vejo que algo que fiz não está no mínimo próximo a ótimo. Achei que nunca fosse capaz de confundir os meus enredos, mas de uma certa maneira, acabei misturando tudo. No final, um estava virando a descrição do outro e eu precisei de um tempo para colocar a minha cabeça no lugar. Escrevi uma vez, apaguei, escrevi outra, apaguei de novo... Até que na terceira tentativa eu senti que minha trama voltou a entrar nos eixos.
Espero que gostem e eu peço que me deem a sincera opinião de vocês. Minha insegurança não passou ainda e eu PRECISO saber o que vocês estão pensando.
O capítulo não foi revisado, estou postando-o de antemão, porque já demorei demais. Assim que a SamaChan me devolver o capítulo revisado, faço as alterações necessárias, portanto, perdoem meus erros de desatenção.
Beijocas ♥
Escrito por KiiinN
Revisado por SamaChan
“Não quero que finja sentimentos por mim, não quero que segure a minha mão se tem intenção de soltá-la. Só quero o que for verdadeiro.” – Cazuza.
Capítulo 17
Sasuke apertou a maçaneta entre os dedos com tanta força, que sua mão latejou dolorosamente. O apego fundamentado fazia com que o objeto escavasse sua pele pálida, dando a entender que o rapaz preferia se fundir àquele pedaço de metal dourado envelhecido a ter aquele tipo de conversa. Ele empurrou a franja longa de seu rosto, segurando os fios negros na parte traseira de sua cabeça, enquanto sua mente trabalhava freneticamente para arranjar uma resposta à altura para a ameaça infundada do patriarca. Franzindo os lábios, ele se virou para encarar os olhos escuros do velho senhor.
- Vejo que entendeu... — Fugaku murmurou, pegando um contrato que estava em cima da mesa para analisá-lo.
- Você é quem não está entendendo, tou-san. — sua voz ecoou profundamente pelo aposento. — Eu que incitei Naruto a fazer “aquilo” na sala. Fui eu quem começou e ele não é o único responsável pelo que aconteceu...
Ele continuaria falando, tentando desesperadamente mudar a mente do pai, mas foi bruscamente interrompido pelo timbre grave:
- Considere isso como parte do seu castigo. Sua irresponsabilidade merece uma punição e eu acho que separar vocês dois será uma penalidade boa o suficiente para que o faça entender que suas ações podem ter consequências graves. — deixou o contrato de lado, visto que a conversa não terminaria tão cedo quanto esperava. — Agradeça que fui eu quem os pegou juntos, Sasuke. Se fosse um jornalista ou qualquer um dos anciões do clã, você seria seriamente castigado... E só Kami sabe o que o conselho Uchiha seria capaz em uma situação como essa... Tenho certeza que nem eu, como líder, e nem sua mãe poderíamos intervir desta vez! — rosnou. — Você tem testado toda a paciência desses velhos, musuko¹, e eles só estão esperando um deslize seu para deserdá-lo.
O mais novo ficou em silêncio, ponderando as palavras do patriarca. Ele sabia sobre o que o homem estava falando; Fugaku se referia à última vez em que eles tiveram de interferir em uma decisão dos anciões; quando Sasuke havia assumido sua sexualidade perante toda a família. Já havia sido uma luta para que seus pais evitassem que Itachi fosse tirado do posto de futuro líder e o caçula não facilitou a situação nos meses seguintes, ao tomar a decisão de se expor para os parentes da maneira que havia feito.
Ele conteve um arrepio na espinha, lembrando-se de como o conselho brigou para que pudessem se intrometer em sua educação, mesmo que já tivesse 17 anos — idade mais complicada para fazê-lo se curvar às vontades dos seus antecessores. Com certeza, os velhos o obrigariam a se casar com alguma prima distante para continuar a linhagem da família principal, que precisava de herdeiros para prosseguir com suas regras hierárquicas retrógradas.
O estudante franziu a testa e os lábios, tentando conter a vontade de pedir ao pai para que mudasse de ideia. Seu orgulho não o permitia agir como uma criança descontente por ter o seu brinquedo favorito tomado. Se o empresário não poderia ser racional sobre o acontecimento, ele precisava ser lógico por ambos. A vida havia lhe ensinado melhor ao fazê-lo ver que a paciência era um requisito importante para se lidar com o mais velho, pois, foi dessa maneira que o rapaz levou toda a rejeição do seu progenitor, até que pudesse encontrar uma forma de provar que sua sexualidade não iria influenciar em outros aspectos de sua vida, principalmente no campo profissional. Cerrando os punhos e respirando fundo para encontrar alguma coerência em seus pensamentos confusos, ele pediu interiormente por calma, que apesar de o ajudar muito em um momento como esse, ainda assim o irritava. Ele não queria cautela.
- Nenhum ancião viu o que aconteceu e nenhum deles sabem sobre isso, a menos que o senhor conte, não há necessidade de me fazer um pedido sem cabimento como este, tou-san. — ele viu as sobrancelhas do pai se franzirem perante o tom neutro e indiferente, como o de um negociante estrategista. Sasuke não estava no direito de agir como se tivesse um rei na barriga. — Eu sei que estou errado e Naruto não tem culpa nenhuma sobre a minha decisão. Eu fui insistente e se há alguém que deve arcar com as consequências dos meus atos, esse alguém sou eu. Deixe-o fora disso.
Fugaku semicerrou as pálpebras, encarando o filho analiticamente. Embora o mais novo tentasse parecer impassível, ele via a dica de insegurança brilhando dentro dos orbes negros. Da arte Uchiha de camuflar suas emoções, Sasuke era um dos poucos que não havia conseguido aprender a técnica. Itachi poderia ter o jeito doce da mãe, mas era tão reservado quanto o patriarca, diferentemente do caçula, que tinha puxado a personalidade agressiva do velho senhor, mas era tão transparente como Mikoto. Para as pessoas de fora, o corvo poderia ser uma pintura abstrata, mas para alguém que criou e educou o rapaz desde quando este era um bebê, suas reações não passavam despercebidas.
- Não jogue comigo, Sasuke, eu não vou mudar de ideia. — retorquiu, esfregando as pontas dos dedos nas palmas da mão, enquanto considerava a imagem do rapaz. — Eu e sua mãe demos liberdade demais a você e isso está se refletindo diretamente em suas ações irresponsáveis. Ou você faz o que eu mando agora, ou Naruto também sofrerá com a sua negligência, pois é tão culpado quanto você. Estou lhe dando a chance de escolher pela opção de deixar a família Namikaze/Uzumaki definitivamente fora desse impasse.
O estudante tentou segurar um tremor que ameaçou passar por todo o seu corpo ao ouvir as palavras autoritárias e frias. E, de repente, ele não sabia mais o que dizer ou fazer para aplacar o humor azedo do homem. Um pequeno indício de desespero começou a bater em seu peito; o jovem não queria pensar na possibilidade de ter que deixar Naruto, principalmente agora, que o relacionamento dos dois estava caminhando para algo mais sério e que ele sabia o que realmente sentia pelo outro...
O mais novo se remexeu desconfortável, questionando-se sobre como seu irmão mais velho agiria em uma situação dessas. Ele só queria ser criança outra vez, apenas para ter Itachi interceder por ele como sempre aconteceu no passado; mas, naquele momento, ele era um adulto obrigado a tomar as rédeas das situações, sozinho. O peso da responsabilidade era grande em seus ombros e a percepção de que nem sempre temos o controle sobre tudo, deixavam-no com uma sensação de impotência que o desagradava. Era um gosto amargo, que tornava tudo mais difícil de engolir.
Repentinamente, o Uchiha caçula se sentiu drenado. Era tão cansativo lutar contra a correnteza, que às vezes era melhor se deixar levar. Mas ele era tão teimoso e cabeça dura quanto uma mula, e, quando desejava algo, agarrava-se aquela ambição com unhas e dentes até obter o que queria.
Ele dirigiu uma olhada rápida na figura masculina sentada atrás da mesa espaçosa, para ter o vislumbre do homem brincando despreocupadamente com uma caneta Montblanc entre os dedos longos. A visão desapegada o fez louco de raiva. Fugaku ainda permanecia observando, como um falcão, a aparência desiludida do filho, enquanto as mãos se movimentavam descuidadamente. O brilho do objeto sofisticado, feito de ouro e diamante 18 quilates, reluzia e parecia debochar do desalento perceptível de Sasuke. Era um insulto que seu pai parecesse tão tranquilo para com a sua infelicidade.
