Dar-se Uma Chance

3 Atração – Parte 3/9


Notas iniciais
Reestruturação dedicada à fran_silva.

Atração – Parte 3/9

Magnetismo (substantivo masculino):
1. Propriedade que alguns corpos metálicos têm de atrair e reter outros metais;
2. Parte da Física que trata desses fenômenos;
3. Grupo de fenômenos resultantes da propriedade magnética do ímã;
4. [Figurado] Atração, encanto, sedução.

Naruto se sentou em posição de meditação ao lado de Karin na areia macia. Ela estava acompanhada do amigo moreno, Sasuke, e os dois conversavam tranquilamente, olhando para a Lua e o mar adiante. O loiro ofereceu uma garrafa de cerveja que havia trazido para cada e ficou em silêncio reflexivo por um momento. Depois de anos namorando Sakura, sem sair muito para festas e festivais, ele desacostumou com a agitação.

— Cansado da multidão? – sua prima perguntou de repente.

— Um pouco... – deu um sorriso e olhou discretamente o moreno do lado direito da ruiva. – O pessoal começou aquele papo de quem chegou num certo grau de embriaguez, sabe? Discussões polêmicas e filosóficas... – riu fracamente, balançando a cabeça negativamente.

— E você saiu de lá porque estava com preguiça de pensar, eu suponho... – ela brincou, cutucando o primo com o cotovelo.

— Hey! – ele franziu a testa, indignado. – Só não estou com vontade de discutir assuntos sérios. Não hoje, quando devo estar preocupado em me divertir... – rebateu com uma carranca.

Karin o observou por um tempo, completamente em silêncio.

— Entendo... – divagou mais para si mesma uns minutos depois.

Os dois voltaram a ficar quietos; presos em pensamentos. Sasuke permaneceu em silêncio em toda a breve conversa, tentando se manter alheio. No entanto, ele entendeu as implicâncias do diálogo vago e, de certa forma, compreendeu o que o outro homem quis dizer.

Eles ficaram nessa introspecção confortável e necessária, cada um dissertando seus porquês, até serem interrompidos por gritos femininos se aproximando:

— Karin! – Ino veio correndo, arrastando sua saia longa azul escura de estampa floral e seus pés descalços. – Vamos deixar esses trogloditas em seus papos depressivos e vamos para o meio da pista? Eu não aguento mais ficar aqui! – reclamou, rodando um copo plástico com uma bebida qualquer entre as mãos.

— Arrumar alguma diversão para garotas? – interessou-se instantaneamente, se colocou de pé num pulo e limpou a areia na traseira do vestido.

— É! – gritou animadamente. – Temari e TenTen não podem fazer muito a não ser dançar de forma comportada, mas eu, você e Hinata estamos livres. A noite é nossa! – ela sorriu maliciosamente e abriu os braços.

Naruto ergueu uma sobrancelha, observando-as.

— Não sei se Neji vai gostar de saber que você quer levar a “querida e doce Hinata” para o mau caminho, Ino... – Naruto fez aspas com as mãos e riu.

— Quem é Neji? – Karin perguntou curiosa, como nunca andou com o grupo de amigos do primo, estava por fora do assunto. – Algum rolo dela?

— Não... Ainda. – a loira respondeu em tom conspiratório. – Mas, eu e o seu primo compartilhamos a ideia de que ele sente alguma coisa e não tem coragem de assumir... – Ino confidenciou.

— Quem? O Hyuuga? – Sasuke falou pela primeira vez. – Impossível, ele não gosta nem de si mesmo... – franziu as sobrancelhas.

— Você conhece o Neji? – Naruto se dirigiu a ele, curioso.

— Mais ou menos. – o moreno desviou o olhar do azul penetrante, cruzando os braços e fingindo indiferença sobre o assunto. – As empresas da nossa família têm negócios em conjunto. Quando há algum evento importante, nós sempre somos obrigados a compartilhar do mesmo espaço.

— Que trágico... – o Uzumaki ironizou, ganhando um brilho mortal em resposta.

