Dar-se Uma Chance
13 Capítulo 13
Notas iniciais
O capítulo de hoje é mais neutro, mas eles possuem algumas resoluções importantes sobre alguns fatos que aconteceram lá atrás. Prometo que em breve as coisas voltam a esquentar, porque já não estou aguentando mais escrever essa história e preciso dar um final para ela o mais rápido possível, porque eu enjoo muito rápido até dos meus enredos, haha!
Espero que gostem!
Beijocas! x3
Escrito por KiiinN
Revisado por SamaChan
"Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir. Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso. E com confiança no que diz." — Carlos Drummond de Andrade.
Capítulo 13
Eram quase nove da manhã, quando Naruto estacionou o seu clássico Mustang 68 vermelho em frente à mansão da família Sabaku. Os dois ocupantes viajaram em um silêncio tenso por aproximadamente seis horas e o ruivo já estava começando a se irritar com o sossego atípico do melhor amigo; normalmente, o Uzumaki começaria uma sessão de desabafos e resmungos até que seu emocional se abrandasse, para que assim, ele pudesse voltar a sorrir como se nada tivesse acontecido.
– Você não vai me contar o que aconteceu? – indagou em um tom uniforme, tentando parecer indiferente, soltando o cinto de segurança para poder encarar o perfil do outro.
– Nada aconteceu... – disse em um timbre que parecia um simples grunhido, atraindo ainda mais a atenção de Gaara.
– Eu vejo. – comentou casualmente, apoiando o braço esquerdo no encosto do banco do motorista. Ele encarou as sombras feitas pelas casas vizinhas e os raios de sol que desenhavam o asfalto.
O dia estava claro e bonito, mas o vento frio anunciava que em breve o tempo mudaria. As folhas das árvores já haviam começado a mudar sua coloração naturalmente verde para cores mais quentes, como amarelo, vermelho e laranja. O loiro adorava aquela época no ano.
– Você está entregue. – disse, querendo expulsar o rapaz. – Eu estou cansado, Bro. – continuou em finalidade, querendo dizer, indiretamente, que não queria ser contestado.
O mais velho respirou fundo e continuou a encarar a paisagem alegre formada pelo outono japonês. Niigata não era tão bela quanto às outras províncias, que atraiam turistas do mundo inteiro para ver a transformação que o Japão passava naquele trimestre, mas também tinha sua beleza particular.
– É muito difícil? – a voz suave do Sabaku atacou a quietude de dentro do carro, atraindo a atenção de Naruto, que não entendeu o sentido da pergunta.
– Não entendi... – franziu o cenho, confuso.
– Estar com outro cara. – explicou com simplicidade, dando de ombros para a careta surpresa que recebeu como resposta. – Você sempre foi habituado a estar com mulheres. É perceptível, pelo pouco que vi do seu relacionamento com o Uchiha, que é diferente.
– Esse começo está sendo difícil... – começou, mal percebendo que o amigo havia apertado os botões certos para que pudesse desabafar. – É um monte de experiências novas que, muitas vezes, acho que não consigo lidar. – ele olhou de relance para o macho ao seu lado, completamente sem graça. – Não sei se quero conversar isso com você.
– Por quê? – contorceu a expressão em dúvida.
– Eu não sei dizer se você me entenderia... – murmurou com um olhar distante, refletindo sobre o que deveria ou não dizer.
– Por quê? – indagou mais uma vez, começando a irritar o melhor amigo.
– Porque você nunca ficou com algum cara, nem ao menos beijou ou se sentiu atraído por um, talvez não entenda o que eu quero dizer. – exclamou de forma impaciente.
– Esse é o problema? – ele cruzou os braços, carregando no rosto uma careta de incredulidade.
– Sim. – grunhiu, não querendo continuar com a conversa. – Eu não tenho com quem conversar sobre o Sasuke... Ino e Sakura estão fora de questão e eu tenho medo de que a Karin não consiga segurar a língua para o Teme... – disse, enquanto mexia distraidamente o volante. – Não é que eu não confie no Bastardo, mas há certas coisas que não podemos contar para a pessoa que estamos nos relacionando...