O rapaz desviou as íris para a janela, parecendo realmente compenetrado na vista que poderia obter através de seu campo de visão. Ele enfiou as mãos nos bolsos da calça, adquirindo uma postura mais reservada e defensiva perante o rumo de seus pensamentos; talvez, se o moreno admitisse o que sentia por Naruto, seu pai poderia ser um pouco mais flexível sobre a decisão, mas admitir para outra pessoa o que ele mesmo se recusou a assumir por algum tempo, era semelhante a uma tortura. Sua garganta se fechou e até o ar pareceu escorregar de seus pulmões, antes mesmo que ele pudesse inspirar corretamente. Era quase como hiperventilar por causa do pânico.
Tentando se acalmar, o estudante sugou uma respiração profunda, idealizando pensamentos encorajadores; porque aquilo, não era nada comparado ao aperto sufocante que ele sentia em seu peito, toda vez que se imaginada longe do Uzumaki. Ele havia adquirido certa dependência do homem loiro, que chegava a ser um pouco surpreendente até para si, mas o jovem não conseguia evitar, principalmente, porque o seu parceiro fazia questão de sempre se manter ao redor, tagarelando uma história sem fim sobre assunto nenhum, oferecendo-lhe sorrisos calorosos e gestos afetuosos. O Uchiha mais novo não era acostumado às demonstrações de carinho, mas ele estava se afeiçoando facilmente às investidas do amante. Pensar em um fim para o único ponto que o mantinha da vida em preto e branco era quase desesperador.
Tomando um impulso, ele soltou de uma só vez, com medo de que um milésimo de segundo o fizesse hesitar:
- Eu gosto dele, pai. — despejou, dando uma pausa longa para acalmar o coração, que batia freneticamente. — Não quero terminar o que tenho com o Naruto. Pela primeira vez, me sinto verdadeiramente ligado a alguém e não quero que isso acabe tão cedo. Eu me sinto bem com ele... — ponderou um instante, segurando o lábio inferior entre os dentes. — Aceito qualquer outra punição, mas não essa. — afirmou com uma determinação que assustou a ambos.
Fugaku refletiu sobre as palavras do filho. Sasuke abdicou de seu próprio orgulho para fazer este pedido sincero e ele teve de reconhecer que deveria ser difícil para o moleque o fazer, quando sempre esteve preocupado demais em manter a imagem confiante e indestrutível. O rapaz estava arriscando, sacrificando e pisando em algo muito maior do que parecia. O seu filho caçula estava deixando de lado toda a criação Uchiha em nome daquele romance e o patriarca admitiu para si, que aquilo não era muito simples, pois o mais novo estava ignorando todo o aprendizado de uma vida em nome de outra pessoa.
Era admirável, mas não amoleceria o seu coração.
O chefe do clã aprendeu há muito tempo que ser pai significava muito mais do que fazer a felicidade de seus rebentos, cedendo-lhe todas as vontades; era lhes negar algo com o propósito de ensiná-los a serem melhores e os fazerem ver que nem tudo o que queremos, é o que realmente importa ou nos faz bem. Logicamente, se o velho senhor pensasse com um pouco mais de clareza, veria que sua decisão estava sendo um pouco precipitada no momento, mas ele estava irritado com a irresponsabilidade do estudante e ainda mais decepcionado com o cuidado desleixado que o rapaz parecia transmitir naquela atitude. Dava-lhe a impressão de que o menino pouco se importava com a imagem da família e da empresa, cuja influência demorou anos para ser erguida.
Era o legado dos Uchiha e Sasuke parecia completamente desgarrado a ele.
- Deveria ter pensado antes de agir como um adolescente hormonal. Eu não vou mais arriscar nada por você, Sasuke, pois a sua atitude é inadmissível para mim. Você está desonrando toda a nossa descendência e tudo o que o nossos antepassados fizeram para que tivéssemos o que temos hoje. Seu desrespeito passou dos limites e, como consequência, eu não respeitarei o seu pedido. — depositou a caneta no tampo de madeira com um baque, dando a entender que aquela discussão estava encerrada. — Faça o que eu digo, ou serei obrigado a cumprir as minhas ameaças!
Sua voz profundamente grave e um pouco rouca ecoou por todo o escritório. Ambos se encaravam como tigres numa briga por território. A falta de flexibilidade de Fugaku começou a puxar mais que um nervo no rapaz, que cerrou os punhos dentro do bolso, enquanto o patriarca, embora não estivesse irritado, mudou toda a sua linguagem corporal para transmitir mais autoridade — suas sobrancelhas estavam franzidas e o brilho do olhar era duro e agressivo -, fazendo com que o mais novo ficasse ainda mais defensivo.
Sasuke parecia um gato ressabiado.
- Eu não vou fazer o que quer. — delegou com firmeza.
O coração do estudante saltou freneticamente ao soltar o desafio, pois, pela primeira vez em sua vida, o jovem se viu contradizendo o seu pai. Ele sabia que estava mexendo com fogo e em algo que não deveria, mas o corvo queria Naruto e não era uma ordem mesquinha que o faria mudar de ideia. Ele ficaria com o Uzumaki, mesmo que tivesse que girar um mundo para consegui-lo. A adrenalina que correu o seu corpo ao desobedecer ao velho senhor, fê-lo se sentir como uma criança que burlava as regras da casa. O receio era grande, mas a vontade ainda maior, então, por mais que hesitasse, ele não voltaria atrás em sua decisão.
E o mundo se encheu de cor novamente. Era quase nostálgico o sentimento agitado que tomou conta do seu ser ao ver o outro começar a perder a sua compostura indiferente... O resultado da provocação o fez se sentir muito mais do que vivo.
E ele culpou o loiro, que estava o influenciando de mais maneiras do que poderia imaginar.
- Você é responsável por seus atos, Sasuke. Não venha reclamar depois, quando as coisas ficarem muito feias. — advertiu. — Tem certeza que não quer terminar esse caso juvenil? Você é novo e não sabe o que é realmente gostar de alguém, musuko¹. Eu sei que em breve, você encontrará outra pessoa que o faça feliz...
O rapaz rangeu os dentes, ainda mais furioso com a prepotência do homem. Era seu limite. Não ficaria mais naquele espaço, ouvindo aquele monte de absurdos sem sentido. Fugaku simplesmente não conseguia enxergar algo além da tradição e dos costumes moralistas adotados pela sua família. O corvo odiava e não queria se submeter a nada disso
- Não. — virou as costas. — Eu sei o que quero e sei que o amo. — estava tão nervoso, que mal ouvia o que dizia. — Você é quem não sabe das coisas; você não sabe ser um pai... Eu odeio você! — rosnou com mágoa, abrindo a porta agressivamente, fazendo-a bater na parede ao lado com um estrondo, para sair praticamente correndo.
Ele estava tão furioso, que nem percebeu a presença da mãe no corredor, que se dirigia ao escritório para cumprimentar o filho. Sasuke passou reto por ela e saiu da mansão com a mesma velocidade de um raio, tempestuoso e descontrolado. A mulher olhou confusa, da porta do escritório para a escada, onde a figura masculina do caçula havia sumido, e por um momento não entendeu o que poderia ter acontecido para fazê-lo tão estressado, até que compreensão iluminou sua mente.
Ela deu um suspiro resignado, tentou deixar a face neutra e caminhou até a sala pessoal do marido. Com batidas suaves no batente de madeira, Mikoto anunciou a sua chegada e entrou sem a devida autorização, aproximando-se com cautela. Quando Fugaku estava frustrado, nem mesmo ela fugia dos ataques mal-humorados do homem, então, a atitude mais prudente, era agir com calma e serenidade. O esposo tinha o temperamento de um felino selvagem, um tanto agressivo, mas se seus gestos não lhe apresentassem ameaças ou segundas intenções, ele relaxaria e a deixaria chegar mais perto — sem movimentos bruscos.
Tão parecido com Sasuke... Não era à toa que os dois se chocavam tanto.
- Está tudo bem? — ela perguntou em um timbre suave.
Como resposta, ele só a olhou por um breve momento, antes de voltar sua atenção para o contrato, o qual tentou ler instante antes. A matriarca fez um pequeno bico em frustração, enquanto pensava em um jeito de contornar aquela acidez toda. A mulher entendia, em partes, como o empresário se sentia, mas orgulhoso do jeito que ele era, ela só poderia fazer suposições intuitivas até que o macho decidisse abrir a boca e derramar sua raiva acumulada.
Mikoto sabia sobre a decisão do marido, mas não concordava com ela. Apesar de sua discordância, preferiu se manter quieta para observar como Fugaku lidaria com a situação e com as mudanças que estavam acontecendo em seu filho. A transformação do caçula era óbvia para a morena, mas, pelo visto, a visão não havia alcançado o homem, o qual estava centrado demais em sua irritação para se atentar aos detalhes.
