Dancing With Our Hands Tied

5 4. Sua família era infeliz de uma maneira quase que peculiar


capítulo quatro



Os dias passaram normalmente conforme Regulus e Nathalie seguiam sua rotina de sempre, apesar do evento do livro, os dois não trocaram palavras nas aulas que a Corvinal dividia com a Sonserina. Embora, alguém com o olhar atento conseguisse perceber que não era incomum que os castanhos repletos de incerteza dos orbes do Black, encontrasse o marrom escuro dos olhos de Nathalie em meio a explicação de um professor. Eram trocas de olhares silenciosas e despretensiosas, mas que por algum motivo, causavam calafrios na pele negra da corvina.

Em seu tempo livre, ela abria o livro que Black havia lhe presenteado, revisitando as palavras que já conhecia em busca de uma espécie de conforto.

“(...)Nunca mesmo, poderia esperar ser tão verdadeiramente amada, tão importante, ser a primeira e a mais admirada aos olhos de um homem, como sou aos olhos de meu pai”, o mesmo diálogo da protagonista com Harriet, que anteriormente havia sido destacado em sua edição arruinada por Regulus, fora marcado novamente. Porque havia algo sobre aquela frase proferida por Emma, que sempre lhe tocaria, em seu âmago. A relação de Emma com o pai sempre faria com que ela se lembrasse de seu próprio pai, Lamar Moreau. Era impossível pensar nele sem sentir seu coração se expandir de amor pelo homem que bateu de frente com a família de origem para defender a esposa e a filha, o homem que a carregou no colo com orgulho e sempre foi um pai babão.

O homem que a deixou mais cedo do que o esperado.

Deixando um buraco em seu coração, transformando o seu mundo colorido em um azul amargo.

Talvez fosse por isso que ela sempre se encontrasse relendo aquele livro nos últimos anos, porque as doces e reconfortantes palavras naquelas páginas, pudessem lhe abraçar de forma paternal. Ajudando-a a preencher o vazio em seu peito, mesmo que por momentos.

Com a mente recheada de pensamentos melancólicos, Nathalie Moreau caminhou distraidamente em direção às masmorras para cumprir sua detenção. Estava tão avoada que sequer se deu conta do fantasma do Barão Sangrento resmungando ao seu lado, enquanto arrastava correntes ensanguentadas pelo corredor.

— Srta. Moreau, aconteceu algo para que se atrasasse? — a voz melódica de Slughorn a tirou de seus devaneios.

— Perdão?

Atrás do Professor de Poções, estava Regulus Black. Naquele dia ele aparentava estar mais descansado e trajava vestes que lhe eram mais comuns, uma camisa branca, colete preto por cima e uma calça de alfaiataria preta. Ele exalava elegância enquanto a observava em silêncio, seus olhos percorrendo seu casaco de casimira cinza e as calças jeans desbotadas.

— Ah me desculpe Professor, eu não percebi que estava tão atrasada. Não se repetirá novamente.

— Sem problemas Srta. Moreau, apenas queria me certificar de que minha aluna está bem.

Em passos rápidos, Nathalie tratou de sentar-se ao lado de Regulus, embora mantivesse uma distância respeitável, com a atenção voltada ao professor da casa das cobras.

— Hoje confiarei em vocês para delinearem a decoração da festa. Qualquer coisa estarei na salinha ao lado corrigindo algumas atividades dos setimanistas.

Os dois assentiram em silêncio enquanto observavam o homem retirar-se.

Quando se encontraram sozinhos, Nathalie puxou a varinha do bolso de seu casaco,balançando-a no ar, incerta do que poderia criar para a festa do professor que certamente possuía gostos excêntricos.

— Não tive a oportunidade de lhe agradecer pelo livro. — murmurou timidamente sem olhar diretamente nos olhos de Black — Ele é muito importante para mim.

Regulus se ajeitou em sua cadeira, como se subitamente estivesse sem palavras para responder a sinceridade da corvina ao seu lado. Ele não havia lhe dado o livro pensando em um agradecimento, apenas lhe ocorrera que aquilo poderia diminuir os atritos entre os dois enquanto tivessem que cumprir as detenções.

