Danke

5 Proposta


Dia primeiro de agosto. Dia do primeiro dia de aula do segundo semestre da faculdade. Dia primeiro do mês tão odiado, do mês do desgosto. Uma terça-feira cinzenta, abafada e fria.

As férias não haviam me sido agradáveis. A falta de estrutura em dias tediosos e alongados nunca me foram momentos felizes. Minha mente entrava em loops intermináveis com ideias nocivas.

Danke havia sido um porto seguro em momentos de naufrago. Meus dias haviam se tornado um acumulo de nossas conversas, repleto de assistir as suas referências e pesquisar respostas rápidas. Falávamos em teorias da conspiração e novas ordens mundiais na mesma medida que discutíamos filmes série b e comentávamos de livros que nenhum de nós tinha lido. Não falávamos de amor, porque não precisávamos, esse era um conceito abstrato e regrado demais para o sentimento avassalador e inocente demais que surgia dentro de mim, e, ainda que eu detestasse contar com sentimentos alheios, era inegável que a ponta de algo novo morava em seu peito.

Estava partida entre a felicidade da volta de uma rotina que ocuparia meus dias com PDFs mal digitalizados e confecções ideológicas nas palavras mundanas de mais um escritor branco canonizado e a infelicidade de perder momentos preciosos do meu dia que poderia passar trocando mais uma mensagem rápida com ele.

Desde o dia do metrô não havíamos nos visto. Sentia-me tímida e acanhada demais com a ideia daquele grandioso homem que tomava minhas tardes. Já ele, nunca insistia mais de uma vez.

Foi então que a terça-feira tomou forma, com um almoço tardio, olhos cansados de uma noite mal dormida, uma animação contida em itens de papelaria novos, a incerteza meio boba de que roupa colocar e a ansiosidade tediosa de descer até a plataforma de metrô e saber que meu mundo não seria, mais uma vez, parado.

Como se ele fosse uma parte adormecida minha e as memórias gatilhos barulhentos, meus pelos nos braços e pernas eriçaram, em um gracioso temor. A plataforma sem cor, seus olhos azuis, o cheiro amadeirado, as negras tatuagens que contrastavam com a palidez de sua pele e a risada estridente que contrastou a sua voz grossa.

Danke morava em minha mente. Seu lugar não era sua casa e minha cabeça já não cabia quaisquer que fossem as preocupações. Então abaixei-me, coloquei os fones de ouvido e segui para o trem cheio, abafado e fétido. Sabia do caminho comum que faria, passando por três estações, sendo a quarta, a minha; todas eram igualmente cinzas, com seus bancos metálicos em preto e grandes placas suspensas azuis. Em cada uma me vinha a vontade de descer, mas era sempre atingida pela ideia de que estaria sozinha, não havia ninguém a minha espera.

Enfim, chegará. Desci e vi minha pequena amiga ruiva de muitas palavras. Trocamos olhares, já que eu não era de cumprimento físicos. Instalou-se uma conversa sobre o que já sabíamos, o que não sabíamos e como havia sido o tempo distante. Era tudo do mesmo, tudo de um ou dois meses atrás. Eu, porém, não era a mesma, e fui dominada por aquela sensação que fazia meus ossos doerem e lutarem para se expandir em uma luta calada, travada apenas dentro de mim.

Até o momento em que entramos na sala.

A classe foi o inicio de um espiral que tornou Danke parte fisicamente ativa e pertinente em todos os meus dias, muito em toda a minha vida. Se o nosso primeiro encontro não fora o impulso inicial, aquela foi uma das primeiras decisões que eu deveria me arrepender de ter tomado.

A sala era uma afrente a minha antiga, tal que tinha números mal colados nas paredes amareladas e altas da faculdade, números que eu olhava fixamente, como perdida no quarto andar, um que conhecia muito bem. Como se muito difícil de encontrar, meu coração se ajeitou ao ver qual era a classe correta e distraída entrei.

Haviam cerca de cinco colegas do antigo período espalhados, pelo que, mais ou menos, eram seus antigos lugares, mais um limbo nostálgico quebrado que me dobrou o estomago. Eu tinha uma preferência especifica pela penúltima cadeira da fileira do meio, ficando próxima de todos aqueles que eu ainda não detestava e bem abaixo de um dos únicos ventiladores, podendo ver, quase por completo, o quadro a minha frente. E, como se ele soubesse de todas essas informações que nunca partilhamos, seus olhos azuis me esperavam infelizes e cansados, porém reluzentes em algum sopro de expectativa, exatamente no “meu lugar”.

