Daniel

10 10. O Daniel e o Arthur de Karina


Notas iniciais
Demorei muito mais do que o planejado e não sei se ainda tenho leitoras. Mais este capítulo está realmente bom na minha opinião, adorei escreve-lo. Boa Leitura!

Fui mais forte do que a curiosidade, mais não consegui guardar tudo o que havia lido para mim, e no dia seguinte, antes de me vestir para o colégio, liguei para Leonardo.

– Pensei que não gostasse mais de mim, morena – Léo tinha uma excitação na voz, percebi que ele também queria contar algo a mim – Pensei que tivesse encontrado um primo novo para ser seu novo melhor amigo.

– Deixa de besteira, Léo! – me animei com a sua felicidade – Mais vai, fala o que ta te deixando tão animado assim, conheço muito bem essa sua voz.

– Acho que você me conhece mais do que a minha própria mãe, Emy. Fui eleito parcialmente o melhor jogador de futebol do colégio. O treinador disse que se eu continuar desse jeito, vão chover bolsas pra mim nas melhores universidades da Virgínia.

– Nossa – a felicidade de Leonardo me fizera esquecer por alguns instantes o que realmente me fizera ligar – Meus parabéns, primo. E meus tios, o que disseram?

– Você sabe como a mamãe é... Morena, você acredita que ela pendurou um cartaz escrito “Meu filho é o melhor” aqui no jardim de casa?

– Jake passaria o mês inteiro falando isso pra você – era impossível não lembrar dele.

– Jacob passaria o resto do ano falando isso pra mim – a voz excitada que eu escutara a pouco agora era pesarosa – Aliás... Seria bem duro para o técnico decidir quem era o melhor...

– Os dois eram os melhores, Leonardo. E sabe o que eu queria agora?

– O que, Emy?

– Seu abraço, primo. Tenho que te contar uma coisa e pedir um conselho.

– O que houve? Algum idiota fez alguma coisa? Sua tia ta te tratando mal? – seu tom era verdadeiramente preocupado.

– Não. Ontem eu descobri um diário escondido no meu quarto, de 1986.

– E o que tem de errado nisso? Leia! – sua voz era debochada, porém, a minha continuou séria.

– Eu li. Era da prima da minha mãe, Karina, da época em que elas estudaram no mesmo colégio – parei, perguntando-me se fazia mesmo sentido contar para Leonardo sobre isso.

– Continue Emily... Ainda não vi o problema da história.

– O problema é quem era o namorado da Karina, Léo...

– E quem era esse fulano?

– Seu Tio Richard.

– O teu pai era namorado da prima da sua mãe? – ele riu da situação, que naquele momento parecia engraçada – Tia Márcia roubou o namorado da prima, foi isso?

– Não sei, e para de rir Leonardo!

– Desculpe morena, mais a tia Márcia roubando o namorado de quem seja... É uma piada... Você já chegou na parte em que isso acontece?

– Não... Eu li até a parte em que a Karina descobre que os dois estavam na supervisão e vai tirar a limpo essa história com a minha mãe. Mais a minha mãe mente pra ela e o meu pai também, ai ela jura que vai descobrir tudo ou não se chama Karina.

– Parece que você ta me dando o resumo do capítulo de um livro, Emy – a voz dele agora estava calma – Você está com medo de descobrir o porquê da sua mãe ter mentido para a prima dela? É isso?

– Estou com medo de a minha mãe ter errado com a prima. Karina a descreve no diário como uma irmã. Léo, você acha que eu deveria continuar a ler?

– Eu leria Emily e acho que você deveria ler também. O pior cego...

– É aquele que não quer ver – completei a frase no lugar dele. Meu primo tinha razão – Se eu comecei, é melhor terminar.

– Isso ai – ele concordou – Mais algum problema pro cara aqui resolver?

– Problema não, mais tenho outra coisa para contar, mais tem que prometer que não vai falar para os seu pais!

– E eu lá conto alguma coisa que conversamos para os meus pais? – ele perguntou, fingindo indignação.

– Sábado eu bati o pescoço.

– Como assim bateu?

– É melhor você só saber dessa parte, por enquanto – era melhor mesmo. Leonardo se desesperaria e contaria para os pais – Prometo que conto o resto depois. Tenho que desligar.

– Por que não posso saber?

– Não adiantaria nada. Eu te amo.

– Eu te amo morena.


Quando desci as escadas, Christina e Jorge estavam sentados no sofá e como eu havia previsto, Christina foi totalmente contra a minha ida ao colégio. Jorge mais uma vez pulou em minha defesa e me ajudou a convencê-la.

No Tiradentes, as garotas mais irritantes do mundo, Fernanda e Patrícia é claro, perceberam as marcas no meu pescoço, o que foi um belo assunto para fofocas. Mais, no momento em que entrei na sala, elas não importavam mais e meus olhos procuravam atentos os cabelos louros de Arthur Soltelo. Mais ele não estava ali, alias, Daniel também não estava.