— Bom – Ino interrompeu com uma careta pelo clima tenso formado entre os dois. –, enquanto Neji não toma uma providência, Hinata é livre e desimpedida para fazer o que ela quiser e eu, como uma boa amiga, vou acompanhá-la... – ela abriu um sorriso, agarrando a mão de Karin e a arrastando para junto das outras meninas a fim de caminharem em direção ao palco.

A dupla observou até que as cinco sumissem no meio da multidão, ignorando o silêncio incômodo que cresceu entre eles. Para se distrair da presença do outro homem, Sasuke vasculhou os bolsos em busca do maço e isqueiro. Retirando um cigarro da embalagem e o acendendo, ele estendeu o pacote para o loiro, num pedido mudo para que ele aceitasse a oferta. Naruto pegou um, sem dizer uma única palavra.

Com a pequena troca, houve um acordo mudo de paz, melhorando o clima desconfortável que tinha se formado. Cedendo ao impulso gritante, olhos azuis tentaram analisar discretamente o moreno, que estava com uma das pernas esticadas e a outra dobrada, apoiando o braço direito estendido; a mão que segurava o fumo balançava ao ritmo da música e toda a sua figura aparentava estar relaxada.

Naruto teve de admitir que, algo na postura do homem, o intrigava. Não sabia ao certo se era o ar misterioso que o envolvia e exigia ser desvendado ou o olhar ônix destemido, quase selvagem, que o desafiava. Sendo honesto consigo mesmo, o loiro o achava atraente, e ele não tinha plena certeza se o fato o fazia se sentir invejoso ou fascinado.

Sasuke tinha as maçãs do rosto salientes, queixo cinzelado e lábios finos bem desenhados numa carranca séria. O nariz pequeno era levemente arrebitado, os cílios espessos e grandes delineavam olhos puxados e as sobrancelhas tracejavam o rosto expressivamente, pois, por elas, ele conseguia ver a mudança de seu temperamento, uma vez que o olhar era permanentemente em branco.

— É falta de educação encarar, dobe¹! – Sasuke disse repentinamente, fazendo o outro pular de susto.

Ele jurou que estava sendo discreto.

— Desculpa, teme²! – riu sem culpa. – Eu só estava curioso...

— Sobre...? – o Uchiha ergueu uma sobrancelha.

— Sobre você. – deu de ombros, adotando uma postura mais séria. – É estranho observá-lo com Karin, vocês parecem ser completamente opostos. – divagou e desviou o olhar para observar o mar.

— Nós estudamos juntos no ginásio. – o moreno começou. – Ela era irritante, me perseguia em todos os cantos e dizia que era apaixonada por mim. Quando percebi, Karin estava do meu lado nos momentos mais difíceis, sendo a amiga que jamais tive. – continuou, prendendo o cigarro entre os lábios e desenhando distraidamente na areia, ao mesmo tempo em que pensava sobre o passado.

O cara não deu nenhum sorriso, nenhum indício de emoção, nada a mais que pudesse alimentar a ânsia de algo que ele não sabia ao certo o que significava. Tomando um gole da sua cerveja brevemente esquecida, o loiro respondeu:

— Karin tem esse efeito nas pessoas. – sorriu carinhosamente, olhando-o com intensidade e tentando decifrá-lo. – Não é tão surpreendente quanto fiz parecer, afinal. Eu mesmo sou amigo do Neji, que não tem nada a ver comigo. – deu de ombros. – Ela é minha prima e, como algumas pessoas da minha família, tem mania de ignorar alguns sinais negativos. – o loiro sorriu brincalhão. – A maioria se acostuma e se apega depois de um tempo. – deu de ombros com arrogância.

Sasuke só ergueu uma sobrancelha como resposta.

— Eu estou falado sério! – reforçou, lançando um olhar que parecia um alerta bem-humorado. – Quando você perceber, eu já farei parte da sua vida.

— Hn. – ele grunhiu com pouco caso, sem levar a sério a palavra do loiro.

Naruto rosnou com impaciência na indolência do outro.

— Será que é possível conversar com você sem que reduza tudo a grunhidos e respostas monossilábicas? – o Uzumaki perguntou num tom de desgosto.

