Dar-se Uma Chance

2 Atração – Parte 2/9


Notas iniciais
Reestruturação dedicada à fran_silva.

Atração – Parte 2/9

Interesse (substantivo masculino):
1. Conveniência, lucro, proveito, vantagem;
2. Juro de um capital depositado;
3. Sentimento egoísta ou de cobiça;
4. Importância;
5. Atrativo, simpatia;
6. Cuidado, empenho a favor de alguém ou de alguma coisa;
7. [Psicol.] Atenção para um conteúdo específico;
8. [Psicol.] Relação ou enlace entre um motivo e certo incentivo.

Ele penteou o cabelo preto azulado, tentando domar a parte traseira dos fios, que insistia em despontar para cima, desafiando a lei da gravidade. Com um suspiro aborrecido e resignado, Sasuke deu uma última olhada no espelho do banheiro e se virou para sair. Na porta, ele se deparou com a silhueta de outra pessoa o observando e se assustou; não ouvira ninguém entrando no quarto, enquanto se arrumava.

Seu rosto ficou em branco, mesmo que seu interior estivesse fervendo de raiva. Ele odiava que entrassem em seu espaço sem avisar, porque detestava ser surpreendido. Seus olhos escuros consideraram o sorriso satírico e ciente da mulher, tentando ignorar a forma como os olhos castanho-avermelhados brilhavam predatórios sob os óculos de aro grosso da cor fúcsia. Se havia alguém que se aproveitava de ser uma exceção sob a mira do seu temperamento, esse alguém era Karin Uzumaki.

— Sasuke! – exclamou a voz feminina, ao mesmo tempo em que jogava o corpo pequeno e magro para enlaçar os braços finos no seu pescoço, abraçando-o apertado. – Você parece tão iluminado essa manhã! – comentou ironicamente.

Ele se sentiu sufocar com a força desnecessária e se limitou a rolar os olhos em resposta. Sem se preocupar em retribuir o gesto carinhoso, afastou-a o mais delicadamente que pôde.

— Qual é o motivo do bom humor atípico? – ele perguntou secamente, tornando a olhar o espelho e passando a mão no cabelo arrepiado da nuca.

— Mudança de planos: não iremos mais para o Live Bar Abbey Road¹ esta noite. – ela saiu do banheiro, caminhando de volta para o quarto e deitando na cama espaçosa.

Com diversão indisfarçada, a Uzumaki observou o moreno fazer uma careta para a bagunça que ela deixou na colcha meticulosamente arrumada. Decidindo não testá-lo ainda mais, porque a conversa seria um tanto delicada, sentou-se corretamente e arrumou as rugas que fizera.

— Posso saber o motivo? – encostou-se à mesa de estudos e cruzou os braços, encarando-a profundamente. Karin podia ser sua amiga há anos, ambos até dividiam um apartamento, mas ele ainda tinha dificuldades em decifrá-la.

— Nós vamos para um festival de música em Sasagawanagare com meu primo e uns amigos dele. – ela disparou de uma única vez. – Vai ser legal, Sasuke! Você precisa sair um pouco... Depois do que aconteceu, você só se move do trabalho para faculdade e da faculdade para casa, é ridículo! Já se passaram mais de um mês e você ainda não esqueceu o desgraçado! – continuou, quando viu que ele iria começar a discutir e arranjar pretextos para não ir. – Essa reação toda não me parece que você o despreza tanto quanto diz... – mordeu o lábio inferior, sabendo que estava entrando em terreno perigoso.

— E você não me conhece tanto quanto pensa. – ele rebateu de forma debochada, erguendo uma sobrancelha e se tornando cada vez mais irritado e introvertido com o rumo da conversa.

— Eu te conheço. – a mulher de cabelos vermelhos reafirmou com uma convicção de ferro. – E é por te conhecer que sei que suas atitudes falam muito mais do que você dá crédito. – deu um suspiro cansado. – Olha, eu não quero brigar, só quero pedir para não se fechar. Se antes você era reservado, depois do que aconteceu entre você e Sui... – foi interrompida por um gesto de mão do moreno.

