Dancing With Our Hands Tied

7 6. Sobre transformar palavras em arte


capítulo seis



Os pensamentos de Nathalie Moreau estavam distantes enquanto sua colega de quarto a ajudavam com a maquiagem. Apesar de ser ótima com desenhos e pinturas, a garota não possuía o mesmo dom para segurar um pincel de maquiagem. Uma colega do sexto ano, Wendy, havia se proposto a ajudar a garota com a parte da maquiagem.

Foi necessário ficar alguns momentos parada com os olhos fechados, tudo o que ela conseguia sentir era uma leve sensação de pinicar, onde o pincel se encostava em sua pele marrom.

— Escutei alguns boatos de que você e o caçula dos Black irão para a festa do Slug juntos. — Wendy murmurou remexia as diversas palhetas espalhadas pela cama. — Parece que Dumbledore realmente quis investir nessa história de mostrar que nossas casas podem cooperar.

Ao ouvir aquilo, a corvina mordiscou o lábio indecisa.

— Não foi exatamente um pesadelo, colaborar com Regulus Black. — por algum motivo, ela sentiu suas bochechas começarem a esquentar diante do olhar incrédulo da amiga.

— Não tem tanta necessidade de mentir Nath, nós duas sabemos o como os sonserinos estão dispostos a passar a perna uns nos outros a qualquer momento. Você deve estar vivendo um inferno nessas detenções, todo mundo está falando sobre isso.

Moreau ergueu suas sobrancelhas, surpresa com a ideia de que o resto da escola estivesse murmurando a respeito de suas detenções com Regulus. Era estranho sequer pensar que todos estivessem esperando algo de ruim do rapaz, porque embora ela não soubesse dar nome para o que havia entre os dois, estava certa de que roubo de livros, cotoveladas, algumas farpas ocasionais e sorrisos trocados em segredos, configurava algo próximo de uma amizade.

Parecia surreal de sequer colocar tal coisa em palavras.

— Ele não é do tipo falante Wendy, — não era exatamente uma mentira, mas Nathalie sentiu-se mal imediatamente ao soltar a meia verdade — não é como se eu e ele tivéssemos muito a conversar um com o outro. E de toda forma, as detenções chegaram ao final.

A corvina mais velha estalou a língua.

— Sabe que, como sua monitora, você sempre pode vir conversar comigo, não sabe? Qualquer coisa que Black fizer, que venha a te deixar confortável… Sei que é difícil lidar com gente poderosa como ele, mas nós podemos dar um jeito.

O coração de Moreau afundou ao perceber que Wendy realmente esperava nada que não fosse o pior de Regulus. Como era possível que apenas ela pudesse enxergar o lado leve, curioso e descontraído daquele garoto? Como era possível conseguir ver uma versão de uma pessoa que ninguém mais poderia conhecer?

Um exemplo perfeito disso era sua melhor amiga, Simone. A grifina não conseguia ver Regulus Black como uma boa pessoa, tudo que envolvia o nome dos Black era recebido com uma repulsa praticamente automática. Para piorar, Nathalie conseguia sentir uma suspeita por parte de sua amiga. Nas entrelinhas, Simone estava começando a duvidar se não havia algo a mais acontecendo nas salas de detenção.

Lembrava-se de ouvir Simone argumentar que a última vez que vira Nathalie se apaixonando foi anos atrás, na mesma época em que seu pai havia falecido. Em partes ela compreendia a apreensão da amiga, desde que enfrentou o luto, ela havia fechado seus sentimentos e desenvolvido um bloqueio emocional. Mesmo assim, ela repetia para si e para os outros, que dessa vez não havia nada a temer, a ideia de se apaixonar por Regulus Black era simplesmente irreal e para a família dele, beirava a balbúrdia. Simplesmente não iria acontecer, e no final das contas, eles eram amigos e para ela aquilo era o suficiente.

A forma como as pessoas colocavam expectativas na simples forma em que eles interagiam lhe deixava ansiosa. Como era possível que terceiros pudessem enxergar algo que seus olhos não podiam captar? Não fazia sentido.

