Danke
6 O cavalo branco
Danke parecia querer se retirar, mas ao mesmo tempo ficar. Uma dualidade que permeava a minha. Sua presença física era nova, intrigante, diferente das nossas contínuas conversas por WhatsApp, era muito mais intensa e marcante. A conversa se manteve, então, fora da minha sala.
Falávamos sobre tudo, mas sempre nos mantínhamos mais no local que eu me sentia mais confortável e sabia falar mais sobre. Seus ouvidos eram atentos e pareciam sempre desesperados sobre quaisquer informações novas que eu poderia distribuir. Seus grandes olhos azuis se fixaram em mim e nos incessantes movimentos da minha boca, estes o causavam pequenas estremecidas, repuxadas, securas e sorrisos, tudo manifestado em seu rosto.
Em pequenos movimentos tímidos ele tentava tocar suas mãos às minhas. Em singelos movimentos meio mal calculados ele sorria e suas bochechas coravam. Seu corpo ia e vinha, como sua voz, suas investidas, seu carinho. Toda aquela dança permeada na timidez e receio me passava a impressão de que, talvez, aquela bagunça incompreendida que fazia minhas coxas arrepiarem e meu sono mais feliz, era reciproco. De alguma forma aquela interação me fez sentir perto dele, do homem feito e mais velho que parecia antes distante em sua grandeza. Meu coração se encheu de compreensão e, pela primeira vez em tanto tempo, eu me sentia especial.
Danke me fazia sentir especial e nunca precisou de palavras para isso.
Mas ele havia de ir embora, e eu havia de voltar ao mundo real. A dor de o ver ir parecia permear também o seu coração, já que seu abraço de “até logo” fora intenso, apertado e demorado. Estávamos ambos hesitantes, tentando ficar, pelo menos mais um segundo.
Danke dizia tudo, sem dizer palavras. Seus movimentos tímidos e calculados me diziam tudo que minha mente ansiosa procurava. A resposta ali, em seu rosto moldado pelas madeixas negras. E, em muito, eu comecei a associar seu rosto a resposta.
Em pouco tempo ele me mandou uma mensagem com a localização da Escalpa, com algum comentário sobre o que havia ficado por dizer no osso último tópico de conversa. Meu coração acelerou, ele queria estar comigo e, aceitaria que isso fosse de uma forma pequena como em mensagens. Me senti parte dele, das suas vontades e desejos e pensamentos.
Estava em conflito. Queria que ele saísse da minha mente. Sabia que estar tão dentro de algo que não compreendia direito não era bom. Não queria ouvir a voz no fundo da minha cabeça que me mandava olhar para sua foto mais uma vez, não queria sentir as palpitações, não queria notar a rapidez com que qualquer nova notificação no meu telefone era relacionada a ele, não queria pensar nele da forma em que pensava e, eu com certeza, não queria que o mundo parecesse quente, pequeno e abafado todas as vezes que eu olhava em seus malditos olhos azuis.
Tentei, ainda que de uma forma meio falha e forçada demais enterrar Danke para longe do meu foco. Uma tentativa falha, devo dizer. Mas uma tentativa que me ajudou a sobreviver às aulas e ao caminho de volta para casa.
Na manhã seguinte levantei cedo, pela primeira vez desde que havia entrado na faculdade. Era o primeiro dia em que eu tinha algum lugar para ir e coisas realmente importantes para fazer. Naquele dia eu veria Danke, me inscrevendo para um trabalho em seu local de trabalho, e esforçando para ficar perto de sua aura ciano durante horas por todos os dias úteis a partir daquele momento.
Novamente, não queria pensar na seriedade que aquilo poderia carregar. Mas lutar contra meus ciclos incessantes de pensamentos rápidos demais estava se tornando cansativo e inútil, principalmente quando eles giravam em torno dele.
Tomei um banho quente e rápido, sequei meus longos cabelos, coloquei uma roupa inteiramente preta – como de costume -, mas que ainda fosse confortável. O plano era sair cedo de casa, pegando o ônibus que havia pesquisado na noite anterior, chegando a Escalpa antes das nove da manhã. Porém, todo o meu planejamento cronometrado foi desmantelado com o ping de uma notificação que fez meu telefone vibrar:
“Você quer uma carona?”
Não pensei nos riscos de se entrar no carro de alguém que eu ainda julgava como desconhecido. Tomei a decisão seguindo meu coração desesperado por sua droga amadeirada e caramelizada preferida.
Sabendo do meu pouco tempo a mais, terminei de me arrumar, optei por passar um pouco de maquiagem, abraçar meus gatos e o esperar ao portão.
Em pouco, um carro apontou em minha estreita rua, sem que houvesse a possibilidade de não o reconhecer. Nunca entendi muito de carros, mas reconhecia o modelo quadrado como antigo, da mesma forma que sabia que a falta de teto e carroceria polida não haviam sido baratos.
Seus negros cabelos voavam, mesmo que em pouca velocidade. E, enquanto seu grande, branco e antigo carro subia em minha rua, um calor me subiu a espinha, me arrancando arrepios em todo o corpo. Senti o vento que soprou em meu pescoço e, por alguns segundos, me vi como a brisa que me interpassou e acariciou seu pescoço, sua nuca e seus cabelos.
Um sorriso tomou conta do seu rosto ao me ver, o que fez minhas pernas perderem a força. Ele há havia destruído qualquer que fosse as minhas muralhas levantadas durante anos. Danke retirou o cabelo do rosto com seu dedão e suspirou e eu senti que todo o ar do mundo havia acabado e, mesmo distantes, estávamos lutando pelas duas únicas moléculas de oxigênio – se ele houvesse me pedido, eu o deixaria ganhar.
Saiu do carro e abriu a porta do passageiro para mim, fazendo uma reverencia idiota em brincadeira. Meu corpo amolecido desistiu de tentar manter a compostura. Não sabia quantas vezes ele ainda faria isso, mas sabia que suas características ridicularmente apaixonantes iriam me destruir; e não havia nada no universo que eu gostaria mais do que ser completamente destruída por Danke.
Hoje, me pergunto se eu realmente tomei as decisões, se eu realmente segurava as rédeas da minha vida. Hoje assumo que ali, exatamente ali, no portão da minha antiga casa, antes de entrar no cavalo branco do meu príncipe encantado, eu cedo todo o meu controle e ainda não consigo me culpar por isso.
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