Sasuke parecia mais leve, mais feliz e mais descontraído. Ela ousaria dizer que o menino parecia ainda mais perceptivo e maduro; tudo graças ao relacionamento com o Uzumaki. A matriarca apostava que a ânsia em trazer o bem à outra pessoa, fê-lo mais atento e ponderado às emoções do próximo. O mais novo, antes de se envolver com Naruto, tinha a tendência de se importar apenas consigo mesmo, como se ninguém mais existisse ao seu redor. O egoísmo o tornava cego e o individualismo, sempre focado em seu próprio ego.
Se o homem soubesse o quão boa essa ligação era para o jovem, com certeza pensaria um pouco melhor sobre suas medidas duras. Sasuke precisava de uma conexão que o fizesse enxergar além do umbigo.
- Desculpa, querido, mas você sabia muito bem que isso aconteceria. — ela tentou conter o tom acusador, mas não conseguiu, então, franziu os lábios apertados para evitar que falasse mais e provocasse uma distância emocional ainda maior entre eles.
- Hn. — resmungou, fingindo-se entediado com o rumo da conversa, quando era claramente perceptível que ele estava incomodado.
Ser monossilábico era a sua forma de não descontar a sua frustração em quem não merecia, afinal, sua esposa não era culpada sobre seu impasse com o filho. Apesar do timbre censurável, a mulher parecia compreender perfeitamente o que ele sentia... Como sempre. Mikoto era o único ser a fazer com que Fugaku refreasse a sua agressividade; nem mesmo Itachi e Sasuke eram capazes de acalmar o temperamento forte do Uchiha, embora, ambos tivessem maneiras diferentes em lidar com os gritos do pai. Enquanto o primogênito entrava em estado alfa — ignorando as palavras ríspidas e se fingindo de surdo -, o caçula ficava na defensiva e levantava um muro ao seu redor.
Quando o estudante de administração e o patriarca se desentendiam, era como se dois raios se chocassem. Mesmo quando o jovem queria agradar o líder do clã, indo ao encontro de um mesmo objetivo, o antagonismo entre a dupla era forte, pois as duas personalidades sempre se colidiam, apesar de serem extremamente parecidas.
A matriarca achava esse fato superinteressante — era pura física: pares semelhantes se repeliam; pares diferentes se atraíam.
Seus pensamentos foram quebrados por uma voz rouca e profunda:
- Sei o que pensa sobre isso, mas não vou mudar de ideia. — avisou de antemão, pressupondo apressadamente qual era o tema daquele diálogo.
- Eu sei... — murmurou, aproximando-se mais e depositando a mão direita no ombro masculino. — Eu não vim para fazê-lo mudar de ideia.
Ele a olhou de forma desconfiada, mas ao ver a sinceridade nos orbes escuros, Fugaku relaxou com um suspiro que tirou todo o peso tenso de suas costas. Puxando-a pela cintura, o homem fez com que Mikoto se sentasse em seu colo. Ela deu um sorriso faceiro, enquanto entrelaçava os braços finos no pescoço do marido.
- Não se preocupe com Sasuke. Ele estava de cabeça quente e acabou não pensando no que dizia. — consolou ao mesmo tempo em que afagava os fios de cabelo da nuca do esposo. — Em breve ele aparecerá, como se nada tivesse acontecido, porque é assim que ele pede desculpas; você sabe disso...
- Talvez... — sussurrou, fechando os olhos para aproveitar a carícia.
- Mas, já que estamos falando sobre o assunto... — a mulher recomeçou, afinal, já havia conseguido a aproximação que precisava, e recebeu uma expressão entediada com uma sobrancelha erguida como resposta. — Acho que você foi muito duro com ele; desnecessariamente... Naruto faz Sasuke feliz, Fugaku. Eles são jovens e é completamente natural que sejam um pouco mais físicos e inconsequentes sobre o relacionamento. Nessa idade e no início de toda relação amorosa, os casais tendem a ser mais táteis, sejam eles homossexuais ou não. Você já passou por esta fase, querido, deveria ser mais compreensivo.
- Achei que não fosse tentar me fazer mudar de ideia... — rolou os olhos e tentou conter um pequeno sorriso, mas não conseguiu.
Quando se referia aos filhos, Mikoto sempre tomaria a frente das conversas.
- Só estou expondo a minha opinião. — rebateu, antes de voltar a divagar.
- Quando éramos mais novos, nunca saímos fornicando em qualquer lugar como coelhos! — retrucou, começando a ficar defensivo novamente.
- Eram épocas diferentes, Fugaku. Naquele tempo, tudo era considerado falta de respeito, mas hoje as coisas são diferentes. Embora, ainda cultivemos muito dos nossos antigos costumes, muitas regras mudaram. Nós criamos Itachi e Sasuke com uma liberdade um pouco maior a que fomos criados, então, é normal que eles não tenham os mesmos conceitos que tínhamos no passado. Ele errou; isso é inegável, mas privá-lo de ser feliz como forma de castigá-lo, é inaceitável!
- Quando foi que você ficou tão difícil? — ele resmungou, com o cenho franzido em desagrado.
- Quando nossos filhos nasceram. — apesar do tom firme, o timbre continuava suave. — Você deveria ter acompanhado mais o crescimento deles para entender sobre o que estou falando. Se tivesse sentado com eles para conversar, pelo menos uma única vez, você perceberia que tudo é diferente. Os jovens hoje em dia aprendem sobre a sexualidade mais cedo, mas se casam mais tarde, além de serem mais abertos sobre o assunto. — explicou com seriedade. — Está na hora de você também mudar...
O homem encarou as íris negras, tentando ler a emoção por trás daquelas palavras. O rosto de Mikoto estava surpreendentemente em branco naquele momento e ele não sabia como se sentir com relação a isso. Uma mulher neutra se tornava imprevisível e, como todo macho alfa, o chefe do clã gostava de estar sob o controle das situações. Ao seu parecer, a esposa estava dificultando aquele diálogo pelo simples fato de não mostrar nenhum sentimento pela sua expressão normalmente alegre.
Apesar de seu interior incomodado, o Uchiha preferiu manter sua postura descontraída e relaxada, porque, se era assim que ela gostaria de jogar, assim o faria.
- Eu já tomei a minha decisão... — pronunciou cada palavra lentamente, como se quisesse firmar cada uma delas. — Pensei que já tínhamos chegado a um acordo sobre isso; você disse que não tentaria me fazer mudar de ideia.
- Conheço muito bem a sua teimosia, Fugaku, e sei que não vai mudar de ideia... — respondeu tão séria quanto o marido. — Mas, isso não quer dizer que não te farei pensar no que eu disse... — ela deu um sorriso brilhante e uma piscadela, ao mesmo tempo em que se levantava do colo do homem.
O velho senhor observou a esposa caminhar até a porta com sua usual postura aristocrata; o nariz empinado, a coluna reta e o balançar discreto do quadril. A imagem feminina o distraiu por poucos segundos, mas assim que ela sumiu pela saída do escritório, a mente do homem voltou a divagar para o tópico daquela conversa. De fato, Mikoto não poderia fazê-lo voltar atrás em uma decisão, mas fê-lo questionar a si mesmo.
Com os lábios franzidos em aborrecimento, ele amaldiçoou a morena com uma raiva branda, até porque, era impossível ficar irritado com ela por muito tempo.
(***)
Quatro dias depois do desentendimento que teve com o seu pai, Sasuke estava certo do que deveria fazer. Uma vez que havia cortado os laços emocionais que o ligavam a Fugaku, ele acreditou piamente que nada o faria vacilar na escolha de continuar ao lado de Naruto; até aquela quarta-feira... Suas mãos apertavam o caderno de Negócios do Jornal Yomiuri Shimbun e seus olhos encaravam a página que lia como se a força do seu olhar pudesse transformar aquele pedaço de papel em cinzas.
Nele estava escrito que a empresa Mangekyou havia rompido contrato com a Kyuubi, por negligência e falta de comprometimento do arquiteto e engenheiro responsáveis pelas obras, ou seja, Minato Namikaze e Kushina Uzumaki. Na notícia, o chefe da família Uchiha criticava e difamava o serviço prestado pela outra corporação e os profissionais contratados, declarando com escárnio que fora a pior negociação que fez ao longo de sua vida. A matéria mostrava para o corvo, a falta de ética e limites do homem, que, para as outras pessoas, era um exemplo a ser seguido.