Alguns momentos depois, ela riu sozinha enquanto encantava alguns tecidos que estavam dispostos sob a mesa.

— É engraçado que você tenha lido o livro.

— Eu fiquei curioso. — Regulus admitiu, as palavras lhe escaparam antes que ele pudesse censurá-las — Queria entender o que há de tão importante naquele livro.

Nathalie parou por um momento, o que fez com que Black pensasse se não havia ido longe demais. Contudo, ela apenas suspirou e virou-se para ele.

— Esse livro me lembra o meu pai. — disse com simplicidade, embora a dor fosse visível em seus olhos entristecidos.

— Sinto muito. — ele respondeu automaticamente. Era de conhecimento geral a morte precoce de Lamar Moreau.

A menção àquele assunto desbloqueou uma memória que Regulus não se lembrava de ter, o funeral de Lamar Moreau. Sua família havia sido convidada a comparecer pela irmã mais velha de Lamar, Genevieve. Ele ainda conseguia se lembrar da garotinha magricela trajando um vestido preto encostada em silêncio ao lado da lareira, os olhos completamente perdidos em mundo só dela.

Foi a primeira vez que encontrara Nathalie Moreau fora de Hogwarts.

— Ela não é uma vilã, a protagonista. Na verdade ela é uma pessoa comum, e não o protótipo de protagonista perfeita que os livros de romance costumam ter. Ser repleta de defeitos, egoísta e até mesmo mesquinha, acho que isso a torna mais real. — Moreau murmurou com o pensamento distante — Uma pessoa boa pode cometer um punhado de más ações, e ainda ser boa.

Aquela última frase fez com que Regulus parasse subitamente, surpreso com a forma em que Nathalie poderia filosofar sem muita dificuldade. O sonserino não saberia dizer em que momento os dois haviam chegado àquele ponto, contudo não pode evitar arquear suas sobrancelhas em um claro sinal de curiosidade.

— Então você odeia clichês.

Algo surpreendente aconteceu, Nathalie abaixou a cabeça enquanto abafava a risada com a palma da mão. Os orbes negros de Regulus a fitavam com uma atenção diferente.

— Não sou tão amargurada a esse ponto. — Moreau respondeu com um pequeno sorriso. A forma como ela falava sobre livros sem sequer levar em consideração o fato de que os dois se odiavam, encantava o rapaz a seu lado. — Agora, você, Regulus Black, é um grande clichê.

— Eu sou um clichê? — a voz de Regulus saiu uma oitava mais aguda. Ela tinha o pego de surpresa.

— Ah, por favor, você tem um fã-clube de garotas que carregam a sua vassoura até o campo de quadribol para te ver treinar.

Um sorriso provocador se espalhou pelo rosto dele.

— Sabe Moreau, você pode entrar no fã-clube se quiser, já é a segunda vez que você o menciona.

Com as bochechas esquentando, Nathalie disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça:

— Ah, então você estava contando?

Os dois trocaram olhares em silêncio por um certo tempo, era a primeira vez que Regulus pôde olhar para Nathalie Moreau com mais clareza. As sobrancelhas da corvina eram cheias e arqueadas, cheia de personalidade, enquanto os olhos castanhos aparentavam ser um pouco mais... solitários? Ele não saberia dizer, mas havia algo sobre aqueles orbes que lhe apresentavam um mundo desconhecido que ao mesmo tempo aparentava ser tão belo e peculiar.

Por fim, a troca foi interrompida quando Nathalie desviou seu olhar para os ornamentos dispostos sobre a mesa. Suas feições haviam ficado sérias de repente. A garota segurou sua varinha enquanto realizava alguns pequenos feitiços, encantando alguns tecidos prateados. Cada toque gentil que ela realizava, tornava evidente a forma em que a arte era algo intrínseco a Nathalie, porque de alguma forma, ela conseguia dar vida a simples pedaços de tecido.

— Rico, popular, bonito e principal jogador do time de quadribol da Sonserina. — ela murmurou, retornando o seu olhar para Regulus, sorrindo conforme via a descrença no rosto dele — Não me surpreenderia se você fosse o queridinho da mamãe.

