Daniel
9 9. Mentiras e Charme
Notas iniciais
Livrei-me da camisola rosa de bolhinhas pretas que eu havia ganhado no meu aniversário de 16 anos de Carla, agora estava desbotada e velha, porém era indiscutivelmente a peça mais confortável que havia na minha cômoda. Peguei a primeira regata e o primeiro short que encontrei e desci apressada a escadaria da casa em direção a cozinha.
Christina e Jorge estavam sentados na mesa em uma conversa distraída quando eu entrei, pegando-os de surpresa. Os olhos de minha tia soltaram nas orbitas em desaprovação a minha desobediência as ordens de ficar no quarto em repouso.
- Emily, eu já levaria a sua janta em cinco minutos. Não devia ter descido.
- Chris – disse Jorge. Ele segurou a mão dela pedindo calma — tenho certeza que Emily tem uma justificativa ótima para ter descido, além disso, seu problema é no pescoço, não nas pernas – ele sorria, mostrando indiferença a mulher. Fiquei feliz por ele não ter me reprimido também.
- Ela tem de melhorar antes de sair andando por ai – Christina o olhava raivosa.
- Tia – sua expressão não mudara — só vim lhe pedir para não levar comida pra mim hoje. Eu realmente não estou com fome.
- Não – agora ela tornara-se anormalmente calma – Emily deve se alimentar bem, para melhorar rápido.
- Claro querida – Jorge a interrompera – Tenho certeza de Emily comerá um pacote de biscoitos antes de dormir, não é mesmo, Emy?
- Ah... É claro – respondi sem pestanejar – Comerei os biscoitos sim.
- O pacote todo, por favor querida – Christina assumira uma voz doce e Jorge ainda segurava sua mão – Estão dentro do armário da direita.
- Vou pegar um pacote, não se preocupem comigo. Boa Noite.
- Boa Noite, querida – responderam-me ao mesmo tempo.
Apressei-me em pegar o pacote de biscoitos de chocolate e subi em direção ao corredor esquerdo, ao qual eu pouco conhecia. Resgatei de minha memória tudo que eu sabia sobre a porta que me levaria até Daniel e fui pega surpresa ao descobrir que não sabia realmente qual era.
- Daniel – sussurrei sem pensar no meio do corredor.
- O que faz aqui, Emily?
Virei-me alarmada na direção da voz. Ele estava parado em frente à porta mais próxima a biblioteca.
- Desculpe-me, a assustei – ele me encarava, o olhar entristecido.
Balancei a cabeça e levei à mão direita a boca sem realmente acreditar em como ele escutara.
- Como você... Você me escutou?
- Disse a você, que se necessitasse de algo, falasse o meu nome.
- Eu sussurrei o seu nome, Daniel.
- A minha audição é muito boa.
- Precisamos... – me perdi sem querer em seu olhar – Precisamos conversar. Pode ser no seu quarto?
- Não sei se é uma boa idéia.
- Você passou a manhã no meu. Por que eu não posso passar uns minutos com você no seu?
- Por que Arthur estava comigo.
- Está com medo de mim? – soltei uma risada baixa de deboche.
- Prometa-me que será breve, por favor – sua expressão séria me fez reprimir o riso.
- Prometo – respondi lembrando como ele me evitara esse tempo todo. É claro que ele não gosta de estar perto de mim, pensei sentindo raiva.
O quarto de Daniel Grigori não passava de uma salinha. Nem de longe lembrava o meu. Era basicamente uma cama de solteiro, uma cômoda, um criado-mudo e uma janela aberta, o vento batia, fazendo a cortina ao lado tremeluzir. Reparei em uma porta a esquerda da cama, provavelmente o banheiro.
- Você queria conversar sobre o quê? – Ele me olhou atento da porta. Sentei-me em sua cama pensando por onde começar.
- Por que não fecha a porta primeiro? – Disse ainda pensando. Ele olhou-me e sorriu.
- Seus tios não gostariam de te ver trancada aqui comigo.
- Tenho certeza que o problema não vai diminuir se a porta estiver aberta.
- Ok Emily Kalizia – ele disse, seu sorriso se tornara mais sincero. Ele fechou a porta e encaminhou-se para a janela aberta, me virei para vê-lo, o vento agora batia em seu cabelo movendo-o delicadamente enquanto ele fingia observar a lua lá fora.
