Danke
3 Primeira Interação
Danke, com sua intensa voz grossa e olhar distante, conseguiu me desconcertar por inteiro com aquela primeira e pequena frase sarcástica. A plataforma de metrô continuava cinzenta, continuava quieta. Agora, erámos apenas nós dois, sem a necessidade para muros e inseguranças alheios.
E, talvez, por essa falsa intimidade ou segurança, eu, que costumava me ver presa em uma timidez que me impedia de sair do local, fui tomada por um conforto que me fez seguir com a conversa de uma maneira estranhamente natural. Talvez, aquela fora a primeira vez que ele havia entrado por debaixo da minha pele, despertando algo adormecido e desconhecido em mim.
—Acho que tem mais a ver com qual é o meu problema. E, no momento, esse problema é você. – Olhei para frente, da mesma forma que ele fazia.
Seu rosto se virou em minha direção, me olhando de lado em silencio por um curto período de tempo. Poderia ter sido um pequeno choque pela minha resposta ríspida, mas nada que realmente tiraria seu foco ou me faria não ser mais seu objetivo. Sorri, em brincadeira. Ele soltou uma oca risada curta e bufada.
—Afiada.
—Você também não entrou naquele trem. – Virei-me para observá-lo.
Nosso primeiro encontro proposital de olhares, subestimado, devo dizer. Fora um novo impacto, um abalo que fez o mundo, o nosso mundo, parar novamente. Danke pausou, meio boquiaberto, como se perdido no movimento que a minha boca fazia ao pronunciar as palavras.
Podia jurar que ele tinha algo com a minha boca, naquele momento mesmo. Seus olhos pareciam fixados nela. Provavelmente a mesma fixação que eu tinha com seus olhos azuis, que me contava histórias de sua vida, histórias rimadas.
—Eu confio em você. – Uma de suas sobrancelhas se ergueu.
—Você não me conhece. – Fiz que não com a cabeça.
—Danke. – Ele estendeu sua mão esquerda.
Em sua palma havia uma tatuagem hiper-realista de uma aranha, apenas parada ali, te observando com sua infinidade de olhos vermelhos, e te julgando com suas esguias pernas pretas. Eu amava aquela tatuagem, vê-la passou a significar paz. Quando fechado seus dedos liam-se “hate” (ódio), e acho que significavam isso também.
—Você se chama “obrigado”?
—E você entende alemão. É Daniel.
—Entendo pouco, alguma coisa que restou da minha obsessão com uma certa banda alemã. Eu sou a Coala, mas meu nome de batismo é Camila.
—Porquê Coala?
—Porquê Danke?
—Você é sempre tão difícil assim? – Sua boca se estendeu em um sorriso tímido, ele revirou os olhos, em brincadeira.
—Você faz ser bem fácil. — Sorri e coloquei minhas madeixas castanhas para trás da orelha.
Não, Danke, eu não sou sempre tão difícil assim. Muito pelo contrário. Gosto de carregar as conversas nas minhas costas com um milhão de perguntas insuportáveis, porque isso me coloca atrás de um muro. Se você está falando de você, nunca vai me perguntar sobre mim. Esse estado, as farpas trocadas e os olhares intensos são um segredo meu, são o que você encontra quando derruba uma das paredes. Sou eu arisca, eu com um pouco de medo, mas imensamente curiosa.
Não posso te deixar entrar tão fácil assim, principalmente pela sensação que você me causa, e me causava muito mais no momento em que te conheci. Você me faz sentir segura e confortável demais, você tem cheiro, som e visão de casa, uma casa que nunca tive antes de te conhecer, antes de cruzar meus olhos com os seus, uma que talvez tenha de procurar para sempre. Você quer que eu abaixe a minha guarda e eu me recuso. Muito, porque ao me recusar, torno isso muito mais interessante para nós dois. Sei, pois leio em seus olhos e noto na mordiscada que você deu em seu lábio inferior, me recusar chegou a ser sensual.
E eu não sei ao certo como naquele momento soube exatamente o que fazer, exatamente como agir para te deixar ainda mais interessado, ainda mais obstinado.
Mas soube.
E fiz.
Talvez eu nunca deveria ter o feito.
—Terei de aprender a não cometer esse erro novamente.