— Lembre-se do que eu te falei Nath, não exite em vir até mim para reportar alguma coisa errada. — Wendy murmurou com um tom autoritário enquanto terminava de dar umas últimas pinceladas nas pálpebras da mais nova. Era notório de que ela era uma das melhores monitoras de seu ano, pela simples forma em que cuidava dos alunos, como uma espécie de irmã mais velha.

Moreau buscou conter a vontade de revirar os olhos para não atrapalhar o trabalho de Wendy. Apesar de estar levemente irritada, era bom ter a presença da garota mais velha com a qual dividia quarto no Salão Comunal, sentia como se ela fosse o que nunca teve: uma irmã mais velha irritante.

— Claro, vou me lembrar do seu sermão. — respondeu, em tom de brincadeira.

Wendy deu uma risada de leve, batendo a ponta do pincel no nariz da mais nova. — Você está pronta Moreau, aproveite a festa e tente conhecer alguns artistas legais. Li no Profeta Diário que bastante gente importante do ramo das artes vai estar presente.

A garota finalmente abriu seus olhos, deparando-se com Wendy guardando seus itens em uma bolsinha que com certeza era enfeitiçada para caber tanta coisa.

— Obrigada Wendy.

— Por nada. — ela acenou.



~*~



Regulus havia combinado de encontrá-la próximo ao Salão Principal, ela chegou alguns minutos adiantada. Os corredores de Hogwarts estavam praticamente silenciosos, o único som vinha diretamente da sala do Professor Slughorn, onde a festa estava acontecendo.

Haviam acordado mutuamente de que não estavam indo para a festa como um casal e de que não precisavam dançar juntos em frente a todos, porque era óbvio de que uma cena como aquela daria uma capa de alguma revista de fofocas. Tendo em vista a situação delicada entre a família Black, a última coisa que os dois gostariam que acontecesse é se tornarem objeto da raiva de Walburga.

Mesmo assim, ali estava Nathalie Louise Moreau em um vestido cor de vinho com três camadas de babados adornados com renda. As finas alças da peça deixavam suas clavículas à mostra e os longos fios de cabelo ondulados caiam sobre seus ombros, graças a ajuda de Wendy, Nathalie sabia que estava linda aquela noite.

Era engraçado pensar em como um evento tão pequeno e ridículo havia lhe levado aquela situação. Chegar em uma festa acompanhada de Regulus Black não era algo que estava em seus planos um mês atrás. E agora, quando parava para pensar no sonserino, se pegava pensando se não o julgara demais à primeira vista.

— Nathalie — seu nome escapou dos lábios de Black em um som abafado. Ele a olhava como se nunca houvesse a visto antes, os orbes castanhos estavam arregalados em surpresa e percorriam a silhueta da corvina com atenção.

Ela sorriu de leve quando reparou nas roupas de Regulus. Ele vestia uma camisa listrada preta, o tecido aparentava ser fino e possuía uma gola V tão aberta que deixava seu pescoço branco à mostra. Abaixo da camisa havia o cinto de couro e uma calça preta social. Os longos cabelos ondulados estavam repartidos para o lado, dando-lhe uma visão ampla do rosto anguloso do rapaz.

— Sim? — indagou, tentando conter o nervosismo. Não conseguia lembrar do porquê estar tão nervosa na presença dele.

O sonserino ainda passou mais alguns momentos estupefato, até que finalmente pudesse falar alguma coisa.

— Você está maravilhosa.

Oh.

A última coisa que esperava era receber um elogio de Black.

— Obrigada. Não vou lhe tecer nenhum elogio, porque conheço o seu ego suficientemente bem. — Nathalie piscou, buscando alguma forma de romper com a súbita tensão que havia se instalado no corredor.

Um sorriso esticou-se lentamente no rosto de Regulus.

— Hoje em especial, meu ego não se incomodaria com um mero elogio, sabe Moreau. Algumas pessoas chamam isso de educação.

A corvina riu diante da provocação.

— Continue tentando, talvez uma hora eu me veja na obrigação de ceder.

Em meio a risos baixos e algumas provocações, os dois foram caminhando juntos para o local onde a festa estava acontecendo. Ambos foram recebidos por dois alunos parados na entrada, eles eram os responsáveis pela segurança do ambiente. Mais adiante, tudo era um misto de luzes douradas e tendas cor de creme.