As bochechas de Regulus tomaram um tom vermelho, o rapaz desviou o olhar para o chão. Se alguma outra pessoa lhe dissesse as mesmas palavras, ele ficaria furioso, contudo apenas encarou seus pés sentindo a vergonha lhe corroer, porque no fundo ela estava certa.

— Vocês corvinos, não cansam de bancar os sabe-tudo o tempo todo? — resmungou baixinho.

Nathalie apoiou a varinha sob a mesa, deliciando-se com o ego ferido do sonserino.

— Depende da pessoa com quem estamos conversando, mas já adianto que caso a pessoa em questão seja da Sonserina, a resposta é não.

Regulus bufou.

Curioso com o clima ameno, Slughorn retirou-se de sua pequena salinha e ficou observando os dois jovens conversarem em um tom baixo enquanto trabalhavam na decoração. O professor sempre foi bom em identificar a predisposição de seus alunos em serem extraordinários, mas não havia lhe ocorrido que a Moreau com mãos de artista e o artilheiro da Sonserina pudessem trabalhar juntos com tanta harmonia. Apesar da ideologia de sangue que os colocavam em lados opostos, ambos conseguiam se complementar. Às vezes, Regulus erguia um ornamento ou pedaço de tecido que Nathalie iria utilizar, antes mesmo de a garota verbalizar que precisava de tal item.

Ele acertara quando bateu na porta do Diretor da escola, argumentando que colocar Nathalie Moreau para decorar sua festa seria uma boa forma de acalmar os ânimos dos alunos. Slughorn já havia escutado sobre as habilidades da filha de Lamar Moreau, a garota que fora criada entre duas culturas completamente diferentes, havia herdado muito mais de seu pai do que mãe. Não seria uma surpresa caso essa garota no futuro, se tornasse uma grande pintora ou até mesmo uma alquimista.

— Professor, — ela indagou, erguendo o olhar da mesa em que trabalhava — estamos produzindo a decoração da forma em que o senhor esperava? Podemos alterar a paleta de cores, ou...

— Está perfeito, Srta. Moreau. Não é atoa que dizem que você possuí mãos de artistas.

— Fui criada em meio a artistas, senhor. — o tom de voz de Nathalie tornou-se distante ao mencionar a família por parte de pai. Era fato de que os Moreau sempre estiveram inclinados a algum tipo de arte, desde a música até o bordado ou a pintura. Mesmo depois de romper com a ideologia elitista de sua família, Lamar ainda assim passou uma parte daquela tradição para sua primogênita.

— E você, Sr. Black, está indo maravilhosamente bem.

Regulus lhe direcionou um sorriso educado, já estava acostumado a receber elogios de professores.

— Irei deixar vocês trabalhando. — Slughorn disse e com um último aceno, deixou os dois alunos sozinhos na sala novamente.



~*~



As detenções com Regulus Black ficavam cada vez mais peculiares, depois de ficarem longos minutos trabalhando em silêncio, os dois acabavam de alguma forma conversando em voz baixa sobre alguma coisa, por mais banal que fosse. O sonserino costumava demonstrar interesse sobre o que Nathalie lia, indagando sobre os livros que costumavam pesar a mochila da garota que sempre lhe respondia e sentia-se livre para filosofar sobre as obras com um brilho nos olhos.

Eles tinham um acordo silencioso de que a relação amigável que estavam começando a desenvolver não se estendia para fora das detenções, só Merlin saberia o caos que seria caso Regulus Arcturus Black fosse visto conversando com Nathalie Moreau na mesa de café da manhã da Corvinal. Era uma ideia inconcebível e que deixaria sua mãe, Walburga Black, irada. Mesmo assim, Regulus não conseguia evitar desviar olhares na direção de Nathalie. Ele havia encontrado certo apreço em poder olhar para a garota enquanto ela estava dispersa, presa em seu próprio mundo. Aquilo lhe agitava a curiosidade, gostaria de saber o que se passava na mente da corvina quando ela se fechava: seriam intermináveis filosofias sobre seus livros? Ou a visualização de uma imagem qual ela estava ansiosa para poder pintar?