De maneira bem inoportuna, o som profundo do rosnado, seguido do tom rouco da voz masculina, fez com que o moreno sentisse uma agitação interna. Sua mente viajou para outros momentos que fosse possível fazer o Uzumaki soar assim, ansioso e ávido, por motivos completamente diferentes. Balançando a cabeça negativamente para dispensar as imagens sujas que construiu, Sasuke apagou a bituca do cigarro na areia e jogou dentro da garrafa de cerveja vazia.

Ele olhou de esguelha para o loiro irritado e teve de admitir: não era só o Uzumaki que estava curioso, ele também estava. Pelo pouco que se lembrava – uma vez que ele nunca se dera o trabalho de prestar atenção nos monólogos de Karin a respeito do primo –, o rapaz tinha terminado o namoro com uma mulher há pouco tempo; o que o fazia deduzir que o cara era heterossexual.

Era frustrante ter todas aquelas perguntas e não ter coragem e nem intimidade para exteriorizá-las. Naruto era o seu número: a aparência rebelde e livre, os olhos azuis cerúleos que sempre brilhavam desafiadores, os músculos firmes evidentes sob a pele bronzeada... Sasuke o queria.

Suas mãos coçavam para tocar o cabelo claro e desordenado, para correr os dígitos pelas cicatrizes escuras que marcavam as bochechas. Seu corpo inteiro desejava sentir a firmeza de sua estrutura masculina. Mesmo o perfume cítrico que emanava dele fazia seu baixo-ventre rodopiar em interesse. Por um instante, ele se perguntou se era egoísmo da sua parte usar a sensibilidade do momento ao seu favor para mostrar o que realmente tinha pra oferecer.

Ambos tinham sofrido com términos conturbados, seria benéfico e conveniente para ambos os lados.

— Karin me disse que você terminou o namoro recentemente... – o moreno começou tão casualmente quanto possível, não acostumado a ceder à curiosidade. Ao ver o quanto o outro era falante, deduziu que não precisava perguntar para receber uma resposta ou iniciar uma conversa.

— Naa... – ele fez um gesto de descaso com a mão.

— Ela ficou muito preocupada, disse que você parecia meio chateado e um pouco deprimido... – tentou mais uma vez, porque, diferentemente dele, que teria deixado o loiro falando sozinho se as situações se invertessem, Naruto era como um livro aberto. E o Uchiha desejava lê-lo.

— Não mais. – o loiro fez uma pausa para dar um último gole na cerveja e jogar o filtro do cigarro na própria garrafa vazia. – Eu me conformei um pouco com o rompimento agora... Eu acho. – deu de ombros. – Penso que Sakura tinha razão em terminar. Ela não me amava de verdade, mesmo tendo ficado comigo por três anos, então... – bufou numa mistura de confusão, descaso e impaciência. – Avaliando a situação nesse momento e estando com a cabeça mais fria, não é difícil perceber que ela tinha bons pretextos.

— Hn. – concordou, ganhando um sorriso debochado do loiro pelo seu grunhido. – Acho que Karin exagerou um pouco quando disse que você é idiota. Você conseguiu perceber isso em tão pouco tempo de término... Geralmente ficamos tão magoados e preocupados em remoer o passado, que nos esquecemos de avaliar corretamente o porquê de não ter dado certo. – ele deu um pequeno sorriso, tentando mascarar a melancolia que sentia ao se lembrar de Suigetsu.

— Isso aconteceu com você? – perguntou, mal escondendo o pesar e a curiosidade e se inclinando em direção ao Uchiha para olhar melhor os olhos escuros.

— Sim... – ele quase se assustou com a aproximação bruta. – Mas, te ouvindo falar sobre o assunto me fez pensar sobre o meu próprio relacionamento. Eu e meu namorado éramos extremamente diferentes. Não que isso seja ruim, mas a verdade é que desgastamos o que tínhamos. Eu estava tão cego que, agora, me lembrando de algumas coisas, percebi que nunca nem fomos amigos. Conversávamos muito pouco e alguns de seus assuntos me irritavam demais... Eu nem sei o porquê de ter ficado com ele em tudo, acho que foi somente pelo sexo e a vontade de ter uma companhia. – Sasuke franziu a testa, lembrando-se de Karin lhe fazendo o mesmo questionamento esta manhã.