Regulus foi quem deu a ideia de utilizar uma espécie de tenda para poder criar diferentes ambientes dentro da mesma sala, para que as pessoas pudessem circular com mais facilidade e que os alunos responsáveis pelos comes e bebes tivessem um espaço particular para se movimentar. Nathalie transformou aquela ideia em realidade. De alguma forma cada tenda cor de creme e os ornamentos dourados que balançavam magicamente no teto, haviam casado perfeitamente.

— Tenho que admitir, nós somos uma boa dupla Black.

Ele riu.

— Eu só dei a ideia, você que fez a mágica. — murmurou, recordando-se brevemente de quando passaram a manhã inteira desenhando diante do Lago Negro. Ele havia desistido de tentar desenhar, afirmando que finalmente havia encontrado algo em que não era bom. Nathalie, por sua vez, o fez acreditar que ele poderia ser bom, caso tivesse prática o suficiente. A forma em que ela simplesmente acreditou na determinação dele... Regulus não possuía palavras o suficiente em seu vocabulário para explicar aquilo.

Slughorn logo apareceu, em um terno com as cores de sua casa, para receber os dois alunos. Ele aproveitou para introduzi-los a alguns de seus melhores convidados, sempre os informando de que aquela dupla havia sido responsável por toda a decoração e organização do evento — um sonserino e uma corvina, quem diria! Eram tantos nomes, tantas pessoas importantes de diferentes lugares do mundo bruxo, que Nathalie já estava com a cabeça começando a rodopiar.

Foi naquele momento em que ela teve a visão de seu inferno particular, e toda a probabilidade de que aquela noite terminasse am algo minimamente bom, se esvaiu.

— Professor, só um momento, eu vou ir atrás de uma bebida — ela informou, falando apressada.

Slughorn ergueu as sobrancelhas confuso, porém sorriu permitindo que ela o deixasse sozinho com Regulus.

Nathalie desviou uma quantidade de pessoas enquanto esgueirava-se para trás de uma tenda, numa busca por privacidade. As batidas de seu coração estavam dolorosamente aceleradas e ela poderia jurar que suas mãos estavam suando de nervosismo. Tentava não se concentrar naquela visão, na mulher alta de pele marrom e longos cabelos, Genevieve Moreau.

Deveria saber que quando Slughorn disse ter contatado os artistas mais renomados do mundo bruxo, sua tia deveria estar inclusa.

Abraçou seu próprio corpo enquanto a mente se perdia em pensamentos, a imagem de sua tia assombrava a sua mente. Demorou para que percebesse a presença de três rapazes parados a sua frente.

— Ei, Moreau, está tudo bem?

Piscou.

Estava tão atordoado que por um segundo, acreditou que Regulus estivesse à sua frente, a olhando com preocupação. Conforme sua vista abandonava a imagem borrada, ela finalmente percebeu que estava olhando para o irmão Black mais velho.

— Regulus fez alguma coisa? — Remus Lupin indagou.

— Você está com uma cara péssima. — Potter afirmou.

A testa de Nathalie se franziu enquanto tentava assimilar aquela situação.

— Regulus não fez e não irá fazer nada, vocês podem ficar tranquilos. — murmurou.

Era Sirius quem a olhava com mais apreensão, podia perceber que ele tinha uma série de perguntas indelicadas que gostaria de fazer, embora estivesse se mantendo em silêncio.

— E por que você está aqui sozinha, sendo que ele é seu acompanhante?

— Regulus não é o meu acompanhante! — ela exasperou-se, sentindo-se sufocada com as perguntas daqueles rapazes. Gostaria de poder dar meia volta e escapar o olhar de sua tia sem que a mesma a abordasse, porém parecia impossível.

— O quê? — James fez uma careta descontente — Ele não teve a coragem de te pedir uma dança sequer?

— Não é como se você tivesse feito o mesmo com Lily. — uma outra voz revelou-se do fundo tossindo, era Pedro Pettigrew.

“Ótimo” Nathalie pensou, “ao invés de três, agora tenho quatro garotos para despistar.”

— Cale a boca Peter. — Potter ralhou.

Sirius revirou os olhos.

— Venha comigo Nathalie, eu vou te levar para dançar e depois conversarei com Regulus.

