Dancing With Our Hands Tied
6 5. Sirius Black era como uma bomba relógio
Notas iniciais

capítulo cinco
Feriados com a família Black costumavam envolver jantares caros com a presença de diversos bruxos puro-sangue por todo lugar.
Naquele feriado em especial, Walburga havia enviado uma carta para seus dois meninos, requisitando a presença dos mesmos para um evento familiar. Era fato de que Sirius Black fechou sua expressão por completo, descontente por não poder furar com a mãe. Regulus por sua vez, retornou para a Residência Black de bom grado.
Não demorou muito para que o caçula se refugiasse em seu quarto espaçoso, ultimamente vinha decorando o ambiente com as cores da Sonserina, fotos de suas conquistas no time de quadribol, alguns pôsteres de seu time do coração e alguns recortes jornalísticos sobre o Lorde das Trevas. Mesmo assim, nada na decoração costumeira o ateve, quando sentou-se em sua cama e pode olhar para a parede com a mente vazia, Regulus se pegou puxando um livro pesado de sua mochila.
Roubar era uma palavra muito forte, então ele ousaria dizer que havia pego aquela edição emprestada de Nathalie, sem que ela necessariamente tivesse conhecimento de tal. A princípio, ficou com vergonha de que ela soubesse o quanto ele estava se interessando sobre o livro o qual não parava de tagarelar. Depois, sentiu receio de que isso a enfurecesse, que a afastasse dele. Talvez Regulus realmente devesse passar um tempo em casa para colocar a cabeça no lugar, porque ultimamente tudo o que conseguia pensar era sobre a garota com mãos de artista da Corvinal, estava precisando de um sopro de realidade urgente. Não era como se os dois pudessem ser amigos de toda forma.
Mesmo assim ele abriu o livro em seu colo, passou seus dedos suavemente sobre as pequenas anotações a lápis que Nathalie fazia sobre as páginas. Conseguia perceber que aquele livro era escrito de uma forma complexa até mesmo para a Moreau, por isso, Black não entendeu absolutamente nada que o autor desejava passar com aquelas linhas e linhas de narração.
“Minha mãe é professora de história, mas ela também é apaixonada por literatura, então temos uma estante abarrotada de livros lá em casa desde sempre. Se eu não me engano ela leu esse livro há cerca de dez anos atrás... “, conseguia se lembrar de cada palavra que Nathalie proferira com o olhar distante. Era possível ver o como ela admirava a mãe pela simples forma que falava da mesma, Regulus questionou-se sobre aquele carinho que ela nutria pela própria mãe. Ele gostava de Walburga, era verdade, mas não assim. A família Black não era exatamente carinhosa, e ele sinceramente não conseguia se lembrar de um momento em que tenha recebido carinho além de quando Sirius era mais novo e gostava de mimá-lo.
Ele estaria cometendo uma injúria a pureza de sua família caso admitisse que em certo ponto, invejava a relação que Nathalie nutria com sua mãe trouxa?
A verdade era que ele estava sozinho, apesar de estar em casa, Regulus ainda assim se sentia só.
Com um suspiro cansado, ele largou o livro sobre a cama e desatou a gravata, sentindo-se subitamente sufocado.
Precisava de um choque de realidade, algo que fizesse com que ele colocasse a cabeça no lugar certo.
~*~
Regulus poderia ter apostado com Bellatrix quanto tempo demoraria para Sirius iniciar uma discussão durante a refeição, porque naquela noite o mais velho conseguira atingir um recorde. Era visível que desde os últimos meses o atrito que havia entre o herdeiro dos Black e seus pais se tornava cada vez pior, mesmo assim, nada tão ruim quanto a situação de agora.
O caçula estava tão acostumado a viver em um ambiente onde a única certeza eram brigas incessáveis, que colocou na sua cabeça de que um dia aquilo acabaria caso ele se esforçasse para consertar o que fora quebrado e tomara tal afirmação como uma verdade definitiva. Então, ele, de alguma forma, acreditava que em algum momento as brigas entre Sirius e seus pais iriam amenizar e as coisas poderiam ser melhores.