Ninguém duvidaria das palavras caluniosas do empresário, devido ao poder e fama que seus parentes carregavam. O jornalista responsável contou apenas um lado da história e houve pouca preocupação em não ser tendencioso, mas conhecendo o pai, ele sabia que Fugaku havia usado seus recursos para conseguir o que queria. Existia uma grande equipe de assessores de imprensa a disposição do velho senhor, que deveriam ter negociado com a administração do diário sobre a publicação daquele texto.
A pequena empresa do pai de Naruto, com certeza não tinha o mesmo refúgio e, se nenhum veículo de comunicação se interessasse em saber o outro lado do contexto, eles não teriam chance alguma de se defender. A corda sempre cedia para o lado mais fraco e, nesse caso, não seria diferente. Embora, Sasuke ainda nutrisse uma pequena esperança de que os pais do Uzumaki conseguissem se livrar daquelas acusações descabidas.
- Sasuke, o papel não tem culpa de você ser um bastardo.
A voz feminina quebrou seus devaneios tão repentinamente que o assustou. Ele deu um pequeno pulo, sobressaltado, e se virou para encarar a figura pequena de Karin Uzumaki, vestida com roupas esportivas e suada; sinal de que havia acabado de chegar de sua corrida matinal. Um breve minuto de ponderação por parte do moreno se seguiu, antes que ele erguesse uma sobrancelha, fitando-a com deboche indisfarçado.
- Acho que você está andando demais com o folgado do seu primo. — comentou casualmente, um pouco agradecido pela distração bem-vinda. O desvio de atenção para um assunto mais ameno fez com que sua mente acalmasse um pouco. Em breve, ele seria capaz de pensar friamente sobre o que deveria fazer para evitar o destino do andar da carruagem.
- Não tenho culpa se o idiota, às vezes, tem razão no que fala. — ela deu de ombros, indiferente às provocações, e abriu a geladeira à procura de uma latinha de Fujiya Nectar de pêssego, mas só encontrou as embalagens da Asahi de tomate. Ela não entendia como Sasuke conseguia beber aqueles sucos horríveis de vegetais com leve teor alcoólico; sua suspeita era de que a paixão pela fruta o deixava levemente insano.
Embora, o fato não fizesse com que ela fosse menos fascinada pelo corvo.
Ela coçou o topo da cabeça, refletiu um instante e desistiu de procurar algo decente para beber, preferindo voltar a sua atenção para o melhor amigo:
- O que aconteceu? Você me parecia um pouco irritado e preocupado quando eu cheguei. — divagou, enquanto se sentava em um dos bancos altos do balcão da cozinha.
O Uchiha percorreu o olhar perplexo pela figura da mulher, pois só ela no mundo parecia ter aquela capacidade inata de mudar os humores de uma conversa tão repentinamente. Mesmo depois de anos, ele ainda não conseguia se acostumar com as trocas drásticas de temperamento da garota; talvez, ela sofresse algum tipo de distúrbio de personalidade múltipla, porque só isso explicava o comportamento bipolar de Karin. Optando por continuar ignorando — como sempre fez ao longo de sua amizade -, ele apenas respondeu:
- Veja por si mesma... — e empurrou o jornal para ela.
A ruiva só enrugou a testa, enquanto olhava as folhas com estranheza. Seus orbes derivaram entre os cadernos e o moreno, antes que as palavras captassem toda a sua concentração. No decorrer do tempo, a face delicada, que já estava enrugada em dúvida, começou a se contorcer em raiva. As sobrancelhas tremulavam e os lábios estavam escancarados, enquanto as íris castanhas percorriam as palavras vezes seguidas, como se sua dona fosse incapaz de acreditar no que estava lendo.
- O que é isso, Sasuke? — ela tentou não gritar, mas a forma como o rapaz se encolheu, irritado com o som agudo, denunciou que não teve muito êxito.
- Meu pai... — rebateu, dando de ombros.
Embora, a sua aparência demonstrasse certo descaso para com a situação, ele realmente estava incomodado com o decorrer dos acontecimentos. Por um momento, ele teve esperanças de que Fugaku percebesse a insanidade de seu pedido, mas parece que o homem estava irredutível em sua demanda. De certa forma, o fato não surpreendia o rapaz, que conhecia tão bem a teimosia Uchiha, afinal, ele mesmo era tão cabeça dura quanto o mais velho.
- Isso é evidente! — ela voltou a exclamar, completamente indignada. — Eu quero saber o motivo!
- Pare de gritar, Karin... — resmungou, aborrecido. — Eu estou bem do seu lado. — enrugou a testa em contrariedade. Seus dedos brancos tamborilaram no tampo de mármore, enquanto ele ponderava como responder aquela pergunta, que mais soou como uma ordem. — Tou-san me pegou com Naruto na sala de reuniões do hotel da festa. – deixou a frase subentendida. – Ele me "pediu" para terminar nosso relacionamento e eu "delicadamente" recusei; agora, Fugaku está se empenhando em transformar a minha vida e a da família do Dobe em um inferno. — explicou como se tudo fosse mais simples do que efetivamente era.
Um silêncio inconclusivo se seguiu após as declarações desgarradas, até que a mulher voltasse a vocalizar de maneira irada.
- Você é um idiota! Meu primo é um idiota! E, por que vocês, homens, não conseguem manter o pinto dentro da calça?! — ela falava alto e gesticulava energeticamente, tudo ao mesmo tempo.
Sasuke não entendia como conseguia se envolver com pessoas tão escandalosas. Naruto, Karin... Mesmo Suigetsu tinha um comportamento completamente diferente do seu, tranquilo e indiferente; não existiam dramas desnecessários para o moreno, mas, pelo visto, ele estava fadado a atrair gente facilmente impressionável.
- Hn. — resmungou, perdendo a vontade de conversar sobre aquele assunto com a ruiva, já que ela não estava ajudando tanto quanto ele esperou. Apesar de ela ser uma distração necessária para o Uchiha, a fêmea estava começando a lhe estressar muito mais do que já estava anteriormente.
- E agora? — ela voltou a perguntar ao notar o silêncio prolongado do amigo.
- Estava pensando nisso, quando você chegou. — retorquiu, puxando o jornal para encarar as palavras impressas na página. — Eu só não posso envolvê-los mais nessa confusão, pois eles estão sendo seriamente prejudicados nessa brincadeira... — divagou distraidamente, como se falasse sozinho e, não, com a mulher ao seu lado. — Preciso arrumar as coisas com o meu pai primeiro...
- Isso quer dizer que você vai desistir do seu relacionamento com Naruto? — perguntou apenas por mera formalidade, já que, pela expressão no rosto do Uchiha, ela recebeu a resposta para a sua questão.
Desolada, Karin balançou a cabeça negativamente, enquanto assistia o rapaz voltar a ler o conteúdo da matéria, parecendo tentar achar algo que pudesse iluminar a sua mente. Ela conhecia o moreno há tanto tempo, que acabou aprendendo a perceber certas particularidades nos trejeitos de Sasuke, as quais denunciavam as emoções que ele lutava tanto para camuflar. A ruiva não era tão boa quanto Naruto parecia ser, mas ao menos lhe ajudava em situações como aquela. Ela sabia que o corvo estava angustiado e frustrado com o caminhar dos acontecimentos; e, por mais que ele tentasse parecer insensível, a Uzumaki via pelo vazio reflexivo do olhar negro, que o homem estava procurando a todo custo, uma forma para evitar o que aparentemente era inevitável.
- Por que você não fala com o idiota? — voltou a inquirir, tentando forçar o Uchiha a ver além do próprio umbigo; ele não era o único que precisava resolver aquele impasse; dois cérebros pensavam melhor do que um. A dupla sempre parecia compartilhar uma sinergia harmônica de pensamentos, talvez, naquele momento, essa característica viesse a calhar como um grande benefício.
Como se evocado pela pergunta, o celular do outro começou a tocar. A tela piscava de acordo com o ritmo de "Lion Heart" do SMAP e mostrava a palavra "Dobe" através do identificador de chamadas. Ela ergueu uma sobrancelha em questionamento mudo, afinal, a canção era romântica e melosa, atípica demais para o gênio de Sasuke, ainda que a letra da música conviesse, de certa maneira, com o relacionamento daqueles dois.
O moreno sentiu o escrutínio indisfarçado, mas ignorou, assim como fez com a ligação, que parou e voltou a tocar segundos depois. Se fosse qualquer outra pessoa, ele teria corado de vergonha, mas, apesar do constrangimento inicial, o estudante de administração conseguiu se controlar antes que pudesse dar qualquer evidência física de seu embaraço. Depois da terceira tentativa, Naruto pareceu ter desistido. Naquele meio tempo, um silêncio pesado cresceu entre os dois amigos.