– Entendo... – retorquiu arrastadamente, olhando distraidamente pros poucos carros que passavam pela rua e os pedestres que circulavam pela calçada; uma senhora arrastava um carrinho de aço inoxidável com inúmeras sacolas em seu interior e sua rodinha de plástico fazendo um barulho alto quando pulava no asfalto.
A lerdeza da mulher parecia descrever a calmaria da conversa entre os dois amigos.
Gaara pensou um momento, antes de cortar o silêncio mais uma vez:
– Naruto? – chamou como se não quisesse nada.
– Hm? – virou-se para encarar o homem sentado no banco do passageiro.
O loiro parou de raciocinar quando sentiu um par de lábios colados nos seus, fazendo que ele, involuntariamente, arregalasse os olhos azuis em surpresa. A boca se moveu e ele sentiu a carícia fantasma de uma língua desenhando a carne de seu beiço, como se pedisse mudamente para aprofundar o contato singelo.
Ele ofegou em choque.
A abertura mínima fez com que o ruivo visse, naquele momento, uma oportunidade para intensificar o beijo. Ele levou a mão esquerda para segurar a nuca do Uzumaki, impedindo assim, que o macho escapasse e parasse a continuidade daquele ato. Embora, o homem correspondesse o carinho, todo a sua figura alta e delgada estava tensa; as mãos paradas nas coxas e os orbes escancarados denunciavam que o estudante de engenharia ainda não tinha processado o que estava acontecendo.
Quando a informação pareceu encontrar um caminho até seu cérebro, Naruto empurrou o melhor amigo de distância com toda a força que possuía, jogando o Sabaku de encontro à porta do seu lado oposto.
– NO QUE MERDA VOCÊ ESTÁ PENSANDO? – gritou.
– Beijei um cara; agora você pode me contar o que está acontecendo? – voltou a cruzar os braços sobre o peito, como se nada do que houve instantes antes, tivesse, de fato, ocorrido.
O loiro não conseguia acreditar na presunção do macho diante de si. Ele ergueu uma sobrancelha e balançou a cabeça de um lado para o outro à procura de reorganizar a sua mente atordoada.
– O quê? – retorquiu sem fôlego.
– Não é tão diferente quanto beijar uma garota... – comentou casualmente, ajeitando-se no estofado. – Só o corpo e o cheiro são perceptivelmente distintos.
O Uzumaki só pôde bater a própria testa no volante do carro, não querendo acreditar no que acabou de vivenciar. “Gaara é louco!”, ele pensou ainda desnorteado.
– Um relacionamento homossexual não é só um mero beijo na boca, idiota. – rosnou com raiva. – Se envolver com um homem, quando se viveu toda a vida saindo com mulheres, é muito complicado... Eu ainda tenho um monte de inseguranças que não consigo ignorar e isso está prejudicando o meu relacionamento com o Sasuke! – desabafou de uma vez.
– Eu sei... – o ruivo interrompeu e deu um sorriso pequeno e misterioso. – Foi por isso que eu disse que deveria ser difícil para você.
– Hã? – franziu a testa, surpreendido pela segunda vez em menos de uma hora.
– Olha... – franziu os lábios, refletindo sobre o que deveria dizer. – Eu não vivo na sua pele e, talvez, não entenda muito bem o que sente, mas eu sou o seu melhor amigo e eu me preocupo com você... – desviou o olhar para a rua. – Quem sabe uma pessoa de fora pode lhe apontar aspectos que você se recusa a enxergar? Independente das nossas diferenças, quero que saiba que eu faria qualquer coisa para te ajudar. Eu não gosto de te ver desse jeito. – murmurou, completamente sem graça, sentindo as bochechas arderem em vergonha.
Naruto ouviu o discurso com os olhos ainda mais arregalados e assustados, como se uma segunda cabeça tivesse nascido no pescoço pálido do outro homem. Quando ele viu a sombra rosa nas maçãs normalmente leitosas, o estudante de engenharia não conseguiu segurar a onda frenética de gargalhadas que rompeu pela sua garganta.