Foi numa quinta-feira de manhã que Nathalie sentou-se à mesa da Corvinal com um calhamaço em mãos, foi difícil para Regulus não erguer as sobrancelhas em surpresa e tentar visualizar o título da capa do livro de uma forma discreta.

— É uma história sobre uma mulher nobre adúltera. "Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira” — ela recitou quando o rapaz lhe indagou do que a obra se tratava.

A frase citada fez com que Regulus a encarasse com um misto de confusão e admiração contida. Ele nunca imaginaria que a literatura dos trouxas pudesse ser tão profunda, e apesar de não ter muita força de vontade para ler aqueles calhamaços, havia encontrando um certo contentamento ao ouvi-la explicar as obras.

— Deixe-me adivinhar, sua família se enquadra no primeiro tipo.

A corvina virou-se para ele, havia um misto de emoções em suas feições, desde a dor até o humor. Por fim, ela lhe direcionou um sorriso torto.

— Nunca conheci um artista que veio de uma família feliz. — foi tudo o que disse, e também não ousou perguntar a respeito da família Black, porque bastava apenas um olhar para que ela soubesse que a menos nesse quesito, ela e Regulus possuíam algo em comum.

A estranha aproximação de Nathalie e Regulus Black só não passou em branco por uma única pessoa: Simone Doyle. Como uma boa grifinória, a garota sabia que não deveria confiar no Black, e embora sua amiga evitasse se demorar em como as detenções estavam sendo, era evidente que algo na francesa estava derretendo lentamente. Apesar de ter tendências à introversão, Simone sabia que Nathalie não era uma pessoa fechada, na verdade e Moreau era uma idealista incorrigível; sempre vendo o bem onde não deveria.

Conforme o prazo das detenções ia se aproximando, Doyle sentia-se mais tranquila ao pensar que em breve Regulus e Nathalie seguiriam seus próprios caminhos. Todavia, a garota temia que talvez fosse tarde demais.

— Nathalie, por que a sua mochila está tão pesada? Deixe um desses livros no Salão Comunal, te garanto que ninguém irá sumir com eles. — Simone comentou enquanto tomava seu suco de abóbora calmamente na mesa do café da manhã.

A corvina abriu um sorriso envergonhado para a amiga.

— Eu sei, estou levando duas edições de uma coletânea de poemas para a detenção, acho que é isso que está deixando minha bolsa pesada. Ah, e alguns potes com glitter, Slughorn é bem crítico com artes e eu não quero decepcioná-lo — ela comentou, as palavras saíndo rapidamente da sua boca.

Simone ergueu uma sobrancelha.

— Duas edições do mesmo livro? — ela exclamou assim que conseguiu enxergar o conteúdo da mochila — Nath, você não vai dar um livro para aquele troglodita, vai mesmo?

Nathalie congelou, olhando fixamente para o livro de capa dura no fundo de sua bolsa. Como ela explicaria para a sua melhor amiga que na verdade, Regulus Black era um leitor curioso e que lhe pedira um exemplar emprestado? Como diria para Simone, que um certo romance russo havia sumido de sua mochila, e suas apostas eram de que Regulus havia esquecido de lhe devolver o calhamaço que pegara para ler na última detenção? De repente, tudo pareceu surreal demais. As discussões sobre arte, a edição de Emma que ele havia lhe dado um mês atrás, os sorrisos, as provocações. Por algum motivo, havia um gosto amargo em sua boca.

— Claro que não. — mentiu, embora não soubesse mentir bem — Não tenho porque dividir os meus livros com uma criança mimada e elitista que nem ele.

Assim que as palavras escaparam de sua boca, Nathalie sentiu um gosto amargo na língua. Porque no fundo sabia que se tratava de uma mentira deslavada, logo ela que não mentia para sua melhor amiga, estava o fazendo por... Regulus Black? Quanto mais parava para pensar sobre o que andava acontecendo nos últimos tempos, menos respostas conseguia encontrar para poder justificar seus comportamentos. Todavia, Nathalie Moreau possuía um instinto qual confiava piamente, e ele a assegurava que estava seguindo o caminho certo.