Até aquele momento.
— Eu gostaria muitíssimo que a senhora parasse de ofender os meus amigos gratuitamente Walburga, porque diferente de você, eles não falam dos outros pelas costas. — Sirius resmungou enquanto limpava a boca em um guardanapo.
A insolência do rapaz fez com que as feições de Walburga se contorcerem em um ódio gelado.
— Você não se esforça para honrar o nome da família nobre que carrega, vive se misturando com traidores de sangue como a cria dos Potters. Não percebe o como as suas atitudes rebeldes e estúpidas prejudicam a imagem da nossa família? Estou cansada de ver o seu nome em revistas de fofoca. E saiba que não estou falando mal pelas costas, estou constatando fatos. Ande com traidores de sangue e em breve se tornará uma escória perante a sociedade exatamente como eles.
Regulus se afundou em sua cadeira, o olhar baixo em direção a sopa intocada a sua frente. Suas primas também estavam à mesa, Narcisa com seu típico olhar de desprezo, Bellatrix parecia estar entretida e Andromeda preocupada.
— Não quer ver o meu nome em revistas de fofocas? Bem simples, não as compre. Agora se você acredita que eu sou seu fantoche para manipular e propagar essa merda de puro-sangue, então Walburga, está me confundindo com outra pessoa.
Os olhos castanho escuro da mulher brilharam perigosamente.
— Calado. — ela sibilou.
— Calado uma porra, estou cansado de ouvir essa merda hipócrita de nobreza e sangue puro. Me chame de traidor de sangue, faça o que quiser, eu já estou cansado disso.
— Se insiste tanto em defender os sangue-ruins e os traidores de sangue com quem anda, porque não se junta logo com aquela escória? Suje o seu nome para o resto de sua vida e caía em desgraça, mas tenha a certeza de que nunca terá uma passagem de volta para essa família novamente! — ela gritou, as mãos batendo contra a mesa enquanto a tapeçaria balançava furiosamente.
Andromeda arregalou os olhos, prevendo como aquela conversa iria terminar. A garota levantou-se, espalmando as mãos na mesa enquanto impedia algumas taças de caírem.
— Tia Walburga, por favor — tentou protestar em vão.
O herdeiro dos Black, por sua vez, sorriu com os caninos à mostra. Havia um fogo indomável e pretensioso em seu olhar.
— Finalmente, Walburga, nesses longos anos da minha inútil existência, nós finalmente chegamos a um consenso. Estou partindo para nunca mais voltar. — A fala do irmão mais velho fez com que Regulus soltasse seus talheres subitamente, gerando um baque.
— Saía da minha casa! Nada de bom pode vir de um traidor de sangue como você. Andar com a escória fez com que as suas luzes sucumbissem à podridão. Saía agora!
Sirius levantou-se empurrando a mesa, uma quantia considerável de vidro quebrou-se com aquele gesto brusco enquanto ele partia da casa dando passos duros.
Em um salto, Regulus se pôs de pé e foi correndo na direção do irmão mais velho. Sentia seu coração sair da boca enquanto um de seus piores medos se tornava realidade. Ele tropeçou de uma forma humilhante enquanto tentava subir as escadas para o segundo andar, mas mesmo com uma dor lancinante na perna, conseguiu alcançar Sirius.
— Por favor, não.
Desde que os conflitos entre Sirius e Walburga começaram a ficar mais intensos, os dois irmãos haviam se distanciado muito, então aquela era a primeira vez em anos que Regulus lhe pedia “por favor”. Aquilo custava muito dele, de sua honra e orgulho, mas mesmo assim ele manteve-se inabalado em favor de sua mãe, da família unida que gostaria de ter e sonhava com todas as noites.
Sirius lhe olhou com um misto de dor e pena.
— Venha comigo Reg.
O apelido de criança veio como um baque inesperado, foram necessários alguns minutos para que ele entendesse o que o irmão propunha.