Desde que conheceu Gaara, aos 12 anos de idade, o Uzumaki nunca viu o melhor amigo tão tímido. Ele aceitaria passar por tudo o que estava passando de bom grado, só para assistir aquela cena novamente.
O ruivo só franziu a testa em aborrecimento.
– Desculpe. – o loiro disse sem fôlego. – Eu nunca imaginei que você, essa persona estoica, pudesse ficar dessa maneira, tão sem graça.
O Sabaku apenas pigarreou em resposta, procurando recuperar a dignidade perdida. Ele não sabia lidar com as próprias emoções, por isso, toda vez que tentava demonstrar o que sentia, o mais velho se arrependia. Naquele momento, ele só conseguia pensar em quão imbecil deveria estar parecendo.
– Mesmo que eu diga o que está acontecendo, eu ainda insisto que você não poderá me ajudar, cara. – ele tamborilou os dedos no volante, olhando a janela distraidamente. — Pelo menos, não quando o assunto é sexo entre dois homens... – ele se voltou para encarar o melhor amigo e soltar um piada infame sobre o tema, mas se calou quando percebeu a intensidade dos orbes esverdeados.
Gaara estava sério, como se pensasse profundamente sobre o que acabou de ouvir. Naruto sentiu um arrepio percorrer a sua espinha, começando a se sentir nervoso com a força daquelas íris cravadas em sua expressão desnorteada.
– NEM PENSE NISSO, EU NÃO ESTAREI FAZENDO ISSO COM VOCÊ! – gritou repentinamente, assustando o ruivo.
– Do que você está falando? – contorceu o rosto em confusão.
– Eu não vou transar com você! – resmungou, saindo do carro; querendo ficar o mais longe possível do macho e, em um espaço tão limitado como seu Mustang 68, era praticamente impossível.
– Quem falou sobre transarmos? – enrugou a testa, saindo do veículo também, seguindo o homem que caminhava a passos rápidos pela calçada.
Nenhum dos dois fazia ideia para onde estavam indo.
– Ninguém precisava ter dito sobre transarmos! – exclamou, atraindo a atenção de alguns pedestres que circulavam ao redor, olhando-os com repreensão no olhar pelo linguajar inapropriado. – Você me olhou com aquela cara de novo!
– Que cara? – o ruivo estava entendendo menos ainda.
– Aquela que você fez antes de me beijar! – gritou, apontando um dedo acusador na face pálida. – Eu não estarei fazendo isso com você!
– Eu não ia pedir pra transar com você, mesmo que você não seja alguém para se jogar fora... – deu de ombros, colocando ambas as mãos nos bolsos dianteiros da calça jeans. – Sexo tornaria nossa amizade estranha, diferentemente de um simples beijo, e eu não quero que isso aconteça...
– O que você quis dizer com: “mesmo que você não seja alguém para se jogar fora”? – o loiro perguntou com desânimo, agarrando os bloqueios dourados de sua cabeça como se fosse arrancá-los. Gaara estava fundindo o seu cérebro agindo daquela maneira nada usual.
– Exatamente o que significa. – trocou o peso de um pé para o outro. – Eu sempre te achei atraente. – disse com certo “quê” de descaso. Ele fazia aquelas declarações com tanta naturalidade, que parecia que o homem estava comentando sobre o tempo. – De qualquer forma, eu iria lhe dizer para tentar o que quer que o Uchiha deseje. Você já arriscou tanto até aqui... O que seria mais uma aventura sexual diferente?
– Você diz isso porque não envolve a sua bunda! – brincou, dando um leve sorriso para descontrair a atmosfera, fazendo com que o outro revirasse os olhos verdes-claros em descrença. – Eu sei que estou agindo feito um idiota... – comentou, vendo o Sabaku concordar como se fosse óbvio. – Pensei sobre todo o meu relacionamento com o Sasuke esta semana e cheguei a algumas conclusões que estava diante dos meus olhos, mas que eu me recusei a enxergar... – alegou vagamente, encarando os próprios tênis laranja como se eles fossem muito interessantes. – Eu não sei se vai fazer muita diferença agora...