- Liguei pra Silvana ainda a pouco...
- E ela lhe disse algo totalmente diferente ao que você sabe. Você concordou? – ele agora me encarava enigmático enquanto eu balançava a cabeça em um claro “sim” – Confusão mental, Emily. Foi um grande choque pra ela.
- Confusão mental? – perguntei atônita – Ela então inventou tudo que disse, é isso?
- Sim – ele balançou a cabeça, agora desviando o olhar novamente para fora do quarto – As pessoas são capazes de inventar lugares e acontecimentos diferentes aos que realmente viveram. Coisas bem menos difíceis de serem digeridas. – Sua voz pesou na ultima frase e eu não consegui entender por quê.
- Silvana não é tão criativa assim... – falei baixinho comigo mesma, esperando realmente que ele não estivesse prestando atenção.
- Ano passado ela escreveu a melhor crônica da sala – ele sorriu baixinho.
- Escrever a melhor crônica não significa nada. Silvana é forte, Daniel. Mais forte do que eu. Não acredito que possa ter simplesmente esquecido...
- Não vai se convencer, não é? – Ele balançou a cabeça negativamente e olhou-me em sinal de desaprovação.
- O que disse? – respondi, esperando que ele explicasse o que quis dizer.
- Disse que está ficando tarde e você deveria ir.
- Ok – respondi levantando da cama raivosa com seu descaso, o pacote de biscoitos nas mãos. Segui até a porta e parei virando-me para prestar atenção aos detalhes que eu ainda não havia notado. Em cima do criado-mudo, uma caixinha de madeira envernizada reinava suprema e na superfície da cômoda havia uma escova, um pote de creme, um caderno pequeno de capa dura preta e uma caneta. Olhei então na direção do garoto que supus ser o mais misterioso do mundo, ao qual eu só sabia realmente o primeiro e o ultimo nome, ele ainda estava parado olhando a noite – Boa noite, Daniel Grigori – disse e em seguida fechei a porta sem esperar pela resposta.
Acordei na manhã seguinte sem dores no pescoço. Minha mão seguiu direto para o despertador e eu peguei um susto ao perceber que já eram nove horas da manhã. Endireitei-me raivosa na cama e me perguntei que havia desligado o meu despertador. Olhei pelo quarto e percebi que Christina já havia estado lá, pois uma bandeja de café da manhã estava posicionada junto a papeis da escola em minha escrivaninha.
Pulei da cama e segui para o banheiro a fim de olhar se as marcas rochas ainda eram visíveis. Não só eram visíveis, como ainda doíam ao serem tocadas e eu me entristeci com a idéia de ainda demorarem um bom tempo para sumir.
Quando desci as escadas da casa, Jorge já não estava sentado no sofá e provavelmente já havia ido para o escritório e Christina, pela calmaria da casa, também não estava.
Na verdade, eu não sabia nada da rotina dos dois. Jorge era advogado e Christina... Christina ainda era uma incógnita. Todos os dias, exceto sábados e domingos, eu passava a manhã fora e a tarde depois do almoço, antes de Drácula, dormia um pouco, lia uns livros em inglês baixados da internet e estudava, já à noite, assistia novelas brasileiras ou filmes na recente TV do meu quarto.
Após deixar a bandeja na cozinha, segui para a sala e parei instantaneamente na porta pensando no que faria o resto do dia. Sem mais opções, sentei no sofá no lugar em que Jorge sempre estava, e liguei a TV. Foi chato escolher entre todas as emissoras o programa que eu menos detestei, pois todos naquele momento não me chamavam a atenção. Por fim, acabei optando pelo canal de desenhos animados.
Meia hora ali e eu não agüentava mais. Decidi e então subir para o meu quarto e reler os capítulos mal entendidos de Drácula. Li-o até onze e meia, quando o silêncio do meu quarto foi interrompido pelo estampido baixo de leves batidas na porta.
- Pode entrar – respondi esperando ver Christina e sua bandeja. Porém, foi outra pessoa que me levou o almoço aquela manhã.
Daniel adentrou meu quarto com toda elegância de um gentleman. Seu humor havia, percebi pelo sorriso reluzente que me mandara, mudado drasticamente de ontem para hoje.
- Feijão, arroz, farofa, carne cozida de panela e um pedaço generoso de goiabada especialmente para a senhorita Emily Kalizia – Daniel riu mostrando os brilhantes dentes brancos, divertindo-se com a minha expressão de espanto.