— Não mencione esse nome!

— Desculpa! – ela pediu agudamente, quase em desespero para colocar algum senso na cabeça dura do amigo. – Mas olhe para você, Sasuke! – apontou para o moreno com um gesto que indicava algo óbvio. – Está todo raivoso sobre o assunto depois de tanto tempo...

— Ele me traiu – repetiu como se ensinasse algo para alguém retardado. –, não é motivo o suficiente para que eu fique com raiva? – ele passou as mãos pelos cabelos, deixando as mexas longas que molduravam o seu rosto uma bagunça completa.

O visual rebelde não intencional era sexy e até a expressão carrancuda e séria, que lhe dava um ar perigoso e arrogante, não deixava de ser atraente. Quando ela o observava assim, tão atentamente, entendia o porquê de ter se apaixonado; ela e metade da população feminina que morava no Japão.

Karin perdeu a conta de quantas vezes as vizinhas apareceram na porta deles, pedindo favores irrelevantes. Fora as inúmeras correspondências que enchiam a pequena caixa de correio e eram endereçadas para Sasuke Uchiha. Ela não conseguia deixar de zombar, afinal, quem mais mandava cartas de amor hoje em dia? A maneira mais eficiente de se conseguir um homem é partindo para o ataque – infelizmente, só não deu certo com seu melhor amigo.

Sasuke era completamente gay. Era mais fácil seu primo idiota conseguir uma chance com ele que qualquer outra mulher desse planeta. Ele até tinha namorado Suigetsu Hozuki, a pessoa que ela sempre considerou o maior canalha do mundo...

Quando o Uchiha disse que estava namorando a criatura, há quase dois anos, ela surtou, gritou e bateu o pé no chão como uma criança, porque no fundo sabia que isso aconteceria. Karin conseguia sentir cheiro de encrenca no ar toda vez que o rapaz estava por perto. Não que seu amigo não soubesse se cuidar, mas ela sentia que deveria alertá-lo, pois, por trás da aparência dura, Sasuke era ingênuo. Mesmo com 22 anos, tinha pouca percepção sobre os verdadeiros sentimentos dos outros e facilmente se deixava manipular.

— Se você tivesse esquecido aquela aberração... – de repente seu tom mudou de indignado para contemplativo. – Juro, eu não sei como você ficou por tanto tempo com ele. Suigetsu é insuportável! – ela franziu a testa em confusão. – Eu seria uma escolha mil vezes melhor. – brincou e balançou as sobrancelhas sugestivamente, fingindo não ver o olhar de repreensão vindo do homem. – Enfim, voltando ao que eu estava dizendo: se você tivesse o esquecido como gosta tanto de afirmar, sua primeira postura assim que eu citasse o nome dele seria de indiferença e tédio, não raiva, entende?

Ele seriamente considerou suas palavras, ignorando somente a parte em que ela disse que era perfeita para ele. A mulher de longos cabelos vermelhos jamais seria uma opção, mesmo se, por ventura, tivesse nascido um homem; seu sentimento por Karin era amizade simples e incondicional.

De fato, Sasuke não conseguira desprender a imagem de Suigetsu agarrado, aos beijos, com outro cara. Foi puro acaso encontrá-los na fila do cinema com Karin, uma vez que ele só deveria acompanhá-la nas compras. A princípio ele até tentou se convencer de que seu ex-namorado estava sendo forçado, mas ao reparar melhor, pôde perceber que ele correspondia completamente às investidas do outro homem.

Embora, seu interior estivesse uma bagunça, poucas emoções transpareceram na face estoica. Ele apenas se fez presente para o loiro, deu-lhe uns tapas no ombro como forma de felicitá-lo pela escolha infeliz, antes de se afastar com um sorriso afetado. A ruiva olhava a cena lívida, não entendendo a reação calma, quando sabia bem que Uchihas não eram tão compassivos com as mentiras.