- Você não vai atender? — ela estreitou os olhos, tentando captar o que se passava na cabeça do rapaz.
- Não.
- Você sabe que ele virá atrás de você em breve. — comentou casualmente, apoiando o cotovelo esquerdo no balcão e o queixo na mão.
- Eu sei... — murmurou, dobrando o jornal e caminhando para jogá-lo no lixo.
Aquela atitude vaga disse a Karin que a conversa havia terminado. Ela deu um suspiro resignado, enquanto assistia a figura masculina desaparecer pela porta da cozinha. Era pedir demais que Sasuke desabafasse, principalmente depois de fazê-lo contar toda a história, quando era claramente visível que nem isso ele estava disposto a fazer. A ruiva tinha sorte de ter conseguido certa proximidade com o moreno, caso o contrário, ela seria deixada às escuras naquele emaranhado de acontecimentos.
(***)
Um Mustang 68, vermelho, deu um último ronco ruidoso e brusco, antes de morrer em frente ao conjunto de prédios do condomínio onde Sasuke morava. O loiro tirou a chave da ignição com pressa, para recolher sua carteira e celular no banco ao lado e sair do veículo. O rosto marcado estava contorcido em aborrecimento, enquanto o seu dono nem se deu ao trabalho de ligar o alarme do automóvel e trancar a porta do motorista para se dirigir ao portão de entrada. Com um pequeno aceno para o porteiro, ele teve sua entrada concedida sem questionamentos, pois o velho senhor já estava habituado pela visão do rapaz entrando e saindo do apartamento do "Uchiha-san".
Naruto não estava com paciência para esperar pelo elevador, então, decidiu ir pelas escadas, já que havia perdido tempo demais esperando que o "teme-estúpido" atendesse as suas ligações. Ele só queria entender o que estava acontecendo. De repende, a Mangekyou rompeu contrato com a Kyuubi e Fugaku passou a difamar a empresa para todos ou quaisquer veículos de comunicação existentes no Japão. A imagem dos seus pais acabara ficando manchada no meio corporativo, deixando outras negociações na balança, pois os investidores ficaram inseguros em fechar qualquer serviço com Minato...
No fundo, o Uzumaki sabia que parte desses problemas foram causados pela pequena travessura que fizera com Sasuke no dia da festa, mas o loiro ainda carregava uma pequena esperança de que fosse por outros motivos, afinal, aquilo não era razão o suficiente para produzir tamanho estrago.
Quando ele chegou ao piso onde Sasuke morava, depois de subir pelo menos sete lances de escadas, o rapaz se dirigiu para a porta com o número 71 cravado e, sem pensar, afundou o dedo na campainha. O barulho estridente ressoou abafado no lado de fora, até que alguém se prontificasse a abrir a entrada. Devido a sua maneira energética em lidar com as situações, ele sabia que os moradores já tinham uma suspeita de quem era a pessoa inconveniente esperando para ser atendida; ele quase deu um sorriso de raposa, quando uma Karin descabelada e aparentemente irada apareceu, segurando a maçaneta como se esta a impedisse de avançar no primo idiota.
- Quer queimar a minha campainha, imbecil?! — rosnou com raiva. Os óculos estavam tortos e ela estava com um pijama de flanela amarelo claro com estampa de coelhos.
Pelo visto, ela havia se levantado com pressa.
- Não é meio cedo para dormir? Ainda são oito horas... — Naruto olhou o relógio de pulso para se certificar, antes de entrar no apartamento. — Sasuke está aí? — apesar da distração, ele logo lembrou o que viera fazer ali.
A ruiva abriu a boca como se fosse dizer algo, mas a fechou novamente, adotando uma expressão séria. Ela até gostaria de discutir um pouco mais com o homem, mas havia assuntos mais graves para serem tratados. Com um aceno simples para a varanda, a rapariga indicou a silhueta do moreno por trás do vidro fumê que dava a entrada para a sacada, ao mesmo tempo em que arrumava a armação fúcsia no rosto e ajeitava os cabelos vermelhos com a mão. Apesar da curiosidade, Karin decidiu deixá-los sozinhos, porque as coisas estavam ficando cada vez mais difíceis para ambos.
O loiro andou até Sasuke com cautela. À distância, ele poderia distinguir a forma masculina se movendo, enquanto levava um cigarro até a boca. A ponta vermelha brilhava na escuridão da noite e pareceu piscar ainda mais forte quando o Uchiha tragou o fumo para seus pulmões. O corvo parecia uma pintura vaga no meio do espaço e sua pele translúcida se destacava diante o entorno sombrio. O estudante de administração aparentava estar distraído, sentado tranquilamente em cima do divã de couro off-white, mas era claro que havia tomado nota da presença do Uzumaki na sala.
Sem preâmbulos, Naruto jorrou:
- O que está acontecendo, Sasuke?
Não houve cumprimentos calorosos. O loiro era tão direto quanto o moreno, pois também era avesso às enrolações; se havia algo para ser resolvido, que fosse feito com rapidez. A diferença entre os dois era que o mais velho sempre foi mais ponderado, ao contrário do loiro, que era mais impulsivo.
O Uchiha olhou para a figura bronzeada e reluzente do seu amante com apatia e depois balançou a cabeça negativamente, antes de soltar a fumaça presa em seu peito.
- Eu não sei... — a voz profunda ecoou por todo o ambiente aberto. Apesar da declaração vaga, ela pareceu extremamente sincera para o Uzumaki.
Um silêncio pesado cercou o local e mesmo o ruído suave de um ou dois carros passando na rua parecia mudo diante dos homens.
Era como se nada mais existisse ao redor.
Os olhos azuis brilhavam na escuridão da noite e Sasuke tentou parecer indolente ao escrutínio notório do companheiro. Ele não sabia como começar aquela conversa, e Naruto não estava o ajudando com aquela quietude repentina. O rapaz, sempre tão tagarela, encontrava-se inusitadamente calado, o que fazia o espaço entre eles ainda mais denso. A intensidade do olhar claro parecia perfurar um buraco na lateral do moreno, além de não dar uma dica dos pensamentos que giravam naquela mente imprevisível.
O mais velho simplesmente odiava quando o loiro adotava aquela postura reticente.
- O que seu pai está pensando? — o Uzumaki voltou a questionar, cada vez mais impaciente.
- Nos castigar. — deu de ombros, fingindo desinteresse.
- E o que os meus pais tem a ver com essa história? — rosnou, apertando os punhos para controlar a raiva. Ele não queria descontar a sua frustração em quem não tinha culpa. — Nem a minha mãe pareceu se importar tanto... Fugaku-san está fazendo uma tempestade em um copo d'água! — exclamou com descrença.
Se fosse outra situação, Sasuke teria gostado de ver a aparência do homem consumido pela fúria. Os orbes cerúleos brilhavam aquecidos pelo sentimento ardente e os cabelos pareciam ainda mais revoltos. As bochechas marcadas ficaram levemente coradas, devido à intensidade das emoções que o amante parecia sentir. Naruto sempre parecia ter sentimentos mais profundos do que qualquer outra pessoa; era uma impressão sem fundamento, porque cada um reagia diferente a uma situação, mas era dessa maneira que o Uchiha se sentia toda vez que via essas atitudes tão determinadas e apaixonadas.
Sasuke decidiu ignorar a obviedade da declaração e partir para o foco daquela conversa:
- Acho melhor darmos um tempo. — soltou de supetão.
O moreno observou como as sobrancelhas douradas se franziram em confusão inicial, ao mesmo tempo em que o outro arrumava a postura, ficando ereto e tenso como um soldado.
- O quê?! — perguntou como se não houvesse entendido o significado daquelas palavras. De certa forma, seu cérebro parecia ter captado aquela frase como algo ofensivo e para defesa de seu dono, tornou-se lesado; no entanto, seu coração parecia ser um pouco mais rápido, pois ele se apertou consideravelmente ao perceber com que situação estava lidando.
- Eu preciso de um tempo. — murmurou, batendo o cigarro no cinzeiro para soltar as cinzas presas. O fumo queimava sozinho, já que Sasuke se esqueceu de seu vício momentaneamente. — Com você longe, meu pai não teria motivos para atacar a sua família. Ele te acha uma má influência para mim e eu preciso de alguns dias para consertar essa bagunça toda. — sua mão branca tremia levemente ao levar o tabaco até os lábios. Ele tragou com tanta força, que a garganta doeu e o peito ardeu.
Estava tão nervoso e temeroso sobre a reação de Naruto, que seu exterior estava sendo menos resguardado que o habitual.