— Me desculpe a grosseria, mas vocês me entenderam errado-

Sirius e Lupin trocaram olhares, como se estivessem discutindo entre si em silêncio como um casal de idosos rabugentos. Por outro lado, Peter e James se entreolhavam com caretas.

Era inacreditável que aqueles rapazes com praticamente dezessete anos, fossem tão infantis.

— Não foi um pedido, Nathalie. Venha. — Sirius disse, olhando uma última vez para Lupin, antes de sair andando enquanto segurava a mão da corvina.

Enquanto reapareciam em meio às tendas, Nathalie fez questão de apertar a mão de Sirius com força, em sinal de que estava claramente contrariada, porém ele não lhe ofereceu nada mais do que indiferença. Ela sentia que ele estava a tratando como uma pobre garota desiludida que havia se apaixonado por seu irmão caçula, e ela estava odiando aquele comportamento.

De alguma forma, os dois conseguiram captar diversos olhares de surpresa. Mesmo com a música tocando, algumas conversas pararam, deixando o ambiente mais silencioso.

E lá estava ele, Regulus, parado ao lado de Slughorn, de queixo caído.

O garoto olhava chocado para seu irmão mais velho, segurando a mão de Nathalie enquanto a guiava para a pista de dança. Seus olhos não desviaram dos dois em momento algum, ele observou de forma indiscreta como os babados do vestido da Moreau esvoaçavam no ar, ou simplesmente na maneira em que seu irmão tocava nas costas nuas dela. Mal percebeu que estava de punhos cerrados.

Sirius Black não era um mau dançarino, e Nathalie podia jurar que percebia contentamento nas feições arrogantes dele ao perceber que havia se tornado o centro das atenções. Ele era o tipo de cara que gostaria de contrariar qualquer um, e de alguma forma, estar ali dançando com uma Moreau renderia conversa o suficiente para aquela noite.

— Me agradeça depois. A escola inteira iria comentar caso você não fosse vista dançando com alguém, iria passar uma imagem de rejeição. — ele murmurou, enquanto dançavam.

Os olhos castanhos de Nathalie o fuzilavam.

— Não lhe ocorreu, em algum momento, de que eu e Regulus acordamos entre si de que não havia necessidade de haver uma dança? — para uma garota que aparentava estar sempre calma, o tom de voz de Nathalie era no mínimo ríspido.

O rapaz deu de ombros.

— Também a chamei aqui porque queria conversar com você a sós. Sobre a sua amizade com Regulus. — As palavras de Sirius lhe causaram um arrepio — Ele é o meu irmão mais novo, sei como a cabeça dele funciona, exatamente como a da minha mãe e do restante da minha família. Em respeito a você, e tudo o que a sua família representa, recomendo que fique longe dele caso não queira se machucar. Regulus pode ser gentil, engraçado e até mesmo encantador, mas ele sempre vai ser covarde o suficiente para não tentar entender a sua dor.

As palavras dele eram cruéis, e em todo aquele requinte de crueldade, havia advertência e a realidade. Nada do que ele falava era uma mentira, e talvez fosse por isso que havia um nó se formando em sua garganta. Porque até mesmo o rebelde mais irrecuperável daquela escola havia tentado alertá-la de que estar perto de Regulus Black era como uma luta perdida.

— Sirius, eu não estou apaixonada pelo seu irmão!

Ele suspirou.

— Acho que não fui claro o suficiente — murmurou enquanto balançava a cabeça negativamente — aquela pateta que está nos encarando com uma expressão furiosa está apaixonado, por você. Não sou capaz de inferir algo sobre os seus sentimentos, mas tenho certeza do que vejo no olhar dele, porque eu o conheço.

“E me vejo na posição de ser aquele que vai lhe alertar, nada de bom pode vir disso. Sei da sua relação com sua família paterna, consigo ver a forma como você está evitando o olhar de sua tia, é por isso que tenho certeza de que a última coisa que você quer, é uma Walburga Black em sua vida.”

“Você diz que não tem sentimentos por Reg, ótimo, melhor ainda. Vai ser mais fácil se afastar e ir embora. Digo isso porque este é meu último ano em Hogwarts, e sei que você e ele ainda tem alguns anos até a formatura. Não costumo ser amigável com estranhos, mas pense nisso como o conselho de um amigo.”