O relacionamento só durou um ano e seis meses, mas ele depositou uma enorme confiança no rapaz. Antes de flagrar a traição, ele nunca lhe dera motivos para desconfiança, muito pelo contrário, sempre demonstrou lealdade, que agora ele sabia ser falsa. Ambos podiam discutir muito, mas não era algo que justificasse a infidelidade. Se o Hozuki tinha algum problema, ele poderia ter conversado sobre o que o incomodava no relacionamento.

Depois disso, o Uchiha não atendeu mais as ligações e ignorou todas as tentativas de reconciliação. Pelo correio, ele entregou todos os pertences do ex-namorado que estavam no apartamento que dividia com a Karin, inclusive os presentes e o anel de compromisso que usava em uma gargantilha. Não queria mais nada que os ligassem, sejam emoções ou objetos. Não houve um rompimento formal, porque acreditava que essa era a consequência inevitável das escolhas de Suigetsu. Para Sasuke, não havia possibilidade de segunda chance quando se tratava de traição.

— E então? – a voz feminina o despertou do devaneio.

Karin se cansou de esperar por uma resposta e estava começando a ficar entediada com o silêncio prolongado.

— Nós vamos agora? – ele perguntou e quase desistiu quando viu o sorriso presunçoso. O moreno pôde ouvir vagamente em sua cabeça: "a determinação de uma mulher pode mover as mais poderosas pedras", citação favorita da ruiva.

— Yeah! – ela gritou e ergueu os braços para o alto em comemoração. – Nós vamos já, porque estamos superatrasados. Eu tenho certeza que os outros já saíram de Niigata! – ela se levantou da cama em um pulo. – Só arrume uma mochila com tudo o que você acha que vai precisar para ficar hoje e amanhã na praia. Sei que Naruto e os amigos dele levaram muitas coisas, então, não há necessidade de mais... – ela mexia na chave do carro distraidamente, lembrando-se das instruções. – E precisamos passar na casa do Juugo ainda.

— Por que, de repente, você decidiu sair com o seu “primo idiota e seus amigos igualmente idiotas”? – ele fez sinal de aspas com a mão para enfatizar seu ponto com uma declaração que ela mesma usava com frequência.

— Porque você está precisando se divertir um pouco e eu sabia que eles teriam algo emocionante preparado como sempre o fazem. Eles podem ser um bando de retardados, mas os desgraçados sabem como encontrar uma boa festa... – ela fez um bico amuado, antes de continuar. – E outra, o Naruto terminou com aquela sem sal que ele chamava de namorada. Não que eu ligue muito para a vida dele – fingiu indiferença. –, mas ver um raio de sol ambulante parecer uma sombra era um pouco angustiante...

— Estou te ouvindo admitir preocupação para com o priminho perdedor? – o Uchiha debochou com uma sobrancelha erguida.

— Sim... – ela riu, antes de tomar uma expressão séria. – Ele pode ser todas as coisas que eu digo, porque ele é mesmo, sem exageros. Mas, Naruto também é uma pessoa maravilhosa e possui um coração gigantesco. Se o conhecesse, saberia do que estou falando. – ponderou um pouco. – Arriscaria dizer que você poderia se apaixonar por ele... – ela parou como se refletisse seriamente no que havia dito e de repente seu rosto se iluminou como se tivesse uma ideia brilhante.

Sasuke temeu por sua vida.

— O quê? – ele perguntou com certo receio. – Karin, eu acabei de terminar um relacionamento longo, de uma forma não muito amigável, e não estou disposto a começar outro agora. – antecipou qualquer plano absurdo que a mulher tinha na cabeça e começou a argumentar.

— Eu não disse nada! – a ruiva se defendeu num tom de finalidade.