— Eu vou consertar tudo, e tudo vai ser como antes, quando nós dois éramos crianças. Você só precisa esperar mais um pouco.
O mais velho riu com amargura.
— Você soa como uma criança esperançosa falando assim. Como acha que vai dar um jeito na lunática que chamamos de mãe? Ela vai continuar te tratando como merda enquanto você não se submeter às expectativas dela. — respondeu bruscamente, a rispidez em suas palavras faziam lágrimas surgir no canto dos olhos do caçula.
— Por que você não se importa e não se esforça por essa família como eu? Como é possível que você fale, fale e fale, mas nunca faça algo genuinamente bom.
— Por essa família? — Sirius se ultrajou — A mesma família que trata nascidos trouxas como lixo? A família que se julga superior a outros bruxos porque de alguma forma, nós conseguimos acumular riquezas ilegalmente ao longo dos anos, lucrando em cima de só Merlin sabe o que, para conseguir ser uma das casas mais ricas da Grã-Bretanha? Me diga Reg, o que há para se salvar nessa porra imunda?
“Se isso que nós somos se chama nobreza, eu então eu a desprezo e isso me enoja profundamente. Como eu posso me esforçar por algo tão desprezível e baixo?”
O castanho dos olhos de Regulus tremeluziu diante daquelas palavras tão ríspidas, aquela conversa com Sirius lhe passava a mesma sensação de pular da vassoura em meio a um jogo de quadribol em plena queda livre: você apenas observava o chão esperando a dor chegar, porque sabia que era inevitável. Sirius Black era uma bomba relógio, era óbvio que em determinado momento ele iria explodir e magoar as pessoas ao seu redor, Regulus só não imagina que ele estivesse incluso neste grupo.
— Você pode até gostar de ter cada passo de sua vida premeditado pela nossa mãe, mas este é você e não eu. Jamais eu. — ele continuou a dizer em voz baixa enquanto caçula encarava os próprios sapatos — Estou indo embora, até mais Reg.
Faltou coragem para que Regulus erguesse o rosto e visse a imagem de seu irmão lhe dando as costas, partindo para o desconhecido. Talvez se ele mantivesse seu olhos estagnado na ponta de seus sapatos de couro, então tudo aquilo não aconteceria. De toda forma, o rapaz apenas ficou travado ali, sem saber como reagir, enquanto lágrimas quentes rolavam por seu rosto, pingando diretamente no chão.
Era engraçado pensar que ele ainda conseguia sentir com tanta profundidade assim, que depois de tantas discussões com Sirius, ele ainda pudesse amá-lo o suficiente para ficar enlutado com sua partida. Mas aquele era o seu irmão mais velho egoísta e idiota, arrogante e rebelde, lhe dizendo que iria embora. Seu irmão.
~*~
O céu cinzento recebeu Hogwarts em uma manhã silenciosa. Por algum motivo, em plena segunda-feira, os corredores aparentavam estar mais vazios como se uma boa parte dos alunos estivessem atrasados tirando um cochilo em suas camas. Não seria uma surpresa, afinal fazia um vento gelado lá fora, o que tornava a ideia de ficar enrolado em uma pilha de cobertores bem confortáveis. Naquela manhã, Nathalie desejou poder dormir despreocupadamente como um de seus colegas.
A corvina acordou em meio a um pesadelo durante a madrugada e não conseguiu fechar os olhos desde então. Seus olhos ficaram encarando a janela até o céu clarear. Quando finalmente conseguiu colocar os pés para fora de sua cama, sentiu como se todas as suas energias estivessem sugadas.
Em meio a sonolência, tratou de colocar a camisa branca da escola, a saia plissada e um moletom da corvinal por cima das roupas. Quando havia terminado de se vestir e arrumar os cabelos cacheados, não se surpreendeu em perceber que boa parte das meninas de seu dormitório ainda estavam no mundo dos sonhos.