— Namorado? – Naruto inclinou a cabeça para o lado, sentindo-se perdido.

Sasuke não sabia dizer se cativante era o termo correto para descrever o homem, mas era assim que se sentia: extremamente cativado. Ele teve de reprimir a súbita vontade de sorrir, agarrar o loiro pelos cabelos e beijá-lo até a morte.

— Sim.

— Você é gay?! – o loiro quase gritou incrédulo.

— Algo contra? – o moreno respondeu, começando a fechar a cara.

— Não! – exclamou, a fim de apaziguar a situação. – Só me surpreendeu... – o loiro voltou a se sentar de forma ereta. – Quero dizer, você não parece gay. – refletiu um pouco antes de continuar. – Não discrimino o homossexualismo, porque apoio todas as formas de amor – deu um sorriso tão grande que fez os olhos se fecharem e os cantos se enrugarem. –, e sou completamente a favor da liberdade sexual. – ele riu.

— Você é tão moderno. – Sasuke brincou com um tom sarcástico. – Quase soou como se pudesse se relacionar com homens também... – jogou com um sorriso e um olhar condescendente.

— Eu não sei se posso. – deu de ombros, amassando a areia com os dedos dos pés. – Eu nunca pensei sobre isso, na verdade. Quer dizer, eu nunca me senti atraído por homens antes, apesar de considerar alguns atraentes... – abaixou a cabeça. – Mas eu acho que é normal, não é? Achar outros caras bonitos? – indagou levemente corado com a súbita timidez que o abateu.

Aquele tema era tão estranho e novo para Naruto, que ele não sabia ao certo como lidar com o que sentia e pensava. No entanto, o diálogo era surpreendentemente esclarecedor e parecia lhe acertar com uma nova perspectiva sobre certas coisas e, principalmente, sobre si mesmo.

— Você já se imaginou – balançou a cabeça em busca das palavras e deu de ombros, fingindo indiferença, mas sentindo o estômago borbulhar em ansiedade. – beijando algum cara?

Naruto olhou para o moreno, tentando pensar em uma resposta. Na verdade, ele podia pensar em fazer isso agora.

— Já. – estreitou os olhos, tentando não demonstrar o quanto se sentia intimidado com a conversa e, ainda assim, não fazendo questão de acabar com ela.

— Já se imaginou – o Uchiha se aproximou. – dormindo com algum cara?

— Não! – gritou surpreendido com a pergunta e se afastou. – Quer dizer, eu nem sabia que tinha uma queda por homens até agora. Acho que é muito cedo para pensar sobre essas coisas, não é? – o loiro ficou ainda mais vermelho do que já estava, fazendo Sasuke morder a língua para se impedir de rir.

A indagação abriu as portas da imaginação do Uzumaki, que corou ainda mais com as imagens mentais que sua cabeça fabricava.

— Desculpe, estou te deixando confuso! – pediu com diversão, sem estar realmente arrependido. – Depende de quão aberto sexualmente você é. – respondeu.

— Hm... – brincou, tentando imitá-lo, a fim de se distrair dos maus pensamentos, amenizar o constrangimento e interromper o assunto, receoso para onde aquela conversa os levaria.

— Estou começando a te passar algumas manias. – Sasuke observou, sentindo um calor reconfortante no peito com as brincadeiras leves.

— E eu estou te passando as minhas, já que você falou mais do que quando chegou... – balançou as sobrancelhas sugestivamente.

— Hn. – ele mal conseguia segurar o sorriso.

— Ou não. – e ambos começaram a rir.

Naruto quase perdeu o fôlego quando viu o sorriso verdadeiro no rosto pálido. O som do riso era raro. A vibração do tenor profundo subia e descia em escalas rítmicas e constantes, enviando-lhe um arrepio na espinha. Os olhos escuros brilhavam e as pálpebras se apertavam levemente, quando as maçãs do rosto se salientavam. O loiro se sentia quase hipnotizado.

— O que foi? – o moreno perguntou, tentando esconder a falta de jeito pela forma como o Uzumaki o encarava.

— Você deveria fazer isso mais vezes... – disse como se explicasse muito.

— Isso o quê? – ele franziu as sobrancelhas em confusão.