– Por quê? – franziu a testa em confusão.
– Porque... – contorceu o rosto em uma expressão aborrecida, soltando um “tsk” impaciente logo em seguida. – Eu estou cansado, Gaara; dirigi por quase seis horas e ainda preciso ir ao hospital para tirar uma chapa do meu nariz... Podemos ter essa conversa outra hora?
– Você sempre foi uma pessoa tão segura e perceptiva... – pausa reflexiva. – Dentre todos os nossos colegas, o Naruto que conhecemos sempre foi o mais maduro, mesmo que, na maioria das vezes, parecesse um idiota estúpido. Eu não sei o que está o fazendo agir dessa maneira, mas eu espero que meu melhor amigo volte à normalidade logo, porque você está começando a me irritar... – rosnou impaciente. – Eu conheço o olhar que o Uchiha carrega. Dê valor à oportunidade que ele te deu naquele festival se não quer perdê-lo. – deu as costas para o outro macho para caminhar até o portão de sua casa. – Ele não é a Sakura, Uzumaki.
O loiro assistiu com consternação o ruivo abrir a grade do portão e ser recebido por Baki, o responsável da casa, quando os senhores Sabaku não estavam presentes para olhar pelos filhos.
(***)
No dia seguinte, no intervalo entre as aulas de Química e Desenho Industrial, o estudante de engenharia foi para o campus da turma de medicina para fazer um check-up de sua lesão, que não doía, mas ainda estava consideravelmente inchada.
Naruto estava sentado em uma maca estofada coberta por um pedaço de papel branco, observando com atenção o biombo que escondia a porta de entrada da sala de quem passasse pelo lado de fora, para que estes não tivessem visão de quem estivesse dentro. Ele ouviu o som de saltos no piso de mármore e suspirou em alívio, pois já estava começando a ficar inquieto com a demora.
– Shizune-nee... – sua voz sumiu quando ele viu cabelos cor-de-rosa ao invés dos fios negros que compunham a cabeça da melhor amiga e aprendiz de sua avó. – Sakura-chan?
– Sempre se metendo em confusões, nee, Naruto? – ela deu um pequeno sorriso, retirando uma imagem raio-x de dentro de um envelope grande. – O que aconteceu com você? – perguntou, prendendo a fotografia em uma caixa iluminada presa na parede.
– Levei um soco no nariz e a Ino teimou que eu deveria tirar uma chapa para ter certeza de que estava tudo bem. – resmungou como se fosse uma criança que estava prestes a levar uma lição da mãe por ter desobedecido a uma ordem.
– Ela só está cumprindo com o dever dela como uma profissional da área de saúde... – respondeu, observando distraidamente o exame. – A Porquinha pode ser uma idiota, mas ela tem razão em pedir para você conferir se está, de fato, tudo bem... – ela sorriu, pegado uma lanterna pequena. – Ainda mais se tratando de você, que nunca se cuida sem precisar de alguém no seu pé...
– Às vezes eu me esqueço de como você consegue ser pior que a minha mãe... – bufou com impaciência.
– Isso, porque eu me preocupo com você! – ela deu um tapa na nuca do rapaz. – Agora erga a cabeça para que eu possa ver melhor! – ordenou, sendo prontamente atendida.
Sakura conseguia assustar Naruto toda vez que usava esse tom de sargento.
– Está tudo bem, o inchaço e o roxo são por causa da pancada, mas nenhum osso da base quebrou e também não há nenhum deslocamento... – murmurou naquela voz profissional que a mulher usava toda vez que atendia algum paciente.
Ela desligou a lanterna e depositou em uma mesinha de aço.
– Está liberado... – ela sorriu.