Subitamente impaciente, Nathalie agarrou um livro dos vários em que carregava em sua mala — graças a um feitiço extensor que havia aprendido com a monitora-chefe de sua casa. Com tudo pronto, partiu para o Salão Principal a fim de tomar seu café da manhã.
Ela não saberia dizer se a opacidade em sua alma conseguia se refletir no ambiente externo, mas naquele momento em particular, os corredores de Hogwarts aparentavam estar silenciosos e desprovidos de vida. Aquilo fez com que seu estômago desse uma pequena volta, Nathalie tinha todos os indícios de que aquele seria um dia ruim.
A mesa da Corvinal estava relativamente vazia, então Nathalie teve a oportunidade de escolher onde iria sentar. Assim que ajeitou-se, algumas porções de comida apareceram à sua frente: um mingau de aveia, chá de lichia, suco de abóbora, cogumelos, ovos fritos e salsichas. Nada parecia contentá-la apesar da comida estar com uma aparência ótima.
Foi preciso uma boa quantidade de autocontrole e um suspiro cansado para não focar sua atenção no chá de lichia; o favorito de seu pai. Era difícil não ser inundada pelas memórias de Lamar Moreau, de como ele aparentava ser um cara durão mas não demorava muito para abrir um sorriso enorme para a filha. Ela conseguia se recordar de uma memória em específico que doía de tão real: quando seu pai passou algumas semanas no Ministério da Magia Japonês e voltou para casa com alguns origamis, certo de que sua filha iria ficar encantada com a forma em que um pedaço de papel poderia tomar vida de uma maneira inédita.
Se tornava cada vez mais difícil não ficar presa em memórias e melancolia em um dia como aquele, em uma data como aquela.
Ela gostaria de se encolher em sua cama até o dia seguinte.
Estava tão mergulhada em seus próprios pensamentos que quase não percebeu os burburinhos ao seu lado, um triozinho de alunos estavam murmurando alguma coisa de uma forma tão indiscreta que foi praticamente impossível não escutar. A princípio Moreau ficou impressionada com a capacidade daqueles três possuírem tamanha energia para fofocar em uma segunda-feira de manhã, mesmo assim, acabou escutando a conversa:
— ... O ponto é, o meu irmão é da Grifinória e ele está no sétimo ano, então ele foi o responsável por compartilhar essa informação comigo agora pouco. Se os rumores forem verdadeiros, o herdeiro da casa Black, Sirius Black, fugiu de casa. — uma menina contava a história com a voz mudando de entonação a cada palavra e as mãos gesticulando furiosamente — Os Black se reuniram para um daqueles jantares super chiques que eles fazem quase sempre, não faço a mínima ideia de como aconteceu, mas Sirius começou a bater boca com a mãe dele, Walburga. A discussão ficou tão quente que ele resolveu ir embora de casa.
“Meu irmão viu Sirius hoje de manhã e disse que ele aparenta estar super bem. Sabe quando alguém saí de perto de um Dementador? Foi algo mais ou menos assim. Agora, quem não está nada bem é a mãe dele Walburga, pelo o que andam comentando ela enlouqueceu por completo, está surtada de raiva. — Alguns risinhos acompanharam o comentário — Minhas fontes também confirmaram que o pai do Sirius também está furioso, apesar de ele ser o mais apático de toda aquela família. Agora, o grande detalhe de toda essa história, o irmão mais novo, Regulus.”
“Como não ando com sonserinos — como qualquer outra pessoa sensata faria — não tive a oportunidade de ver ele ainda, mas dizem que ele ficou totalmente devastado. A relação entre os dois não era das melhores, mas isso com certeza foi um baque e tanto para ele.”
Os olhos de Nathalie se arregalaram enquanto ela tentava não demonstrar que estava ouvindo a conversa alheia. Não era como se ela se importasse com o sonserino, é claro, mas ainda assim, ele devia estar abalado. Nunca havia abordado o tópico Sirius Black com Regulus, porque qualquer pessoa com o mínimo de bom senso saberia que aquele era um assunto sensível. Contudo, a forma em que ele reagiu ao escutar “cada família infeliz é infeliz a sua maneira” dizia mais do que qualquer uma de suas palavras pudessem expressar.