— Sorrir... – especificou com um sorriso. – Você fica lindo quando sorri, Sasuke.

Seu nome e o elogio dito por aquela voz naturalmente rouca o fez estremecer.

— Obrigado. – agradeceu, não dando margem ao constrangimento. – Uma pena que não posso dizer o mesmo sobre você, porque acho que qualquer um que sorrisse assim o tempo inteiro pareceria igualmente idiota. – o Uchiha brincou, tentando se aliviar da euforia causada pelo galanteio.

— Bastardo! – ambos trocaram um sorriso sardônico.

De repente, Naruto se levantou e foi em direção aos carros. Sasuke observou, em parte decepcionado e curioso, o loiro trocar algumas palavras, sorrisos e até alguns socos com Kiba, antes de se inclinar para o porta-malas de um Porsche Cayenne branco. Ele colocou dois copos plásticos com gelos em cima da capota e os encheu com alguma bebida azul qualquer. Pegou duas garrafas de cerveja, colocou-as debaixo do braço e voltou para onde estavam sentados.

Naruto ofereceu um dos drinques para o moreno, num pedido mudo para que este aceitasse, e se acomodou novamente ao seu lado.

— O que é isso? – Sasuke perguntou indicando o coquetel.

— Não sei. Eu peguei o que tinha no carro. – deu de ombros.

— O que vocês trouxeram, afinal? Cada vez que olho tem alguém bebendo algo diferente... – o viu acomodar as garrafas em pé na areia.

Ele provou um gole da bebida, apreciando-a.

— Trouxemos de tudo um pouco. – riu. – Tem para todos os gostos. Geralmente, as garotas preferem bebidas mais doces, como essa daqui. – indicou o copo. – Elas fizeram um grande estoque disso e eu peguei um pouco para provarmos. Os caras bebem qualquer coisa, então, não faz diferença. Acho que pensaram que dessa forma não iria faltar! – deu de ombros.

— Agora entendo o porquê de Karin dizer que seus amigos se virariam com o resto das coisas. – encarou o perfil do loiro distraído. – Vocês devem fazer muito disso, para estarem sempre prevenidos...

— Na verdade, faz tempo que não saio com eles. Mas, antes de eu começar a namorar, nós viajávamos muito. Pegávamos o carro, tudo o que necessitávamos e caíamos na estrada. – Naruto deu um sorriso nostálgico. – Eles continuam fazendo isso até hoje, porque Konoha é bem monótona e as formas de entretenimento no bairro são bem limitadas, só que eu dei uma parada. Era o nosso jeito de sair do marasmo, sabe?

— Você mora em Konoha também? – ele ergueu uma sobrancelha em questão, perguntando-se como nunca tinha o conhecido antes.

— Sim. – o outro balançou a cabeça em concordância. – É engraçado que nunca tenhamos nos encontrado antes – comentou como se lesse seus pensamentos –, principalmente porque conhecemos algumas pessoas em comum; a Karin que vive na minha casa e não desgruda de você... Depois que ela perdeu os pais, ela se apegou muito à minha família e me surpreende que ela não nos tenha apresentado ao seu melhor amigo.

Sasuke se lembrava dessa época. Eles estavam quase no fim do Ensino Médio e, depois disso, o Uchiha assumiu o papel de amigo que estava relutante em assumir. A ruiva tinha ficado arrasada e só saiu de sua fase depressiva com a ajuda dos tios e do primo. O moreno não fazia a menor ideia de como consolá-la, embora sempre que podia, estava por perto para garantir que ela comesse e sorrisse. Ele não se considerava alguém engraçado, mas pelo menos tentava, com suas ironias constantes sobre as pequenas coisas.

Os dois ficaram em silêncio por um tempo até o loiro decidir falar outra vez.

— O que você faz? Você está na mesma faculdade que a Karin? – terminou a bebida e logo abriu uma das garrafas de cerveja.

— Apesar de dividirmos um apartamento, eu estudo Administração e Negócios na Nagano University³. – esclareceu, pegando o maço de cigarros e o isqueiro no bolso e oferecendo a embalagem para Naruto.

— Não, obrigado, estou tentando reduzir o consumo. – ele explicou.

