Danke
7 Em casa
Suas mãos tentavam em tocar as minhas, assim como seus sorrisos e leves bochechas coradas me davam a impressão de que, talvez, aquela bagunça incompreendida também se passava na cabeça dele; ainda que esta fosse uma cabeça muito mais velha, muito mais madura, muito mais acertada consigo mesma.
Fui tomada por outro tipo de ansiedade, aquela realmente gostosa, aquela de desejo e ânsia do dia seguinte. E, comecei com a ideia ridícula de que ele era a minha cura, uma que, além de ridícula, era tóxica.
Ficamos algum tempo do lado de fora conversando sobre a origem do mundo e a raiz de todos os problemas da sociedade, como um casal de clichês. Nosso tempo foi tornado curto pela necessidade da minha presença em aula, mas meu coração estava quente, confortável, porque o veria no dia seguinte.
Levantei cedo, pela primeira vez em muito tempo. Tomei um banho e coloquei uma roupa inteiramente preta e confortável. Pensei em comer alguma coisa, mas meu estomago me contava histórias ansiosas e se embrulhava com qualquer que fosse a ideia alimentícia. Questionei-me se deveria me maquiar, se deveria secar meu cabelo, se estava bonita o suficiente e a resposta era sempre uma insatisfatória.
Terminei de me arrumar e repassei o plano na minha cabeça: sair de casa em minutos no horário marcado no relógio, pegar o ônibus que havia pesquisado na noite anterior e chegar na Escalpa antes das nove da manhã. Porém, tudo o que estava descrito em minha mente como uma grande lista que acalmava a minha ansiedade, foi desmantelado com apenas uma notificação que subiu feliz abaixo do relógio do telefone e dizia somente: “você quer uma carona?”.
Havia uma urgência dentro de mim, um chamado que não sabia ou certo se conseguiria ou se gostaria de contrariar, então aceitei sua oferta. Danke me fazia sentir certa em determinadas hesitações, me fazia querer seguir meu tolo coração já perdidamente apaixonado.
Em pouco, um carro apontou em minha estreita rua, sem que houvesse a possibilidade de não o reconhecer. Nunca entendi muito de carros, mas sabia que aquele modelo quadrado significava que era antigo; e sabia que a falta de teto e carroceria branca não haviam sido baratos.
Seus negros cabelos voavam, mesmo que em pouca velocidade. E, enquanto o seu grande e antigo carro caro subia a minha pequena rua, um frio subiu a minha espinha, me arrancando arrepios e imaginações pertinentes. Queria ser aquela brisa que tocava o seu pescoço, sua nuca e seus cabelos.
Um sorriso tomou conta do seu rosto ao me ver, o que fez as minhas pernas cambalearem e a minha guarda baixar. Danke retirou o cabelo que tapava sua visão com seu dedão e suspirou; saiu do carro e abriu a porta do passageiro para mim, fazendo uma reverencia idiota em brincadeira, antes que eu entrasse.
O seu ser brincalhão me acalmou, me trouxe paz, me desarmou. E eu não podia saber a quantidade de vezes que ele ainda faria isso, ainda usaria aquelas características apaixonantes para me destruir.
Danke se sentou no carro e suspirou:
—Está preparada?
—Não me pergunte isso. — Virei-me para ele.
—Porque? — O ronco calmo do motor começou à medida que ele girou a chave da ignição.
—Porque me assustaria quando pode me acalmar?
Seu sorriso dominou o carro, ainda que fosse um ambiente aberto. Então, sua mão direita veio em direção a minha, parada no banco, que decidiu não recuar.
Minha branca palma tocou na feroz aranha da sua. A primeira era quente, nervosa, a segunda era fria, como a monotonia que seguia seu dono. Seus longos e ossudos dedos tocaram os meus em carinho e se entrelaçaram neles. Foi automático e podia se ouvir o clique no ar, o estalar de um interruptor velho e cansado que ficava sempre na mesma posição, eu estava finalmente segura.
Senti como se as minhas mãos houvessem se ligado à uma parte perdida minha no nascimento, a parte que sempre faltou e doeu no meu peito, a parte que permitia que toda a ansiedade aparecesse e florescesse no meu peito. Foi um sentimento próximo, mas mais intensificado do que senti a primeira vez que toquei Savana, sabendo que ela poderia ser minha.
Senti que passaria o resto da minha vida procurando novamente àquela sensação. Aquela pontada de consciência escureceu o lindo momento que eu havia adentrado, tomando meu coração num suspiro de desespero sugestivo que, a partir daquele milissegundo, morou lá. E, hoje, eu queria tanto que tivesse errado.
A viagem da minha casa à Escalpa era curta, rápida, mesmo que naquele horário de pico. E, chegando lá, sabia que havia achado a minha casa.
Era comum que, nem em minha própria casa, eu me sentisse em casa; isso por causa das memórias que me assombravam nos quartos, na cozinha, e, principalmente, das crises de choro ao chão do banheiro. Encontrar um lugar novo, confortável e que me acolhia era uma sensação inusitada e quase inédita.
A Escalpa tinha uma temática vintage regada por aquelas lanchonetes tão conhecidas dos anos 60. Era apenas uma pequena portinha em um grande prédio chamativo em cinza asfalto, iluminado pela gigantesca e reluzente logo circular, que eu já havia visto algumas vezes, caricaturada por um crânio decepado e escalpado, abraço pelos dizeres "Escalpa Tattoo Shop" em uma caligrafia que simulava uma escrita à mão quadrada, espaçada e propositalmente bagunçada, uma que diria que pertencia ao próprio Danke. A pequena porta carregava a logo na parte de cima, repartida por uma madeira horizontal, que se ligava a fechadura. Ao entrar, havia um distinto som de sineta, ainda característico.
O interior era inteiramente trabalhado no contraste de preto, branco, vermelho e luzes neon, o que me remedia ao indie pulsante de White Stripes. Era um local grande, amplo e arejado, mesmo sem nenhuma janela. Ao se entrar, se notava um grande círculo rebaixado bem no centro do prédio, emoldurado por três sofás de couro vermelhos e uma mesa de centro também redonda em vidro. Ainda da porta, se virando para o lado direito havia um enorme balcão branco, com a impressão de meia lua, apresentando uma cadeira alta de escritório no fundo e armários com muitas pastas escorados na parede. Já na esquerda moravam grandes armários de vidro, repletos de itens a venda, como piercings, alargadores, próteses e blusas de banda, a casa das modificações corporais; além de uma saleta meio apertada e profunda, com apenas uma pequena maca e alguns armários altos, uma que eu aprenderia que pertencia a perfurações e manutenções rápidas de piercing. Atrás do rebaixamento haviam três grandes salas, sendo duas de tatuagem e a cozinha com o banheiro dos funcionários.
Danke trabalhava na sala do meio, enquanto seu amigo negro do metrô, Miles, na da extremidade esquerda.
Um pequeno frio correu em minha espinha, uma pequena ponta de ansiedade, um segundo de todas as sensações desesperadoras que eu poderia sentir. Foi aí que ele me parou.
—Eu tenho uma surpresa para você. — Sua mão gelada tocou a minha de novo.
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