O loiro cruzou os braços e lambeu a carne do beiço, enquanto considerava o que ouviu. Ele se sentia um pouco ofendido pela opinião negativa de Fugaku, embora não tivesse feito questão de se mostrar inocente para o velho senhor, pelo contrário, o Uzumaki quis enfatizar que não se deixaria dominar tão facilmente. Estava em sua natureza ser determinado e destemido; não seria por qualquer pessoa que deixaria seus princípios de lado. Desde criança, ele agiu como se pudesse mover o mundo a seu favor. Poderia até ser ingenuidade de sua parte, mas ele acreditava intensamente em sua própria capacidade. A seu ver, quem não testasse seus limites, jamais saberia o quão longe poderia ir...
E ele queria ir longe!
- Você está fugindo... — resmungou secamente.
- O quê? — era a vez de Sasuke não acreditar no que estava ouvindo.
- Isso mesmo que você ouviu. — encostou-se a grade da sacada e cruzou os tornozelos. — Para você é conveniente. — acusou sem segundos pensamentos. — É mais fácil o seu pai acreditar que estamos separados; é menos complicado lidar com toda a situação me mantendo longe e afastado de tudo... — rosnou. — Você nem quer saber o que eu sinto sobre isso ou a minha opinião; não considera o que podemos fazer juntos para mudar a cabeça do seu pai. Eu sou tão responsável quanto você, sabia?!
- Ok! — interrompeu. — Então, diga! Derrame-se para mim! — ordenou.
Ele não queria ter soado tão debochado, mas foi inevitável, era a forma natural como seu espírito reagia quando se sentia acuado; era seu mecanismo de defesa.
- Bastardo... — murmurou, estreitando os olhos. — Podemos conversar com Fugaku-san, tentar mostrar que não há sentido para toda essa merda...
Ele foi interrompido outra vez, mas pelo som de um riso descrente.
- Você não conhece o meu pai, dobe... Ele não vai ouvir nada do que temos a dizer; ele sequer me ouviu, porque acha que seria diferente com você? — questionou com escárnio.
- E por que você acha que não? — rebateu, começando a ficar estressado. — Você não sabe conversar, Sasuke, mas isso não quer dizer que eu seja tão inapto quanto você. Você retruca a todo mundo como se as pessoas não fossem mais que insetos ou fica mudo como se o assunto não valesse a sua atenção. As coisas não funcionam assim... — pausa. — Você nem percebeu que está tentando me atacar, antes mesmo de ouvir o que eu tenho a dizer...
- Você me conheceu sendo dessa forma, por que está reclamando agora? Se me acha tão ruim, não deveria ter ficado comigo naquele festival! — quase gritou.
Nenhum dos dois percebeu que a conversa estava se desviando para outro tema. E, de repente, a briga havia adquirido uma profundidade mais pessoal para ambos. As palavras que nunca foram ditas estavam sendo usadas agora com o propósito de machucar. Era a forma muda e instintiva do ser humano de dizer: "sinta o que eu estou sentindo".
- Eu não acho que isso seja um defeito, teme-estúpido! — olhou para o teto, enfadado. — É a sua personalidade e ponto final. O problema é que a situação pede atitudes diferentes agora, Sasuke! Você precisa falar uma vez, duas vezes... Quantas vezes forem necessárias para firmar o seu ponto. Seu pai precisa perceber que você sabe o que quer e ele só sentirá isso, quando você for firme em suas decisões; assim como aconteceu quando você assumiu que era gay!
O moreno ficou em silêncio, olhando os orbes claros com raiva contida. Para ele, Naruto não sabia o que estava dizendo e estava sendo totalmente inocente para com a gravidade da situação. Fugaku não era alguém fácil de lidar e nada do que fizessem, seria capaz de mudar a mente do homem, a não ser que os dois fizessem a vontade do patriarca Uchiha.
- Ou o nosso relacionamento não é importante para você? — a voz do loiro tremulou, porque ele começou a se sentir inseguro.
O mais velho franziu os lábios e desviou o olhar. O que ambos tinham era uma das poucas coisas de valor que o corvo possuía, mas ele não poderia assumir isso ainda, porque sabia que se o fizesse, o Uzumaki se tornaria irredutível em sua decisão de ir atrás de Fugaku. Ele precisava de tempo para arrumar tudo sozinho e o outro só o atrapalharia.
- Eu não sei... — respondeu com a voz firme, embora seu interior vacilasse completamente. — Eu preciso desse tempo para definir o que sinto também; não é só a questão do meu pai que me fez tomar essa decisão. — ao terminar de dizer, ele voltou as íris escuras para o rapaz em pé à sua frente, mas assim que o fez, ele quase tomou as palavras de volta...
Naruto havia murchado visivelmente perante a declaração. Os ombros estavam caídos e os olhos, sempre tão vivos, tinham perdido um pouco do seu brilho natural. Como se não aguentasse encarar o moreno por mais tempo, ele desviou o olhar para encarar com interesse fingido a paisagem urbana que o alto edifício proporcionava. Sasuke sentiu o coração falhar uma batida e ele teve que refrear a vontade de dizer que era mentira, que tudo não passava de uma estória inocente, para que pudessem ficar juntos mais para frente, sem impedimentos ou preocupações.
- Entendo... — murmurou sem graça, enquanto coçava a nuca.
Era óbvio que o Uzumaki estava tentando parecer indiferente, quando era claramente o contrário. Apesar das evidências, o corvo desejou simplesmente que o outro não compreendesse a situação tão facilmente. Parecia contraditório de sua parte querer algo do tipo, quando teimou tão deliberadamente que o loiro aceitasse a sua decisão. O Uchiha se sentiu pequeno, insignificante e barato, porque lhe deu a impressão de que o rompimento tinha pouca importância para o homem.
Se ele soubesse o que se passava dentro do coração de Naruto, com certeza não se sentiria dessa forma. O mais novo se sentiu pesado, como se todo o seu interior fosse de chumbo. O sentimento de decepção e frustração que tomou conta de seu peito parecia pesar duas toneladas ou mais, afinal, o estudante de engenharia criou inúmeras expectativas para aquele relacionamento. Mesmo que ambos não tivessem um compromisso formal, ele já se sentia enlaçado por Sasuke. Se lhe perguntassem o que achava do envolvimento dos dois, ele responderia, sem hesitar, que já se considerava namorado do rapaz.
Seu coração batia constrito, como se o simples ato lhe custasse uma vida. O Uzumaki engoliu em seco e esperou que suas emoções se controlassem, porque ele tinha certeza de que se voltasse a encarar os olhos negros naquele instante, algo em seu espírito quebraria. Sugando uma respiração profunda e tentando ignorar toda aquela torrente negativa de sensações.
Em pensamento, Naruto tentou ser otimista, já que um tempo não significava necessariamente um rompimento, mas era difícil crer nesse fato, principalmente quando se está tão desapontado. Como forma de contrariar sua esperança, sua mente insistia em dizer que aquela era a forma do sexo masculino dizer "adeus"; Kiba era um exemplo nato disso, pois inúmeras vezes ele terminou um envolvimento com a mesma justificativa. O Uchiha não era igual, mas ele estava tão desiludido, que só enxergava as aparências. O moreno estava além daquela atitude e o mais novo sabia que por trás do exterior apático, existia alguém apaixonado e intenso, só que, naquele momento, ele só se deixou levar pela situação.
Esfregando a testa bronzeada com a ponta dos dedos para aliviar a dor latejante em sua cabeça, ele começou a balbuciar:
- Sasuke, eu vou para casa... Eu estou cansado, porque vim direto do trabalho e ainda tive que dirigir três horas... — "para ouvir isso", ele reclamou em pensamento. — Fora que o clima em casa e no trabalho não está nada bem e ainda estou em período de provas na faculdade. Eu preciso dormir! — desabafou, começando a andar para dentro do apartamento.
De repente, o corvo compreendeu o quanto aquela situação estava sendo difícil para o homem. Não era só ele que estava sofrendo. Para o Uzumaki, a confusão com o seu pai deveria tê-lo acertado com o peso de um rinoceronte, afinal, sua família era diretamente afetada pelas ações egoístas do seu clã.
- Você está bem? — ele perguntou, levantando-se, e no segundo seguinte se amaldiçoou por ter soado tão preocupado.
- Eu vou ficar... — ele deu um sorriso fraco, porém confiante.