— Faz bem – concordou. –, eu já não consigo me livrar do vício; esperando as pessoas, tomando café, bebendo, saindo de casa, antes de dormir, depois do sexo... Qualquer hora, pra mim, é um bom momento para fumar um cigarro! – murmurou, acendendo um e dando uma longa tragada para reforçar o seu ponto. – E você faz engenharia na Niigata University, não é?

— Karin te disse. – não era uma pergunta, assim, Sasuke só balançou a cabeça afirmativamente.

— Ela fala de tudo sobre você; o quanto você é bonito. – ele deu um pequeno sorriso malicioso. – Ela me disse que você ajuda seu pai na empresa, que sua ex-namorada se chama Sakura e que ela é tão cafona que pintou os cabelos da mesma cor que a da flor. – enumerou com diversão, antes de erguer uma sobrancelha, lembrando-se de algo. – Ah, e também me contou que você é tão burro que ao tentar salvar o gato da vizinha, que estava em cima da árvore, se assustou, porque o bicho era arisco, caiu e quebrou a perna. – deu um riso leve. – Para ser sincero, eu não me lembro de tudo. – confessou.

— Não é justo! – Naruto fez um biquinho emburrado, fazendo Sasuke se mexer desconfortável. – Você sabe muito mais de mim do que eu sobre você!

— Não se preocupe com isso, eu posso te contar algumas coisas sobre mim também. – disse como se falasse com uma criança de seis anos. – Meu ex-namorado se chama Suigetsu e ele é tão igualmente cafona que pintava as pontas do cabelo de azul. Nunca tentei salvar gatos, mas tenho uma avó que possui uma infinidade deles, todos resgatados das ruas. Agora você me diz se eu sou tão atraente quanto acho que sou, porque tenho certeza que Karin não mencionou isso para você também.

O loiro arregalou os olhos e abriu e fechou a boca, sem saber como responder.

— Aquela ruiva escandalosa sempre fez questão de frisar o quão bonito você é. Eu ficava até com ciúme, porque não fui muito popular com as garotas, até os 16 anos. – arriscou a admitir, mordendo a ponta do polegar, enquanto ria sem graça. – Ela era apaixonada por você, foi quase impossível não ouvir sobre o quanto “Sasuke-kun é incrível”! – ele afinou a voz para imitar o timbre da prima.

— Ela é louca. – reprimiu o riso, lembrando-se daquela época. – E você não deveria ficar com ciúme. – lançou um olhar explicativo de esguelha.

Naruto se remexeu com incerteza, sentindo-se estranhamente retraído, estimulado e envergonhado com o elogio velado.

— Vamos para perto do palco? – virou-se para o resto dos rapazes, querendo acabar com o tópico perigoso. – Caras, vamos para a pista?! – gritou, fazendo Sasuke se encolher com o berro.

— Se as meninas podem, nós também podemos! – Kiba exclamou em concordância.

O loiro se levantou e estendeu a mão para ajudar o Uchiha a se levantar. Enquanto Naruto se afastava, para ajudar seu melhor amigo a pegar algumas bebidas de dentro do carro, Sasuke viu seu amigo Juugo, que se enturmara no grupo de amigos do Uzumaki, se aproximar.

— Nunca te vi tão interessado numa pessoa antes. – o homem disse repentinamente, quebrando o silêncio usual entre eles.

— Eu nunca tinha me sentido tão interessado numa pessoa antes. – respondeu com sinceridade, olhando a figura de Naruto se deslocar entre os outros em meio aos risos e às piadas.

— Não é melhor ir com calma? Vocês acabaram de terminar o namoro. – sugeriu, sabendo que era inútil quando o moreno se focava no que queria.

— É só sexo, Juugo. Não quero nada mais sério. – esclareceu como se justificasse suas ações e demitiu a conversa para se aproximar dos outros.

Depois de pegarem tudo o que queriam, Shino fechou o carro e todos eles começaram a caminhar para o meio da multidão. Quando começou a encher demais, pararam, porque nem todos gostavam de lugares apertados.