Com aquelas palavras, ele a deixou sozinha na pista.

Aquelas palavras haviam a atingido, porque querendo ou não, Nathalie ficou alguns momentos inerte. As luzes douradas reluziam em sua pele, e ela torcia para que ninguém pudesse ver seus olhos começando a marejar. Seus orbes castanhos encontraram os de Genevieve que estava parada do outro lado do ambiente, os braços cruzados abaixo do peito e os lábios pintados de vermelho, apertados em uma linha rígida. Seria mais um dos vários olhares de desaprovação?

Sem pensar duas vezes, Nathalie tornou a desaparecer em meio às tendas.



~*~



O peito de Regulus subia e descia rapidamente enquanto o rapaz tentava seguir Nathalie Moreau para fora da festa do Professor Slughorn. A princípio, ele permaneceu em estado de choque enquanto via, de longe, a garota dançar como um anjo nos braços de seu irmão mais velho. Em seguida veio a raiva, não sabia porque Sirius estava fazendo aquilo, ainda mais com ela de todas as pessoas, mas sabia decerto que aquela imagem o incomodou — e muito.

Quis comemorar quando percebeu que Nathalie parara de caminhar em seus saltos altos, ela havia parado e estava com a mão espalmada na parede, como se estivesse reunindo ar para poder respirar.

— O que foi aquilo? Você me disse que não iria dançar com ninguém, então porque de todas as pessoas, foi dançar justamente com ele? — ele mal se deu conta do que estava falando, apenas permitiu que as palavras escorregassem de sua boca. Que se foda se estivesse sendo patétito e exaltado, naquele momento, ansiava por respostas e nada mais.

Nathalie ergueu o rosto em sua direção, e algo em Regulus afundou ao perceber que alguma coisa havia a magoado.

— Seu irmão me puxou para dançar contra a minha vontade.

O maxilar dele trincou.

— O que ele te disse? — aquelas cinco palavras deixaram sua língua pesada como chumbo.

Ela desviou o olhar para o outro lado do corredor, tentando não se ater ao fato de que estava ficando mais e mais pŕoximos. Tentando ignorar que havia uma tensão que ela desconhecia entre os dois.

— Ele me aconselhou a ficar longe de você.

Regulus mordeu os lábios com força, sem se dar conta de que poderia estar se machucando.

— Meu irmão parece se contentar bastante em me tomar tudo o que me causa felicidade. — disse secamente.

Aquela fala a atingiu como um tapa.

— Não é isso, — Nathalie suspirou, procurando disfarçar o calor subindo em suas bochechas — seu irmão sabe a... situação da minha família. Ele me disse que a última coisa que vou querer, é Walburga Black na minha vida.

Regulus recuou, a cor sumiu de seu rosto.

As sobrancelhas do rapaz se franziram conforme ele observava cada traço do rosto de Nathalie. O entendimento chegou a suas feições junto do rubor. Ele odiava admitir que Sirius estava certo, a relação conturbada da família Moreau com a esposa trouxa de Lamar era um tópico conhecido na elite bruxa.

— Por favor, não vá embora. — depois de momentos em silêncio, a súplica saiu de seus lábios.

Ele não se importava de estar se humilhando, de pedir e ter de repetir seu pedido para que ela ficasse. Algo sobre Nathalie parecia ser certo para ele, aquela garota era responsável por seus sorrisos mais inusitados, fora ela quem o abraçou e compartilhou seus lutos. Quando estavam sozinhos, e ninguém estava vendo, a conexão entre os dois ficava mais forte, mais aparente.

Não queria perder aquilo.

Não queria perder ela, sendo ela sua amiga ou...

— Por favor, eu sei que sou uma confusão e que... as circunstâncias não são as melhores, mas esse tempo em que tive a oportunidade de te conhecer — ele parecia estar se engasgando com as palavras, seus olhos estavam instáveis ora atentos aos lábios rosados de Nathalie e outra aos olhos castanhos que o fitavam.

Desde quando suas mãos haviam começado a estremecer? Ele não saberia dizer.

Quando começou a ser tão sincero e transparente como agora? Também não tinha resposta para aquela pergunta.