- Por que você...? – não consegui completar a frase, pois acabei por sentir o seu gostoso perfume quando ele se aproximara para deixar a bandeja em meu colo.
- Christina pediu para que eu trouxesse – seus olhos me fitavam curiosos e eu corei.
- Te deixo sem graça? – Daniel perguntou de costas em quanto andava em direção a minha janela aberta.
- Você me deixa surpresa – respondi brava comigo mesma por ter corado.
- Surpresa? – Ele ainda olhava para fora.
- Você é estranho, Daniel – respondi depois da primeira garfada. Ele agora me olhava, esperando que eu prosseguisse – Me ignora desde que eu cheguei nessa cidade e derrepente entra no meu quarto trazendo o meu almoço.
- Você sofreu uma tentativa de assassinato – ele falou incrédulo, sua voz era um tanto sofrida.
- Porque me mantinha longe de você? Não gosta de mim, e está fazendo isso por pena?
Ele se movera rápido demais até a minha cama. Sentou-se na ponta um tanto distante de mim. A alegria que ele trouxera em seus olhos se dissolvera e eu me perguntei se havia agido certo o questionando daquela forma.
- Você me trouxe lembranças, Emily. Eu poderia tentar explicar a você, mais não devo.
- Você fala como se fosse velho. Como se já tivesse vivido muito. Tem mesmo 17 anos ou finge que tem? – eu o encarei e ele tornara-se a estátua dura e fria de querubim que eu já conhecia. – Eu só preciso saber se você vai voltar a fingir que eu não existo quando essas manchas rochas saírem do meu pescoço.
- Seria o certo a fazer, Emily. Mais eu não sei se terei forças para isso – disse e desapareceu tão rápido pela porta como chegou a minha cama anteriormente.
Passei o resto da tarde trancada em meu quarto. A dor no rosto perfeito daquele anjo não me saia da cabeça, e todas as vezes que eu tentava me distrair o seu olhar amargurado me fazia ter a sensação de ser a pior pessoa do mundo, a final de contas, Daniel havia me levado cordialmente uma bandeja de café da manhã com um enorme sorriso no rosto, um sorriso que ele nunca havia me mostrado e eu, grossa e rudemente havia questionado sua boa intenção. Porém, eu sabia que nada do que havia dito devesse transformá-lo daquele jeito, de um homem feliz a um perdedor.
Mais tudo em Daniel era uma incógnita. Quem era sua família? O que estaria fazendo morando sozinho em um quarto alugado? Daniel era tão misterioso e intrigante e eu sabia que podia, se quisesse, me tornar uma perfeita espiã. A final de contas, eu era Emily Meyer e todos se rendiam a mim mais cedo ou mais tarde, era o Jacob dizia.
Jacob. Se ele estivesse aqui... Se ele estivesse aqui, meus pais também estariam e eu não passaria por isso. Eu não conheceria Daniel e provavelmente, minha cabeça estaria presa no baile de outono do colégio. Mais era ali que eu estava, no meu novo quarto, na minha nova casa, na minha nova cidade, encarando a minha nova escola e os meus novos amigos.
Não, eu não quero mergulhar no mundo oculto daquele maldito garoto misterioso que eu não consigo tirar da cabeça, pensei. Naquele momento eu sentia raiva de mim, raiva da grande parte do meu corpo que implorava por mais um segundo daquele sorriso perfeito e dos olhos cor de esmeralda em mim.
Sem pensar, arremessei meu celular bem no meio de um quadro pendurado em minha parede, onde belas rosas vermelhas eram retratadas. Levantei-me alarmada da cama com medo de que pudesse ter furado a tela do quadro e para minha surpresa, ao lado do quadro intacto, havia um pequeno caderno de veludo vinho.
Recolhi o caderno do chão e o coloquei na escrivaninha. Logo depois, juntei o quadro o devolvi ao seu lugar e procurei as partes do meu celular pelo chão. Joguei-o em cima da cama e corri a escrivaninha a fim de pegar novamente o caderninho.