Mas, ele não gostou do sorriso e o brilho claramente divertido no rosto pálido. Preferiu deixar o assunto para trás, por enquanto, porque Karin era louca dessa maneira inconstante e continuar debatendo só iria dar mais asas à imaginação já muito fértil.

Desencostando-se da mesa, ele começou a colocar alguns artigos pessoais de higiene na mochila, juntamente com uma toalha e algumas roupas extras caso decidisse entrar na água. O Uchiha não gostava da sensação da areia grudada no corpo depois de um banho de mar, mas a noite era longa e depois de umas doses de bebida, ficava difícil prever o minuto seguinte. Ele não bebia muito, mas estava mesmo precisando afogar alguma mágoas.

Por saber que ficaria muito tempo fora de casa, ele decidiu levar três maços de cigarros de um pacote que ele guardava na gaveta da escrivaninha.

— Você não está se esquecendo de nada, Uchiha? – a Uzumaki chamou e balançou as sobrancelhas sugestivamente.

Ele fez uma lista mental do que precisava e conferiu se estava tudo na mochila. Balançando a cabeça negativamente, ele fechou o zíper violentamente com um zunido ruidoso. Sasuke ouviu um riso malicioso, mas decidiu ignorá-la por se tratar de Karin, sua amiga louca... Até sentir algo leve atingir a sua cabeça. Ele olhou pra ela com um brilho mortal e procurou o objeto que o atingiu para retaliá-la, mas mudou de ideia ao ver a cartela lacrada de preservativos.

— Nunca se sabe, né?! – ela fez um gesto de descaso com as mãos. – Praia, bebidas e um monte de homens bonitos seminus... – instigou.

Ele deu de ombros, antes de enfiar a embalagem em um compartimento da sua bolsa. Sasuke não queria se envolver romanticamente com ninguém, mas a ideia de sexo depois de tanto tempo celibatário não era ruim. Caminhando até o closet, ele optou por vestir uma camisa branca simples de algodão e mangas longas, deixando os três primeiros botões abertos para mostrar a gargantilha com o símbolo da sua família pendurado no pescoço, uma calça jeans justa azul com lavagem escura e uma jaqueta de couro preto com diversos zíperes. Voltando para o quarto, ele pegou um par de botas de cano baixo pretas em baixo da cama, colocando-as sem se preocupar em fechar as fivelas e amarrar os cadarços devidamente.

Karin assoviou, enquanto admirava o homem. Ela estava apoiada na mesa de estudos onde o Uchiha estava encostado há alguns minutos.

— Você está um verdadeiro “bad boy”! – brincou, circulando o moreno, uma vez que ele se recusaria a dar uma voltinha para que ela pudesse apreciar a vista. – A quem você quer enganar com essa cara de mau? – riu divertida.

— Hn. – se limitou a responder, rolando os olhos para a infantilidade da mulher e dizendo indiretamente que a considerava uma ridícula; sem considerar de fato. Sasuke amava Karin, mas jamais diria isso em voz alta.

Caminharam juntos para fora do quarto em um silêncio confortável. Antes de saírem, a Uzumaki checou todos os cômodos da casa, para ver se esquecera de alguma janela aberta ou algo ligado. Ambos eram bastante metódicos na arrumação do apartamento, mas a ruiva tinha uns lapsos de memória às vezes. Enquanto isso, ele mandava uma mensagem para Juugo, a fim de avisar que ambos estavam saindo de casa. Era muito raro o homem sair com os amigos, uma vez que ele namorava um cara bastante reservado chamado Kimimaro, contudo, ele deveria ter feito algum tipo de acordo com Karin, a fim de estarem do seu lado nesse momento difícil.

Ele achava desnecessário, mas agradecia internamente o cuidado.

Depois de alguns minutos, os dois saíram e se dirigiram até o estacionamento no subsolo do prédio. Eles pararam ao lado do Mitsubishi Lancer Evolution X² vermelho metálico da Karin. Como haveria apenas dois passageiros junto ao motorista, Sasuke logo descartou a ideia de pegar seu próprio carro. Jogando a mochila no banco traseiro, ele entrou no automóvel. Ambos em completo silêncio, enquanto a Uzumaki ligava o rádio em alguma estação de música pop qualquer e tirava os óculos escuros de um estojo dentro do porta-luvas.