O professor falava e eu não entendia nada. Na verdade, nada que ele dizia me interessava e minhas mãos seguiram automaticamente para o caderno com capa de veludo na minha mesa. A letra curvada e o tom doce das palavras de Karina invadiram a minha mente quando eu abri o diário.

10 de Novembro de 1986 Segunda-Feira

Querido Diário,

Fui para a escola hoje e para minha surpresa, Arthur S. me elogiou. Na verdade foi tudo inesperado, nos esbarramos e ele me olhou de cima a baixo e disse “você nunca esteve tão linda”. Só que eu não queria um elogio daquele garoto de cabelos loiros, por mais lindo que ele fosse (e Arthur S. é realmente lindo). Era Richard quem eu queria que me elogiasse!

Mais o meu moreno anda tão distante de mim esses dias... Não sei o que anda acontecendo, não que ele deixe de falar comigo ou me beijar, mais não são mais as mesmas conversas e os mesmos beijos de meses atrás, tudo que ele me diz soa distante e pesaroso. O Richard piadista pelo qual eu sou apaixonada parece fugir de mim.

De tarde, quando Márcia e eu chegamos da escola, o pai dela nos apresentou o filho de um amigo dele do interior do Piauí. Se eu entendi direito, o pai dele é um Tal de Jorge, que mandou o filho sobre cuidados do meu tio, para que ele pudesse estudar e ter condições melhores para se formar do que teria nesse interior ai. O pai dele vai mandar sempre uma contia todo o mês, segundo Márcia me disse, para pagar essa estada do filho, ela também me disse que o pai dele é um médico rico, mais que gosta de ajudar as pessoas mais pobres. O nome dele é Daniel e vai ficar em um dos menores quartos da casa, no corredor esquerdo, próximo a biblioteca. Bom, ele próprio escolheu aquele quarto, que é mais um cubículo de empregados.

Mais gostos a parte, Daniel conseguiu ser tão lindo quanto Arthur e o meu Richard. Ele bem que poderia se engraçar para o lado de Márcia, para tira-la de perto do meu namorado.

Comecei a umas semanas atrás a me arrepender de ter apresentado ela ao meu namorado. As aulas de inglês dos dois estão me dando nos nervos e Richard... Richard passa mais tempo com ela do que comigo.


12 de Novembro de 1986

Querido Diário,

Lembra do Daniel de quem falei dois dias a trás? Pois é, agora ele virou amigo de infância de Richard. Só quatro dias na escola nova e ele já parece conhecer mais o Richard do que eu. Estou torcendo para que isso seja bom e ele vire amigo de Márcia também.

Papai agora começou a pegar a minha mochila para revistar todos os dias e isso é realmente irritante! Tive que arranjar um novo local para guardar todas as coisas que ele não pode ver (inclusive um cordão que Richard me deu dia 30 de Setembro no meu aniversário), agora eu escondo você, ele e algumas cartinhas atrás do meu quadro preferido, aqui no meu quarto, pois duvido muito que ele vá decidir limpar meus quadros também.

É por isso que às vezes eu sinto inveja da minha prima. Nem a mãe e nem o pai dela tem toda essa frescura que o meu pai tem! Eu sinto raiva disso, muita mesmo! Márcia tem muita sorte, muita mesmo e, eu só queria poder ter um terço de tudo que ela tem.


17 de Novembro de 1986

Querido Diário,

Estou começando a achar o nosso hospede estranho. Ele nunca janta conosco e pouco sai daquele quarto que mais parece um calabouço.

Meu tio disse que ele é um garoto muito reservado e que tão pouco gosta de sair, o que deu segurança ao pai dele para mandá-lo para cá. No colégio, além de Richard, Arthur S. é quem mais fala com ele, mais o tratamento dos dois é sempre frio, como se eles já se conhecessem mais nunca conseguiram ser realmente amigos. Esse Daniel também é muito misterioso, já que ele ficou na minha turma, sempre o observo, e quase na maioria das vezes que olho, ele está escrevendo em um caderninho preto, como se já soubesse tudo que o professor está explicando, ele nunca realmente está prestando atenção, mais é sempre ele quem responde as atividades primeiro e é sempre ele quem responde qualquer pergunta que os professores façam para a classe, principalmente as de biologia e Química.

A algum tempo, prometi que descobriria o que aconteceu realmente para a minha prima e Richard irem para a secretária, pois bem, eu descobri. Os dois foram pegos fora de sala de aula depois do intervalo e quem me contou foi a própria mãe de Márcia hoje de tarde.