Naruto e Kiba ficaram lado a lado, um pouco mais afastados do grupo, cantando e dançando juntos, fazendo brincadeiras ocasionais e olhando as garotas que passavam, piscando para algumas delas e até as abordando para conversar. O Uchiha observava com certo pesar e incômodo, pois acreditava que ver o Uzumaki dar atenção para mulheres minimizava suas chances.

Ele não sabia ao certo se devia arriscar uma abordagem agora, mesmo depois da conversa breve que tiveram. No fundo, havia uma ponta de esperança que lhe dizia para tentar, porque Naruto não fora completamente avesso à ideia de estar com outro homem. Achando melhor não esperar demais para perder a oportunidade, caminhou em direção a eles e se colocou ao lado do loiro. Kiba conversava com uma mulher cheia de risos e toques sutis ao longe e, sua amiga, lançava pequenos olhares para o loiro, que fingia não ver.

— Ela está olhando para você, sabe? – Sasuke sussurrou no ouvido dele, fazendo questão de soprar o ar no pescoço e roçar os lábios na orelha do outro.

— Eu percebi. – deu de ombros, tentando disfarçar o arrepio e o calafrio que correu seu corpo com a proximidade da boca em sua pele.

O Uchiha tentou reprimir o sorriso malicioso, mas não conseguiu. Ele reparou o estremecimento e os pequenos pontos de pelos eriçados.

— Tentando dar uma de difícil esta noite? – ele jogou com significados duplos.

— Estou tentando ser conquistado esta noite. – corrigiu com um sorriso fácil, olhando-o de soslaio.

— Hm... – o som de concordância quase parecia um gemido. – E ela não te conquistou por quê? – o moreno perguntou, tentando amenizar o tom de flerte, mas falhando miseravelmente. Seu objetivo era ir com calma para não assustá-lo, mas era quase impossível disfarçar a necessidade.

— A postura tímida dela não me atrai. Eu gosto de figuras confiantes, que sabem o que querem e vão atrás disso... – engoliu em seco. Mesmo alheio ao jogo que Sasuke iniciara, sua voz se tornou inconscientemente mais rouca para corresponder às investidas do homem.

— Neste caso – o Uchiha começou preguiçosamente. – Eu posso te ajudar nisso. – sussurrou não querendo ser realmente ouvido e utilizando a música alta em seu benefício.

— Hã? – Naruto perguntou confuso.

— Nada... – respondeu inocentemente.

Com um movimento rápido, Sasuke pegou a garrafa que o loiro segurava e tomou um gole generoso. Virando-se de frente para o Uzumaki, ele começou a dançar ao som da música. Os olhos azuis correram de cima a baixo pelo corpo do outro, logo notando a mudança de atitude. Ambos se encararam; o moreno parecia quase ferino e Naruto só conseguiu lamber os lábios secos, apreciando o show particular.

Seu coração martelando no ritmo da música enlouquecedora.

— Hey! – sua voz caiu umas oitavas. – Essa cerveja deveria ser minha. – murmurou, finalmente cedendo à agitação que parecia rugir em seu interior; à necessidade que ele tentou ignorar e negar com afinco desde que se olharam pela primeira vez.

— Algum problema em compartilhar sua bebida? Você não faz a linha egoísta, usuratonkachi⁴. – Sasuke se aproximou mais, ainda dançando e roçando seu corpo levemente ao do homem.

(***)

Ao longe, Neji observava Naruto ser abordado pelo Uchiha com uma expressão de descrença.

— Eu não acredito que ele está fazendo isso... – ele pensou em voz alta.

— O quê? – Gaara perguntou com curiosidade, olhando para a direção que o outro encarava. Quando encontrou o que quer que tenha feito o Hyuuga se chocar, engasgou com a sua própria saliva. – O que o Naruto está fazendo? – procurou Kiba, alarmado pela reação energética do moreno, e não o viu em nenhum lugar.

(***)

— Depende muito do que eu for compartilhar... – Naruto disse misteriosamente.

Ele estava curioso. E atraído. O flerte acontecia naturalmente, porque parecia haver um entendimento mútuo entre eles. O loiro não queria dissertar sobre a forma como se sentia em relação ao amigo de Karin, mas era impossível agora que Sasuke mostrou seu próprio interesse de maneira bem óbvia. No começo, confessava, ele estava fugindo, porque tinha medo de ceder. Era tudo tão novo e assustador, mas ao mesmo tempo tão perigosamente tentador.

