Danke

1 Prólogo


Houve um tempo em que não conhecia Danke, um tempo em que eu não estava completamente perdida em seus perigosos, mas apaixonantes, olhos azuis ciano. Neste tempo, morei em um antigo casarão com mais cinco pessoas (minha mãe, minha avó, minha tia, seu marido e meu primo), localizado em uma quieta área da barulhenta capital na qual nasci, cresci e pertenci, mas acabei por abandonar quando ficou impossível recomeçar sabendo que cada esquina guardava uma memória de amor ou uma memória de abuso.

Assim como a maior parte da minha vida antes de Danke, nada foi muito importante ou célebre o suficiente para se agarrar a minha não tão boa memória. Porém, se me concentrar bastante, consigo visualizar minha grande, antiga e confortável cama, as pilastras que percorriam os corredores da casa, os tons entediantes de salmão e azul marinho que a abraçavam por dentro, os cansados olhos cinza esverdeados da minha mãe e o nojento cheiro de urina e velhice que rondavam o quarto da minha avó. Houve, no entanto, algo essencial que perdura até os dias de hoje; este, claro, eram meus animais de estimação.

No total, na casa, haviam nove ou dez, quase todos adotados e de diversas espécies. Embaixo da minha asa, haviam cinco. Dois cães e três gatos. Hoje, me dói assumir que só me restaram dois, ainda que muitos tiveram entrado em minha vida e, em especifico, um me salvado.

O que me importa no momento, para fins lúdicos e poéticos, são apenas dois dos meus gatos, Savana e Garfils.

A primeira, respectivamente, era a mais nova. Sua pelagem negra era sobreposta por duas marcas singulares da cor diretamente oposta, localizadas no pescoço, perto do peito e entre as suas coxas traseiras. Esbanjava olhos tão amarelados quanto os raios do sol e uma energia que buscava acabar com o mesmo, talvez, se permitida, ela conseguiria. Chegou aos meus cuidados com dois dias de vida em um grito de socorro desesperado; foi-me entregue em uma caixa de sapato que fedia a urina ao lado de seu irmão que faleceu na mesma noite. Ao ver uma criatura tão pequena, suja e indefesa meu coração foi aquecido com um fogo que só pode ser classificado como maternal, um que, posteriormente, me tirou da situação em que estava, por sua intensidade quente que dominava meu corpo em uma revolta e coragem inigualáveis. A alimentei durante três meses através de uma mamadeira azul, recheada com uma mistura no mínimo inusitada, com ingredientes estranhos, mas recomendados pela veterinária. Acabou por ficar pequena e com a saúde debilitada, mas era corajosa, intensa, forte e decidida. Seu amor por mim era teimoso, inquieto e em seus termos e condições, mas seu sono só se dava ao meu lado, acariciando meu coro cabeludo.

Rajado em tons alaranjados, Garfils já era um gato senil neste ponto da vida. Tinha cerca de quinze anos e o impacto dos aos o atingiu com muita força, uma que ele não conseguiu combater. O adotei com cerca de seis meses, mas nunca criamos um vínculo, já que as carícias eram proibidas por uma alergia inexplicável que sempre tive do seu pelo. Isso não o impediu de estar do meu lado todas as vezes em que fiquei doente ou perdi alguém, sentado no canto, observando, me deixando saber que havia alguém no mundo que se importava com as minhas lágrimas, ainda que este alguém não pudesse chegar muito perto. A idade o deixou dependente, ele não comia sozinho, não usava a caixinha de areia como devia e esquecia as coisas de forma rápida e abrupta. Ele precisava de companhia e de amor, já que nunca deixou de ser extremamente carinhoso. Seus olhos verde escuros contavam histórias de uma vida inteira, uma vida que além de vivida nas ruas também foi passada ao meu lado e ao lado de muitos outros passantes que confiavam na carinha de bom velhinho que ele insistia em sorrir para todos.

Durante muito tempo, eu me via espelhada em Savana. Não apenas pela proximidade, mas pela luta diária. Ela era uma guerreira, e, como todo soldado, ela precisava de um aconchego noite adentro. Seus olhar bravo e decidido me ajudava a seguir todos os dias, nem que com a armadura que pesava em meus ombros.

Infelizmente, após conhecer o amor da minha vida, descobri que nunca passei do meu gato em sua idade mais avançada. Debilitada e com necessidades especiais. Sozinha. Carente. Infeliz. Cansada.

Não gosto de me assumir uma pessoa dependente, mas sempre fui e soube disso. É uma dessas coisas que a gente enterra no peito, sabe que se mudar, além de demandar um tempo e esforço imensurável, vai acabar perdendo algo de essencial da sua própria identidade. Hoje, vejo que naquela época eu gostava de ser quem era, o ser humano rebelde e esforçadamente distante, fingido que demorei mais de 20 anos para me tornar. Eu era frágil, e isso se tornava cada vez mais difícil de carregar diariamente, e, talvez, ele tenha visto isso. Seus olhos em ciano com certeza notaram que meu mundo inteiro era rotineiro e pacato demais, cheio de ações vazias que já não faziam muito sentido para mim. O azul me mostrou, então, um universo de sensações e significados que só se referiam a ele, minha outra metade, uma que me abriu todas as portas que eu poderia imaginar, mas as fechou em minha face mais de uma vez, se tornando meu maior demônio e pintando, para sempre, meu mundo acinzentado.

Eu sei, na verdade, eu consigo ouvir os dedos impacientes batendo na mesa de leitores saturados com todo esse início que diz muito, mas não revela muita coisa — ou nada que, neste ponto, pode ser compreendido. Recomendaria um cigarro e um pouco de paciência, mas como sei bem que conselhos não foram feitos para serem seguidos, digo que façam como preferir, mas a história de como esbarrei naqueles malditos olhos azuis segue na próxima página.