— Estamos prontos? – ela indagou como se fosse lançar uma nave ao invés de só ligar o motor do veículo. O moreno revirou os olhos em resposta e ela sorriu para o mau humor constante do homem.

(***)

Quando chegaram onde Juugo morava com o namorado, um conjunto de lofts simples, Karin começou a buzinar como louca, querendo chamar a atenção do amigo. Ficando irritado, Sasuke teve que controlar a vontade de jogar a mulher pela janela por fazer tanto barulho desnecessário.

— Karin, ele não vai ouvir! – rosnou a repreensão de forma nada delicada, ao mesmo tempo em que pegava o celular e mandava uma mensagem a fim de avisar que eles tinham chegado.

— Claro que vai, ele mora naquela janela! – teimou e apontou para um ponto não muito longe deles, mas parou com o estardalhaço.

Não demorou muito até um rapaz de cabelo acobreado aparecer na porta da frente e caminhar em direção a eles vestindo uma camisa azul clara, um suéter caramelo e calças de brim bege com a barra dobrada para mostrar o tornozelo e dar destaque aos docksides marrons.

— Sabia que era você quem estava dirigindo hoje. – saudou o recém-chegado, referindo-se a afobação da Uzumaki.

Ela lançou um olhar para Sasuke, que dizia claramente um “não disse que ele ouviria?” e que o Uchiha decidiu desconhecer.

O carro balançou com a entrada de Juugo, que tinha 1,95 de altura. Seu corpo musculoso contribuía ainda mais para a estética intimidante. No entanto, em comparação com o exterior ameaçador, o homem era tão tranquilo e pacifista quanto um monge. O ruivo não gostava de brigas e tentava resolver todas as questões com diálogos diplomáticos. Dentre os três, ele era o mais sensato e menos emocional na hora de tomar decisões importantes. Mesmo Sasuke, que tentava manter a frieza na maior parte das situações, perdia a calma às vezes.

— Não estamos arrasando hoje? – Karin ajeitou o vidro retrovisor para dar uma boa olhada no rosto sereno do ruivo.

Juugo deu um leve sorriso agradecido e colocou os óculos escuros no topo da cabeça, encarando-a pelo reflexo do espelho.

— Você também está linda, Karin! – retribuiu o elogio com sinceridade, fazendo a mulher lançar os longos cabelos para trás do ombro em um movimento fluído. Seu sorriso tão radiante que os olhos castanho-avermelhados se fecharam e pequenas rugas se formaram nos cantos externos.

Ela usava um vestido modelo camiseta com uma grande estampa de caveira e algumas tachas arrematando o design da peça. O visual meio rebelde convinha com sua personalidade insurgente.

— Obrigada por amaciar meu ego, Juugo, já que se eu dependesse do Sasuke para me elogiar e me fazer sentir amada, morreria de depressão! – indignação escorreu pela sua voz, indiferente ao fato de estar sendo ignorada, e voltou a colocar o carro em movimento. – Kimimaro não quis vir? – perguntou mesmo sabendo da resposta.

— Ele não gosta muito desses lugares. – deu de ombros, ajeitando-se no banco traseiro e tentando acomodar as pernas compridas.

— E nem você. – ela lhe lançou um olhar pelo espelho retrovisor, antes de voltar a atenção para as ruas.

— Nem eu. – Juugo concordou com um sorriso suave. – Fico feliz em saber que decidiu ir com a gente, Sasuke. – lançou um olhar significativo para o Uchiha.