Ao chegar até a porta, pela primeira vez na vida, Naruto não sabia como agir. Antes, ele puxaria Sasuke para um beijo e ficaria enrolando até que não pudesse mais atrasar a partida, mas agora era diferente, ambos não estavam mais em um relacionamento, então, o loiro não sabia o que fazer — "Devo apertar a sua mão?", perguntou-se indeciso, mas acabou decidindo por tentar agir naturalmente.
- Me liga, apesar de não estarmos mais juntos, não quer dizer que não podemos ser amigos, certo? — mordeu o lábio inferior, um pouco inseguro sobre a resposta de Sasuke.
O moreno sentiu uma pontada no peito com a pergunta. As palavras "não estarmos mais juntos" fez com que seu estômago retorcesse em um sentimento desagradável de abandono e desacordo.
- Claro... — respondeu simplesmente e puxou a porta aberta, segurando a madeira com força para se impedir de tocar o outro. Seu corpo parecia querer tomar vida própria e agarrar o mais novo para nunca mais soltá-lo. O loiro se afastou sem olhar para trás, mas se o fizesse, veria que o Uchiha parecia estar se refreando até o ponto de hiperventilar. Devido ao coração acelerado pela sensação de perda, a respiração saía e entrava mais rápido de seus pulmões, como se ele tivesse corrido uma maratona.
Sua maior vontade era gritar e chamar por Naruto, arrastá-lo para dentro do seu apartamento e trancar a porta, esquecer-se do mundo lá fora e tomar a sua decisão de volta...
Ele nunca imaginou que seria tão difícil se separar do homem que amava.
(***)
Diferentemente do que disse a Sasuke, o loiro não foi para casa. Ele viajou mais 4 horas até a cidade de Koriyama, na província de Fukushima, onde Kiba morava. O moreno tinha um apartamento pequeno, ao lado da universidade onde cursava medicina veterinária, na Nippon Zenyaku Kogyo. Como o Inuzuka não tinha um carro, mas possuía uma vaga no estacionamento do prédio, Naruto pediu autorização para usar a garagem, já que não poderia deixar o veículo na rua. O Japão era muito pequeno e as leis que envolviam o trânsito eram rigorosas, ele não estava disposto a perder o automóvel ou pagar uma multa que poderia ser evitada.
Subindo as escadas até o segundo andar, ele ponderou um minuto, antes de seguir adiante. O Uzumaki precisava de alguém para conversar e ninguém seria melhor do que seu melhor amigo; quem sabe assim, o rapaz poderia distraí-lo um pouco. O jeito animado de seu irmão de consideração sempre elevou o seu astral quando precisava. O estudante de engenharia arriscaria dizer que o outro era uma extensão do seu espírito; ambos tinham o mesmo comportamento e pensamento sobre muitos aspectos. Não se completavam, mas se desenvolviam mutuamente.
Ao chegar em frente à porta com o número 24, ele tocou a campainha e esperou, por ser quase 1h30m da manhã, o morador demoraria a atender. O loiro se encostou à parede e começou a bater o pé direito no tapete de palha, impaciente e distraído. Ele estava tão centrado em seus devaneios, que se assustou ao ouvir uma voz feminina muito familiar, perguntar com surpresa:
- Naruto?
Virando-se para ver quem era, ele se surpreendeu ao encontrar Ino parada, vestida tão impecavelmente como sempre, olhando-o com os orbes brilhando em estranhamento. Ela usava uma calça jeans destroyed, uma camiseta justa com uma estampa qualquer — a qual o homem não se deu ao trabalho de prestar atenção — e os pés descalços no carpete acinzentado. Os cabelos platinados estavam presos no penteado costumeiro e a face pálida estava coberta por uma maquiagem leve, que dava destaque apenas aos lábios carnudos pintados de rosa.
- Ino?
- O que você está fazendo aqui?! — os dois perguntaram ao mesmo tempo.
Não houve risos no final da troca, pelo contrário, ambos se olharam profundamente, como se procurassem os motivos de suas perguntas nos olhos e na aparência do outro. Depois de algum tempo, a mulher sorriu e decidiu começar o diálogo pelos dois:
- Vim fazer uma visitinha para o Kiba. — deu espaço para que ele entrasse.
Como se evocado pela explicação da Yamanaka, o moreno apareceu pelo corredor que dava para a sala de estar e estancou surpreso ao encontrar seu "irmão" parado na soleira da porta. Era raro ver o loiro em seu apartamento, na maioria das vezes, era o tatuado que aparecia na casa da família Namikaze. Não era como se Naruto não o procurasse, mas ele tinha responsabilidades, se antes, com a Sakura, agora, com o Uchiha. Há algum tempo, ele não entendia o porquê do mais novo negligenciar as amizades em prol de um relacionamento, mas hoje, o Inuzuka compreendia melhor e sabia não se tratar de descaso, mas, sim, da necessidade de se estar perto de quem gosta.
Depois do puxão de orelha que os outros deram no rapaz de olhos azuis, sobre abandonar as amizades por causa de um envolvimento, o Uzumaki começou a revezar os seus dias entre Sasuke e os amigos. Durante a semana, era comum vê-lo saindo com o restante do pessoal para confraternizar depois da faculdade ou do trabalho... Mas, em Niigata e, não, em Fukushima. Franzindo a testa e analisando a aparência do outro, ele percebeu, pela opacidade e desânimo nos orbes cerúleos, que a visita tinha um motivo muito mais profundo do que parecia.
O loiro sempre dava uma de forte, mas quem o conhecia tão bem quanto Kiba, logo via além do exterior sorridente.
- Você está bem? — perguntou preocupado.
O tom da questão atraiu a atenção de Ino, que até então estava quieta. Ela olhou de um para outro e saiu para deixá-los sozinhos, sem uma palavra. Os dois acompanharam os movimentos graciosos do corpo curvilíneo e, assim que ela sumiu pela entrada da cozinha, ambos voltaram a se encarar.
- Desde quando? — Naruto perguntou, fechando a porta de entrada.
- Você percebeu, não é? — riu, ao vê-lo abanar a cabeça afirmativamente. — Desde que fomos para aquele clube em Tóquio.
- Você está brincando! — ele iria perguntar como não havia percebido antes, mas a resposta estava bem óbvia, visto como ele andava centrado somente em Sasuke nos últimos dias. Dando um suspiro resignado, ele empurrou o sentimento de culpa para o lado, mais tarde, daria um jeito de contornar a sua atitude reservada; como um mudo pedido de desculpas.
- Você tinha razão... — fez um movimento de cabeça, indicando o sofá, enquanto se sentava em uma das poltronas.
- Eu sempre tenho razão! — brincou com um sorriso leve.
- Eu deveria ter falado com ela mais cedo. – ignorou a declaração convencida e continuou. — Ino não gosta de mim da mesma forma que gosto dela, mas estamos tentando. Quem sabe o tempo mude a maneira como ela se sente... — deu de ombros.
Ele considerou a imagem do homem tatuado por um instante. Kiba estava sentado com as pernas cruzadas em posição de meditação, parecendo tão largado como sempre, usando apenas uma calça moletom folgada e os cabelos bagunçados. Associá-lo junto à Ino, lhe lembrava da fábula infantil criada pela Disney: A Dama e o Vagabundo. Era engraçado e inusitado, mas por mais estranho que o casal poderia ser, ambos se convinham e combinavam, apesar dos contrastes gritantes; assim como Naruto e Sasuke.
A Yamanaka, sempre tão vaidosa, delicada e até um pouco fútil, cuidaria melhor do seu melhor amigo justamente por ter características que o Inuzuka não possuía, afinal, ele sempre foi relaxado e bruto. Antes que ele pudesse vocalizar o que viera fazer ali, a garota voltou a aparecer, segurando duas garrafas long necks de cerveja e as entregando para os rapazes.
- Achei que vocês precisariam ter um momento só para garotos. — explicou, dando um selinho suave nos lábios do veterinário e uma piscadela para o loiro. — Eu vou estar lá no quarto. — completou sem malícia, já que não era o momento para aquilo, e saiu, deixando-os sozinhos novamente.
- É... — concordou o Uzumaki, como se falasse sozinho. — Ela é a sua alma gêmea mesmo... — riu.
- A mulher que eu pedi a Kami-sama! — brincou. — Que homem não quer uma loira gostosa que te sirva cerveja sem precisar pedir? — balançou as sobrancelhas sugestivamente.
- Deixa a Ino ouvir o que você disse e ela te faz engolir a cerveja junto com essa garrafa... — apontou, fazendo uma cara de aviso e tentando soar sério, mas falhando miseravelmente.