Esses dias em que não escrevi, estive observando o comportamento dos dois. Márcia anda sorrindo muito para o meu namorado e eu não sei ainda com quem Richard anda mais ocupado, se é com as aulas de inglês da minha prima ou com o Daniel, que ele disse na ultima vez que nos falamos, ser um garoto muito interessante. Agora, além de vir pra casa três vezes na semana pra passar a tarde com Márcia, ele vem nos outros dois dias livres passar a tarde com o Daniel.

21 de Novembro de 1986 Sexta-feira

Querido Diário,

Será que Arthur S. anda mandando charme pra mim? Ontem e hoje ele puxou assunto e me contou piadas e eu juro que se não amasse Richard, me jogaria nos braços dele. Arthur é muito lindo e gente boa (pelo menos comigo, mais as outras pessoas o conhecem pelo estilo bad boy) fora que tem um sorriso maravilhoso. Richard bem que ta merecendo que eu faça isso!

Hoje Arthur me contou sobre uma das viagens que ele fez para os Estados Unidos. Disse que é um lugar muito bom para se viver e disse também que não entende o que fez o “gringo do colégio” estudar aqui (comentário que me deixou um pouco enraivecida, pois o gringo do colégio é meu namorado e Arthur sabe disso). Mais fora os comentários maldosos que o louro solta com relação a Richard, eu bem que adoro conversar com ele.

Mais eu sei por que Richard deixou o país dele. Foi por conta dos pais, mais ele não gosta de falar do assunto e nem eu gosto de contar. O fato é que ele teve um bom motivo para vir para cá e eu estou mais do que feliz por ele ter vindo!


E para minha surpresa, acabavam ali os dizeres de Karina sobre aquele ano. Não acabavam por que ela não havia continuado a escrever, acabavam por que haviam sido arrancados do diário.

Na mesma hora percebi a incrível coincidência entre nós duas, ambas tínhamos na nossa vida um Daniel e um Arthur. E o Daniel e o Arthur de Karina assim como os meus, tinham as mesmas características perturbadoras.

Eu queria ter decidido não continuar lendo o que Karina havia escrito no inicio do ano seguinte, mais a minha curiosidade é claro não me permitiu e naquela manhã na escola, eu li o primeiro relato de uma Karina raivosa e possessiva que nem ao menos se deu ao trabalho de escrever “Querido Diário”.

01 de Janeiro de 1987 Quinta-Feira

Ela me apunhalou pelas costas. A garota que eu considerava minha irmã roubou a única pessoa que me fazia feliz e eu agora sou essa casca vazia por que eu o perdi.

Aquela cobra, que eu um dia chamei de prima, passou o mês de dezembro inteiro tramando contra mim e os dois me deram a maior desculpa esfarrapada que eu escutei em toda a minha vida quando decidiram me matar!

“Aconteceu, Karina... Mais eu quero que saiba que vou te ter sempre no meu coração” Foi o que Richard disse quando terminou comigo pra ficar com ela e o que ela me disse foi “Eu não queria minha prima, mais nós acabamos nos apaixonando, aconteceu”

Foi certo o que eles fizeram comigo? Aparecer ontem na virada do ano de mãos dadas como namorados? E é claro que ela sabia que os pais não seriam contra e que eu não poderia dizer nada, não poderia atrapalhar, pois meu pai me mataria. Ok Márcia, ontem você me venceu mais agora eu não vou ser mais a mesma e vou começar conseguindo Arthur S. para mim.

Parei de ler ali. Minha mão coçou durante aquela manhã, mais eu não continuei, decidi deixar para ler em casa, onde eu poderia ler em voz alta e entender melhor Karina.

Em casa, quase gritei quando abri a porta do meu quarto e Daniel Grigori e Arthur Soltelo estavam sentados e me olhando da minha cama. Com o susto, soltei meus livros e o diário de Karina no chão e Daniel recolheu tudo com uma velocidade que me alarmava.

Ele me entregou os livros e eu corri para a escrivaninha para guardar. Lentamente porém, virei pensando no que falar aos dois.

– O que significa isso? – falei erguendo as mãos em direção a minha cama, onde os dois se encontravam.

– Emily – Arthur foi quem tomou a palavra – Você não pode sair assim.

– Assim como? — perguntei incrédula.

– Sozinha – Foi Daniel que me respondeu. Os dois estavam bem arrumados como sempre e Daniel... Daniel estava perfeito.

– O quê? – Lutei para não me perder na imensidão verde dos olhos dele – Então agora vocês querem que a minha tia ou o meu tio me levem para a escola todos os dias, é isso?

– Não. Daniel levará você.

– Vocês só podem estar brincando – balancei a cabeça negativamente em direção aos dois, porém suas expressões não mudaram e eu me via acuada diante deles.

– Emily – Daniel agora estava a minha frente, e eu congelei automaticamente ao sentir seu perfume – Diante da ameaça constante que é aquela mulher, eu não acho que deva sair sozinha.