O Uzumaki tentava arranjar justificativas para negar aquele impulso – ambos tinham acabado de sair de relacionamentos longos e ele não tinha experiência –, mas era impossível pensar com coerência, quando aquele corpo roçava o seu tão sensualmente. Contrariando a si mesmo, agarrou a garrafa juntamente com os dedos pálidos para puxar o rapaz para mais perto. O moreno soltou a bebida e observou, com sede mal contida, o pomo de adão se mover para cima e para baixo, enquanto o loiro sorvia o líquido amargo da cerveja.

Olhos azuis não se desgrudavam do Uchiha, apreciando o olhar de fome que ele sustentava. O fato, surpreendentemente, só aumentou o fogo que acendia vagarosamente em seu baixo-ventre. Apesar do estranhamento inicial, Naruto não conseguia se parar, ele queria Sasuke e nunca negou um desejo quando sentia vontade. Os dois se balançavam lentamente ao som da música, mesmo que a batida fosse frenética e desenfreada. O jogo de luzes, que piscava, e o som absurdamente alto aliado ao ritmo sensual pareciam apurar ainda mais os sentidos dos dois.

O moreno estava feliz que o outro não recuou sob suas investidas. Ele estava com dificuldade de lidar com alguém que jamais tinha ficado com outro homem, porque temia que suas ações ousadas o assustassem e ofendessem, contudo, o loiro estava tentando ser o mais natural possível, dentro das circunstâncias, e isso o alegrava.

Como se lendo seus pensamentos inseguros, Naruto decidiu dar uma dica. Ele levantou a mão para acariciar a lapela da jaqueta de couro que o moreno usava, avaliando a contextura do tecido com a ponta dos dedos, e subiu os dígitos lentamente, a fim de agarrar o pescoço pálido e acariciar o polegar na jugular com um toque firme.

— Eu não sei o que estou fazendo. – admitiu num murmúrio humilde, engolindo em seco. – Eu só sei que não posso parar.

Os olhos escuros clarearam em assertividade, compreensão e incentivo, entretanto, Sasuke evitou abrir a boca com medo que qualquer som ou palavra fosse oprimi-lo.

Mesmo sob a iluminação difusa, o Uzumaki notou a diferença entre os tons da pele. Incapaz de resistir à vontade de marcar a tez imaculadamente branca, ele segurou com solidez o maxilar forte e inclinou o rosto do outro para ter melhor acesso à região do pulso. Ele chupou com força, fazendo Sasuke fechar os olhos em deleite e prender o fôlego com a sensação da língua massageando a área sensível.

O cheiro que o Uchiha exalava lembrava frutas cítricas misturadas com tabaco, tão marcante e másculo como o dono. O Uzumaki se afastou e admirou, como se apreciasse uma obra recém-concluída, a marca arroxeada. Com um sorriso satisfeito e presunçoso, afagou o indicador na mancha escura e desviou seus orbes azuis para encarar os negros e aproximar seus rostos.

— É realmente a primeira vez que fica com um cara? – o Uchiha encontrou dificuldades em achar a voz depois da demonstração fervorosa de afeto.

Naruto concordou com um som preguiçoso, roçando os lábios na boca entreaberta e sentindo a respiração ofegante do outro acariciá-lo.

Olhos negros varreram ao redor, receoso sobre ser tão público, e reparou nos amigos do Uzumaki olhando a cena de soslaio, tentando disfarçar o choque e a curiosidade. Sasuke sorriu antes de empurrar o loiro, deixando o outro confuso.

— Vamos procurar um lugar mais reservado. – segurou a mão que o agarrava, para puxá-lo para algum lugar distante de olhos bisbilhoteiros. Ele realmente não queria ser interrompido, e tinha medo que a atenção familiar fosse fazer o loiro desistir. Se dependesse de suas intenções, e, claro, se Naruto permitisse, eles estariam só começando.

Notas finais
Dobe¹ - estúpido. Teme² - imbecil; babaca. Nagano University³ - universidade tradicional, inaugurada em 1966. Usuratonkachi⁴ - inútil.