O Uzumaki encarou aqueles orbes verdes-esmeralda, tentando descobrir o que se passava na cabeça da moça. Havia ali, um pequeno brilho de admiração e carinho, mesmo depois do que aconteceu há algumas semanas, a Haruno parecia não discriminá-lo pelas palavras não ditas do último encontro que tiveram... Aliás, todos os relacionamentos do loiro estavam sofrendo as consequências de muitos sentimentos não expostos, seja com sua ex-namorada, com sua mãe e até mesmo com Sasuke.
– Baby? – Naruto chamou, surpreendendo Sakura. – Vem até aqui. – pediu humildemente, fazendo um sinal para que ela se aproximasse.
Ela o fez, mas de forma cautelosa. A estudante de medicina estava um pouco receosa sobre o que seu antigo companheiro queria, evocando-a com o apelido que usava para designá-la na época em que namoravam.
Quando a rapariga de cabelos cor-de-rosa estava perto o bastante para satisfazer o homem, ele a puxou para um abraço apertado, circulando seus braços na figura magra da mulher, assustando-a ainda mais. “Ele é sempre tão imprevisível...”, divagou em pensamento, movendo-se para corresponder o gesto de acalanto e fechando os olhos para aproveitar daquele contato tão reconfortante do qual sentia tanta falta.
– Me desculpa? – murmurou contra os fios rosados, fazendo com que eles esvoaçassem com o ar que saía de sua boca.
– Pelo o quê? – perguntou ao se afastar para, assim, olhar melhor nos olhos azuis cerúleos e intensos.
– Sobre a última noite que nos vimos... – começou um tanto sem jeito. – Eu deveria ter te defendido dos ataques da Ino. Ela não sabe nada sobre o que...
Ele foi cortado pela voz firme da ex-namorada.
– É aí que você se engana, Naruto...
– Como...? – franziu a testa em confusão.
– Ela é a minha melhor amiga, você acha mesmo que eu não contaria sobre o nosso relacionamento para ela? – ela indagou em um tom amargo. – Quem está de fora vê muito melhor do que nós, que estávamos tão envolvidos em nosso namoro para reparar o que precisávamos mudar. Eu jamais fui uma boa companheira para você e precisei que ela me apontasse isso daquela maneira grosseira para que eu pudesse perceber que estava agindo como uma verdadeira vadia! – à medida que ela continuava, sua voz se tornava cada vez mais embargada. – Eu preciso pedir desculpas.
– Sakura... – murmurou, olhando para a figura trêmula da Haruno à sua frente em descrença indisfarçada.
– Eu sempre achei que você precisasse me satisfazer sexualmente, quando, na verdade, o máximo que fiz por você foi comprar uma lingerie nova... – pausa. – Eu sempre critiquei tudo o que você fazia e dizia... – enumerou com os dedos conforme prosseguia com suas declarações. – Jamais levei em consideração o homem maravilhoso que você é até nós terminarmos... – lágrimas escaparam dos orbes verdes-esmeralda.
– Nem por isso eu fui um cara sexualmente frustrado, Sakura! – disse em um timbre cortante. – A Ino sabe sobre você, mas não sabe sobre mim... – respondeu com autoridade, tentando transpassar sinceridade em suas palavras. – Você foi uma ótima namorada e eu te amei do começo ao fim...
Foi interrompido novamente.
– Então, por que na semana seguinte você estava com outra pessoa? – jogou de supetão, fazendo o outro arregalar os olhos em surpresa.
– Porque eu precisava seguir em frente, Baby... – disse como se fosse óbvio. – Você me disse, no Ichiraku, quando terminamos que nunca me amou mais que um irmão...
– Eu me enganei! – exclamou com raiva. – Se eu tivesse te amado como um irmão, eu não me sentiria tão abandonada, negligenciada e esquecida... – murmurou, sentindo-se cada vez mais miserável.
– Eu não estou te entendendo, Sakura-chan! – agarrou os próprios cabelos, querendo arrancá-los, enquanto sentia um nó sendo dado em seu cérebro.
Seus amigos estavam agindo de maneira estranha ultimamente.