— Hn. – ele se dignou a grunhir em resposta, nem um pouco disposto a voltar no assunto do seu término. Agradecia internamente o apoio incondicional que ambos lhe davam, mas ele não estava disposto a dissertar sobre o passado. Seu orgulho lhe impedia de aceitar qualquer sentimento que se assemelhasse a piedade. Ele estava bem, mesmo que Karin afirmasse o contrário.

Sasuke já tinha superado Suigetsu, o que lhe incomodava ainda era a traição.

(***)

A viagem fora longa, mas tranquila. Quando eles chegaram a Sasagawanagare já eram quase 21h, havia tantos carros que tiveram de rodar por mais de meia hora para encontrar um espaço disponível que pudesse alojar o automóvel. Karin pegou seu celular e discou o número do seu primo para saber onde ele e seus amigos estavam. A praia era imensa e com tantos veículos estacionados e tantas pessoas pulando e dançando por toda a parte, seria praticamente impossível encontrá-los sem uma coordenada. Ao longe, o grupo de amigos conseguia ouvir uma batida rápida e dançante.

— Naruto? Onde você está? Se você não sabe onde está, como vou conseguir te encontrar, seu idiota! – a ruiva estava começando a gritar irada.

Sasuke só rolou os olhos com a resposta ouvida, reconhecendo o que a amiga sempre disse sobre esse tal Naruto. Seus pensamentos foram interrompidos por uma sonora gargalhada que Karin soltou repentinamente.

— É claro que eu não te amo, você traiu toda a família Uzumaki nascendo loiro e não inteligente, seu burro! – ela tornou a responder. – Eu sei que estou sendo redundante, mas por falta de palavras para expressar sua falta de inteligência, não me resta outra escolha! – brincou. – A gente se vê daqui a pouco...

Ela desligou o aparelho com um imenso sorriso nos lábios rosados. Saindo do carro, Karin fez um sinal para que os outros dois rapazes a seguissem.

— Eles conseguiram estacionar próximo ao palco, como pegaram um lugar tão bom pelo horário que chegaram é um mistério! – exclamou animadamente. – Às vezes acho que aquele bando de moleques nasceu com a bunda virada para a Lua... – ela resmungou com um bico emburrado, ficando mal-humorada repentinamente.

— Mas perto da arena tem muita gente, será que vale mesmo a pena? – Juugo perguntou depois de um tempo, enfiando as mãos nos bolsos da calça.

Sasuke concordou com a pergunta, nem um pouco feliz em estar num lugar abarrotado de gente e ser empurrado a todo instante.

— Sim, porque eles estão afastados da multidão, mas próximos o suficiente para curtirmos as músicas, entendeu? É perto do palco, mas na área reservada para o estacionamento, porque é mais tranquilo. – respondeu. – Naruto já estava meio bêbado, não é à toa que não conseguia se localizar. Todos devem estar bebendo sem parar desde que chegaram e o grupo todo já está aqui desde o final da tarde. – ela riu divertida. – Eu vou sacanear tanto com ele hoje à noite...

— Vocês vão se casar um dia, de tanto que brigam e implicam um com o outro... – Sasuke murmurou casualmente, cruzando os braços.

— Eu espero que não... – fingiu um arrepio de repulsa. – Ele é muito bonito, mas é um irmão para mim, uma vez que fomos criados juntos. – sorriu feliz, antes de aumentar a velocidade dos passos (surpreendendo os amigos) quando viu a familiar cabeça loira.

Ela disparou em uma corrida até o primo, abraçando-o por trás com tanta força que quase derrubou a ambos. Se não fosse pelos reflexos rápidos do rapaz, os dois teriam se estatelados no chão.

— Karin! – o homem gritou com animação.

O timbre meio rouco e profundo enviou um arrepio gostoso pela espinha do Uchiha, que observava a cena com uma curiosidade contida. O cara em que sua melhor amiga se apegava tão fervorosamente era tão alto quanto ele, mas ainda assim mais baixo, cerca de três centímetros de diferença. O corpo magro era definido por músculos fortes, mas não exagerados.