—Você me pareceu seguro demais neste “novamente”, Daniel.
—Eu poderia?
—Você poderia me convencer.
—Eu sou legal.
—Você não me parece muito legal. Na verdade, parece que você apanhou.
—Eu apanhei, de um cara muito maior do que eu.
—Você tem um olho roxo, deveria colocar logo um gelo aí, para não estragar... – Me cortei.
—O que?
—Seus olhos.
—Sabia que você não era tão difícil assim.
Danke riu. Ainda inquieto, tentou recostar no encosto do banco, porém, o mesmo é absurdamente inclinado para trás, coisa que ele não conseguiu calcular, assim como não conseguiu fingir muito bem que sabia daquela configuração.
O seu pequeno baque, o susto que o fez arregalar os olhos, me arrancou uma risada sincera, meio alta e extremamente feia. Por conseguinte, ele riu, tapando a boca com as costas da mão esquerda, sua mão dominante, a mão da aranha.
Houve então, um alto estrondo, um alto barulho e todos nós sabíamos que um novo metrô iria chegar.
Fui consumida por um grande sentimento de decepção. Não queria me levantar, não queria entrar naquele trem. Queria estar ali, sentada, trocando provocações e conversas com ele ou qualquer coisa que se assemelhasse a isso, a aquela pequena interação. Porém, ao mesmo tempo, havia algo dentro de mim que sabia que aquele era o momento certo de ir, talvez, essa fosse a voz que eu deveria ter ouvido durante todo este tempo.
Relutante, segurei a minha bolsa e procurei por alguma reação nos olhos azuis de Danke, mas, ainda que meio caídos, eles não me impediram. Com o passar do tempo, acabaria por descobrir que aquilo era seu feitio, ele nunca me impediria de nada, ainda que, ou, principalmente, o assunto fosse tentar fugir dele, tentar ir embora e deixá-lo para trás.
Todavia, ele queria a mim, ele queria algo a mais e ainda não estava pronto para desistir, muito menos aceitar que a nossa história estaria resumida a aquela falha e ácida interação. Então, assim que me levantei, ele suspirou dizendo, ainda que em tom de pedido:
—Como vai reencontrar um Coala especial em meio a esta imensidão de pessoas?
Foi uma boa jogada, tinha de admitir. Mas, novamente, aquele era um outro movimento comum a ele, esse tipo de gesto, de demonstração do quanto ele presta atenção nas suas palavras e converte aquilo em qualquer ação especial de volta para você; essa foi só a primeira vez que experienciei isso, ainda que, rapidamente, saberia que eu tinha um local de apresso em seus pensamentos automáticos.
—SobPoesia. – Respondi, já caminhando em direção ao trem que não esperaria por mim; então aumentei o volume da minha voz, virei-me para ele e continuei: –Com um b mudo. SobPoesia, sbps.
—SobPoesia, sbps. – Ele repetiu com a sua grossa voz, ainda sentado e apoiando em seus joelhos, mas com a cabeça erguida, com o olhar vidrado no meu caminhar já um pouco distante.
Subi no trem. Havia um lugar vazio, em uma das cadeiras azuis que dão de cara para a violenta porta automática que eu havia acabado de atravessar, o que não era muito comum para um sábado. Assim que me sentei, as portas bateram com força e o metrô começou a andar e observei os olhos azuis irem embora, pela primeira vez.
Abaixei a minha cabeça e rezei para que nenhuma grávida, idoso ou pessoa com deficiência entrasse naquele vagão, o que eu julgaria ser um pensamento horrível, senão fosse pela minha exaustão emocional.
Recostei a minha cabeça na janela atrás de mim. Revisei a minha bolsa, achando meu fone e meu telefone, no qual havia uma mensagem da minha realidade me perguntando onde eu estava, e, ao saber do meu ataque de ansiedade, me doou uma corrida gratuita de Uber da estação final até o meu destino. Deixei de fora os olhos azuis e as monocromáticas tatuagens, por casos passados que sempre me causavam dores de cabeça desnecessárias.
Coloquei os fones, os pluguei no celular, dedilhei a minha lista de música. Eu não estava triste, não estava feliz, eu só... Não era a mesma, nunca mais fui a mesma.
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