– Ino tem razão, Naruto-baka! – apertou os punhos para controlar a frustração. – Eu esperei, mesmo que inconscientemente, que você ficasse chorando a minha perda por tempo incontável; eu esperei, sem me dar conta, que você corresse atrás de mim e me dissesse que não conseguia viver sem mim... Eu esperei tantas coisas depois que terminamos, que só percebi depois de tudo o que a Porca disse! – sua voz se elevou duas oitavas.
– Mas... – ele olhava para a ex-namorada, tentando entender o raciocínio da mesma – “... foi você quem terminou...”, pensou ainda mais atordoado.
– Eu sei... – a Haruno murmurou, com a cabeça abaixada, como se adivinhasse os pensamentos do antigo companheiro.
– Então, você quer voltar? – perguntou com receio da resposta, o Uzumaki não queria magoar os sentimentos da mulher, mas ele não poderia retomar o velho relacionamento quando estava tão apaixonado por Sasuke.
O loiro só precisava arranjar um jeito para arrumar as coisas com o homem, antes de tornar o envolvimento mais sério.
– Não! – ela balançou a cabeça negativamente e soltou um riso leve com a preocupação gritante naquele rosto cheio de cicatrizes. – O que aconteceu fez com que eu reavaliasse os meus sentimentos por você no passado. Você me perguntou, quando terminamos, se te amei um dia, não foi? – olhos verdes assistiram o outro consentir, antes de continuar. – Agora eu sei que te amei, mas não como um irmão, e sim como o verdadeiro homem que você é... Eu não quero que recomecemos o namoro, porque o que eu sinto por você, com o tempo, tornou-se algo... Como posso dizer...? Fraternal. – gesticulava freneticamente, enquanto tentava explicar, da maneira mais clara possível, os seus sentimentos para com o cabeçudo. – Eu quero te ver feliz com o Uchiha-san, Naruto-chan. – sorriu radiante, tentando imitar o macho diante de si quando este escancarava os lábios e fechava os olhos, tamanha era a felicidade que queria emanar naquele simples ato.
O estudante de engenharia a encarou por um tempo e sentiu o seu coração se aquecer com as palavras de carinho.
– Eu sinto sua falta... – Naruto admitiu. – Como a amiga que você sempre foi para mim. Achei que tinha perdido até a sua amizade naquela noite... – beliscou distraidamente o papel que cobria onde estava sentado.
– Você poderia ter me defendido na frente da Ino-porca e de seu novo affair bonito. Confesso que eu fiquei bastante chateada por você não o ter feito naquela hora, mas levando-se em conta o quão lerdo você é, acabei relevando... – ralhou, arrumando alguns prontuários em cima da mesa. – Agora eu preciso que você vá, porque ainda tenho outros pacientes para atender...
– Ok! – levantou-se e pegou o casaco laranja que estava em cima de uma cadeira. – Nos vemos mais tarde? – perguntou inseguro.
– Vamos nos encontrar no Ichiraku depois do meu estágio, como nos velhos tempos... – respondeu distraidamente, mas antes que o rapaz pudesse sair da sala, ela o chamou novamente.
– Oi? – virou-se para encarar os orbes, que no passado lhe eram sempre tão fascinantes.
A rapariga de cabelos cor-de-rosa segurou as laterais da face bonita, ergueu-se sobre as pontas dos dedos dos pés e plantou um beijo nos lábios carnudos do homem. Em um primeiro momento, Naruto ficou estático de surpresa, quando o seu corpo, involuntariamente, moveu-se para segurar a cintura fina da ex-namorada. Sakura insinuou a língua para desenhar a carne do beiço, antes de penetrá-la na cavidade quente. O Uzumaki nunca tinha visto uma Haruno tão dominadora e cheia de iniciativa, e ele não estava familiarizado com o toque exigente vindo da mulher pequena. Ela afundou os dedos magros nos cabelos dourados e massageou o couro cabeludo de forma tão relaxante, que o outro quase gemeu em resposta.