Quando a ruiva o soltou e voltou a colocar os pés no chão, o loiro se virou para abraçá-la devidamente, apertando os braços em torno da mulher pequena, erguendo-a do chão outra vez e a chacoalhando de um lado pro outro como se fosse um boneco de pano. Sasuke observou o sorriso sincero e tão grande que os olhos se fecharam, muito semelhante à expressão de Karin, quando estava extremamente feliz. O rosto bronzeado tinha três cicatrizes como bigodes em cada bochecha, tornando-o ainda mais exótico e chamativo.

— Me larga agora! – Karin batia os punhos nas costas do loiro com uma força questionável, tentando a todo custo segurar o riso.

— Você que me abraçou em primeiro lugar, sua desmiolada, estou apenas correspondendo! – ele a colocou no chão, mas não largou a garota.

Os amigos de Naruto riam sem parar ao observar a interação, já acostumados com o comportamento dos dois. Sasuke se viu surpreendido pela maneira como o lugar e a atmosfera descontraída combinava com o grupo, principalmente com o loiro, com todo o seu ar de surfista e jeito largado – a pele naturalmente bronzeada, os fios dourados que compunham a sua cabeça, corpo atlético vestido com roupas confortáveis, mas ao mesmo tempo cheias de um estilo particular, e os pés descalços contra a areia branca, que o fazia se encaixar perfeitamente no contexto, como se pertencesse àquele lugar específico do paraíso.

Havia certa liberdade nos movimentos do Uzumaki que claramente dizia: sou avesso às regras. O “raio de sol ambulante”, como a melhor amiga frisou neste começo de tarde, parecia ser o completo oposto dele, que sempre seguiu à risca tudo o que sabia como certo, principalmente quando se tratava das questões que tinha com sua família. Essa diferença entre os dois o atraía, era nova e surpreendente, e lhe instigava a curiosidade.

— Ok, mas chega! – Karin se afastou. – Eu tenho que te apresentar aos meus amigos... – afastou-se com um empurrão e apontou para Juugo, apresentando-o, e depois para o moreno. – E esse é o famoso Sasuke Uchiha! – sorriu.

Quando azuis cobaltos encontraram obsidianas negras, tudo pareceu ruir à sua volta. Sasuke nunca tinha visto olhos tão bonitos, brilhantes e significativos. A cor profunda e misteriosa era como o mar sob o pôr do sol depois de um dia quente. A intensidade era tanta que parecia ler todos os segredos da sua alma. O Uchiha se sentia incapaz de sustentar o olhar sem achar que estava prestes a se afogar em águas revoltas.

De repente, ele se sentiu pequeno, mesmo que fosse mais alto.

— Prazer, eu sou Naruto Uzumaki! – o tom baixo o acordou de seus devaneios.

Tardiamente, ele percebeu que o outro lhe estendia a mão para cumprimentá-lo. O calor da pele dourada em contato com a sua fria e pálida, fê-lo sentir um arrepio e um formigamento agradável, deixando-o um pouco aturdido e confuso. O loiro se afastou cuidadosamente, ainda o encarando densamente, como se também compartilhasse dos mesmos sentimentos.

“Isso vai ser interessante...”, o Uchiha pensou, perguntando-se o porquê de nunca terem sido apresentados antes e voltando a correr os olhos pela figura do loiro. Ele precisava ter uma conversa séria com Karin.

Notas finais
Live Bar Abbey Road¹ - bar com música ao vivo na província de Nagano. É badalada por jovens, devido à grande quantidade de bebidas e comidas que são servidas por um preço justo. Fica aberto das 20h00min às 04h00min. Mitsubishi Lancer Evolution X² - também apelidado de Lancer Evo ou Evo. Cada versão do modelo é numerada por números romanos, mas não indica necessariamente uma nova geração. Os japoneses têm restrição de potência, para obedecer às leis locais, por isso, o Evolution X no Japão só pode acelerar de 0-100 km/h em 4,5 segundos.