— Percebi que você é meu lugar de paz, Nathalie Moreau. Meus pensamentos são mais rápidos do que a minha própria mente pode aguentar, mas tudo é mais fácil e silencioso com você. Sou péssimo com palavras, sentimentos, tudo. Então por favor, só fique. Fique e ignore a bagunça.

Ele corou quando percebeu que Nathalie ria.

— Reg, acho que você finalmente conseguiu lidar com os seus sentimentos. Acabou de transformá-lo em palavras, em arte. — o apelido saiu naturalmente dos lábios da corvina.

Houve um momento de silêncio, onde ambos se encararam com uma intensidade estonteante, até que finalmente alguém cedesse e unisse os lábios que ansiavam por um encontro.

Ninguém havia segurado o rosto de Nathalie Moreau como Regulus Black fazia, cada toque daquele rapaz deixava uma trilha lenta e tortuosa de calor por onde passava. Ela não saberia dizer se o toque entre as línguas era algo suave, ou simplesmente tão intenso a ponto de lhe causar arrepios. Ali, Nathalie percebeu que estava desejando beijar Regulus há algum tempo. Talvez desde quando ele começou a murmurar sobre o como os seus livros favoritos não pareciam ser tão ruins, ou simplesmente quando ele começou a pegar seus livros e ficar tão absorto com as palavras, que esquecia de os devolver.

Pelas barbas de Merlin, como ela estava conseguindo segurar aqueles sentimentos por tanto tempo? Sentimentos estes, que agora estavam transbordando desde o momento em que os dois corpos entraram em contato.

Não havia nada de errado quando a ponta de seus dedos encontraram os cachos dele. Ali, eles não eram Black e Moreau, e sim Regulus e Nathalie.

Quando os lábios de Regulus finalmente se afastaram dela, Nathalie sentiu que não haveria como o chão mantê-la de pé. A percepção lhe vinha aos poucos, a sensação dos lábios dele ainda estavam ali, fincados em sua pele. Aquele rapaz havia inscrito algo em seu íntimo, ele havia conseguido atravessar sua barreira emocional sem sequer tentar.

— Reg-

Tentou pronunciar o nome, porém sentiu-se desestabilizada pela forma em que ele a olhava em silêncio.

Um sorriso adoravelmente torto surgiu nos lábios do rapaz.

— Acho que gostei do meu apelido saindo da sua boca.

— Reg, isso é loucura, nós… Eu…

Ele se aproximou novamente, as mãos na cintura na corvina, sua testa tocou a dela com cuidado.

— Nath, ninguém precisa saber. Eu faço qualquer coisa para não ter que abrir mão disso. Você.

Um riso nervoso escapou de Nathalie, contudo o rapaz não lhe deu muito tempo para pensar, aproveitando aquele momento para depositar selinhos demorados nos lábios da corvina.

— Apenas pense um pouco sobre isso, sobre o nosso refúgio, nós dois. Faz total sentido.

Moreau acariciou o rosto de Regulus, adorando cada sensação, cada pedaço de território que até então lhe era desconhecido. Seus pensamentos estavam distantes, e seu olhar, voltado para ele.

— Na primeira vez que tivemos detenção juntos, eu vi uma expressão no seu rosto que ficou presa na minha mente. Alguns dias mais tarde eu fui para o Lago esfriar a minha cabeça, me sentei próximo a beira e comecei a pintar… Eu pintei o seu rosto Regulus, e parece ser loucura, mas foi a primeira vez que eu vi você de verdade. Triste, sozinho.

“E agora, com o seu rosto tão próximo, eu consigo ver várias emoções transbordando ao mesmo tempo. Céus… eu gostaria de poder transformá-lo em uma pintura, para poder te observar sem descrição, sem julgamentos.”

Aquela foi a fala mais próxima de uma declaração que Regulus já havia escutado, a cada palavra que saía da boca de Moreau fazia com que ele explodisse de alegria.

Ele provavelmente teria a tomado novamente em seus braços, e a beijado novamente ali no corredor vazio, caso um som de bater de saltos fizesse com que os dois se separassem bruscamente.

O alerta era visível no olhar de Nathalie, quando momentos depois, a garota viu-se de frente para a figura a qual estava evitando toda aquela noite.

Genevieve Moreau.