Um par de sirenes tocou na cabeça do rapaz, fazendo com que ele se afastasse sem fôlego... E sem vontade... “Eu preciso transar!”, pensou consigo mesmo, passando as mãos pelo topo da cabeça, bagunçando ainda mais os fios loiros. O breve contato havia acendido a sua libido interminável.
– Eu acho que... – começou, mas não sabia o que dizer, então, apenas lambeu a própria boca, provando o resquício do carinho esfomeado da antiga companheira.
– Esse foi um beijo de despedida que deveria ter sido dado no Ichiraku quando terminamos... – ela sorriu matreira, antes de pegar um par de pastas e abraçá-los de encontro ao peito. – Para você não se esquecer de mim tão rápido... – brincou, ao mesmo tempo em que se afastava.
O macho de bonitos olhos azuis observou consternado o biombo que o separava do exterior da sala de atendimento, ouvindo a voz feminina e distante conversar com alguém animadamente.
– Sakura-san...
– Oi, Sai! O que está fazendo deste lado da universidade? Que eu saiba, a turma de arte fica do outro lado...
– Vim perguntar se você não estava a fim de sair comigo neste final de semana...
(***)
– Hey, Naruto-kun! – um flash verde passou correndo pelo seu lado direito e parou à frente do loiro.
– Lee! – deu um soco leve no ombro do colega.
– Fico feliz que tenha te encontrado... – apoiou as mãos nos joelhos flexionados, enquanto tentava recuperar a respiração perdida na corrida que dera para alcançar o Uzumaki. – Estamos indo almoçar agora; vai querer ir com a gente?
– Seria uma boa... – consultou o relógio, antes de recomeçar a andar. Ele enfiou as mãos nos bolsos da calça jeans e voltou a pensar nos últimos acontecimentos desde o final de semana conturbado.
– Você me parece distraído... – comentou o moreno casualmente, observando a letargia com que o homem se movia.
– Estou pensando em algumas coisas que aconteceram... – deu um pequeno sorriso que não chegou a atingir os olhos, tamanha era a distância entre o seu pensamento e a realidade.
Não que Naruto estivesse triste ou chateado, ele só precisava entender todos os eventos que se passaram em sua vida nos últimos três dias.
De repente ele soube que um dos seus melhores amigos o acha atraente e que sua ex-namorada um dia o amou como algo além de um irmãozinho. Era muito para a sua cabeça, mas ele ficava contente que essas conversas tiveram, ambas, um final feliz. Duas das pessoas que mais lhe importavam apoiavam o seu relacionamento com o bastardo-velho. O loiro só precisava engolir o orgulho, que o preenchia toda vez que estava com o Uchiha, e correr atrás de sua felicidade.
Alguém tinha que dar o braço a torcer, visto como o estudante de administração não faria nada que não condissesse com a sua personalidade insuportável.
“Por que é que eu estou com ele mesmo?”, indagou-se com um sorriso mínimo enfeitando os lábios.
– É sobre o Sasuke-kun? – o homem que o acompanhava quebrou o silêncio. O Uzumaki até tinha se esquecido de que seu amigo estava do seu lado.
– Hn. – acenou afirmativamente, usando o grunhido que o atual amante usava. – Estou me perguntando o que ele diria se soubesse que beijei duas pessoas diferentes em menos de 48 horas. – pausa reflexiva e um “tsk” mal humorado. – Levando-se em conta a força física desse cara, eu acho melhor ele nem sonhar sobre isso... – resmungou, ignorando a expressão de confusão do Rock Lee.
(***)
– Atchim!
Sasuke esfregou o nariz pela milésima vez nos últimos dois dias.
– Tem certeza que não está doente? Você anda espirrando muito nas últimas horas... – comentou Karin, cortando distraidamente um par de tomates em rodelas grossas.
– Não tive febre e meu nariz não está congestionado... Deve ser algum efeito alérgico a alguma coisa. – deu de ombros, olhando distraidamente para o celular, esperando ver o visor brilhar a enunciar alguma mensagem ou ligação. Naruto não lhe deu sequer um sinal de vida; de novo.
– Ou alguém está falando sobre você. – disse matreira.
– Bem provável...
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