Danger.
1 Demitida.
Notas iniciais
** TRAILER DA FANFIC!!! http://www.youtube.com/watch?v=RDlvtllW3eo **
Andando sobre a grama fofa e molhada devido à chuva de ontem. Saía do galpão cansada, com olheiras profundas e pretas de mais uma noite de mal sono naquele galpão.
Sim, eu moro em um galpão. Desde que meus pais morreram, estou morando no interior de Las Vegas em um galpão de aluguel. Além de não ter mais os pais, não tinha moradia e tinha que pagar com meu próprio dinheiro do restaurante.
Trabalho como garçonete em um restaurante de beira de estrada. Meu salário é uma miséria, mas sempre digo: Melhor do que nada. Ganho U$ 670,00 por mês e apenas U$ 400,00 vai naquela joça de galpão.
Raramente consigo comprar roupas e consigo apenas comprar comida uma vez cada 2 meses. – pelo menos ranchos, apenas cada 2 meses – Já no ano inteiro, são comidas prontas e congeladas, que tenho que preparar em um fogão a lenha.
Hm... Mais a lenha, mais gastos. Meu vizinho vende lenha por U$ 10,00, mas eu ainda acho caro demais. Mas lenha é mais um gasto.
Ou seja, a minha vida é uma completa merda.
Estava indo em direção ao meu carro, a única coisa que era realmente bom. Havia conseguido em NY quando tive de fazer uma viagem atrás de emprego. Tinha uma graninha que minha tia me dera, mas aquela mulher não está nem aí pra mim. Confesso que até hoje não sei por que ela me deu dinheiro pra ir até lá.
Consegui aquele carro com alguns caras barra pesada. Mas o negócio foi fácil. Se eu vendesse 10 sacos de maconha e/ou mais, que ele estava me fornecendo, e lucrar mais ou menos uns U$ 1.000,00 ele me daria um carro. E cara, o carro é o máximo. E o que não falta em NYC é um pessoal atrás de uma boa e cara maconha.
Boa eu não diria que é, mas... Pra eles, tecnicamente é. O cheiro daquela coisa era horrível, mas eu tinha que guardar na minha bolsa que, logo quando voltei pro hotel, coloquei na lareira pra queimar. Todos que passavam por mim me olhavam com um rosto estranho como se estivessem sentindo o aroma.
Entrei no carro, coloquei a chave, dei a marcha e saí até em direção ao meu restaurante. Estava indo rápido demais. Eu sou uma garota muito radical. No lado de carros, praticamente pareço meninos. Amo carros e dar umas voltas um tanto que fora da lei. Liguei o rádio e comecei a cantar euforicamente com o vidro aberto, enquanto o vento vagava pelo carro.
O dia estava quentíssimo. O sol escaldante e a sombra fresca. A chuva de ontem simplesmente não deu frio algum em Vegas. Mas ajudou meus vizinhos fazendeiros. Tudo bem que eu moro em um galpão, mas não tenho nenhum animal lá dentro. Quer dizer... Tem a Bick que é uma galinha que encontrei uma vez lá perto sangrando. A acolhi e agora ela é uma amiguinha minha. Vendo por esse lado, não estou tão sozinha nessa minha vida medíocre.
Estacionei na vaga das garçonetes, o restaurante estava recém abrindo, mas já havia estrangeiros do lado de fora esperando e, por sinal, entrando e sendo acolhidos com muito carinho.
– Toma. – Lana jogou o vestido até abaixo do joelho rosa e branco com alguns babados. – A toca está dentro do bolso. Vá ao banheiro, faça um coque rápido e venha. Hoje vai ser o dia de encher. Feriado é o caramba.
Não disse nada. Apenas assenti e fui ao lavabo pequeno que era do lado da cozinha e fiz um coque o mais rápido possível, que, por ter sido malfeito, estava se desmanchando a cada passo que eu dava.
– O que tenho que fazer? – pedi, calma.
– O que toda garçonete faz, Fany. – Lana me chamava daquele jeito. – O que imagina que garçonetes fazem em restaurantes?
– Anotam pedidos.
– Exato. Então... faça isso.
Lana era a chefona daquele restaurante. Era dona e mandava em tudo na cozinha. E além de tudo, também era a cozinheira. Podemos dizer que Lana era a legítima “Mestre cuca” do restaurante.
Alguns estrangeiros assustavam Lana. Por ser uma mulher muito atraente, pele clara, cabelos até o busto com um leve volume e com cachos nas pontas, olhos cor de mel e profundos e um corpo de 23. Lana fazia muitos clientes um tanto “satisfeitos”. Ela era como uma mãe pra mim. Com 40 anos, Lana é uma mulher muito bem sucedida, viveu tantas coisas que... sempre que quero conselhos, posso buscar a ela porque, com certeza, já passou por algo semelhante.
– Lana, nem “Oi” você me dá mais... – disse, abaixando a cabeça e me escorando na mesa do meio, enquanto ela pegava panelas e dava ordens.
