Julho, o exato meio de julho. O clima era frio, mas já começava a esquentar, era nublado e solitário, mas o mormaço poderia te queimar. Era também o meio exato das minhas férias da faculdade, que também estava encaminhada para seu quarto semestre, a metade dos oito que precisava cursar. Meus dezenove anos já haviam começado há uns dois meses, mas não representavam grandes mudanças na minha vida. Eu estava no meio, mas parada. Sem a menor vontade de seguir em frente ou de olhar pra trás, sentada onde os carros poderiam passar por cima de mim, mas não tão invisível que eles não desviassem.

Era um sábado indiferente. Recheado das suas cinzentas e rotineiras maneiras. Todos pareciam o mesmo, o mesmo parecia todos. Acordar no mesmo horário, ações automáticas pela manhã: limpar a areia dos gatos, lavas as vasilhas, tomar banho e colocar uma roupa, arrumar a minha mochila. Parecia domingo, mas era sábado, eu prometo. A dança sempre me preparava para chegar a casa de outro alguém, andar até a estação de metrô central – que se localizava muito próxima da minha casa -, subir no trem e chegar até o ponto final, lá eu pegaria um ônibus, desceria em uma determinada parada em frente a uma lanchonete com um nome horroroso que gerou cerca de 4 piadas sem graça e, ao descer, seria segurada pelos grossos braços coloridos em tatuagens old school que não me soltariam até o término do final de semana, porém, assim que me soltassem, se fariam de difíceis de alcançar novamente, o que sempre me causava um dor por rejeição indescritível.

Talvez seja por isso que houve um impacto tão estrondoso em cruzar meus pequenos olhos castanhos protegidos por grossas lentes nos proeminentes olhos azuis daquele alto e pálido homem no final da plataforma de metrô. Minhas veias pulsaram ao baque, e eu posso jurar que quem presenciou a cena, sentiu também.

Não sei ao certo quando tudo mudou de rumo. Lembro-me de fechar o grande e vermelho portão automático da minha casa, de usar meu vestido favorito – preto, rodado e com estampa de gatinhos. Ele flutuava em meu corpo a medida que descia as três ruas que me levavam até a escadaria de corrimãos amarelos, passando por um sombrio túnel acinzentado que sempre me causava um frio na espinha. Sei que senti que havia algo de errado ali, senti como uma compressão no peito. A fila para comprar o bilhete fez a minha espiração erradica, e ao mesmo tempo, acelerada; era como se alguém exterior a mim abrisse a minha cabeça, puxasse alguns fios e fizesse com que eu entrasse em curto, apressurando meus batimentos cardíacos, me causando a sensação horrível de que meu peito iria explodir. Era uma crise de ansiedade.

Conhecia muito bem crises de ansiedade e suas mutantes e infelizes formas, principalmente as que a minha tomavam. Elas eram comuns, indo e vindo durante meses e acontecimentos. Nenhuma delas me parecia ter vindo tão de repente, tão sem motivo. Era uma daquelas que me roubava as palavras, fazendo meu corpo inteiro tremer em um calafrio assustador. O mundo inteiro ficava menor. Sentia-me pequena, vulnerável.

Sabia que tinha de me esconder.

Abaixei a minha cabeça e passei pelas roletas em uma tentativa falha de não chamar atenção, mas podia sentir todos os olhos pairando sobre meu corpo, fechando ainda mais o meu mundo, me fazendo ainda mais sem ar. Subi os degraus que davam para a plataforma, preparada e armada para desmoronar. Visualizei uma pilastra, qualquer pilastra, uma segura e estável, que conseguia segurar em si uma estrutura inteira. Sentei-me ao seu lado em um dos bancos negros e de metal. Abracei minha mochila, escondi meu rosto. Cedo aos soluços e lágrimas, sem me importar com meu entorno.

Já conhecia o meu redor, fechei no ponto em que estava sentada. Olhei para o chão cinza. Suspirei.

Peguei o telefone e avise meu encontro da minha situação atual: Devo demorar, estou tentando me reconstruir. Ele me acalmava, sabia o que tinha de fazer. Suas palavras me ninaram e meu coração batia mais lentamente a cada pulsar sanguíneo, conseguia segurar o ar, contar até três e o soltar. Poderiam ter se passado horas e eu não saberia.

Respirei fundo. Talvez eu conseguiria entrar no metrô. Você pode me pagar um Uber, certo? Então eu vou, pego o próximo trem que passar. Enviar.

E, assim, tão de repente quanto o início da minha crise de ansiedade, houve uma alta risada que se originou na pequena escada que dava para a plataforma. Naquele instante, meu choro cessou, minha tremedeira cessou, o mundo inteiro cessou. Em uma daquelas engolidas secas todas as minhas atenções se voltaram para o acesso a plataforma. Fui consumida por uma calmaria, uma curiosidade felina, era uma conversa alheia, um cheiro novo, uma cor que nunca havia ouvido falar antes.

Eu sabia, bem lá no fundo da alma, que algo mágico ia acontecer.