Não foi necessário ficar muito tempo se indagando a respeito do rapaz, porque em questão de minutos ele pisou no Salão Principal. Nathalie jamais admitiria, mas seu coração deu um solavanco quando percebeu que o rapaz de cabelos desalinhados e olheiras arroxeadas caminhando em direção a mesa da Sonserina era ele, Regulus Black.
O som dos burburinhos aumentaram, e de alguma forma Regulus sabia que estavam falando dele, contudo ele não aparentava ter força emocional alguma para sequer demonstrar que se importava com tal coisa. O rapaz apenas ficou ali, sentado em posição de estátua, olhando fixamente para um ponto inexistente no meio da mesa.
Apesar de se sentir mal por ele, Nathalie retornou seu olhar para a mesa da Corvinal, certa de que a última coisa que Regulus Black iria querer, era alguém como ela se preocupando com ele.
~*~
Depois de mordiscar algumas salsichas fritas e uns pedaços de ovo, Nathalie decidiu que não iria conseguir colocar muita comida para dentro. Ela também havia falhado em ler o livro que levara para a mesa do café da manhã, sua atenção estava tão dispersa a ponto de precisar ler uma linha três vezes seguidas para poder atribuir sentido às palavras. Por fim, se deu por vencida, percebendo que não estava bem emocionalmente para frequentar uma aula de História da Magia naquele momento.
Sabia que se fosse até a Enfermaria conversar com Madame Pomfrey, conseguiria uma dispensa para aquele dia. Só que aquilo parecia ser tão humilhante. Como ela explicaria para uma completa estranha o que aquela data significava para ela, sem se debulhar em meio às lágrimas?
Assim, ela optou por sentar-se diante do Lago Negro, como fazia sempre que estava inspirada ou simplesmente com a cabeça cheio de pensamento conflitantes. Aquela era uma região vazia no horário das aulas, e ela poderia ter a visão da Lula Gigante nadando, o que não era um ponto negativo.
Com o peito dolorido, Nathalie puxou um caderno de esboços de sua mochila e começou a rabiscá-lo. Dessa vez ela possuía uma imagem fixa em mente, e conforme a mesma começava a tomar forma no papel a sua frente, mais seus olhos começavam a embaçar. Traço por traço, a imagem de seu pai segurando uma vassoura de quadribol com sua versão bebê no colo tomava forma. Desde os fios crespos encaracolados, que Nathalie sempre amava passar seus dedos pelas pequenas ondas, até o cantinho dos olhos de Lamar, que ficavam menores quando ele sorria.
Ela não sabia que era possível transbordar dor e amor por uma mesma pessoa naquela proporção, mas ali estava ela, derramando seus sentimentos em uma folha de papel. Esperando que a imagem de seu pai fosse eternizada.
— O que você está desenhando? — a voz masculina fez com que ela teve um sobressalto.
Quando ergueu o rosto, deparando-se com Regulus Black, os dois se olharam com surpresa. Ela por tê-lo encontrado ali, e ele por poder ver a dor tão exposta em sua face.
— O que aconteceu? — perguntou, rouco.
Ele esticou o pescoço rapidamente e logo entendeu parte da situação: ela estava desenhando Lamar Moreau. Regulus ficou embasbacado com a forma em que aquela garota conseguia desenhar de uma forma tão crua e realista, poderia jurar que aquela era uma representação perfeita de Lamar.
— Regulus, não acho que você vai querer que alguém nos veja juntos aqui. — a voz de Nathalie saiu levemente engasgada enquanto ela arqueava uma sobrancelha na direção do rapaz. Não era uma mentira, afinal, o contato dos dois nunca passou da porta da sala de Poções, onde compartilhavam detenções.