– Kara é uma vadia qualquer – balancei a cabeça novamente – Você não acha realmente que...

– Kara é uma ameaça – sua voz derrepente se tornara dura e deliciosamente doce e derrepente, eu estava perdida na imensidão verde dos seus olhos. Vi-me anestesiada, sem prestar atenção ao redor, derrepente era somente Daniel que estava ali, Daniel. Eu não diria “Não” a Daniel – Você não vai mais arriscar sua vida e me deixará levar-lhe ao colégio. Kara é perigosa e você é importante demais. Aceite, Emily.

– Sim, Daniel – Eu disse. A calmaria em que eu estava se dissipou quando ele se afastou de mim e eu me senti perdida e sem fôlego.

– Esperarei você todas as manhãs em frente à casa – percebi seu olhar distante e tristonho e naquele momento eu quis sentar ao seu lado e abraçá-lo.

– Você escolheu certo, Emily – Arthur não aparentava mais tanta culpa quanto da ultima vez em que havíamos nos falado. Na realidade, o louro estava impecável aquela tarde, não que tenha andado desleixado, mais o humor... Ele parecia revigorado como quando eu o havia conhecido – Eu não fui capaz de cuidar de você direito então vamos dar uma chance ao Grigori – disse rindo mais sem encarar Daniel.

– Concordei com você sendo minha babá – sorri sem pensar para Arthur que ainda estava sentado na cama e ele me retribuiu, olhei depois para Daniel que me observava da janela aberta – Será que eu poderia pedir a você, Daniel, que tomasse café comigo pelo menos?

Arthur gargalhou sonoramente e eu não deixei de pensar em meus tios que poderiam ouvir, porém nenhum dos dois esboçou reação quanto ao barulho e eu não me preocupei.

– É uma oferta justa, Daniel – Arthur disse animado, parecia estar curtindo uma piada que apenas ele havia escutado – E ai? Vai dar uma de durão ou vai aceitar a proposta da bela Emily?

– Não. – Daniel respondeu, a expressão vazia – Vai contra a forma com a qual eu fui educado. Não é aceitável. Desculpe-me Emily.

– Que tal esquecer as formalidades? – Perguntei sem ter idéia da sua resposta.

– É Daniel – Arthur parecia sentir prazer me apoiando contra Daniel – Ninguém da sua idade deve se preocupar com formalidades! Afinal de contas... Você tem 17 ou 150 anos?

– Eu tive uma boa criação – Ele não nos encarou – Você sabe.

Daniel se afastou a passos largos da janela em direção a porta sem me encarar. Arthur sorriu para mim, se levantou e o seguiu ao perceber que ele iria embora e sem mais uma palavra sequer de ambos, a porta se fechou a minha costa.

Decidi bloquear da minha mente qualquer pensamento que me levasse até Daniel e o que acabou acontecendo foi eu correr até a escrivaninha atrás do diário de Karina.


15 de fevereiro de 1987 Sexta-Feira


Querido Diário,

Encontrei Arthur S. na praça hoje no horário em que a minha prima estava tendo a aula de inglês dela. Conversamos bastante, sobre muitas coisas, inclusive sobre Richard e Márcia. Ele se mostrou completamente indignado e disse que eu demonstrei ser uma mulher forte diante a essa situação, o que eu discordo. Sim, discordo, pois se eu fosse mesmo uma mulher forte, abriria o jogo com toda a família e contaria o que a cobra da minha prima havia aprontado comigo, mais de qualquer forma, Arthur me fez ter mais confiança em mim mesma, o que eu agradeço a ele.

Alias, o garoto me elogiou até demais e eu gostei, afinal de contas não é qualquer garoto, é Arthur, o LOIRO E LINDO Arthur Soltelo.

Parei instintivamente de ler e congelei. Então Arthur S. também se chamava Arthur Soltelo. Era coincidência demais. Será que o Arthur Soltelo de Karina era parente do meu Arthur, o pai, quem sabe?

Apertei meu celular nas mãos quando busquei o nome de Arthur na lista de chamada mais na ultima hora desisti. Atirei sem pensar o celular na outra extremidade da cama e tomei o diário em minhas mãos.

Um dos assuntos em que tocamos foi Daniel. O insuportável Daniel, segundo Arthur. Ele também o julgou como um mal amado mais eu não vi motivos para isso, Daniel parece ser um rapaz bem resolvido. Arthur disse que eu compreenderia o porque de todos os insultos ao “idiota” em breve, pois ele havia gostado de mim.

Arthur me faz sentir forte e muito a vontade. Sinto que ele pode me ensinar muitas coisas ao decorrer do tempo.

A Karina ingênua a qual todos estavam acostumados morreu, Márcia e Richard a mataram.

Notas finais
E ai? O que acharam? Por favor comentem! Nem que seja para dizer que esta fic é uma merda.