Parei, fisicamente. Minha amiga continuou o seu caminho e suas palavras, mas não a acompanhei. Vê-lo iluminou toda minha alma em laranja, um laranja especifico que me remetia ao sol. Engoli a exclamação, mas não havia como conter meu sorriso. Novamente, eu não sabia qual o barulho o fez olhar para cima, mas sabia que havia cometido alguma outra pequena falha que fez sua cabeça se levantar e sua visão se chocar com a minha. Ele sorriu e toda a sala era ciano.

Minhas pernas falharam, tremeram. Os pelos de dentro da minha coxa eriçaram.

—Coala.

—Danke.

E meu rosto todo se avermelhou em uma timidez velha e conhecida. Suspirei. Caminhei apressada e cheguei ao seu encontro, um que trouxe um querido e intimo abraço apertado, ainda que envergonhado e desajeitado. Ele ainda não sabia meus limites, como eu também não conhecia os seus. Era tudo novo, mas era tudo nosso.

—Achei que ainda estava na Escalpa. – Larguei meus materiais sobre a mesa em que ele previamente se sentara.

—Vim te fazer uma proposta. – Seu sorriso de felicidade se fechou. Como eu, ele não tinha o costume de sorrir por uma grande quantidade de tempo, quando estávamos juntos nossas bochechas doíam; por isso, sua feição, ainda iluminada, se fechou, mas seu canto esquerdo da boca ainda estava erguido em um meio sorriso mais confortável.

—Que tipo de proposta? – Não acho que consegui conter toda a excitação em minha voz.

—A Escalpa precisa de uma nova secretária. Não acho que exista posição melhor para você, ou alguém melhor para posição.

Seus carinhosos olhos me fitavam de cima, ainda que ele estivesse apoiado na mesa e eu completamente em pé. Ele tentava captar algo em mim que eu não sabia muito bem o que era.

Suas palavras me deixaram um pouco confusa. Danke sabia da minha obsessão pouco saudável por organização, meu amor por itens de papelaria e meu orgulho dos meus límpidos cadernos e agendas. Mas eu não tinha experiência alguma. Involuntariamente minha sobrancelha esquerda se ergueu. Foi então que ele continuou:

—Nossa antiga recepcionista, a Fernanda, estava sendo um problema muito grande. Nossos calendários já não faziam sentido há alguns meses, tanto eu quando Miles perdemos clientes e agendamentos. Além disso, está faltando dinheiro no caixa. Fomos obrigados a manda-la embora o mais rápido possível. Porém, o trabalho dela era, justamente, fazer sentido da bagunça de ligações, mensagens em calendários. A Escalpa precisa de uma operação urgente, e, sem atenção especial, não sobrevive uma semana.

—Você quer que eu organize a sua vida ou vá trabalhar para você?

—Um pouco dos dois. A vida do Miles também está envolvida. – Suas grossas sobrancelhas se comprimiram juntas.

Como um cachorro abandonado na ponta da estrada, seu olhar pedinte não era necessário: estava desempregada, desesperada, além de sempre sonhar em trabalhar tão perto de algo que era minha paixão.

—Quando? – Continuei.

—Nove as dezoito.

—Dezessete e trinta. Faculdade. – Fechei o cenho.

—Meia hora de almoço.

—Danke, é um estúdio de tatuagem, alguém cumpre o horário de almoço?

—Convincente.

—Quanto?

—Mil, redondo.

—Sem passagem? Sem alimentação? – Rebati com sobrancelhas erguidas.

—Mil, redondo, mais a passagem. – Seu cenho se fechou, mas não era agressivo, era compreensivo.

—Prazer fazer negócios com você. – Estendi a mão.

—Amanhã é a sua prova de fogo, garota. Você me tem na mão, mas ainda tem que agradar a Miles e, mais importante, meu irmão, o dono da loja.

Um desafio, e costumo não funcionar bem sob pressão, mas o caráter excitante daquele olhar só me fez ter a certeza de que era aquilo que eu queria, que conseguiria fazer. Então sorri em resposta, um sorriso tão malicioso quanto o que saia da sua boca, porque, de uma estranha forma, confiava que daria conta, não importa o que fosse.

—Amanhã, as nove, eu te mando o endereço. – Ele sorriu, apertou a minha mão parada no ar e assentiu.