Regulus Black já tinha drama familiar o suficiente em sua vida, e Nathalie Moreau não tinha muita vontade de se tornar mais um motivo para que ele ficasse miserável. Todavia, o moreno apenas deu de ombros, sentando-se ao seu lado na grama.
— Tarde demais, já estou aqui de toda forma. — respondeu suavemente.
Se a garota estava nervosa com o fato dos dois estarem sentados lado a lado, de forma tão próxima, publicamente, não demonstrou.
— Então, vai me responder o que aconteceu? Você parece estar um pouco para baixo.
Por um breve momento, Nathalie sentiu-se tentada a afirmar que o rapaz a sua frente também não estava em seu melhor estado, todavia, acabou suspirando e cedendo-lhe seus pensamentos.
— Hoje é o aniversário de falecimento do meu pai. Já faz alguns anos, então supostamente não deveria me abalar tanto, mas ainda machuca. — o nó em sua garganta dificultou que as palavras saíssem perfeitamente enquanto a corvina perdia seu olhar na extensão do Lago — Então eu resolvi cabular algumas aulas, e... só tentar lidar com os meus sentimentos.
Ele olhou com compreensão.
— Você transformou seu luto em arte. — comentou.
Nathalie riu fraco.
— Sempre faço isso, se não... meus sentimentos provavelmente iriam me sufocar para sempre. Preciso transformar as coisas em algo, pode ser uma sucessão de palavras, traços, cores... Alguma coisa para aliviar o peso no meu peito.
— Pode me ensinar a fazer isso? — a pergunta de Black a surpreendeu. — Acho que preciso tentar ser um pouco como você.
Os dois trocaram olhares por um breve momento até que ela piscasse lentamente, cedendo. Nathalie não fez perguntas para as quais já sabia a resposta, então puxou outro caderno de desenho para fora de sua bolsa, entregando-o para Regulus.
— Não se preocupe com a beleza dos traços, só... Tente desenhar alguma coisa. Ou então, você pode simplesmente escrever o que estiver passando em sua cabeça. — murmurou, procurando não olhar por muito tempo para os orbes castanhos que a observavam em silêncio.
A princípio, o único som que Nathalie conseguia ouvir era o atrito entre o papel e caneta que Regulus usava. Ela buscou focar em sua própria arte, com receio de deixá-lo desconfortável.
Por algum motivo, sentiu-se um pouco mais leve na presença do sonserino.
— Como você consegue fazer traços tão precisos? Sinto que estou desenhando um furacão. — Regulus bufou depois de passar longos minutos tentando elaborar alguns traços para se transformarem em alguma coisa. Ele parecia uma criança emburrada, provavelmente porque era muito orgulhoso para admitir pela primeira vez que não era bom em algo.
Nathalie ergueu o olhar em sua direção, sorrindo de leve ao olhar para a confusão de linhas que ele havia traçado.
— Existem diversos tipos de arte, nem tudo precisa ser realista e preciso.
O Black revirou os olhos e então seus lábios se esticaram em um sorriso largo.
— Qual é Moreau, nós dois sabemos que você está falando isso apenas para ser gentil. Pode dizer, ficou uma porcaria. — a forma em como ele utilizava a ironia para proteger o ego era cômica, a corvina teve de morder os lábios para não disparar a rir.
— Todo artista começa de algum lugar, Regulus. — ela retrucou.
— E eu claramente não sou um. Não consegui aliviar meus sentimentos e muito menos desenhar alguma coisa, acho que seu método é passível de falhas. — respondeu, contorcendo suas feições em uma careta.
— Bom, você pode falar comigo sobre o que está te afligindo, claro, se você quiser. — Nathalie soltou as palavras rapidamente e em seguida deu de ombros, procurando ser casual.
Regulus piscou por um momento, o que a fez temer ter dito a coisa errada.
— Tenho certeza de que se você já sabe a história, a escola inteira sabe.
— Não é sobre saber o que falaram, e sim sobre o como te afetou, sobre o como você se sente.