- E você acha que eu não sei? — bebeu um gole. — Semana passada ela reclamou da bagunça e eu brinquei, dizendo que ela era a mulher da casa agora... — arregalou os olhos, enquanto mudava o tom de explicação para espanto. — Achei que fosse dormir para fora da minha própria casa! E, cara, esse apartamento é meu e eu que deveria mandar nessa porra... Estou perdendo o meu território para uma fêmea! — balançou a cabeça negativamente, resignado.
Os dois gargalharam juntos.
- Pelo menos na cama você representa, né, Kiba? — perguntou com diversão.
- Você está brincando comigo, filho da puta? — rebateu, indignado, e se levantou para dar um soco no ombro do outro, não dando nem tempo de Naruto se defender. O loiro só gargalhou ainda mais alto, enquanto esfregava o local dolorido. — Pelo menos eu não tomo na bunda, idiota! — provocou.
Ao invés de se sentir ofendido, o loiro riu ainda mais energeticamente.
- Não sei por quanto tempo, visto como ela te domina... — ele não teve a chance de terminar, porque um Inuzuka voltou a socá-lo, enquanto tentava segurar o próprio riso. — Em breve ela aparece aí com um pinto de borracha... Itai²! — segurou o pulso direito do melhor amigo, tentando respirar, segurar a risada e falar ao mesmo tempo. — Então, como eu ia dizendo...
- Cala a boca! — batalhou para parecer sério e bravo.
- Em breve ela vai aparecer com um pinto de borracha para usar em você! — disse, ignorando a ordem, com um sorriso de escárnio desenhado nos lábios carnudos. – Garanto que você vai gostar; eu gostei!
- Vou chutar a sua bunda para fora da minha casa e você vai embora sem desabafar as suas mágoas. — ameaçou, antes de largar o homem.
Naruto gargalhou mais um pouco e tomou um gole da cerveja para molhar a garganta seca pelo riso desenfreado.
- Falando sério agora, homem raposa... — chutou levemente a panturrilha do outro para chamar a atenção. — O que aconteceu para você aparecer esse horário?
O loiro olhou para o teto e deu um suspiro, procurando naquele ato um alívio para seus sentimentos bagunçados. A conversa com Kiba o fez esquecer brevemente de seus problemas, mas assim que o moreno o lembrou do motivo da visita, ele voltou a se sentir fatigado. Essa semana estava sendo um inferno para o Uzumaki.
- Sasuke me pediu um tempo. — explicou simplesmente, sem vontade de se aprofundar nos detalhes.
- E você acha que isso é um tempo definitivo? — questionou novamente, tentando entender o porquê da decisão repentina do Uchiha para que pudesse ajudar o amigo da melhor forma que podia. Ele odiava ver um raio de sol tão apagado. Naruto não combinava com desânimo, seriedade ou tristeza, justamente por ser naturalmente oposto a esses sentimentos. Seu jeito era sempre otimista e ele raramente reclamava (exceto ao acordar de manhã) ou resmungava sobre a vida. Se algo estava ruim, o estudante de engenharia simplesmente consertava a situação e fim de conversa. Nada de dramas desnecessários ou choros inúteis.
- Eu não sei... — pausa reflexiva. — Eu, sinceramente, espero que não. Sasuke não é um homem de meias palavras, entende? Mas, depois dele assumir que não sabe se nosso relacionamento é importante para ele, eu fiquei um pouco inseguro.
Estava aí outra palavra que não se equilibrava com o gênio do Uzumaki: Insegurança. O loiro era exatamente o contrário. Às vezes era irritante a maneira autoconfiante do rapaz para todos os aspectos da vida. O mais novo fazia tudo parecer fácil; mesmo que ele mesmo sentisse dificuldades em realizar alguma tarefa, sua teimosia e determinação eram tão fortes, que ele conseguia tudo o que queria à base da insistência. Tão simples que dava nos nervos.
- E o que você vai fazer? — voltou a perguntar.
Kiba se absteve de dar uma opinião, quando era claro que ele estava sendo tendencioso sobre o rompimento. Ele iria tomar partido por Naruto, visto como não conhecia muito bem o Uchiha. O veterinário não entendia como o melhor amigo poderia gostar de alguém tão seco como Sasuke, que parecia ser tão frígida como uma mulher problemática na cama. O cara não sorria, não brincava, não chorava... Não fazia nada a não ser manter aquela pose de fodão que lhe incomodava, completamente o oposto do loiro. Qualquer pessoa era melhor para o seu irmão de consideração, menos aquela aberração que o outro chamava de “namorado”.
- Eu vou esperar mais um pouco para ver no que vai dar... — decidiu com incerteza. — Vou tentar confiar no Sasuke e não sofrer por antecipação. Depois que ele decidir o que sente, nós vemos se continuamos juntos ou não... — deu de ombros, tentando parecer indiferente.
"Você é um idiota, Naruto, é claro que esse cara está tentando te fazer de brinquedo!", o Inuzuka pensou com raiva, franzindo as sobrancelhas em desagrado. Ao invés de expressar a sua discordância, ele tentou manter a conversa em um nível neutro, mas se ele visse que a situação estava chegando a uma situação insustentável, ele interferiria sem sobra de dúvidas.
- Mas, tão de repente? — bebeu um gole da cerveja para tentar disfarçar a careta que ameaçava romper a sua feição.
Então, o Uzumaki começou a contar toda a história. Kiba não fazia o tipo de alguém que lê jornais, por isso, ele teve de contar tudo desde o início. Compartilhar as suas preocupações fez com que um peso enorme fosse tirado de suas costas. Era claro para o loiro, que o melhor amigo não estava contente com a sua decisão, mas ele se sentiu aliviado com o apoio receoso que recebeu do homem, porque ele não precisava de mais perguntas, quando o seu cérebro já estava lotado de pontos de interrogações...
Notas finais
(2) Itai - Dói.
Gente, violência é crime e homicídio doloso também, portanto não me matem, ok?! haha
Quando escrevemos uma história, o autor tem que ter discernimento sobre o que deve ou não explicar no enredo, para não deixar o texto cansativo. Quem está sempre em contato com a cultura oriental, já deve ter percebido algumas características sobre a minha trama, porque eu deixei muitos aspectos subentendidos ao longo da narração, mas quem ainda tem aquela visão exteriorizada dos costumes japoneses não vai entender os meus motivos, portanto, eu me vi na obrigação de explicar algumas confusões para que vocês possam acompanhar a minha linha de raciocínio.
Quando eu decidi que continuaria "Dar-se Uma Chance", eu logo pensei que um dos pais deveria mostrar um receio maior com o envolvimento do casal. Eu escolhi o Fugaku, porque ele me lembra muito os velhos japoneses: rígidos, secos e quadrados. A grande maioria (não vamos generalizar, certo?) é muito preconceituosa com gaijin, ou seja, estrangeiro. Como fiz questão de explicar, a descendência do Naruto nessa história é completamente miscigenada e por mais que Fugaku aceite o Minato e Kushina como conhecidos, não quer dizer necessariamente que ele reconheça corretamente a família.
A princípio, ele achou que a personalidade do Naruto era fascinante e silenciosamente apoiou o envolvimento com Sasuke, mas a partir do momento que ele os pegou juntos na sala de reuniões, sua primeira ideia foi que o loiro estava influenciando negativamente a educação Uchiha, justamente por não ter os mesmo costumes que os japoneses. E quando falamos de clã, retratamos famílias extremamente fechadas, reservadas e MUITO antigas. Nas províncias mais tradicionais e agrícolas, por exemplo, ainda há famílias que praticam omiai (casamento arranjado), onde os mais velhos só casam os mais novos com pessoas com uma linhagem e dotes significativos, tamanha é a importância que eles dão para esses aspectos. Eles valorizam tanto essa questão de linhagem, que possuem uma Árvore Genealógica para cada sobrenome...
E se vocês estão achando a atitude do Fugaku ruim, devem saber que há pessoas piores no Japão. Não é à toa que a cantora, Minami Minegishi, raspou o cabelo. E não são só os homens que são assim, as mulheres também são super quadradas. É por isso que todos eles são sexualmente frustrados e precisam ficar fazendo aplicativo para acariciar peitos no celular, não é de cair o cu da bunda um negócio desses?!
Prometo que ao longo dos capítulos deixarei isso mais claro, mas quero que entendam desde já, porque não vou explicar com detalhes os fatores históricos e culturais no enredo para não deixá-lo desgastante, fora que não tem cabimento eu voltar para os primórdios dos primórdios para depois focar na trama novamente; vai tirar todo o nexo ao invés de acrescentar, entendem?
Obrigada aos comentário e às pessoas que adicionaram a Fanfic aos Favoritos!
Beijocas ♥
Fale com o autor