Na primeira página em uma letra caprichada, estava escrito Pertence à Karina Ramos de Oliveira. Virei à página ainda com receio de poder estar lendo um diário, que para toda garota, é algo muito pessoal e importante. Seguia-se em letra cursiva:
6 de agosto de 1986 Quarta-Feira
Querido Diário,
As circunstâncias atuais me levaram a comprar um novo diário 8 anos depois de ter escrito o primeiro. Me chamo Karina, tenho 16 anos e atualmente, moro na casa da minha família, com meu pai, meus tios e minha prima.
Minha mãe morreu quando eu tinha 2 anos de idade e meu pai pouco fala dela. Minha prima Márcia faz o papel de minha irmã, temos a mesma idade, estudamos na mesma escola amarela e fazemos tudo juntas. Márcia sempre diz que, quando tivermos filhas (ela já escolheu e quer ter uma filha!) vão ser criadas juntas, como irmãs.
As circunstâncias atuais que me levaram a comprar um novo caderno de segredos, como os pais de Márcia chamam, foi na verdade, a vontade de relembrar daqui a uns dez anos, tudo que eu vivo nesse ultimo ano de escola. Além disso, às vezes eu preciso contar para alguém coisas constrangedoras demais para serem ditas a prima, além disso, às vezes sinto vontade de falar mal das irritantes amigas dela.
E para inaugurar você diário, o primeiro segredo é que eu estou namorando desde o inicio do ano um garoto novo na escola e na cidade, chamado Richard. O meu Richard é americano e lindo, Márcia ainda não conhece mais eu prometi finalmente apresentá-lo a ela amanhã.
Karina parara de escrever sobre aquele dia ali. O caderninho que eu encontrara era o diário da prima da minha mãe e o pior, a prima da minha mãe era ex-namorada do meu pai. Em uma só folha de caderno, eu havia descoberto o que poderia ser a história de um triangulo amoroso que envolveu os meus pais. Deus queira que eu esteja errada e que a minha mãe e a prima dela não tenham se declarado inimigas, pensei. Meio com receio de continuar lendo, virei à página.
8 de agosto de 1986 Sexta-Feira
Querido Diário,
Márcia e Richard se deram muito bem. Fico feliz por minha prima aprovar o meu namoro, já que o resto da família não aprovaria. Márcia disse que eu tive muita sorte em ter conquistado um garoto tão atencioso e me agradeceu, pois Richard aceitou ser seu professor de inglês. Achei essa história de aulas particulares de inglês muito útil. Como o professor vai freqüentar a nossa casa, meu pai vai conviver com ele e concerteza vai achar ele, um rapaz muito bom. Vai ser mais fácil o apresentá-lo como meu namorado daqui com um tempo, pois não suporto fazer as coisas escondida. Tenho contar outra coisa a você, Diário: não costumo escrever todos os dias. Às vezes sinto preguiça mesmo e às vezes, perco o horário conversando com Márcia no quarto dela.
Ontem meu pai quase descobriu você. O que seria um desastre, mesmo você tendo apenas uma folha. Sabemos que nessa folha a coisas que não devem ser reveladas tão cedo!
Folheei o caderno até o terceiro mês seguinte, quando encontrei o primeiro sinal de ciúmes por parte de Karina.
04 de Novembro de 1986 terça-feira
Querido Diário,
Ontem, quando estava saindo da escola, olhei sem querer pelo vidro da sala da supervisora e vi Richard e Márcia levando uma bronca. Não me deixaram ficar ali esperando eles saírem, então achei melhor ir para casa.
Quando Márcia chegou com os pais, ainda estava levando bronca. Deixei a tarde passar e a noite, quando todos já estavam deitados, fui para o corredor esquerdo, para o quarto da minha prima.
Márcia simplesmente disse que eles correram pelo corredor, apostando corrida, e a chata da supervisora achou isso um tremendo insulto e os colocou de castigo.
Pena que eu conheço a minha prima desde que eu nasci e sei perfeitamente quando ela está mentindo, e toda a vez que ela mente, ela segura no que tiver mais perto dela com toda a força que pode como ela fez ontem, segurando (ou melhor, apertando) a beirada da cama.
Eu resolvi não questioná-la e perguntei hoje de manhã a Richard. Ele confirmou a versão de Márcia mais estava estranho demais comigo, jogando charme pra me convencer, mais eu não acreditei.
Juro que vou descobrir o que está por traz dessas mentiras e desse charme, ou não me chamo Karina.
A duvida pairava sobre minha cabeça. Será que a minha mãe seria capaz de enganar a prima dessa forma?
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