O olhar de Regulus vagou pelo horizonte do Lago, seus fios cacheados se agitavam conforme o vento, o que escondia a sua feição pensativa. Todo aquele tempo, passou ocupado em pensar sobre como a sua família reagiria a partida de Sirius, sobre como tudo o que ele vinha feito para segurar as pontas fora em vão. Contudo não lhe ocorreu que em momento algum havia pensando em como ele mesmo se sentia.
— Impotente. Estou me sentindo impotente e odeio essa sensação. Acho que passei muito tempo da minha vida tentando consertar erros que não eram meus, tentando evitar brigas e atribuir culpa a mim mesmo... Sinto que em algum momento acabei criando um padrão inalcançável, e isso sempre vai me assombrar. — as palavras vinham soltas para os seus lábios, despejando-as antes mesmo de que ele pudesse ter alguma consciência sobre o que estava falando. Talvez fosse o sorriso consolador de Nathalie Moreau que estava lhe trazendo algum conforto, ou simplesmente a sensação cansativa de peso nos ombros que vivia carregando, mas de alguma forma, Regulus acabou desabafando seus pensamentos mais profundos naquela manhã.
“Você é filha única, então provavelmente não vai entender o que é ser um caçula. Ser o filho mais novo é ótimo porque você é muito mimado por boa parte da família, mas as comparações... Qualquer coisa que seu irmão mais velho fizer, seja de errado ou seja de certo, será uma régua para o seu comportamento no futuro. Receber esse tratamento de certeza determinista por aqueles que supostamente devem te amar é sufocante, para dizer o mínimo.”
“Sou comparado com Sirius a minha vida inteira, cada passo errado que ele dá, as pessoas esperam o mesmo de mim. Como se fossemos a mesma pessoa, como se eu estivesse disposto a cometer os mesmos erros que ele. E agora que ele cometeu um erro colossal, sinto como se fosse minha culpa, como se eu tivesse que juntar os cacos que sobraram da minha família enquanto as pessoas cochicham sobre nós.”
“E talvez eu seja simplesmente isso, uma personalidade formada sobre o que escutaram de mim, sobre o que não somente esperam, mas determinaram que eu seja. Isso me mata lentamente, todo dia.”
O rapaz estava tão concentrado em expelir seus sentimentos, vomitando as palavras que estavam entaladas há anos em seu peito, que não se deu conta da aproximação sutil da corvina. Nathalie deslizou seus dedos suavemente pelo rosto de Regulus, surpreendendo-se em como a pele dele era macia sobre seu toque. Foi nesse momento em que ele se deu conta de que estava chorando.
Encontrava-se vulnerável, com suas cicatrizes expostas e só Merlin saberia dizer o porquê, aquela visão horrível não afastou Nathalie Moreau. Ela o olhava como se entendesse sua dor, suas cobranças, seu luto pela imagem perfeita que criara e jamais seria realidade. Dor pela partida do irmão, que embora ele não mencionasse, era visível que amava.
— Está tudo bem em sentir luto Regulus, — ela murmurou com a visão começando a embaçar, seus sentimentos se misturando em meio às emoções caóticas do garoto — significa que você perdeu algo que era importante, algo que amava. Tudo o que você está sentindo é válido, até mesmo a pressão pelas cobranças da sua família.
— Sinto muito por atrapalhar o seu momento, — Regulus teve de lutar com o nó na garganta para não se engasgar com as palavras — sei que você estava tendo o seu momento com o seu pai, e eu fui egoísta o suficiente para estragar... Eu…
Nathalie esticou seus lábios em um sorriso triste.
— Não precisa se desculpar, na verdade fico feliz que você tenha vindo para cá, está tornando a dor mais suportável. — os cantos da boca da garota estremeceram.
Talvez fosse impulso ou fraqueza, mas Regulus puxou o corpo magro de Nathalie para seus braços, afundando seu rosto no pescoço da garota. Ele descobriu que ali, havia encontrado um abrigo aconchegante, então permitiu-se ficar, apenas por aquele momento.
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