Uma cabeça apontou na escada, seguida dos grandes braços malhados de um homem alto que falava alguma besteira para quem vinha atrás dele. Miles era atraente, extremamente bonito, andava sempre com a barba bem aparada e o cabelo crespo cortado. Seu sorriso branco reluzia em sua pele escura. Ele era encantador, no jeito mais bobão e desastrado que conheci. Aprendi em pouquíssimo tempo a amá-lo como um irmão. Ele nunca me deixou muito satisfeita, sua energia vibrante era demais para os meus gostos pacatos e entediantes. O meu encanto estava por subir as escadas, seguindo seu colega de trabalho, rindo da piada insuportavelmente banal de minutos atrás.

Em primeiro instante, me perdi em seu cabelo. Era ainda mais negro que a noite ou a pelugem da minha querida gata, cada fio iluminava tudo em uma intensidade apavoradora. Seus cachos eram mal arrumados, sem forma, misturados em madeixas inteiramente lisas e muito volume, ele não sabia lidar com o cabelo que tinha, mas seu péssimo trabalho era um traço da sua personalidade mal-acabada e quebrada. O corte era inteiriço, caindo sobre os ombros, pelo menos enquanto abaixava a cabeça e olhava para os degraus em que subia. Ele já possuía uma história, uma personalidade, uma alma, um poema inteiro naquele traço tão comum.

Meus olhos caíram sobre seus ombros, largos e de ossos aparentes. Sua clavícula infeliz era abraçada por um desenho preto cheio de palavras inúteis. Tudo meio ressaltado por uma regata que com certeza não havia nascido naquela forma ou para aquele propósito. Quantos mistérios a minha lista já tinha?

Seus braços estavam inteiros a mostra. Eram definidos, mas magros, cobertos por mais daquelas tatuagens abstratas, negras e vermelhas em escalas gigantescas, não permitiam a visão de nenhuma parte da sua pálida e mórbida pele.

Em uma das mãos carregava uma caneca verde fluorescente de algum evento, a segurança solta entre os dedos ossudos e estampados, muito bem cuidados, mas marcados por cortes e hematomas de uma briga extremamente recente, talvez, deste mesmo dia. Já a outra, grande, subiu, assim como a sua cabeça ao tocar o topo da escada; em um gesto natural, ele usou o dedão um pouco flexionado para retirar grande parte do cabelo mal repartido do rosto, revelando lesões arroxeadas e aqueles amaldiçoados olhos azuis.

Deitados em um rosto alongado, que terminava em um fino pescoço tatuado. Marcado proeminentemente pelas grandes piscinas enfeitadas com grossos cílios alongados e demarcados por sobrancelhas grossas, negras e chamativas. Seu nariz não era dos mais bonitos, mas ele insistiu em penetrar três brincos ali. E, para finalizar com um toque especial, que poderia ter feito especialmente e a mão para meus delírios mais carnais, ele me prendeu em um sorriso com uma grande boca delineada cheia em uma carne vivida, num tom rosa arroxeado fechando a paleta triste e sem vida das monótonas cores de Danke.

Ele pertencia aos meus sonhos, principalmente os eróticos.

Ele era tudo.

Perdi meu ar em um sopro profundo que me doeu como um soco, me fazendo soltar um gemido baixo e oco, tapando a minha boca aberta em eterna admiração.

O recinto que estava quieto e impaciente foi direcionado a mim por aquele pequeno barulho que pareceu um estrondo, mais um dos meus pequenos erros. Foi o suficiente para que aqueles olhos azuis desgrudassem do seu amigo e pousassem em mim, aterrizando de forma desgovernada e que, em pouco, colidiram comigo.

E não posso dizer o que ele viu, mas, com certeza, algo o fez parar. Digo isso de forma literal. Ele parou, faltando um ou dois degraus para que a escada terminasse, respirou fundo e corou, diminuindo seu sorriso-risada a um flerte malicioso de canto de boca. Ele havia me escolhido, ali mesmo. E saber disso me tirou dos eixos, me causando um calor que emanava em minhas ardentes bochechas em pura exaltação.

Achei que estava olhando por tempo demais. Virei o rosto de forma abrupta, olhando para cima. O céu estava azul, não nublado como eu havia imaginado. Haviam algumas nuvens, mas nenhuma escura. Estava claro. Eu passei o dia inteiro sem reparar que o céu estava aberto, estava azul? Eu andava todos os dias com a cabeça baixa mesmo que estivesse feliz?

Um trem passou e parou, pegando novos passageiros. Me preparei para levantar, mas vi a cabeça de seu amigo, com o corte bem feito e a barba quadrada entrando no vagão a minha frente. Onde estava o homem que havia feito meu mundo parar? Entrei em pane. Havia uma força sobrenatural com o dedo em minha testa me impedindo de sair daquele banco. Não protestei.

As portas se fecharam e a plataforma vazia se acalmou. Passos pesados marcaram o chão. Um perfume intenso amadeirado e caramelizado perambulou a minha volta. Vaguei meus olhos pela plataforma, procurando a miragem. Ouvi um copo de plástico atingir o chão na direção oposta a minha visão parada na entrada.

Sabia o que estava acontecendo. Apenas enchi o meu pulmão com todo o ar que precisava. Talvez assim eu daria conta da situação, talvez assim meus olhos inchados pelo choro anterior não derramassem mais nenhuma lágrima.

Senti seu corpo se sentar de forma desajeitada na cadeira ao meu lado direito. Ele respirou fundo, como eu, e esbarrou parte da sua canela em meu joelho de propósito, então, sem olhar para os meus olhos me perguntou em um baixo tom com sua voz grossa:

—Tinha algum problema com aquele metrô?