– E você não é mais uma garçonete tão boa como antes, mas eu não fico dizendo. – disse, me magoando. – E... certo... Oi.
– Se você soubesse tudo que eu estou passando morando em um galpão, sem...
– Meus pais, sem irmãos... Ok, eu conheço essa história, Fany. Isso não pode ser usado a favor de você. Eu já sei da sua vida, mas isso não justifica tudo. – ela parou um minuto e me olhou, no fundo dos olhos. – Se você quer melhorar sua vida... mostre que quer faze-la melhor. Agora... vá trabalhar. Tem um grupo de mexicanos lá esperando por garçom.
Cruzei os braços e fiquei com aquela frase sábia na minha cabeça “Se quer melhorar sua vida, mostre que quer muda-la”, nossa... Aquilo me tocou profundamente.
Peguei o bloquinho do bolso e coloquei a caneta atrás da orelha.
O grupo de mexicanos era o único se se encontrava dentro do restaurante. Fui até o grupo, dei o cardápio para eles olharem. Cochichavam uns aos outros e me olhavam, dando risinhos.
Virei-me discretamente e revirei os olhos.
– Decidido? – pedi, sendo gentil.
– Tem como escolher algo que não tenha no cardápio? – um deles pediu com sotaque mexicano.
- Hm... de certa forma. Se tiver aqui no restaurante, pode.
- Então podemos pedir a garçonete? Não está no cardápio mas tem no restaurante. – ele disse, soltando gargalhadas fortes.
– Qual delas? – ironizei.
– Você, mocinha! Deixa de ser boba. – um moreno de cabelos compridos até os ombros me disse.
– Não gosto de ter relações com homens canalhas.
– Por isso vai gostar de nós.
– Desculpa, mas... com certeza não. O que vão querer? Repito a mesma merda de pergunta.
Estava com os dentes trincados e estava morrendo de raiva. Esses mexicanos metidos tinham todas respostas na ponta da língua e estavam de deixando sem diálogo e sem resposta alguma.
– A gente já disse o que queremos. – disse, de novo o cabeludo.
– Querem mesmo? Então tá...
Subi em cima da mesa e comecei a chutar os talheres e os copos. Vi que estavam saindo do lugar, corri até eles e tranquei a porta. Joguei uma cadeira em direção a um dos homens, mas minha fúria e minha ação completamente sem controle, interrompeu-se por Lana, furiosa e decepcionada comigo.
– TIFFANY! – disse ela, com as mãos na cabeça, e olhando ao redor. – O que você fez no meu restaurante?!
– Lana, em desculpe. Foi uma ação totalmente fora do controle e...
– Saia daqui!
– Pera aí, como? Sair daqui?
– Pega isso aqui. – ela disse, apertando o botão da caixa registradora e tirando uma grana preta de dentro. – Pegue isso e se mande daqui!
“Se quer mudar sua vida, mostre que quer muda-la”.
Isso foi tudo menos o que eu fiz. Cada ato que eu faço, parece que eu quero cada vez piorar a minha vida. Destruí boa parte daquele restaurante que era tudo para Lana e que, ultimamente, estava sem clientes e, com certeza não teria dinheiro pra pagar a arrumação daquilo.
Ouvia-se os cochichos dos Mexicanos no canto do restaurante.
– Fique com o dinheiro... Vai precisar pra pagar. – disse, com meus olhos molhados. – Não tem jeito mesmo essa minha bosta de vida.
– Tiffany, pegue isso. – estendeu o dinheiro pra mim, insistindo nessa ideia. – Pega e vai embora. Tem U$ 900,00 aí. Estou te dando mais pra tentar concertar as coisas.
Tirei a toca, com raiva. Lágrimas vazavam dos meus olhos enquanto eu tirava o avental e minha toca, enquanto eu os socava com meus pés.
Entrei na cozinha, peguei minha roupa e fui ao lavabo novamente. Desfiz meu coque com uma maldita raiva e com meu rosto todo preto e borrado de rímel. Coloquei minha roupa de qualquer jeito e joguei meu “uniforme” no chão. Me aproximei de Lana e ameacei.
– Deus está vendo tudo que acontece na minha vida. E isso Ele não vai esquecer. Lembre-se que eu não erro e não sou perfeita. Só Ele é perfeito. Quem é você pra me julgar e pra me fazer condenações assim? Não sabe nem a metade do que eu sofro e vivo.
– Tiffany, você destruiu...
– Mais uma vez eu repito. Deus está vendo isso. E Ele não irá deixar barato assim pra você. – a encarei profundamente por um bom tempo, enquanto ela tentava desviar o olhar. – Até mais ver, Lana.
Sorri falso e fui embora, pensando no que seria de mim agora. Pelo menos, tinha U$ 900,00.
Sem emprego. Sem pais. Moradia prestes a desabar. Uma galinha. Como eu viverei quando perder tudo isso?
Deus, acredito em ti e na sua sobrevivência, me ajude. Me dê forças. Abra portas para mim. Amém.
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