Danke
4 Solicitação
Danke havia me mudado completamente e para sempre, e não bastou muito para que os sintomas aparecessem. No momento em que os fones de ouvido me isolaram de todos os sons daquele vagão, daquele trem, daquele mundo, fui tomada por uma calmaria que me ninou o resto do caminho, com um porém: seus olhos azuis não saiam da minha cabeça, iluminando os meus fechados.
Já no início encontrei problemas para o retirar da minha lista imediata de pensamento. Era difícil, mas não impossível. Saindo do metrô digitei rapidamente uma mensagem para meu futuro encontro, que logo me chamou um carro que me levasse até meu destino final. A casa na qual cheguei possuía, em suas partes, um cômodo que, naquela época, era meu porto seguro. Durante um período de quatro meses, as paredes cor de creme, pouco espaço, uma cama de casal montada em madeira, uma pequena escrivaninha, uma guitarra e um violão se tornaram a configuração que domava meu coração abarrotado de sentimentos ansiosos e autodestrutivos. Porém, nada daquilo tinha significado sem o homem que trazia cor, sons e cheiros ao quarto que era seu.
Sua pele era alguns vários tons mais escuros que a minha, obtendo o posto da cor da minha tentação, participando das minhas maiores fantasias e sonhos. Sua grossa voz tocava a minha alma com suas tantas cantorias, a sua especialidade, e serviram o propósito de fuga dos desafetos que a vida insistia em jogar em sua face. O amava, daquelas formas adolescentes e clichês de primeiro amor, ainda que não o fosse, mas com a básica e certeira soma da necessidade emocional, o querer continuo e a certeza de que era o certo. Ele era misterioso, quebrado, inseguro, carente e repleto de demonstrações de afeto e querer singulares e particulares seguidos de batidas em retirada por medo de amar e ser amado. Estava presa na falta de suas palavras não ditas, nas suas ações carinhosas e intimas a nós e naquela relação sem nome, sem status, mas repleta de regras de conduta. Conhecia suas maneiras, seus ciclos, suas formas e como tudo aquilo me preenchia e me preencheu durante dois dias inteiros.
Dividimos a cama, caricias, conversas, brincadeiras, músicas, tapas, carinhos e mordidas. Não havia porquê checar meu telefone ou me importar com a falta das monocromáticas tatuagens pretas e vermelhas, já que, abraçada pelas coloridas me sentia completa e satisfeita.
E, naquela mesma cama compartilhada, sonhei com Danke e seu sorriso malicioso de canto de boca. Sua aranha realista havia me picado, me infectado com um vírus tão radioativo quanto o amor que conheci, mas era ainda mais profundo, ainda mais destrutivo. Estava me sentindo doente, serva de seus desejos microscópicos, eternamente febril, antes mesmo de saber que aquilo era possível.
Os paraísos sempre chegam ao fim.
Segunda-feira, antes mesmo das oito da manhã, eu estava infeliz debaixo das minhas confortáveis cobertas e esquentada por alguns ronronados. Pela primeira vez desde o inicio do final do final de semana realmente olhei para o meu telefone, verificando se eu havia deixado alguma notificação passar e respondendo as mensagens que escolhi ignorar. Então, a vi: no aplicativo de mensagens, no canto superior direito estava a bolinha avermelhada, tímida e quieta solicitação de mensagem.
Apenas a sua presença ali me causa exaltação, fez meu coração parar, acelerar e pular para fora do meu peito, subindo pela minha garganta e me deixando sem ar. Sabia que era ele, não precisei olhar.
Abri a pequena notificação e lá estava. Sua imagem redonda ao lado do seu nome de usuário, uma foto em preto e branco, mostrando seu corpo tatuado semidesnudo em uma pose reveladora, mas não demais. Uma chamada, uma tentação; talvez não fosse para mim, mas eu me senti diretamente atacada.
Sua mensagem apenas dizia: “encontrei a minha Coala especial”.
Danke estava certo, eu era dele. Mas a palavra estupida me parou. Era uma afronta que eu não poderia deixar passar.
Era interessante assim conversar com ele, porque ele me conhecia. Seus azuis olhos guardavam informações não disponíveis sobre mim e a usavam para me instigar, me provocar e arrancar de mim coisas que eu não poderia engolir.
Senti a força e a excitação daquelas emoções estranhas a mim, emoções boas.
Não bastou muito para que eu conhecesse seus filmes favoritos e algumas coisas importantes sobre a sua história. Até o final da semana, suas lacunas existenciais haviam sido preenchidas e eu estava aberta, confortável, pronta para me doar.
Danke era virginiano, algo que ouvi muito sobre como muitos odiavam, mas era meu paraíso astral. Sua vocação era o desenho e a paixão marca-los para sempre em peles alheias. Trabalhava na Escalpa Tattoo, loja sua em sociedade com seu irmão órfão; construíram a tatuaria em homenagem ao pai também tatuador. Perdeu os pais aos dez anos de idade, dependendo do seu irmão de dezessete anos e uma tia. Tulio, o mais velho, estudou muito para se tornar advogado e investiu na Escalpa, o sonho da vida dos dois.
Os olhos azuis eram independentes e já haviam conquistado muita coisa. Ele era dez anos mais velho que eu, naqueles dias. Seus trinta anos eram carregados com uma bagagem que eu nunca poderia realmente carregar comigo, mas também de vitórias grandes demais para serem ignoradas. Ele tinha apartamento próprio, no centro da cidade, um gato, seu carro dos sonhos e sua loja. Danke era grande, era seguro e fixo, ele sabia quem era e o que queria.
Estava assustada, tomada para trás. Meu sonho era construir algo com alguém, mas ele já havia construído uma vida toda sozinho. Ao mesmo tempo, sua grandiosidade me inspirava, eu queria ser mais do que ele quando crescesse.
Mal sabia eu que tudo aquilo era Danke, a inspiração, o tremor, o estranho desejo, além de tantas outras sensações, descobrimentos e irrevogáveis momentos que começaram ali, talvez mais do que na plataforma de metrô.
Fale com o autor